terça-feira, 5 de agosto de 2025

O meu capitão partiu

Foram necessários cinco anos para reabrir a porta do sótão e tirar a poeira ao blog. Não o faço por ter recuperado a súbita vontade de escrever mas porque preciso de um espaço de catarse, que o X não permite.

Vou entrar, fazer o que tenho a fazer e sair. Deixar que pelo menos o último post deste canto fique povoado por um ídolo, em vez de uma aberração. Escrever um conjunto de tweets higienizados numa thread era até um insulto a um homem que viveu a carreira desportiva da forma mais despretensiosa e sanguínea que existia.

Jorge Costa era sangue. Um dos nomes que mais me fez viver o FC Porto da forma que ele deve ser vivido.

Os traumas marcam. Ainda me lembro, como se fosse hoje, do dia em que perdemos o hexa. Estava em casa de uns tios do Sporting, que aguardavam serenamente pelo fim do jogo no Vidal Pinheiro para poderem ver aquilo que não viam há 18 anos. Eu estava lá porque os meus pais, também do Sporting, também estavam e eu era demasiado pequeno para ficar em casa sozinho.

Por isso, arrastaram-me para aquela festividade coletiva programada, na qual eu era um corpo estranho, porque em 2000 já tinha o meu portismo bastante moldado e entranhado.

Eu lá no fundo, tal como o Bicho, ainda acreditava que o Salgueiros cometesse um pequeno delito e o FC Porto, em Barcelos, me fizesse chegar ao tão desejado hexa. Mas não aconteceu.

E apesar da tenra idade e de eu ser um miúdo que já vivia o futebol de barriga cheia, perder o sexto campeonato ao fim de cinco consecutivos meteu-me a chorar copiosamente a um canto da sala, para gáudio da adultagem lagarta que continuava a questionar-se porque raio eu tinha escolhido aquele caminho.

Entre a minha birra e as piadolas que estava a ouvir, lá ia desembaciando a vista com a manga ranhosa e olhando para a televisão, que, na velha glória do sinal aberto, ia transmitindo o final de cada partida em simultâneo. Foi aí que vi o Bicho chorar, tão copiosamente quanto eu, porque no fundo, ele acreditava tanto como uma ingénua criança de 10 anos, que íamos mesmo ser campeões contra todas as probabilidades.

Era assim que o Bicho vivia o seu Porto, na alma, na raça, na irracionalidade, como nós. Foi assim que aprendi a vivê-lo também durante muitos anos.

Naquele dia, lá na casa dos meus tios, estava longe de imaginar que em breve ia ver aquele homem que ali estava de cócoras no chão, liderar um coletivo que daria à minha geração - que não viveu Viena - os momentos mais bonitos do seu portismo com as conquistas de Sevilha e Gelsenkirchen. O homem que queria apenas ficar na história do clube do seu coração, acabou por levar o seu clube do coração a cravar as garras no coração da História. Porque era um homem ingénuo. E só os ingénuos sonham. E sonhar não é pecado nem é proibido.

Hoje cai muito mais que um símbolo. Cai também uma parte tremendamente importante da reabilitação do FC Porto. Após um ano bastante difícil a nível desportivo, André Villas-Boas vê-se agora, sem qualquer aviso prévio, sem o seu braço direito e possivelmente o homem de maior confiança que tinha no clube.

Jorge Costa era lealdade pura à noção de portismo. Discordou de muita gente, treinadores, dirigentes, presidentes e até do Presidente, mas nunca, em momento algum, discordou do Futebol Clube do Porto.

A perda que hoje sofremos é irreparável. Somos um clube que se transcende quando tem feridas abertas mas esta exige tempo e luto. Não adianta transformá-la num pretexto para exigir ainda mais ao clube porque nem sabemos como o plantel vai reagir. É muito provável que o plantel antes de pensar em ganhar por ele, pense em chorar por ele. Isto deixa marcas e estas marcas não se apagam.

Mas haverá um dia em que vamos conseguir enxaguar as lágrimas e ganhar forças para continuar a andar. Manter o rumo que ele ajudou a traçar, em direção ao sucesso, que, mais tarde ou mais cedo, chegará. Um sucesso que também se vai escrever com o sangue do nosso Bicho.

Vou lembrar-me sempre deste berro que movia montanhas. A cores porque neste clube não há fotos a preto e branco e tu és um dos maiores responsáveis por isso. Obrigado por tanto, meu capitão.




sexta-feira, 6 de março de 2020

Parasita ideológico


Mais tarde ou mais cedo, vamos ter de aprender a lidar com aquele vírus super contagioso que tem feito notícia nos últimos tempos por ameaçar destruir a sociedade. Falo, claro, de André Ventura.

No futebol há o falso lento. Aquele jogador que é lento a correr mas rápido a pensar. São tipos que sabem que o que deve rolar no campo é a bola, não o jogador. André Ventura é um falso facho. Não é um ultra nacionalista de causas profundas mas alicerça a sua mensagem nessa mensagem porque sabe que tem eleitorado para ela. No fundo, Ventura sabe que fazer circular a sua bola no espaço público permite-lhe chegar onde quiser sem grande esforço.

André Ventura é um parasita ideológico. Não é conhecido pelo passado político sólido nem pela firmeza das convicções. A única coisa estável que se sabe dele é a cegueira pelo Benfica. A dada altura da sua vida, André Ventura deve ter tido uma escaramuça com algum cigano e deve ter partilhado a história com amigos que lhe disseram “epá, mesmo a sério, a ciganada não interessa a ninguém”, percebendo ali mesmo que havia todo um mercado por explorar na política portuguesa. E que ele, estando em posição privilegiada a vender opinião e imagem num dos maiores megafones audiovisuais do país, podia aproveitar.

A persona política de André Ventura comporta-se como um vírus: adapta-se aos outros, não fica à espera que os outros se adaptem a ele. Com a mesma facilidade que critica o populismo e defende as minorias numa tese académica em 2013, Ventura consegue ser populista e promover a perseguição étnica nos palanques em 2019. A estratégia de cata-vento na política é um truque antigo, mas mesmo os cata-ventos mais flexíveis têm limites: Ventura não. Essa ginástica moral marca a diferença entre o Chega e o PNR e explica porque é que um resulta em Portugal e o outro não.

O problema na transmissão da mensagem do PNR não é Pinto Coelho e a sua quase inexistência mediática. Nem o da NOS é a figura delinquente de Mário Machado. O problema é que esses partidos tomam o preconceito como ponto de partida. Esta extrema-direita concentra 90% do discurso à volta do nacionalismo, na necessidade de blindar Portugal, “desinfectar” a cidadania, e os restantes 10% em políticas migratórias de intolerância e persecução. A mensagem morre mesmo antes de se libertar do espectro ideológico porque as propostas são invariavelmente desfasadas da realidade social do século XXI. Se pusermos nisto em perspectiva, a velha extrema-direita em Portugal tenta construir casas pelo telhado.

Ventura tentou essa abordagem em Loures, quando fez da sua bandeira eleitoral o programa anti-ciganos. Era inexperiente, estava a começar e foi naturalmente arrasado nas urnas. Mas, uma vez mais, percebeu rapidamente onde estava o problema da mensagem: na forma, não no conteúdo. Não perdeu tempo e ajustou-se. Deixou de falar de minorias étnicas e passou a falar em minorias sociais. Deixou de falar de ciganos e africanos e passou a falar na sobrecarga do aparelho do Estado com despesas sociais. Deixou de falar de migrantes e passou falar dos problemas que a polícia tem para combater a criminalidade. Deixou de falar de etnias preguiçosas e passou a concentrar-se nos “portugueses que pagam impostos”. Deixou de falar nos criminosos e passou a falar do enquadramento penal. Meia palavra basta para compreender a agenda de André Ventura.

De certa forma, o novo Ventura passou a elevar a Portugalidade acima de Portugal e da Constituição, porque é nos cafés, nos bailes, nas feiras, nos centros comerciais, nos estádios, nas tradições, no conservadorismo que vive essa Portugalidade que dá votos. É a eles que ele se dirige.

O último plano de Ventura foi bem executado. Primeiro, aproveitou as bandeiras do populismo de direita para ganhar força. Depois, colocou a Portugalidade em primeiro e o país em segundo para colher simpatia. Por fim, apostou tudo na demagogia extrema para adquirir credibilidade. Porque sabe que a demagogia produz credibilidade.

