segunda-feira, 12 de novembro de 2018

FC Porto 1 x 0 Braga | Trivelas & Roscas

FERNANDO VELUDO/LUSA © 2018 LUSA 

A vantagem de escrever sem prazo é poder deixar maturar as ideias. Faz-me falta abandonar as palavras e deixá-las crescer, para depois regressar ao texto e passá-lo no coador da lógica, filtrando-lhe a carga emocional com que foi escrito e que é impossível de extrair a quente. Sobretudo se falamos de um dos jogos do título - e o FC Porto x Braga foi um desses. A candidatura do Braga até pode não sobreviver até Maio, mas o percurso que registou até agora merece reconhecimento. A réplica que deixou no Dragão vai estar seguramente entre os três principais momentos deste campeonato, seja qual for o desfecho do mesmo. E o chicken game entre Conceição e Abel foi tão enérgico e absorvente que não merecia sequer a ameaça de ser ofuscado pelo confronto do século na Argentina. Na retina, fica a imagem de dois treinadores com coragem para acelerar até ao fim e querer ganhar um jogo demasiado partido, expondo-se ao risco de não somar qualquer ponto; duas equipas que premiaram o futebol e chutaram para canto a diplomacia que costuma marcar as cimeiras de líderes na primeira volta. Quanto a nós, dizer que fomos recompensados pela sorte porque a procurámos é redutor para o adversário, que fez o mesmo e não foi premiado por isso. Há jogos em que a fronteira entre a euforia e o desespero está no detalhe - o FC Porto x Braga foi um desses. Notas:



Otávio: Saltou do banco para ser o MVP, voltando a ser o desbloqueador que a equipa precisava. Está a fazer uma época sublime, de certa forma até surpreendente, porque parece ter amadurecido o seu futebol para um caminho que não previa. Há dois anos, olhava para Otávio como um projecto inacabado de desequilibrador. Hoje está mais formatado para pisar terrenos centrais e tem um compromisso muito maior para com os avançados. Estou a gostar desta versão remasterizada de Otávio, com menos exuberância e maior mobilidade e compreensão do jogo.

Conceição: Demorei a entender o seu plano de jogo quando decidiu tirar o elemento até então mais irreverente (Brahimi). Mas depois percebi o que Sérgio Conceição pretendia: com Herrera, segurou um meio-campo que estava por pontas; com Otávio deu a largura que faltava - e que foi determinante no golo; e com Hernâni deu a entender que estava disposto a assinar o cessar-fogo com Abel, que caiu que nem um patinho.

Brahimi: Tentou sempre. Foi picando a lata com óptimas tabelas que, ou morriam na lentidão do CPU dos colegas, ou eram paradas por Tiago Sá, com defesas que me fizeram ser pouco correcto para com a mãe do rapaz bracarense.



Telles: A quantidade absurda de vezes em que deixou Esgaio à vontade no corredor direito assusta-me. Não foram duas nem três as vezes em que o brasileiro foi seduzido pela conversa de Dyego Souza e se deixou arrastar na marcação, esquecendo a propensão ofensiva do médio português do Braga. Uma dessas sonecas permitiu a Esgaio abanar a trave da baliza portista. Das outras, Telles terá de agradecer o facto de Deus ter agraciado Claudemir com a visão de um ciclope.

Marega/Soares: Do ponto de vista físico, Soares e Marega são dois monstros que trabalham imenso para o colectivo e ajudam a conter o bloco defensivo adversário. É possivelmente devido à missão de desgaste deles que os nossos médios têm aparecido várias vezes na área, em situação de finalização. Mas do ponto de vista ofensivo, Marega e Soares não ligam. Funcionam muito melhor enquanto unidades individuais do que em conjunto. Com os dois tanques no onze, o que o FC Porto ganha em músculo e jardas perde em tempo, multiplicando-se em ataques inócuos que comprometem grande parte da produtividade ofensiva do FC Porto. Hora de experimentar apenas um deles em campo desde o início, com André/Adrián ao lado.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

FC Porto 4 x 1 Lokomotiv | Trivelas & Roscas


Gostei muito, mas deixem-me que vos diga: acho o resultado exagerado. 4-1 é um desfecho demasiado perturbador para o treinador do Lokomotiv, Yuri Semin, o senhor que escolhi para ilustrar o capítulo europeu de ontem, porque deu-me pena ver o homem apanhar chuva e vento só para voltar para casa ainda mais abatido do que o que já estava. Dito isto, o FC Porto não fez um jogo épico, mas foi tremendamente eficaz, tal como já tinha acontecido na Rússia. Foi também um Porto mais maduro na reacção à perda de bola (e ao golo de Farfan). Ajuda ter médios com contribuições diferentes nos vários momentos de construção. Um que pensa o jogo ao nível quântico, outro que trafica oxigénio e dois extremos com pezinhos que transformam o relvado ensopado do Dragão no elegante palco do Bolshoi. Falta um ponto, como diz o Yuri na foto, ou nem isso, para os oitavos. Notas abaixo.



