segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Benfica 1 x 0 FC Porto | Trivelas & Roscas


Vamos já despachar o mais difícil de escrever: o Benfica foi superior e mereceu ganhar o clássico. Mereceu ganhar porque foi a equipa que mais procurou o golo e que descobriu mais caminhos para chegar à baliza adversária. A reacção do FC Porto chegou tarde e só depois da expulsão de Lema, um perfil pouco condizente com uma equipa que no ano passado fez-se praticamente campeã naquele mesmo estádio. É evidente que não vamos poder ganhar todos os clássicos até à extinção da humanidade. Mas pessoalmente prefiro perder a tentar. E geralmente a História tem o seu papel velhaco nestas estórias: nunca conta, mas cumpre-se sempre. Tal como no clássico da Luz da temporada passada, onde Rui Vitória foi penalizado por querer segurar o penta com um empate, Conceição também foi ontem castigado por não ter carregado sobre um Benfica com a pior dupla de centrais desde Paulo Madeira e Ronaldo. A boa notícia? É apenas Outubro.


Militão: Foi uma pena ter sido o único central a entrar ontem em campo, caso contrário teríamos evitado o golo de Seferovic. Aliás, esse lance é sintomático. É ele que ataca Pizzi e ainda tenta impedir o remate do avançado suíço. Militão comporta-se como aquele estagiário que chegou ontem à empresa mas traz bagagem e vontade de trepar rápido na hierarquia. Tudo isto enquanto Felipe, que nesta analogia desempenha o papel de efectivo acomodado, abordava os lances como quem vinha a correr da sexta pausa para não ser apanhado. Ao fim de seis jogos, Militão já berra com a defesa - e com razão - como se fosse ele o dono do armazém. E são jogadores como ele que me dão razões para manter a confiança de que o barco não afunda até a tempestade passar.

Iker: Voltou a ser santo numa epopeia ingrata para ele. Fez um clássico ao nível a que nos habituou: parou quase tudo. Só não pode fazer de terceiro central.



Felipe: Metade já foi dito acima. Anda enervado, joga desconfiado e nem a chamada à seleção o parece ter deixado mais confortável - pelo contrário. Será difícil pensar na defesa do FC Porto sem Felipe, mas talvez esteja na altura de lhe dar algum descanso.

Herrera: Herrera ainda não regressou da salgalhada de tetas em que se envolveu no México, no pré-Mundial. O cansaço de Herrera não vem das pernas, mas da cabeça. O seu futebol é o reflexo do que vive fora de campo e Herrera parece não estar a atravessar uma fase positiva fora dos relvados. Joga sem cor, sem felicidade, como quem se arrependeu veementemente de não ter optado pela carreira de trolha em vez de ser futebolista. "Ao menos, nas obras, ninguém dava por mim", pensará o mexicano de cada vez que falha um passe de 60 cm.

Ataque: Inexistente, desinspirado, insípido. Muito por culpa da inoperância do meio-campo, também. Mas não só. Marega sem Aboubakar, encostado a uma das alas, torna-se um jogador mais banal, sem rasgo. Soares ainda está a retemperar a forma, mas dificilmente será o remédio para todos os nossos problemas de eficácia, sendo ele próprio um esbanjador nato. Brahimi é um Mustang com os colectores entupidos. O ataque é, neste momento, o sector que mais insónias me dá. E vislumbro muitas noites mal dormidas.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

FC Porto 1 x 0 Tondela | Trive... Nah, uma análise diferente


Vamos fazer uma pequena experiência de laboratório. Analisar o FC Porto x Tondela por eletrólise, separando o jogo jogado com os pés do jogo jogado com a cabeça, isto é, colocar o desempenho prático e o comportamento emocional em pratos diferentes. Pode parecer impossível - na verdade, é - uma vez que nenhuma exibição pode ser vista à lupa sem incorporar todos os factores que entram em campo: a psicologia é um deles. Mas o jogo de sexta-feira tornou-se num tema tão fraturante entre a comunidade portista que a melhor forma que encontro de criar uma linha de raciocínio é separar as águas.