Como se destrói politicamente André Ventura? A reprimenda pública não serve. Deixar-se consumir pelo ódio a tudo o que Ventura representa é deixar cair a bigorna nos pés, tal como demonstrou o episódio “vergonha” com Ferro Rodrigues. Os debates televisivos contra Ventura são inúteis. Ventura sabe -- aprendeu na melhor escola -- que os debates na televisão portuguesa são ganhos por quem berrar mais alto e falar mais depressa. O desprezo também não funciona porque Ventura tem o desplante, os meios e os amigos certos para não se deixar apagar. Tentámos fazê-lo quando chegou ao Parlamento, mas falhámos. As sondagens deram-lhe razão. Como se destrói então politicamente André Ventura?

Percebendo que o seu eleitorado é fixo e irreversível. Aceitando que já os perdemos para ele. Reconhecendo que não é para esses que devemos falar. É para todos os outros.

Destruir Ventura é deixá-lo ser ele próprio. Mais tarde ou mais cedo, Ventura vai ser esmagado pelo peso da sua própria hipocrisia: desde o incumprimento da exclusividade como deputado à memória seletiva na sua luta pessoa contra a corrupção, que choca sempre contra um muro chamado Rui Pinto.

Expor Ventura como aquilo que é - e não aquilo que diz ser - é a única forma de fazer colapsar o manto artificial que o esconde. Ventura não é facho, é só uma parasita que usa os verdadeiros fascistas como hóspedes do seu expediente. Quando essa camuflagem cair e a persona política de Ventura for esvaziada, André regressará ao seu antro na CMTV e o seu eleitorado voltará para a sombra com ele.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O país que Marega expôs


Hey, Moussa.

Todas as semanas penso em 10 formas diferentes de te mandar à merda. Exasperas-me porque és o arquétipo de um futebol que não é o meu. Mas em três, quatro anos da relação unilateral que temos, algo que nunca fiz, nem na pior das minhas reações sísmicas provocadas pelas tuas recepções de bola, foi chamar-te macaco ou mandar-te de volta para a tua terra porque isso seria cabalmente estúpido. Porque a tua terra é a minha. Porque és tão símio como eu. Porque a cor é uma mera distorção da luz. Porque, no fim do dia, vivemos todos debaixo do mesmo tecto e sobre o mesmo solo. Na personalidade de cada um há fronteiras, no ADN não.

O que viveste ontem foi das experiências mais bárbaras que qualquer ser humano pode atravessar. Uma lapidação sem pedras perpetrada por um clã que já serviste. 70 minutos de humilhação condensados em cinco minutos de fogo e fúria. E mais 180 minutos de “análise” em redes sociais e programas de futebol. Como se o racismo ainda precisasse de análise.

Acima de tudo, o teu gesto expôs aquilo que a sociedade portuguesa é: fracturada, sectária, facciosa, de causas autistas, viciada em ideais vazios, balizados pelo absurdo. Cavaste um fosso entre os que lutam contra o problema e os ratos que deixaram de se esconder atrás do muro do racismo envergonhado. Ajudaste a separar o trigo do joio, a traçar uma linha entre nós e os Venturas. E tenho de te agradecer por isso.

Ao forçares o fascista a pegar no facho estás a mostrar quem deve combatido. É o melhor para todos. É preferível saber quem são.

O problema não começa nem acaba no futebol. André Ventura, o aiatola destes novos purificadores da raça, é só um sintoma do lento envenenamento a que nós, enquanto sociedade, estamos a ser submetidos. Com ele a carregar o estandarte, torna-se mais fácil para os Ruis Santos e Alexandres Guerreiros deste canto perderem a vergonha e assumirem a natureza aristocrata e segregadora que realmente carregam. São esses os vírus que agravam esta epidemia sociológica, com a particularidade de terem um transportador mais eficaz, o tempo de antena em televisão, que lhes confere mais poder de contágio.

A tua saída de campo, inédita no futebol nacional, foi icónica e não será esquecida. Fala por todos os que estão deste lado do abismo. Fala pelo Hulk e pelo Nélson Semedo. E pelos rostos anónimos que todos os fins de semana sentem o mesmo ardor do ódio na pele.

A História vai encarregar-se de marginalizar o resultado e o impacto que a vitória do FC Porto pode ter nas contas do campeonato e guardar o que genuinamente interessa. Ontem, os ratos ganharam nome. Obrigado por teres clarificado isso.

domingo, 26 de janeiro de 2020

E depois do adeus


Ninguém pode dizer que não estava à espera. A derrapagem de Sérgio Conceição do FC Porto atingiu o ponto de não-retorno muito antes da final de ontem, em Braga, a quarta alcançada e perdida pelo técnico portista.

Não adianta classificar o tipo de futebol praticado pelo FC Porto porque já passei essa fase. Alertei para o despiste em Outubro de 2019, quando a maioria dos adeptos portistas ainda estava preso à negação. Por estes dias, já só desvia o olhar do desastre quem está preso ao Porto Canal.

Frontal e sem atalhos, tal como era com a bola nos pés, Sérgio Conceição colapsou após a derrota e abriu o livro até rasgar a lombada. Desfez a SAD, desfez a arbitragem e desfez o portismo. Optou por se escudar, a si e ao plantel que escolheu, o que do ponto de vista de quem tem uma carreira pós-FC Porto para gerir, até é compreensível. No entanto, distribuir o ónus da crise por várias mãos logo após perder uma final, embora não seja nenhuma mentira, soa a tentativa de saneamento da própria imagem. No fundo, Conceição admite que houve crime mas diz que não foi ele quem premiu o gatilho. Fica-lhe mal.

Fica-lhe mal queixar-se da falta de dinheiro e reforços há três anos quando esta época gozou de um poder sem precedentes na construção do plantel. Fica-lhe pior responsabilizar a desunião quando dispôs de uma margem de tolerância que nem os treinadores mais ganhadores do clube tiveram.

De certa forma, creio que Conceição confunde união com unanimidade. O que o técnico portista sempre procurou não foi convergência, mas validade às suas ideias, ou seja, proteccionismo total das decisões técnicas à crítica interna e externa, mesmo quando essas decisões não produziam resultado. Conceição não gosta de ser contestado e quando o é, seja na imprensa seja na bancada, lida quase sempre mal com isso.

O técnico não vai ao fundo sozinho. Foi incompetente na sua função mas também mal-aconselhado e empurrado por uma gestão deficitária e danosa. Iludido por uma série de equívocos de quem raramente se enganava. Conceição, em última instância, é tão culpado como vítima das circunstâncias. Tenho a certeza que ele é quem menos dorme à noite quando a equipa perde. Mas, no fim do dia, perdeu a confiança dos adeptos. E esse é um pilar egrégio do FC Porto que nem o mais ousado elogio de Pinto da Costa pode contornar.

O ciclo de Conceição no FC Porto terminou. O ciclo de Pinto da Costa também. Contudo, só um deles sairá em breve. E, queiramos ou não, é por cima disso que temos de trabalhar.

Sou a favor da saída imediata de Sérgio Conceição porque o desgaste da relação entre todas as partes já roça o miserável e não vai melhorar até Maio. O próprio treinador, perante o caminho que escolheu ontem, já estará mais preocupado com a vida depois do Dragão. E não é aconselhável deixar o futuro do clube nas mãos de quem já não tem futuro no clube. Compreendo que Pinto da Costa tenha passado ao grupo, no sábado à noite, a mensagem de que a confiança em Sérgio Conceição está intacta. Não esperava outra coisa do presidente que, umas semanas antes, comparou Conceição a Pedroto: é uma questão de coerência. Mas isso não significa que não esteja a ser preparado um horizonte sem Sérgio Conceição.

O importante é perceber que aprendemos alguma coisa com os erros do passado. Não podemos repetir a manobra Peseiro em 2016 e contratar uma solução "duradoura" que todos sabem ser a prazo. Mas também é necessário ajustar a ambição à realidade. E a realidade diz-nos que, até Maio, é este o plantel com que teremos de sobreviver.

Defendo, assim, a entrega da equipa a uma alternativa interina, dando à SAD o tempo necessário para apresentar um projecto sólido, estruturado e devidamente preparado ao próximo treinador escolhido. Porque, mais do que um nome no papel, é crucial começar já a trabalhar no aspecto mais crítico para o futuro do FC Porto: a recuperação da identidade. É fundamental romper com o actual paradigma táctico e iniciar o desmame da técnica da força. Urge resgatar dentro de campo o ADN que nos colocou no topo do futebol português. E não falta no plantel matéria prima para colocar mais Porto no Futebol Clube do Porto.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

This is fine


Campeonato entregue na primeira volta. Parabéns aos engenheiros deste pesadelo. Um dia, o FC Porto voltará.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O caso Rui Pinto


É a prova de fogo do absurdo que a justiça nacional atingiu e a marca de água de todo este processo kafkiano. O Pedro Bragança explica-vos porquê:

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A queda de Rangel


O juiz desembargador Rui Rangel foi expulso da magistratura pelo órgão que a regula e supervisiona, o Conselho Superior de Magistratura (CSM), por suspeita de tráfico de influências.