Óliver: É provavelmente o médio com mais classe que passeia nos nossos relvados desde Lucho González. Óliver é o tipo de médio que reinventa o futebol. Que quebra convenções e teorias mecanizadas, porque não há mais ninguém no mundo a rodar sobre si próprio com tanto pragmatismo como ele. Os treinadores de futebol geralmente gostam de médios com capacidade de choque para os duelos, músculo, inteligência na leitura, antecipação, resistência. Já todos percebemos que Óliver é uma espécie Jules Brunet nos campos de batalha do Japão feudal. Não é um médio “tradicional” mas traz coisas tão novas e refrescantes ao nosso futebol ofensivo que o torna mais eficaz e imprevisível. É possível jogar directo e com brilhantismo. O espanhol mostra-nos isso muitas vezes.

Corona: Forma tremenda. Explorou muito bem os espaços e as debilidades dos russos, em particular a (falta de) velocidade. Tratou sempre muito bem a bola, marcando um belo golo num terreno que começava a tornar-se impraticável com o dilúvio. Às vezes floreia demasiado as jogadas como se estivesse a enfeitar um carro de cortejo do Cinco de Mayo, mas pelo menos tem aplicado essa extravagância ao serviço do colectivo. Bom jogo.

Herrera: Foi pendular nas transições e é sem dúvida o nosso médio com mais faro para o golo. Excelente a movimentação no primeiro lance da partida e soberba a assistência para o golo de Marega, a que se somam várias boas intervenções ao longo do jogo, ofuscadas por um ou outro passe insidioso, resquícios do Herrera apático e esvaziado que iniciou a época. Que seja para continuar.

Éder: Enorme intervenção no primeiro ataque com pés e cabeça dos russos, cortando uma bola que levava selo de golo, evitando até o canto. Ao longo da partida, foi sempre uma sombra para os seus adversários, anulando quase todos os ataques do Lokomotiv e impedindo que os russos incomodassem Casillas. Sem culpas no golo, fechou o jogo com nota ligeiramente acima dos outros dois companheiros de setor: Felipe e Militão.



Telles: Actualmente, é o elo mais fraco do quarteto defensivo e nota-se uma certa dificuldade em acompanhar o ritmo do jogo. Também, casou em julho, e um gajo quando casa caga um bocado no convívio com os amigos.

Hernâni: O seu primeiro toque na bola foi de tal forma entusiasmante que me virei para a minha esposa e disse sem contemplações: "temos de fazer uma máquina de roupa agora à noite, a ver se aproveitamos o bi-horário". Ela concordou.

domingo, 28 de outubro de 2018

FC Porto 2 x 0 Feirense | Trivelas & Roscas


Um dia, um chef português pouco conhecido mas entendido da coisa disse uma grande verdade: "uma boa entrada supera qualquer prato principal". Sabem quem foi? Eu poupo-vos o trabalho: fui eu. Para convencer uns convidados a comer uns canapés de hummus com aspecto sinistro que fiz. Ora, depois de o Belenenses nos ter oferecido dois apoteóticos pastéis para o antipasto, o FC Porto deu hoje aos adeptos uma refeição agradável, bem temperada, sem o excesso de sal de outras partidas da época. Uns bifinhos au champigon, vá. Em suma, cumprimos, num jogo onde era obrigatório vencer para voltar à liderança partilhada, em casa, frente à equipa menos batida da liga (apenas cinco golos concedidos em 8 jornadas), com a nota frutada de Óliver, o perfume de Brahimi e Corona e aquela dose de Casillas que eleva o nível de qualquer prato. Sem deslumbrar, estamos na liderança da Liga e da Champions League, no arranque de um mês de novembro onde vamos jantar quase sempre no Dragão. Não se podia pedir muito mais. Vamos a notas.