A verdade é que o FC Porto x Tondela, do ponto de vista estatístico e objectivo, foi a segunda melhor exibição desta época, só superada pela terraplanagem ao Chaves. Em termos de produtividade, os portistas lograram os melhores números da época, tanto ofensiva como defensivamente, somando 31 remates (contra os 19 do Chaves), e 9 remates enquadrados (mais 3 do que no jogo contra os flavienses). Por cima disto, o FC Porto terminou o jogo sem permitir qualquer remate enquadrado à equipa de Pepa. A diferença entre o jogo de sexta-feira e o do arranque da Liga foi inevitavelmente a eficácia, que esteve muito abaixo do esperado.


Porquê? É aqui que entra a face oculta da exibição portista. A pressão de passar para a liderança antes de ir à Luz. Uma pressão que começou muito antes da bola rolar e ditou uma pressa constante e muitas vezes inconsequente em chegar ao golo. Um golo que tardava em chegar. O nervosismo inversamente proporcional a cada oportunidade perdida. A incapacidade em conter o incêndio na fase de rescaldo, como quem diz, tranquilizar depois do 1x0. Tudo isto regado com um futebol demasiado frito, cheio de passes erráticos, bolas longas absurdas e decisões imprudentes, em casa, sem um único momento de divórcio entre os adeptos e a equipa, o que torna esse pânico ainda mais inconcebível. Do ponto de vista emocional, foi uma exibição tremida, frustrante de ver e com resquícios do Porto de Nuno Espírito Santo, aquela equipa que só é conhecida por ter sido incapaz de tomar o leme do campeonato.

A franja académica, dos puritanos da tática, do jogo entre linhas e das basculações, teve no FC Porto x Tondela uma partida interessante de dissecar. Já os adeptos do FC Porto, esses umbilicalmente ligados ao coração da equipa, deixaram-se contagiar naturalmente pelo nervosismo dos jogadores. Foi como assistir à Play, de Samuel Beckett, representada por um amador em estreia no National Theatre, em vez da confiança absoluta de Alan Rickman. Claro que mexe com o público.

É esta segunda personalidade que urge matar. É que o FC Porto que na sexta-feira, frente ao Tondela, geriu uma vitória com jogadores a proteger a bola junto à bandeirola é o mesmo - e é treinado pelo mesmo - que o ano passado perdeu a liderança à 26ª jornada para a ir resgatar a casa do rival à 30ª. Mais do que a qualidade das exibições, a fibra mental que nos fez campeões ainda não apareceu este ano. E é isso que transforma um jogo com sentido único numa exibição meh.

Por último, Sérgio Conceição. Não há nada que não tenha sido escrito sobre o assunto nos últimos dias, pelo que não resta muito a acrescentar. O comentário de Conceição foi francamente infeliz, o alvo ainda mais, mas obviamente que o técnico não pretende abrir uma frente de conflito entre staff e adeptos. The way I see it, foi só mais uma forma de blindar o grupo da pressão interna, uma arrogância estratégica, de quem quer chamar a si o foco para que ele não abrase (ainda mais) os jogadores. Por outro lado, é a realidade do resultadismo a que uma boa porção do futebol moderno aderiu. Sérgio Conceição é um deles. Um crente no paradigma resultadista e pragmatista do futebol: do correbol, do jogar - bem ou mal - para ganhar, da escola do meio a zero, do 1-0 é melhor do que 4-3, do o-caminho-mais-curto-para-o-golo-é-o-mais-directo. Não seria a minha filosofia mas é aquela em que ele acredita. E ele é que foi campeão nacional.

domingo, 23 de setembro de 2018

Setúbal 0 x 2 FC Porto | Trivelas & Roscas



O meu avô viveu até aos 86 anos a beber vinho de pacote. Essa é que é essa. Vamos a notas.


Militão: Nem sempre é o caso, mas uma crónica que coloque um central na lista de melhores jogadores não é bom sinal. Militão é daqueles jogadores que só devia passar por esta coluna uma vez a cada três meses porque, no mundo ideal, os adversários do FC Porto perderiam a bola logo à saída do seu meio-campo. Mas não estamos vivemos essa utopia futebolística e a realidade é que o FC Porto tem mostrado um futebol austero, seco de ideias, com recurso exaustivo e exasperante à bola directa, que nos deixa muito pouco entusiasmados. E debilidades na transição defensiva, na organização e resposta quando o adversário tem a bola, que nos deixa a todos bastante preocupados. É aqui que entra Militão (e Felipe). O rapaz chegou há um mês e parece que já cá está há um ano. Por muito que goste de - e augure um futuro brilhante a - Diogo Leite, o segredo da estabilização emocional da equipa passa por Militão, que emulou com o compatriota o tampão que nos deu o título o ano passado. O problema do FC Porto é da cintura para a frente.