Why do we care?

É talvez a primeira vez na história da magistratura que um juiz da Relação é expulso da actividade. E importa dizer que já houve juízes relativamente high profile condenados por outros delitos, que acabaram por ter sido castigados com nada mais que multas ou suspensões por parte do CSM. O CSM não gosta de ruído, por isso evita-o. Podia ter optado pela solução "diplomática" para os casos mais graves, a aposentação compulsiva, mas decidiu castigar Rangel com a humilhação máxima: a demissão. Esta pena é portanto invulgar, sobretudo se pensarmos que surge numa altura em que a Operação Lex ainda está na fase de inquérito, ou seja, muito longe da sentença final.

Meaning...

A decisão é contundente e assinada por um conjunto de árbitros muito bem informados sobre a Operação Lex. A expulsão nunca seria equacionada se os elementos do processo a que o colectivo teve acesso não fossem sólidos. Isto significa que pode haver um caso forte contra os arguidos do processo e, eventualmente, condenações.

Yeah, but... wtf is "Operação Lex"? 

Em linhas gerais, a Operação Lex envolve a suspeita de tráfico de influências entre a justiça e o mundo empresarial, sobretudo empresários ligados ao futebol, onde Rui Rangel é suspeito de vender decisões judiciais a troco de dinheiro e favores. O juiz é também suspeito de exercer influência em processos de colegas seus em troca de contrapartidas. O processo é um spinoff de outro caso mediático conhecido como Operação Rota do Atlântico e que tinha como figura central o mítico empresário José Veiga.

I'm listening...

A Lex integra um elenco com protagonistas de vários quadrantes, mas é da ponte Rui Rangel/Benfica que cai o amendoim. Rui Rangel é suspeito de ter favorecido Luís Filipe Vieira e o filho, Tiago Vieira, com a promessa de um cargo na estrutura encarnada, um sonho antigo do juiz benfiquista. Em março do ano passado, o Público referiu que o presidente do Benfica "terá alegadamente pago pela influência do juiz na resolução de um processo fiscal que envolvia o filho e estava pendente nos tribunais administrativos e fiscais".

Ahhh, the motherf*

Pois é. Recorde-se que Rui Rangel já foi uma das vozes da oposição a Luis Filipe Vieira, tendo mesmo sido candidato à presidência do clube em 2012. Perdeu. Quatro anos depois disse isto: "Vieira é o grande e incontestável líder do Benfica". Vieira é também um dos arguidos na Operação Lex.

Final thoughts

Esta é uma decisão interessante (e intrigante), que pode virar o jogo jurídico em Portugal. Rangel não tem o mesmo espírito de sacrifício de Paulo Gonçalves e não cairá sozinho. E o seu humilhante afastamento, mesmo antes de ser julgado, demonstra o embaraço que causou dentro de um dos pilares da democracia. É conhecido o protecionismo judicial que recai sobre várias figuras mediáticas, em particular Luís Filipe Vieira. Sabe-se que das investigações que envolvem o Benfica, uma (e-toupeira) já foi convenientemente descolada do clube, e as restantes (vouchers, Mala Ciao, emails) estão em banho-maria. Embora não envolva directamente o Benfica, a Operação Lex pode ser a primeira a levar Luis Filipe Vieira ao banco dos réus e a quebrar o manto que o tem escudado da mão do tribunal nos últimos anos. Não é a salvação da Justiça mas pode ser o primeiro sinal de mudança de rostos no poder oculto.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

O FC Porto, o silêncio e eu


Não é novidade para ninguém de que sou filho de Lisboa. Moro num dos bairros mais encarnados do país, onde a moeda de troca é o Benfica. Vivo no meio da arrogância documentada, sento-me ao lado da fanfarronice no autocarro, tomo café numa pastelaria chamada 'O Maior'.

Orbito conversas sobre o árbitro que rouba o Benfica, o penalty por marcar contra o FC Porto, resistindo à lei da gravidade. O Apito Dourado continua a ser a régua da moralidade. Rui Pinto, o novo ecoponto do ódio. Assisto sereno à troca da dignidade por pontos de militância, à venda de factos à medida e verdades ajustadas na feira de vaidades que é o Estado Lampiânico.

As tempestades de euforia são difíceis. Atravesso cada título do Benfica como quem se encolhe no bunker à espera que o bombardeamento passe. Aguento as buzinas, os cânticos e os petardos com uma disciplina polida ao longo de muitos anos.

Aqui, o silêncio é meu amigo. Foi na antítese do êxtase que me tornei confortável porque, aqui, a vitória do FC Porto é muda. Vocês celebram, eu absorvo. Foi e vai ser assim toda a minha vida.

Nunca fui às Antas. Pisei o Dragão umas 20 vezes na vida, vi outros tantos jogos do FC Porto no sul, não compro a camisola oficial desde 2014, nunca fui sócio do clube, nunca fui à AG. Mas nada disso faz de mim menos portista do que ninguém. Sofro, vibro, preocupo-me, azio, choro, digo caralhadas quando falhamos e dou murros no ar quando marcamos, como vocês. Só que ninguém o testemunha, porque o meu universo é surdo e intransmissível.

Vivi o suficiente para ver o FC Porto transformar-se de um clube unânime, com uma liderança homogénea, que idolatrava o sucesso, numa casa fracturada, conduzida de forma questionável, que idolatra o passado.

Não sei bem quando e com quem nos perdemos. Creio que, com a bebedeira da hegemonia, tornámo-nos progressivamente o nosso maior inimigo. Bebemos e bebemos e o Kelvin aos 92' foi "aquele último copo que nos fodeu". Depois adormecemos, enquanto os outros afiavam as facas por cima do nosso sono.

Hoje, nada disso parece interessar. O adepto tornou-se maior do que o clube. O ego superou a matriz. Há um populismo furioso a inundar as praças virtuais com o intuito de impor uma cultura de obdiência cega, plana, opaca, sustentada no pretexto de afastar a negatividade da crítica. Como se o espírito crítico alguma vez tivesse beliscado o FC Porto. É insuportável.

As pessoas confudem os campos de batalha. Há um conflito a decorrer contra um clube que infecta o poder e a corrompe o jogo nos corredores do sistema. E há outro nos corredores do Dragão, também ela feita de poder e parasitas, que ameaça colapsar as fundações em que o clube se ergueu e que muitos não parecem querer assumir.

As duas guerras coexistem. Uma não anula a outra, primeira não vai resolver a segunda, nem a segunda fará desaparecer a primeira. Reconhecer os problemas que existem no FC Porto, desde a estrutura ao relvado, não é dar munições ao inimigo. Pelo contrário, escondê-los é alimentá-los e, no longo prazo, oferecer uma vitória em lume brando ao Benfica.

Nunca pretendi influenciar, minar ou arrastar a opinião de ninguém. Só quis mostrar a minha posição no prisma e negociá-la saudavelmente com todos os adeptos que me seguiram ao longo destes quatro anos de Twitter, estimulando-os a, mais do que pensar no FC Porto, pensar o FC Porto. Mas o surgimento de uma polícia religiosa no Twitter e a recente postura proto-fascista de uma certa franja portista fez-me repensar o propósito da minha presença nas redes. Fez-me perceber que esse propósito já não existe. Faz-me ter saudades dos dias em que era só eu, a TV (ou o PC) e o FC Porto.

Por isso, saio aqui. Irei manter a conta @PentaDrax viva, mas sem actividade, para não se apropriarem da persona. Irei manter este blog para poder desabafar umas coisas de vez em quando. E irei manter o meu portismo intacto, sólido, vivido da forma que sempre meu deu mais prazer: em silêncio.

Vemo-nos por aí. Abraço a todos.

FC Porto, sempre.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Sobre Conceição



O empate caseiro de ontem frente ao Rangers não foi apenas um percalço. É a soma de todos os sinais problemáticos que o futebol de Sérgio Conceição tem dado desde o ano passado. E é sobretudo sobre o treinador que escrevo hoje.

Em 2017, Conceição conseguiu ser o sapador do clube quando ao FC Porto lhe foi diagnosticada a maior paralisia financeira da sua história. Percebeu que era mais impactante evitar o penta do maior rival do que ser campeão. Agregou os adeptos em torno dessa mensagem e espicaçou um balneário que já estava farto de ver o Benfica ser campeão. Apostou na motivação como a principal arma para conquistar o título e a verdade é que ganhou essa aposta.