Óliver: Na flash interview, perguntaram a Óliver Torres se se sentia um jogador mais evoluído. O espanhol respondeu prontamente que não, que sempre jogou assim. E a verdade é que já todos sabíamos a resposta. Óliver sempre foi o elemento mais criativo da equipa portista, o médio com pensamento menos vertical, que procura sempre a solução menos óbvia, o passe menos estudado pelo adversário. Óliver desbloqueia, assume o risco. Claro que nem sempre corre bem e isso traz-lhe maior exposição, pelo papel que tem em campo. Mas até defensivamente o espanhol tem uma presença anormalmente eficaz para alguém com uma propensão tão ofensiva. Só hoje somou 11 desarmes, quase todos por antecipação, graças a uma leitura de jogo que só Herrera e o melhor Danilo partilham. No Dragão, contra adversários que não procuram ter a bola, Óliver é fundamental.

Corona/Brahimi: Os fantasistas da equipa portista pareciam dois miúdos de castigo na primeira parte, castrados pela transformação em médios alas e pelas obrigações defensivas que a posição exige. Mas o primeiro golo do FC Porto e a segunda parte aproximaram-nos da baliza, dinamitando por completo o muro da Feira. Segunda parte extraordinária dos dois elementos, que merecia uma resposta mais competente dos avançados.

Herrera: Entrou muito bem, para meter Tiago Silva e Alphonse na linha, sacudindo uma fase de maior pressão e atrevimento do adversário. Repôs o equilíbrio num meio-campo que começava a acusar o desgaste.

1º golo: Jogada de laboratório deliciosa, executada na perfeição, que terá deixado Sérgio Conceição orgulhoso e Rui Pedro Braz aziado pelo facto de não ter sido marcado fora-de-jogo ao mindinho de Felipe.



Soares/Marega: A primeira parte foi de uma nulidade confrangedora, que podia ter saído caro. O ataque do FC Porto, isto é, os homens com responsabilidade pelo golo, mostraram poucos argumentos técnicos para segurar a bola no último terço e desfazer a organização feirense na primeira metade. O dinamismo com que o FC Porto regressou do balneário, patrocinado sobretudo pelos médios-ala, deu boleia às exibições medíocres de Soares e Marega e maquilhou o que até então estava a ser o pior setor da equipa. Ironicamente, o segundo golo foi construído pelos dois avançados, mas isso não os blinda da crítica. Tanto Soares como Marega são duas máquinas de desgaste que, em 4x4x2, talvez beneficassem de um jogador mais técnico ao lado, como Ádrian.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Lokomotiv 1 x 3 FC Porto | Trivelas & Roscas

Fotografia: Miguel Pereira/Global Imagens

In Russia babushka, you don’t play football, football plays you. A vitória de ontem sobre o Lokomotiv de Moscovo foi tão desafiante para o coração como jantar no Chimarrão depois de lanchar na rulote, com a equipa do FC Porto a demonstrar uma vez mais uma capacidade invulgar de transportar qualquer adepto minimamente funcional numa viagem hipersónica entre a exasperação e a euforia. Em perspetiva, o FC Porto até fez um jogo bastante positivo no plano ofensivo, dando um pontapé na falta de objetividade e eficácia que tem marcado as exibições nos encontros mais recentes. Houve mais bola, mais critério na construção, passes mais curtos, mais frieza na área adversária. Uma mudança que tem o cunho de Óliver, cuja presença descomplica o processo do FC Porto com bola. Por outro lado, voltámos a demonstrar que uma vantagem de dois golos é sempre um resultado perigoso para nós, um fenómeno psicológico que carece de explicação e solução. 90 minutos hitchcockianos decididos nas minudências. Notas abaixo.



Defesa: Desta vez nem, Militão escapou à mediocridade defensiva, que resulta de uma conjuntura infeliz de vários fatores diferentes: a falta de forma de Alex Telles, o retiro espiritual de Felipe e a as falhas crónicas de Maxi, além do jogo menos conseguido do nosso Éder. O próprio Danilo, o habitual carro-vassoura do quarteto, ainda precisa de rodagem. E isto tudo bem agitado transforma-se num cocktail altamente inflamável que continua a prejudicar a dinâmica do nosso futebol. Marcamos, marcamos outra vez, sofremos, trememos, voltamos a marcar, voltamos a tremer, sem nunca conseguir olhar o bully nos olhos sem engolir em seco. Não é um problema de falta de qualidade, é mesmo só um bicho mental que precisa de exorcismo ou chá verde ou workshops de auto-estima DIY do Gustavo Santos. Fuck knows. Get your shit together, guys.