Otávio: Otávio não tem sido soberbo. Mas para quem começou a pré-temporada com o carimbo de dispensável, tem feito uma progressão interessante a baralhar a crítica. Eu tinha um kit de piadas pronto para cascar nele esta época que teve de voltar para o congelador. Espero que apodreça lá.


Brahimi: Procura-se.

Herrera: Está naquela fase da adolescência em que não há pai que o consiga encaminhar. Corre como se quisesse resolver todos os problemas do mundo. Mas recebe e devolve a bola como quem está amuado com a vida. É esperar que passe.

Sérgio Conceição: Sérgio Conceição foi campeão em 2017/18, em condições muito desfavoráveis e contra todas as probabilidades. Não há quem mereça mais mérito por essa conquista do que ele. O homem é o mesmo, o treinador também. Só que o futebol é diferente: para pior. A estratégia já não resulta tão bem porque está mais do que lida pelos adversários. A palavra de toque também já não funciona da mesma forma porque o compromisso de alguns jogadores para com o FC Porto já não é o mesmo. Tendo perdido intérpretes fundamentais e, uma vez mais, sem ter recebido reforços à altura, não se pedia a Conceição que colocasse o FC Porto a jogar um futebol sarriano, moderno, avassalador. Mas esperava-se que estancasse pelo menos o derrame motivacional que a equipa atravessa desde o início da temporada. Bottomline: o nível e a vontade derraparam e o treinador terá de repensar a fórmula. Desconstruir e reconstruir sem destruir. Na verdade, esse tem sido o desafio mais complicado para Conceição enquanto treinador de futebol: resistir ao desgate natural criado com os plantéis que treinou.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Schalke 04 1 x 1 FC Porto | Trivelas & Roscas

foto beinsports.com

É difícil para qualquer blogger escrever sobre a má qualidade do produto que explora, seja ele vinho, smartphones ou futebol. Não há muito que me apeteça escrever sobre o Schalke x FC Porto porque não foi um jogo bonito, nem tão pouco uma exibição que fique para a história por parte dos dragões. A sensação que vai ficando cada vez mais vincada nos últimos jogos é a de que este FC Porto 2018/19, que em termos de elenco não anda muito longe da versão do ano passado, é um parente pobre do campeão nacional. Os princípios de jogo são exactamente os mesmos - músculo, bola nas costas da defesa, velocidade de Marega - mas faltam elementos que deram brilho à fórmula do ano passado: o sentido de compromisso de alguns jogadores, a explosão de Telles, Brahimi e... Ricardo. Ainda assim, podíamos e devíamos ter feito melhor. Vale pelo empate fora e pelo facto de o jogo não ter sido na Hungria.


Militão: É um senhor jogador, já feito, daqueles que o FC Porto encontrava debaixo de cada pedra que chutava nos 2000s. Têm um sentido apurado de antecipação e, mesmo quando descompensa, tem resposta física para ir resgatar bolas que parecem prontinhas a aninhar-se na rede de Casillas. Mesmo no ataque, foi mais preocupante para os alemães do que Aboubakar ou Marega. Não engana, é a próxima supervenda do FC Porto.

Danilo: Tal como os Pokémon na minha adolescência, o FC Porto tem duas versões bem distintas. Uma sem Danilo, que deixa o sector defensivo da equipa menos sólido e mais exposto mas é mais eficaz na transposição rápida. Outra com Danilo, onde a primeira linha de construção passa por ele e há - ou pelo menos, tenta-se - uma abordagem atacante diferente, mais pausada e cerebral, que também acarreta mais risco e perdas de bola em zonas delicadas. Pessoalmente, prefiro um FC Porto com Danilo, sobretudo se for acompanhado por Óliver, porque gosto de ver a equipa talhar o jogo, pensar no passo seguinte, em vez de procurar lançamentos desenfreados nos corredores à espera que o caparro dos africanos transforme terra em água. O ano passado a estratégia até pode ter resultado, mas porque havia ingrediente extra, mencionados acima, que agora não existem. E se eles não existem, estará na hora de mudar a receita. Regressando a Danilo, fez um jogo à sua imagem: competente e empenhado. Teve algumas falhas, nomeadamente no golo, mas foi o menor culpado da nulidade do meio-campo azul e branco.