Conceição focou-se na união, na roda, na família, num contexto particular de conflito Norte/Sul, onde esses valores ganham peso. Sem direito a reforços, formou uma manta de retalhos resistente e duradoura com o plantel que lhe deram e até resgatou tecidos que nós já dávamos como mortos, arranjando-lhes utilidade. Esse mérito vai sobreviver.

Mas essa estratégia era também paradoxal. Estava condenada a morrer de morte natural quando o objetivo fosse cumprido e, a partir desse momento, deixaria de fazer sentido. Com o título ganho, era necessário reinventar o paradigma, procurar uma nova forma de estimular o plantel ou promover uma mudança de ciclo, que não aconteceu.

O erro de Conceição começa ao não perceber isso, já em 2018/19, onde manteve a fórmula mas revelou incapacidade para a trabalhar. O FC Porto foi ganhando com um processo cada vez mais repetido até à exaustão. O futebol directo e vertical deixou de surpreender os adversários e a produtividade começou a cair. Até o discurso do técnico deixou de passar, quer para o campo quer para a bancada.

A segunda vida de Conceição, em 2019/20, veio finalmente com a promessa de plenos poderes, de reforços e de uma equipa construída à sua imagem. Conceição construiu de facto uma equipa ajustada ao seu perfil. Recuperou homens da sua confiança no passado, Marcano e Zé Luís; recebeu jogadores talentosos da América do Sul e segurou o pilar do seu jogo, Marega, apesar de parecer cada vez mais evidente que 2017/18 foi a excepção e não a regra de uma carreira pouco mais do que medíocre do maliano.

Mas a desorganização e a falta de uma identidade de jogo patenteada agravaram-se. O modelo esgotou. O futebol estéril de ontem e de anteontem e de anteanteontem é, portanto, a metastização de um processo que já estava radiografado há muito tempo.

O que talvez mais surpreenda sobre a partida contra o Rangers foi a análise ao jogo por parte de Conceição, que parece cada vez desfasado da realidade. O treinador que vendeu Óliver e adaptou o melhor extremo a lateral recusa-se a reconhecer que há uma grave insuficiência de criatividade na equipa. O treinador que promove o duelo justifica o resultado contra um adversário de terceira linha na segunda liga europeia com falta de "combatividade". O treinador que dispensou Gonçalo Paciência, mantém Marega durante 90 minutos em campo e Fábio Silva 90 minutos no banco culpa a falta de eficácia.

Há talvez um único aspecto onde Conceição terá razão: quando disse que "não houve prazer em jogar futebol". Claro que não houve, nem podia haver, porque este plantel já há muito tempo que deixou de acreditar nas ideias do seu timoneiro.

A culpa está longe de morrer sozinha nas mãos de Conceição. Em última análise, o técnico é só um byproduct de uma ingerência administrativa que tomou de assalto o clube e que o tem arrastado para um cenário cada vez mais negro. Mas, por culpa própria, Conceição foi incapaz de evoluir no seu trabalho e de se transformar num treinador melhor.

Saber se Conceição deve ou não continuar no comando do FC Porto não é uma pergunta que deva ser feita aos adeptos, mas aos jogadores.

Quando chegou ao clube, Conceição disse que vinha "para ensinar e não para aprender". De facto, pouco ou nada aprendeu em dois anos. Esse foi de todos o sinal mais perigoso que nenhum de nós quis ver.

sábado, 2 de março de 2019

As contas do FC Porto | R&C 1S/2018


Em dia de clássico, apresento abaixo as linhas gerais das contas do primeiro semestre 2018/2019 do FC Porto. Os números que são evidentes à leitura rápida e aqueles que pedem uma interpretação mais profunda. Vou fazê-lo através de sistema de tópicos porque acredito ser a forma menos enfadonha e mais clara de traduzir o economês para toda a gente.


Regresso ao lucro.

Embora não seja o aspecto mais importante deste relatório, o regresso ao lucro é uma nota de destaque. Depois de três anos e meio no vermelho, o FC Porto apresenta o primeiro semestre a verde, com um saldo positivo de 7,2 milhões de euros.

A que se deve este resultado?

UEFA. Em primeiro lugar, uma conjugação de dois factores felizes: um onde tivemos sorte e outro onde fizemos a nossa própria sorte. Este ano, a UEFA decidiu aumentar significativamente os prémios distribuídos às equipas na Champions League. Uma decisão que coincidiu com uma das melhores prestações de sempre do FC Porto na prova, com 5 vitórias e um empate. Contas feitas, entre o apuramento directo para a Champions em 2017/18 e a performance na fase de grupos em 2018/19, o FC Porto somou quase 61 milhões de euros, contra aos 22,5 milhões do ano passado. É um aumento brutal de 170% e que foi decisivo para não passarmos um novo semestre com as contas a negativo. Neste montante, não está contabilizado o prémio por termos passado aos oitavos (9,5 milhões de euros). Esse prémio fica reservado para as contas do segundo semestre.

Altice. Em segundo lugar, esta época começou a vigorar o contrato de cedência de direitos de televisão que o FC Porto assinou com a Altice, que dá a exclusividade dos jogos do clube à Meo. Por isso, nesta rubrica, as receitas quase duplicaram. É sabido que o FC Porto tem adiantado regularmente as receitas deste contrato de 457 milhões de euros a 12 anos. O relatório mais recente menciona um adiantamento das receitas televisivas de 7 milhões de euros durante este semestre, que pode explicar a duplicação dos valores nesta rubrica.

Nas restantes rubricas, o desempenho operacional do FC Porto foi misto. Em traços gerais, vendeu menos bilhetes, mas mais camisolas. Os proveitos desceram na pré-época porque não houve "Mini-Champions do México" como no ano passado e as receitas com publicidade também diminuíram.

Custos aumentam.

A massa salarial do FC Porto continua a aumentar, contrariando o que foi prometido pelo CFO Fernando Gomes. Os prémios de campeão já estavam contabilizados no exercício do semestre passado, pelo que depreendo que alguns jogadores (e equipa técnica) tinham cláusulas automáticas de aumento de ordenado se fossem campeões. Em suma, em dezembro de 2018, tínhamos uma folha salarial de 44,5 milhões de euros. E aqui não está contabilizado o salário de Pepe, que chegou em Janeiro. A minha previsão é de que esta rubrica vai agravar no segundo semestre.

SAD. A remuneração dos elementos da SAD mais do que duplicou, passando de 1 milhão de euros em 2017 para 2,5 milhões em 2018. É óbvio que os prémios da SAD replicam o comportamento da equipa em campo, que até se sagrou campeã, mas ainda assim parece-me um montante demasiado acentuado para um clube que vive há alguns anos em contenção orçamental.

Vendas de jogadores. Continuamos a ser um clube dependente das vendas. Essa é uma realidade que nunca irá mudar seja qual for o clube em Portugal, nem mesmo para os que tentam vender a ideia oposta. Esta rubrica teve menos impacto nas contas este semestre porque não efetuamos nenhuma venda de peso depois de 30 de junho de 2018.

Então mas e o Dalot e o Ricardo...? Essas vendas entraram no exercício anterior. Após essa data, o FC Porto somou cerca de 12 milhões de euros com as vendas de Layún (4), Gonçalo Paciência (3) e Quintero (3,7) e João Carlos Teixeira (1,3). Neste exercício, foi também contabilizada a venda de Martins Indi ao Stoke em 2017 por 7,7 milhões. Imagino que por razões contabilísticas relacionadas com o FPF da UEFA.

Mais-valias. A rubrica para a qual a UEFA no âmbito do Fair-Play Financeiro e que é crucial para sairmos do castigo europeu não apresentou grandes alterações. Somámos 6,4 milhões em mais-valias com as vendas supracitadas, contra 5,5 milhões o ano passado. A venda de Gonçalo Paciência foi crucial aqui, porque, sendo da cantera, foi o jogador que permitiu gerar o melhor rácio de mais-valia. Este é um indicador de que o FC Porto pode continuar a apostar na alienação de activos da formação para sair da alçada da UEFA.

Valor do plantel. O valor total do plantel ronda os 83 milhões de euros, sensivelmente o mesmo do ano passado.

Balanço. O passivo do FC Porto caiu quase 67 milhões de euros, graças à queda dos créditos que contraímos na banca, mas ainda continua brutalmente elevado (400 milhões de euros) para a realidade portuguesa. O activo também caiu 60 milhões de euros, sobretudo porque temos menos dinheiro a receber de vendas de jogadores. Tudo isso, deixa-nos com capitais próprios negativos de cerca de 30 milhões de euros, uma situação que urge inverter.

Outros factos relvantes.

Éder Militão custou cerca de 8,5 milhões de euros ao FC Porto.