Iker: O homem que tem mais presenças na Liga dos Campeões do que eu níveis passados no Candy Crush mostrou porque atingiu o estatuto de lenda ainda no ativo. Por mais que me esforce não há muito que possa escrever de novo sobre ele. A nossa vitória não aconteceria sem aquele penalty defendido. Não estaríamos na liderança do grupo D, com dois de três jogos em casa por fazer. Não teríamos assegurado 1,5% do orçamento de 2019/20. Não teríamos continuado a fazer memes sobre detergentes e rivais. Enfim, acho que já perceberam.

Óliver: Não faço lobby pro-Óliver mas perante o grau de qualidade que empresta à equipa, especialmente com bola, torna-se inegável não pedir mais minutos de utilização. É o gajo a quem, numa festa, dás a mini que não consegues abrir ou pedes para atear o lume que não pega porque sabes que ele tem uma panóplia de soluções para desbloquear o impasse no convívio. Peca defensivamente na ocupação dos espaços, mas mesmo assim as estatísticas estão do lado dele: foi o dragão"com mais desarmes (3), bloqueios de passe (2), segundo a Goalpoint. Além disso, o que o espanhol dá à equipa em comprimento e criatividade compensa largamente o que tira em músculo e poder de choque.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Benfica 1 x 0 FC Porto | Trivelas & Roscas


Vamos já despachar o mais difícil de escrever: o Benfica foi superior e mereceu ganhar o clássico. Mereceu ganhar porque foi a equipa que mais procurou o golo e que descobriu mais caminhos para chegar à baliza adversária. A reacção do FC Porto chegou tarde e só depois da expulsão de Lema, um perfil pouco condizente com uma equipa que no ano passado fez-se praticamente campeã naquele mesmo estádio. É evidente que não vamos poder ganhar todos os clássicos até à extinção da humanidade. Mas pessoalmente prefiro perder a tentar. E geralmente a História tem o seu papel velhaco nestas estórias: nunca conta, mas cumpre-se sempre. Tal como no clássico da Luz da temporada passada, onde Rui Vitória foi penalizado por querer segurar o penta com um empate, Conceição também foi ontem castigado por não ter carregado sobre um Benfica com a pior dupla de centrais desde Paulo Madeira e Ronaldo. A boa notícia? É apenas Outubro.


Militão: Foi uma pena ter sido o único central a entrar ontem em campo, caso contrário teríamos evitado o golo de Seferovic. Aliás, esse lance é sintomático. É ele que ataca Pizzi e ainda tenta impedir o remate do avançado suíço. Militão comporta-se como aquele estagiário que chegou ontem à empresa mas traz bagagem e vontade de trepar rápido na hierarquia. Tudo isto enquanto Felipe, que nesta analogia desempenha o papel de efectivo acomodado, abordava os lances como quem vinha a correr da sexta pausa para não ser apanhado. Ao fim de seis jogos, Militão já berra com a defesa - e com razão - como se fosse ele o dono do armazém. E são jogadores como ele que me dão razões para manter a confiança de que o barco não afunda até a tempestade passar.

Iker: Voltou a ser santo numa epopeia ingrata para ele. Fez um clássico ao nível a que nos habituou: parou quase tudo. Só não pode fazer de terceiro central.



Felipe: Metade já foi dito acima. Anda enervado, joga desconfiado e nem a chamada à seleção o parece ter deixado mais confortável - pelo contrário. Será difícil pensar na defesa do FC Porto sem Felipe, mas talvez esteja na altura de lhe dar algum descanso.

Herrera: Herrera ainda não regressou da salgalhada de tetas em que se envolveu no México, no pré-Mundial. O cansaço de Herrera não vem das pernas, mas da cabeça. O seu futebol é o reflexo do que vive fora de campo e Herrera parece não estar a atravessar uma fase positiva fora dos relvados. Joga sem cor, sem felicidade, como quem se arrependeu veementemente de não ter optado pela carreira de trolha em vez de ser futebolista. "Ao menos, nas obras, ninguém dava por mim", pensará o mexicano de cada vez que falha um passe de 60 cm.

Ataque: Inexistente, desinspirado, insípido. Muito por culpa da inoperância do meio-campo, também. Mas não só. Marega sem Aboubakar, encostado a uma das alas, torna-se um jogador mais banal, sem rasgo. Soares ainda está a retemperar a forma, mas dificilmente será o remédio para todos os nossos problemas de eficácia, sendo ele próprio um esbanjador nato. Brahimi é um Mustang com os colectores entupidos. O ataque é, neste momento, o sector que mais insónias me dá. E vislumbro muitas noites mal dormidas.