Herrera: Está de volta a versão pirateada do mexicano, cheia de bugs e erros incompreensíveis. Passou completamente ao lado do jogo. Aliás, a frase podia ser só "passou completamente ao lado" porque foi isso que fez durante toda a partida: passes para ninguém. É o maior responsável pelo golo do Schalke, depois de um pontapé na atmosfera e uma perda de bola que mostram claramente que Rui Pinto fez panelinha com Diogo Faria para minar o Benfica.

Maxi: Está na fase da carreira em que seria mais útil ao FC Porto como extremo do que como lateral. Há uns dias gabei-lhe o pulmão de aço mas torna-se evidente que a velocidade, crucial no posto que ocupa, já não entra na lista de coisas que Maxi pode oferecer. Foi perdendo discernimento com o desenrolar da partida, tendo mesmo contribuído para dois ou três calafrios desnecessários na recta final.

Acutilância ofensiva: Outra coisa que não é fácil para um blogger é escrever contra a corrente, isto é, arriscar colocar alguma lucidez sobre um momento de pura efervescência. A água fria nunca foi muito popular. Quando goleámos o Chaves, apontei as debilidades defensivas do adversário como uma forte possibilidade a pesar. Não me livrei de uns reparos, de estar a desvalorizar a nova dinâmica da equipa e de desacreditar o treinador. Infelizmente, o que vimos na primeira jornada do campeonato nunca mais se repetiu. E a crise de criatividade da equipa parece agravar-se a cada jogo. Falta um facilitador. Que pode ser Óliver, Bazoer ou Sérgio Oliveira em melhor forma, tanto faz. A verdade é que, neste momento, por uma razão ou por outra, ele não existe dentro de campo.

Penalties: Só está aqui para desfazer um mito. Não existe qualquer maldição guttmanniana a pairar sobre nós. Também não é falta de treino, porque esta foi uma matéria que nos tirou dois títulos o ano passado. Trata-se tão somente da falta de um especialista. Há anos que não temos um.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Ebook "O Polvo": a corruptopédia do Benfica


Acabou a paródia. Chegou ontem à internet, sem preço nem patrocínio, o ebook que agrega, organiza e narra toda a informação de domínio público sobre os casos de corrupção que envolvem o Benfica.

São 255 páginas de um complexo trabalho de recolha e tratamento da informação por parte do autor do blog opolvo.pt, em linha com o que já tinha realizado nos últimos meses no seu site.

Do que li até agora, podemos esperar uma enciclopédia sem filtro, intercalada pela perspetiva cronológica e directa dos acontecimentos e uma separação mais setorial dos casos. Acresce dizer que, como em qualquer projecto desta natureza, há uma lente, a visão analítica própria de quem produz e que, mesmo sendo desfavorável a uma das partes - neste caso, o Benfica -, está muito longe da javardice acrítica e adulterada que se lê nos vários blogues dos cães-de-fila com bigode do Benfica.

Este é o trabalho que ninguém quis fazer, mas onde toda a gente - jornais, jornalistas, comentadores incluso - irá beber. Uma obra fundamental, com um nível de bias que considero aceitável. O autor fez questão de divulgar o material original, sem atalhos, edições ou partes truncadas, para evitar a tão portuguesa descontextualização e para que cada leitor possa construir a sua própria interpretação dos factos. De leitura obrigatória.

Para uma consulta mais imediata, recomendo também o compêndio do meu prezado amigo @BaiLinhaeCruza, que situa o Polvo e a Toupeira no Espaço-Tempo. Organizado de forma cronológica e suportada quase integralmente na revista de imprensa, o texto traça o percurso da investigação da PJ até às revelações mais recentes da revista Sábado.