O FC Porto alienou 5% do passe de Marega, uma cedência eventualmente relacionada com a renovação do jogador. A SAD detém agora 95% do passe.

Segundo o relatório, Ewerton está emprestado ao Portimonense até 2019, não vendido. O FC Porto detém 50% do passe do jogador. Quem tinha essa dúvida, fica esclarecido.

Os custos com comissões de transações mantiveram-se praticamente estáveis face ao trimestre anterior, nos 4,6 milhões de euros.

O R&C também anuncia que o julgamento do processo de divulgação dos emails, apresentado pelo Benfica contra Francisco J. Marques, arranca na quinta-feira, dia 7.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Galatasaray 2 x 3 FC Porto | Trivelas & Roscas

Foto Goalpoint.pt

Fosse possível colocar o Galatasaray x FC Porto de ontem no forno saía uma lasanha do Lidl. Um tijolo homogéneo de contradições alimentares, longe de ser bonito, sem organização ou estética, onde todos os ingredientes se atropelam e atrapalham, mas que no fim de contas sabe bem. Sabe bem porque, apesar de não ter sido uma exibição feliz, terminou com a vitória e o igualar de um recorde de pontos na Champions com 22 anos. Fez também com que as comparações entre Marega e Mário Jardel passassem – nem que seja por um dia – a ser estatísticas em vez de anedóticas. Encheu-nos o bandulho de orgulho tripeiro, embora qualquer pessoa responsável tenha a noção de que este é um tipo de refeição pouco recomendável. É isso. O Gala x Porto foi uma lasanha do Lidl. Notas.


Hernâni: O homem que estava no sítio certo à hora certa no Bessa está a gerir bem o capital de confiança. Vamos ser honestos. Nem ele é tão mau como se pinta, nem passou a ser um jogador de nível Porto. Mas o golo ao Boavista pode tê-lo salvo da insolvência emocional para onde parecia estar a caminhar. Ontem mostrou-se muito mais arisco no 1x1 e sério na abordagem ofensiva. Cavou um penalty e trabalhou bem a assistência para Sérgio Oliveira, tendo sido o principal dinamizador do ataque portista na ausência dos pesos pesados. Merece a trivela.

Iker: Tornou-se no segundo jogador a chegar à centésima vitória na prova rainha (o primeiro foi Cristiano Ronaldo), mais um carimbo no seu estatuto olímpico no futebol mundial. A sua presença na baliza é de tal forma sobrenatural que forçou Garry Rodrigues e Derdiyok a chutarem dois golos feitos para o telhado da peixaria Lena, mesmo no centro de Istambul. E ainda defendeu um penalty só com o cajado. Enfim, 100 Iker.

O lado positivo das alterações: Houve muitas alterações na equipa e isso condicionou naturalmente o nosso jogo. Mas o ataque, possivelmente o sector de onde se esperaria menos, esteve bastante interessante nos pés de Ádrian e Hernâni, com Marega igual a si próprio. Herrera também conduziu bem o nosso jogo na primeira parte, embora faltasse sempre uma pincelada criativa ou capacidade de decisão no último passe, o que congestionou parte dos nossos lançamentos ofensivos. Ainda assim, a nota geral é positiva.



O lado negativo das alterações: A defesa portista foi como uma daquelas fotografias de grupo na madrugada de Ano Novo: não se pode dizer que haja alguém que tenha ficado bem. Maxi juntou lentidão de processos a uma marcação quase sempre deficiente a Garry Rodrigues que culminou num penalty. Depois do golo marcado, Felipe entrou num chorrilho de disparates e abordagens imprudentes que culminaram num penalty. Diogo Leite não cometeu tanta asneira visível mas padece de uma falta de noção posicional gritante, que urge ser trabalhada. Alex Telles acumulou uma série de erros na saída de bola e deixou escapar mais vezes o seu adversário do que uma prisão colombiana. Foi uma vitória por 3x2 que poderia ter sido muito bem uma derrota por 5x4.

Arbitragem: Uma das piores que vi num jogo de Champions. Começa com a gestão amadora do lance de grande confusão na área do FC Porto que abriu a partida, onde o bielorrusso Aleksei Kulbakov não viu um oceano de ilegalidades cometidas pelas duas equipas e consultou os assistentes pela ordem errada. Viu uma falta inexistente sobre Hernâni na área turca, enquanto fazia vista grossa à agressividade dos jogadores do Galatasaray. Foi uma sorte ter terminado o jogo sem receber cartão vermelho da UEFA.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Boavista 0 x 1 FC Porto | Trivelas & Roscas

Foto JN

Vitória suada, suadíssima, no intemporal derby da invicta, que fez no domingo uma viagem a um passado mítico, onde a definição de pontapé não incluía necessariamente a bola. O FC Porto agarrou os três pontos no último lance do jogo, a marca inequívoca de uma equipa perfilada à imagem do seu treinador: nunca desiste - mesmo quando os adeptos já desistiram. Essa é talvez a característica que melhor distingue o FC Porto de Sérgio Conceição dos antecessores. Desde a derrota na Luz, sempre que o FC Porto chegou ao último quarto de hora empatado, os adversários foram massacrados até ao último suspiro. O que, sendo um carimbo do compromisso que esta equipa - e o seu treinador - têm para com a vitória, não deixa de ser preocupante. Este ano, o FC Porto já resgatou 12 pontos nos últimos dez minutos. Desses, 4 foram para lá dos 90’. Três das quatro vitórias arrancadas a ferros (Belém, Tondela, Braga e Boavista) foram por 1-0, um indicador da falta de eficácia dos avançados e/ou da forma como o plano tático montado por Conceição não resultou durante a maior parte do tempo. Por isso, mais do que absorver a euforia da late victory, temos de pensar porque é que só estamos a chegar lá quando já reina a anarquia táctica.



Militão: A frieza com que aborda cada lance, mesmo na grande área, faz-me desconfiar que resista à fome dos tubarões em Janeiro. Militão trouxe consigo a estabilidade que a equipa pedia desesperadamente no arranque do campeonato. E aproximou o registo de Sérgio Conceição do de Vítor Pereira, provavelmente o treinador com melhor organização defensiva que passou pelo clube nos últimos anos. Ainda comete alguns excessos, fruto da exuberância que transporta, mas até nisso parece saber onde pode errar com segurança. Desde o desaire na Luz, o FC Porto não voltou a sofrer golos no campeonato. O segredo do sucesso defensivo passa e muito por Militão.

Banco: A profundidade era um dos temas fracturantes do início da época, mas os números contrariam a teoria. Dos 50 golos marcados esta época, 10 vieram do banco. E a explosão de alegria no Bessa foi inteiramente construída por três suplentes. Soares, Adrián e Hernâni. O registo prolífico das alternativas não significa necessariamente que o FC Porto tem um plantel completo e bem montado. Os desequilíbrios existem e não foram resolvidos pelas contratações tardias do defeso: Bazoer e Jorge. O que tem disfarçado a problemática é a reciclagem de ativos como Adrián e Óliver, os verdadeiros “reforços” do FC Porto 2018/19.



Brahimi: Desinspirado, desconfiado e irritadiço. Precisamos de que o Ramadão futebolístico de Brahimi acabe rapidamente.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

FC Porto 3 x 1 Schalke 04 | Trivelas & Roscas


Primeiro lugar do grupo e meio orçamento garantidos. Isto a uma jornada do fim. Já tinha saudades de fazer uma Champions assim. Toda a gente conhece a minha animosidade com Rui Pedro Braz. Não gosto de invertebrados desde que vi uma agremiação de vermes devorar uma maçã. Mas quando saiu o novo disco do Michael Bublé percebi que estávamos a caminhar para essa inevitabilidade que é o Natal, aquele tradicional período de trégua social onde somos nós a comer o polvo e não o contrário. Por isso, decidi emular o espírito e fazer hibernar o conflito, convidando o Rui Pedro Braz para assinar a análise do FC Porto x Schalke de ontem. O rapaz mostrou alguma relutância, mas depois de três amarelinhas aceitou e varreu a alma. Olhem, eu não diria melhor.

Grande bem-haja ao Bala pela gravação e edição desta masterpiece.


Militão: Nem é o golo que mais me encanta, apesar de ter sido um movimento técnico tão insolente quanto soberbo. É a forma como o rapaz dispersa qualquer organização ofensiva, como um Bope que passou a vida a treinar rusgas na Cidade de Deus só para se entreter. Incrível como ele torna simples o que, visto de cima, parece complexo. Há avançados adversários que devem olhar para ele como eu olho para as notícias premium dos jornais que não subscrevo. Suspiro fundo e abandono. Se sobreviver a Janeiro, é renovar até ao dia em que César Boaventura consiga explicar o que é um losango invertido.

Herrera: Esticou muito bem o jogo na segunda parte, diluindo o meio-campo alemão, cuja estratégia passava invariavelmente pelos pés de Bentaleb ou Konoplyanka. Bem apoiado por Danilo, que pisou terrenos mais adiantados e pela medicina alternativa de Óliver, Herrera esteve quase sempre intransponível a defender e muito presente a atacar, funcionando como falso 9 em dois ou três ocasiões. Faltou o golo.

Corona: O mexicano anda endiabrado e ontem, de regresso à posição natural, voltou a desmontar o lado esquerdo da defesa alemã com triangulações eficazes e dribles produtivos. Afinal, o que sempre faltou a Corona foi orientação ao seu futebol. Picasso também não servia para pintar paredes de prédios até perceber que podia pintar murais. O trabalho, que parece mais psicológico do que táctico, está a transformá-lo num extremo assombroso, que, no contexto da equipa, é um acrescento poderoso.



Brahimi: Correu-lhe quase tudo mal. Mas para ele a bitola está sempre mais elevada do que para todos os outros. O que me deixa bastante satisfeito ao ver a sua insatisfação quando sente que não cumpre.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

FC Porto 1 x 0 Braga | Trivelas & Roscas

FERNANDO VELUDO/LUSA © 2018 LUSA 

A vantagem de escrever sem prazo é poder deixar maturar as ideias. Faz-me falta abandonar as palavras e deixá-las crescer, para depois regressar ao texto e passá-lo no coador da lógica, filtrando-lhe a carga emocional com que foi escrito e que é impossível de extrair a quente. Sobretudo se falamos de um dos jogos do título - e o FC Porto x Braga foi um desses. A candidatura do Braga até pode não sobreviver até Maio, mas o percurso que registou até agora merece reconhecimento. A réplica que deixou no Dragão vai estar seguramente entre os três principais momentos deste campeonato, seja qual for o desfecho do mesmo. E o chicken game entre Conceição e Abel foi tão enérgico e absorvente que não merecia sequer a ameaça de ser ofuscado pelo confronto do século na Argentina. Na retina, fica a imagem de dois treinadores com coragem para acelerar até ao fim e querer ganhar um jogo demasiado partido, expondo-se ao risco de não somar qualquer ponto; duas equipas que premiaram o futebol e chutaram para canto a diplomacia que costuma marcar as cimeiras de líderes na primeira volta. Quanto a nós, dizer que fomos recompensados pela sorte porque a procurámos é redutor para o adversário, que fez o mesmo e não foi premiado por isso. Há jogos em que a fronteira entre a euforia e o desespero está no detalhe - o FC Porto x Braga foi um desses. Notas:



Otávio: Saltou do banco para ser o MVP, voltando a ser o desbloqueador que a equipa precisava. Está a fazer uma época sublime, de certa forma até surpreendente, porque parece ter amadurecido o seu futebol para um caminho que não previa. Há dois anos, olhava para Otávio como um projecto inacabado de desequilibrador. Hoje está mais formatado para pisar terrenos centrais e tem um compromisso muito maior para com os avançados. Estou a gostar desta versão remasterizada de Otávio, com menos exuberância e maior mobilidade e compreensão do jogo.

Conceição: Demorei a entender o seu plano de jogo quando decidiu tirar o elemento até então mais irreverente (Brahimi). Mas depois percebi o que Sérgio Conceição pretendia: com Herrera, segurou um meio-campo que estava por pontas; com Otávio deu a largura que faltava - e que foi determinante no golo; e com Hernâni deu a entender que estava disposto a assinar o cessar-fogo com Abel, que caiu que nem um patinho.

Brahimi: Tentou sempre. Foi picando a lata com óptimas tabelas que, ou morriam na lentidão do CPU dos colegas, ou eram paradas por Tiago Sá, com defesas que me fizeram ser pouco correcto para com a mãe do rapaz bracarense.



Telles: A quantidade absurda de vezes em que deixou Esgaio à vontade no corredor direito assusta-me. Não foram duas nem três as vezes em que o brasileiro foi seduzido pela conversa de Dyego Souza e se deixou arrastar na marcação, esquecendo a propensão ofensiva do médio português do Braga. Uma dessas sonecas permitiu a Esgaio abanar a trave da baliza portista. Das outras, Telles terá de agradecer o facto de Deus ter agraciado Claudemir com a visão de um ciclope.

Marega/Soares: Do ponto de vista físico, Soares e Marega são dois monstros que trabalham imenso para o colectivo e ajudam a conter o bloco defensivo adversário. É possivelmente devido à missão de desgaste deles que os nossos médios têm aparecido várias vezes na área, em situação de finalização. Mas do ponto de vista ofensivo, Marega e Soares não ligam. Funcionam muito melhor enquanto unidades individuais do que em conjunto. Com os dois tanques no onze, o que o FC Porto ganha em músculo e jardas perde em tempo, multiplicando-se em ataques inócuos que comprometem grande parte da produtividade ofensiva do FC Porto. Hora de experimentar apenas um deles em campo desde o início, com André/Adrián ao lado.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

FC Porto 4 x 1 Lokomotiv | Trivelas & Roscas


Gostei muito, mas deixem-me que vos diga: acho o resultado exagerado. 4-1 é um desfecho demasiado perturbador para o treinador do Lokomotiv, Yuri Semin, o senhor que escolhi para ilustrar o capítulo europeu de ontem, porque deu-me pena ver o homem apanhar chuva e vento só para voltar para casa ainda mais abatido do que o que já estava. Dito isto, o FC Porto não fez um jogo épico, mas foi tremendamente eficaz, tal como já tinha acontecido na Rússia. Foi também um Porto mais maduro na reacção à perda de bola (e ao golo de Farfan). Ajuda ter médios com contribuições diferentes nos vários momentos de construção. Um que pensa o jogo ao nível quântico, outro que trafica oxigénio e dois extremos com pezinhos que transformam o relvado ensopado do Dragão no elegante palco do Bolshoi. Falta um ponto, como diz o Yuri na foto, ou nem isso, para os oitavos. Notas abaixo.



Óliver: É provavelmente o médio com mais classe que passeia nos nossos relvados desde Lucho González. Óliver é o tipo de médio que reinventa o futebol. Que quebra convenções e teorias mecanizadas, porque não há mais ninguém no mundo a rodar sobre si próprio com tanto pragmatismo como ele. Os treinadores de futebol geralmente gostam de médios com capacidade de choque para os duelos, músculo, inteligência na leitura, antecipação, resistência. Já todos percebemos que Óliver é uma espécie Jules Brunet nos campos de batalha do Japão feudal. Não é um médio “tradicional” mas traz coisas tão novas e refrescantes ao nosso futebol ofensivo que o torna mais eficaz e imprevisível. É possível jogar directo e com brilhantismo. O espanhol mostra-nos isso muitas vezes.

Corona: Forma tremenda. Explorou muito bem os espaços e as debilidades dos russos, em particular a (falta de) velocidade. Tratou sempre muito bem a bola, marcando um belo golo num terreno que começava a tornar-se impraticável com o dilúvio. Às vezes floreia demasiado as jogadas como se estivesse a enfeitar um carro de cortejo do Cinco de Mayo, mas pelo menos tem aplicado essa extravagância ao serviço do colectivo. Bom jogo.

Herrera: Foi pendular nas transições e é sem dúvida o nosso médio com mais faro para o golo. Excelente a movimentação no primeiro lance da partida e soberba a assistência para o golo de Marega, a que se somam várias boas intervenções ao longo do jogo, ofuscadas por um ou outro passe insidioso, resquícios do Herrera apático e esvaziado que iniciou a época. Que seja para continuar.

Éder: Enorme intervenção no primeiro ataque com pés e cabeça dos russos, cortando uma bola que levava selo de golo, evitando até o canto. Ao longo da partida, foi sempre uma sombra para os seus adversários, anulando quase todos os ataques do Lokomotiv e impedindo que os russos incomodassem Casillas. Sem culpas no golo, fechou o jogo com nota ligeiramente acima dos outros dois companheiros de setor: Felipe e Militão.



Telles: Actualmente, é o elo mais fraco do quarteto defensivo e nota-se uma certa dificuldade em acompanhar o ritmo do jogo. Também, casou em julho, e um gajo quando casa caga um bocado no convívio com os amigos.

Hernâni: O seu primeiro toque na bola foi de tal forma entusiasmante que me virei para a minha esposa e disse sem contemplações: "temos de fazer uma máquina de roupa agora à noite, a ver se aproveitamos o bi-horário". Ela concordou.

domingo, 28 de outubro de 2018

FC Porto 2 x 0 Feirense | Trivelas & Roscas


Um dia, um chef português pouco conhecido mas entendido da coisa disse uma grande verdade: "uma boa entrada supera qualquer prato principal". Sabem quem foi? Eu poupo-vos o trabalho: fui eu. Para convencer uns convidados a comer uns canapés de hummus com aspecto sinistro que fiz. Ora, depois de o Belenenses nos ter oferecido dois apoteóticos pastéis para o antipasto, o FC Porto deu hoje aos adeptos uma refeição agradável, bem temperada, sem o excesso de sal de outras partidas da época. Uns bifinhos au champigon, vá. Em suma, cumprimos, num jogo onde era obrigatório vencer para voltar à liderança partilhada, em casa, frente à equipa menos batida da liga (apenas cinco golos concedidos em 8 jornadas), com a nota frutada de Óliver, o perfume de Brahimi e Corona e aquela dose de Casillas que eleva o nível de qualquer prato. Sem deslumbrar, estamos na liderança da Liga e da Champions League, no arranque de um mês de novembro onde vamos jantar quase sempre no Dragão. Não se podia pedir muito mais. Vamos a notas.



Óliver: Na flash interview, perguntaram a Óliver Torres se se sentia um jogador mais evoluído. O espanhol respondeu prontamente que não, que sempre jogou assim. E a verdade é que já todos sabíamos a resposta. Óliver sempre foi o elemento mais criativo da equipa portista, o médio com pensamento menos vertical, que procura sempre a solução menos óbvia, o passe menos estudado pelo adversário. Óliver desbloqueia, assume o risco. Claro que nem sempre corre bem e isso traz-lhe maior exposição, pelo papel que tem em campo. Mas até defensivamente o espanhol tem uma presença anormalmente eficaz para alguém com uma propensão tão ofensiva. Só hoje somou 11 desarmes, quase todos por antecipação, graças a uma leitura de jogo que só Herrera e o melhor Danilo partilham. No Dragão, contra adversários que não procuram ter a bola, Óliver é fundamental.

Corona/Brahimi: Os fantasistas da equipa portista pareciam dois miúdos de castigo na primeira parte, castrados pela transformação em médios alas e pelas obrigações defensivas que a posição exige. Mas o primeiro golo do FC Porto e a segunda parte aproximaram-nos da baliza, dinamitando por completo o muro da Feira. Segunda parte extraordinária dos dois elementos, que merecia uma resposta mais competente dos avançados.

Herrera: Entrou muito bem, para meter Tiago Silva e Alphonse na linha, sacudindo uma fase de maior pressão e atrevimento do adversário. Repôs o equilíbrio num meio-campo que começava a acusar o desgaste.

1º golo: Jogada de laboratório deliciosa, executada na perfeição, que terá deixado Sérgio Conceição orgulhoso e Rui Pedro Braz aziado pelo facto de não ter sido marcado fora-de-jogo ao mindinho de Felipe.



Soares/Marega: A primeira parte foi de uma nulidade confrangedora, que podia ter saído caro. O ataque do FC Porto, isto é, os homens com responsabilidade pelo golo, mostraram poucos argumentos técnicos para segurar a bola no último terço e desfazer a organização feirense na primeira metade. O dinamismo com que o FC Porto regressou do balneário, patrocinado sobretudo pelos médios-ala, deu boleia às exibições medíocres de Soares e Marega e maquilhou o que até então estava a ser o pior setor da equipa. Ironicamente, o segundo golo foi construído pelos dois avançados, mas isso não os blinda da crítica. Tanto Soares como Marega são duas máquinas de desgaste que, em 4x4x2, talvez beneficassem de um jogador mais técnico ao lado, como Ádrian.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Lokomotiv 1 x 3 FC Porto | Trivelas & Roscas

Fotografia: Miguel Pereira/Global Imagens

In Russia babushka, you don’t play football, football plays you. A vitória de ontem sobre o Lokomotiv de Moscovo foi tão desafiante para o coração como jantar no Chimarrão depois de lanchar na rulote, com a equipa do FC Porto a demonstrar uma vez mais uma capacidade invulgar de transportar qualquer adepto minimamente funcional numa viagem hipersónica entre a exasperação e a euforia. Em perspetiva, o FC Porto até fez um jogo bastante positivo no plano ofensivo, dando um pontapé na falta de objetividade e eficácia que tem marcado as exibições nos encontros mais recentes. Houve mais bola, mais critério na construção, passes mais curtos, mais frieza na área adversária. Uma mudança que tem o cunho de Óliver, cuja presença descomplica o processo do FC Porto com bola. Por outro lado, voltámos a demonstrar que uma vantagem de dois golos é sempre um resultado perigoso para nós, um fenómeno psicológico que carece de explicação e solução. 90 minutos hitchcockianos decididos nas minudências. Notas abaixo.



Defesa: Desta vez nem, Militão escapou à mediocridade defensiva, que resulta de uma conjuntura infeliz de vários fatores diferentes: a falta de forma de Alex Telles, o retiro espiritual de Felipe e a as falhas crónicas de Maxi, além do jogo menos conseguido do nosso Éder. O próprio Danilo, o habitual carro-vassoura do quarteto, ainda precisa de rodagem. E isto tudo bem agitado transforma-se num cocktail altamente inflamável que continua a prejudicar a dinâmica do nosso futebol. Marcamos, marcamos outra vez, sofremos, trememos, voltamos a marcar, voltamos a tremer, sem nunca conseguir olhar o bully nos olhos sem engolir em seco. Não é um problema de falta de qualidade, é mesmo só um bicho mental que precisa de exorcismo ou chá verde ou workshops de auto-estima DIY do Gustavo Santos. Fuck knows. Get your shit together, guys.



Iker: O homem que tem mais presenças na Liga dos Campeões do que eu níveis passados no Candy Crush mostrou porque atingiu o estatuto de lenda ainda no ativo. Por mais que me esforce não há muito que possa escrever de novo sobre ele. A nossa vitória não aconteceria sem aquele penalty defendido. Não estaríamos na liderança do grupo D, com dois de três jogos em casa por fazer. Não teríamos assegurado 1,5% do orçamento de 2019/20. Não teríamos continuado a fazer memes sobre detergentes e rivais. Enfim, acho que já perceberam.

Óliver: Não faço lobby pro-Óliver mas perante o grau de qualidade que empresta à equipa, especialmente com bola, torna-se inegável não pedir mais minutos de utilização. É o gajo a quem, numa festa, dás a mini que não consegues abrir ou pedes para atear o lume que não pega porque sabes que ele tem uma panóplia de soluções para desbloquear o impasse no convívio. Peca defensivamente na ocupação dos espaços, mas mesmo assim as estatísticas estão do lado dele: foi o dragão"com mais desarmes (3), bloqueios de passe (2), segundo a Goalpoint. Além disso, o que o espanhol dá à equipa em comprimento e criatividade compensa largamente o que tira em músculo e poder de choque.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Benfica 1 x 0 FC Porto | Trivelas & Roscas


Vamos já despachar o mais difícil de escrever: o Benfica foi superior e mereceu ganhar o clássico. Mereceu ganhar porque foi a equipa que mais procurou o golo e que descobriu mais caminhos para chegar à baliza adversária. A reacção do FC Porto chegou tarde e só depois da expulsão de Lema, um perfil pouco condizente com uma equipa que no ano passado fez-se praticamente campeã naquele mesmo estádio. É evidente que não vamos poder ganhar todos os clássicos até à extinção da humanidade. Mas pessoalmente prefiro perder a tentar. E geralmente a História tem o seu papel velhaco nestas estórias: nunca conta, mas cumpre-se sempre. Tal como no clássico da Luz da temporada passada, onde Rui Vitória foi penalizado por querer segurar o penta com um empate, Conceição também foi ontem castigado por não ter carregado sobre um Benfica com a pior dupla de centrais desde Paulo Madeira e Ronaldo. A boa notícia? É apenas Outubro.


Militão: Foi uma pena ter sido o único central a entrar ontem em campo, caso contrário teríamos evitado o golo de Seferovic. Aliás, esse lance é sintomático. É ele que ataca Pizzi e ainda tenta impedir o remate do avançado suíço. Militão comporta-se como aquele estagiário que chegou ontem à empresa mas traz bagagem e vontade de trepar rápido na hierarquia. Tudo isto enquanto Felipe, que nesta analogia desempenha o papel de efectivo acomodado, abordava os lances como quem vinha a correr da sexta pausa para não ser apanhado. Ao fim de seis jogos, Militão já berra com a defesa - e com razão - como se fosse ele o dono do armazém. E são jogadores como ele que me dão razões para manter a confiança de que o barco não afunda até a tempestade passar.

Iker: Voltou a ser santo numa epopeia ingrata para ele. Fez um clássico ao nível a que nos habituou: parou quase tudo. Só não pode fazer de terceiro central.



Felipe: Metade já foi dito acima. Anda enervado, joga desconfiado e nem a chamada à seleção o parece ter deixado mais confortável - pelo contrário. Será difícil pensar na defesa do FC Porto sem Felipe, mas talvez esteja na altura de lhe dar algum descanso.

Herrera: Herrera ainda não regressou da salgalhada de tetas em que se envolveu no México, no pré-Mundial. O cansaço de Herrera não vem das pernas, mas da cabeça. O seu futebol é o reflexo do que vive fora de campo e Herrera parece não estar a atravessar uma fase positiva fora dos relvados. Joga sem cor, sem felicidade, como quem se arrependeu veementemente de não ter optado pela carreira de trolha em vez de ser futebolista. "Ao menos, nas obras, ninguém dava por mim", pensará o mexicano de cada vez que falha um passe de 60 cm.

Ataque: Inexistente, desinspirado, insípido. Muito por culpa da inoperância do meio-campo, também. Mas não só. Marega sem Aboubakar, encostado a uma das alas, torna-se um jogador mais banal, sem rasgo. Soares ainda está a retemperar a forma, mas dificilmente será o remédio para todos os nossos problemas de eficácia, sendo ele próprio um esbanjador nato. Brahimi é um Mustang com os colectores entupidos. O ataque é, neste momento, o sector que mais insónias me dá. E vislumbro muitas noites mal dormidas.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

FC Porto 1 x 0 Tondela | Trive... Nah, uma análise diferente


Vamos fazer uma pequena experiência de laboratório. Analisar o FC Porto x Tondela por eletrólise, separando o jogo jogado com os pés do jogo jogado com a cabeça, isto é, colocar o desempenho prático e o comportamento emocional em pratos diferentes. Pode parecer impossível - na verdade, é - uma vez que nenhuma exibição pode ser vista à lupa sem incorporar todos os factores que entram em campo: a psicologia é um deles. Mas o jogo de sexta-feira tornou-se num tema tão fraturante entre a comunidade portista que a melhor forma que encontro de criar uma linha de raciocínio é separar as águas.

A verdade é que o FC Porto x Tondela, do ponto de vista estatístico e objectivo, foi a segunda melhor exibição desta época, só superada pela terraplanagem ao Chaves. Em termos de produtividade, os portistas lograram os melhores números da época, tanto ofensiva como defensivamente, somando 31 remates (contra os 19 do Chaves), e 9 remates enquadrados (mais 3 do que no jogo contra os flavienses). Por cima disto, o FC Porto terminou o jogo sem permitir qualquer remate enquadrado à equipa de Pepa. A diferença entre o jogo de sexta-feira e o do arranque da Liga foi inevitavelmente a eficácia, que esteve muito abaixo do esperado.


Porquê? É aqui que entra a face oculta da exibição portista. A pressão de passar para a liderança antes de ir à Luz. Uma pressão que começou muito antes da bola rolar e ditou uma pressa constante e muitas vezes inconsequente em chegar ao golo. Um golo que tardava em chegar. O nervosismo inversamente proporcional a cada oportunidade perdida. A incapacidade em conter o incêndio na fase de rescaldo, como quem diz, tranquilizar depois do 1x0. Tudo isto regado com um futebol demasiado frito, cheio de passes erráticos, bolas longas absurdas e decisões imprudentes, em casa, sem um único momento de divórcio entre os adeptos e a equipa, o que torna esse pânico ainda mais inconcebível. Do ponto de vista emocional, foi uma exibição tremida, frustrante de ver e com resquícios do Porto de Nuno Espírito Santo, aquela equipa que só é conhecida por ter sido incapaz de tomar o leme do campeonato.

A franja académica, dos puritanos da tática, do jogo entre linhas e das basculações, teve no FC Porto x Tondela uma partida interessante de dissecar. Já os adeptos do FC Porto, esses umbilicalmente ligados ao coração da equipa, deixaram-se contagiar naturalmente pelo nervosismo dos jogadores. Foi como assistir à Play, de Samuel Beckett, representada por um amador em estreia no National Theatre, em vez da confiança absoluta de Alan Rickman. Claro que mexe com o público.

É esta segunda personalidade que urge matar. É que o FC Porto que na sexta-feira, frente ao Tondela, geriu uma vitória com jogadores a proteger a bola junto à bandeirola é o mesmo - e é treinado pelo mesmo - que o ano passado perdeu a liderança à 26ª jornada para a ir resgatar a casa do rival à 30ª. Mais do que a qualidade das exibições, a fibra mental que nos fez campeões ainda não apareceu este ano. E é isso que transforma um jogo com sentido único numa exibição meh.

Por último, Sérgio Conceição. Não há nada que não tenha sido escrito sobre o assunto nos últimos dias, pelo que não resta muito a acrescentar. O comentário de Conceição foi francamente infeliz, o alvo ainda mais, mas obviamente que o técnico não pretende abrir uma frente de conflito entre staff e adeptos. The way I see it, foi só mais uma forma de blindar o grupo da pressão interna, uma arrogância estratégica, de quem quer chamar a si o foco para que ele não abrase (ainda mais) os jogadores. Por outro lado, é a realidade do resultadismo a que uma boa porção do futebol moderno aderiu. Sérgio Conceição é um deles. Um crente no paradigma resultadista e pragmatista do futebol: do correbol, do jogar - bem ou mal - para ganhar, da escola do meio a zero, do 1-0 é melhor do que 4-3, do o-caminho-mais-curto-para-o-golo-é-o-mais-directo. Não seria a minha filosofia mas é aquela em que ele acredita. E ele é que foi campeão nacional.

domingo, 23 de setembro de 2018

Setúbal 0 x 2 FC Porto | Trivelas & Roscas



O meu avô viveu até aos 86 anos a beber vinho de pacote. Essa é que é essa. Vamos a notas.


Militão: Nem sempre é o caso, mas uma crónica que coloque um central na lista de melhores jogadores não é bom sinal. Militão é daqueles jogadores que só devia passar por esta coluna uma vez a cada três meses porque, no mundo ideal, os adversários do FC Porto perderiam a bola logo à saída do seu meio-campo. Mas não estamos vivemos essa utopia futebolística e a realidade é que o FC Porto tem mostrado um futebol austero, seco de ideias, com recurso exaustivo e exasperante à bola directa, que nos deixa muito pouco entusiasmados. E debilidades na transição defensiva, na organização e resposta quando o adversário tem a bola, que nos deixa a todos bastante preocupados. É aqui que entra Militão (e Felipe). O rapaz chegou há um mês e parece que já cá está há um ano. Por muito que goste de - e augure um futuro brilhante a - Diogo Leite, o segredo da estabilização emocional da equipa passa por Militão, que emulou com o compatriota o tampão que nos deu o título o ano passado. O problema do FC Porto é da cintura para a frente.

Otávio: Otávio não tem sido soberbo. Mas para quem começou a pré-temporada com o carimbo de dispensável, tem feito uma progressão interessante a baralhar a crítica. Eu tinha um kit de piadas pronto para cascar nele esta época que teve de voltar para o congelador. Espero que apodreça lá.


Brahimi: Procura-se.

Herrera: Está naquela fase da adolescência em que não há pai que o consiga encaminhar. Corre como se quisesse resolver todos os problemas do mundo. Mas recebe e devolve a bola como quem está amuado com a vida. É esperar que passe.

Sérgio Conceição: Sérgio Conceição foi campeão em 2017/18, em condições muito desfavoráveis e contra todas as probabilidades. Não há quem mereça mais mérito por essa conquista do que ele. O homem é o mesmo, o treinador também. Só que o futebol é diferente: para pior. A estratégia já não resulta tão bem porque está mais do que lida pelos adversários. A palavra de toque também já não funciona da mesma forma porque o compromisso de alguns jogadores para com o FC Porto já não é o mesmo. Tendo perdido intérpretes fundamentais e, uma vez mais, sem ter recebido reforços à altura, não se pedia a Conceição que colocasse o FC Porto a jogar um futebol sarriano, moderno, avassalador. Mas esperava-se que estancasse pelo menos o derrame motivacional que a equipa atravessa desde o início da temporada. Bottomline: o nível e a vontade derraparam e o treinador terá de repensar a fórmula. Desconstruir e reconstruir sem destruir. Na verdade, esse tem sido o desafio mais complicado para Conceição enquanto treinador de futebol: resistir ao desgate natural criado com os plantéis que treinou.