Era uma vez Jagunço.
Jagunço tinha fama de ladrão, mas não era um gatuno qualquer. Nata fina, larápio de primeira água, figurava entre a elite. Verdadeiro ás da arte da bandidagem, nunca descurava o pormenor e estava sempre um passo à frente da concorrência.
Astuto e perspicaz, Jagunço sabia o segredo do crime perfeito. Palmar às claras. Quem rouba em público, raramente é apanhado. Porque um cavalheiro da ordem, acreditavam as gentes honestas e humildes daquela região, não pode ser ao mesmo tempo um cavaleiro do apocalipse.
Na terra sem lei de Jagunço, havia dois bancos. O Banco Bom e o Banco Mau. No primeiro, Jagunço tinha conta. O segundo, Jagunço não tinha em conta.
Por isso, o Banco Mau era o alvo predilecto de Jagunço. Quanto mais o pilhava, mais vontade tinha de o pilhar. Fim-de-semana sim, fim-de-semana não, lá ia mais um saque. Um dia, até o telhado levaram. Era um brinquedo nas mãos de Jagunço, o Banco Mau.
Tornado patrão da pandilha, Jagunço há muito que já não fazia. Mandava fazer.
Encomendava os golpes aos seus mais fiéis capos. Um deles, o canalha benjamim, meliante promissor, chegou a perpetrar dez furtos ao desafortunado banco. Todos eles executados na perfeição.
O jovem trafulha era tão eficaz que Jagunço decidiu elevar-lhe a fasquia. Certo dia, na véspera da enésima investida, Jagunço enviou uma carta ao Banco Mau a anunciar o assalto. Fê-lo pelo vil prazer do rebaixamento alheio. Jagunço não idealizava enxovalho maior do que informar a própria vítima antes do golpe.
Surpreendido, o gerente do Banco Mau preparou-se a si e aos seus. Armou os seus empregados com garra, brio e coragem, chamou alguns reforços e aguardou pelo roubo iminente.
Nesse dia, o Banco Mau venceu. O jovem bandalho foi subjugado e fugiu de mãos a abanar. Prometeu voltar de pistola, o infame. Enquanto celebrava o feito com a sua equipa, o gerente do Banco Mau olhou pela janela e viu um Jagunço perplexo do outro lado da estrada.
Foi a primeira e última vez que alguma vez se falaram:
Diz-me, Jagunço, o que tens tu contra o Banco Mau?
Nada, meu caro. Mas para o Bom continuar a ser bom, o Mau não pode deixar de ser mau.
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
É para vocês, a pizza?
Enquanto não rola a bola -- a nossa e não a “nossa” -- vamos empanturrando o cérebro com outros prazeres. Alguns comuns, alguns secretos. Como ver ex-primeiros-ministros a sair da prisão com uma indumentária digna de uma noitada na Kapital. Ou assistir impávidos ao bombardeamento de um pobre de um estafeta da Telepizza com perguntas obtusas e bizarras de uma proctologista de elefante mascarada de jornalista. É o que dá recrutar no Urban, cofinenses.
Por falar nesse erário deprimente que é tudo o que tenha chancela Cofina, o ponto alto da semana para o Record terá sido a entrevista ao catedrático. Alto para eles, porque eu vivo num mundo ao contrário. Ainda assim, devo reconhecer que a entrevista teve mais sumo do que eu esperava. Que o catedrático fede a uma sobranceria insuportável já se sabe. Afinal, é apanágio do eterno imberbe. Mas toda essa arrogância vem com um preço, o do orgulho desmesurado, que obriga Jesus a ir 'a todas' e ultrapassar a fronteira do clichê.

Contou a sua versão da saída do Benfica, falou da saída de Maxi para o FC Porto, abordou a possibilidade de perder Carrillo, admitiu ter ficado preocupado em perder Douglas e Danilo e não se coibiu de relevar algumas das manobras de bastidores do "seu" Benfica, colocando a boca no trombone sobre práticas que só mesmo num pasquim de Lisboa não têm chamada de capa. Falou de plantações, não as colombianas, mas outras de cariz mais estratégico e direccionadas para a arte da manipulação informativa, que apesar de não serem novidade nos meandros, ajudam a antever o que espera ao FC Porto este ano. É bom ver tinta nessas alegações, mais que não seja, como afirma o caro Miguel Lima, para a sempre útil "memória futura".
Houve apenas um assunto que deixou Jesus sem resposta: o FC Porto. Como sempre. Mas mesmo o silêncio é palavra. E o do Jesus foi manifesto. Então não tinhas já chegado ao topo, mestre da (es)tática? Ou estarás a preparar a ressurreição no mesmo lugar onde tantas vezes foste crucificado? És verdadeiramente bíblico.
Já a entrevista do ex-melhor amigo do catedrático, o barão vermelho-e-branco, vulgo bigode soviético, não me suscitou interesse. Se quiser propaganda, leio os folhetos do Lidl.
Propaganda também se vende sob a forma de conivência. O caro Imbicto explica-vos melhor este novo "exercício interessante" de fazer publicidade sem fazer publicidade. Talvez isto elucide por que razão, para alguns jornalistas da circomunicação social, 2+2 são sempre 5. Ou então é uma nova forma de convívio amigável, após uma reunião de agenda entre plantadores e plantados. Era para vocês, a pizza?
Finalmente, ainda sem sair do domínio da Cofina, porque hoje é como aquele dia em que temos de limpar o carro depois do próprio casamento -- ou seja, mexer na merda à grande e à francesa --, Vítor Baía, um guarda-redes de quem guardarei sempre as melhores recordações entre os postes do FC Porto, soma "frangos" atrás de "frangos" fora das quatro linhas. O que é pena. Ainda não compreendi bem se o nosso 99 quer seguir as pisadas de Dani ou se é simplesmente pouco inteligente a filtrar informação. Passe a redundância.
Na melhor das hipóteses, Baía foi equivocado por alguém mal-intencionado. Nem era preciso desmentir a história de um telefonema que nunca podia ter existido neste universo lógico. Irónico: nesta altura da sua "carreira", Vítor Baía tem de saber defender-se a si próprio. Ou corre o risco de cair irreversivelmente no abismo do ridículo. O primeiro passo podia ser abandonar já a Correio da Manha TV. Assim mesmo, sem til. Não há pontuação possível para um antro jornalístico mais rasteiro do que uma húngara.
Prosa leve, porque estou de férias e o meu futebol também. Pelo menos até sábado, quando formos a
Até lá, recomendo a mais recente bordoada pública do presidente sem medo. BDC em entrevista à BBC, com o sotaque de uma alheira. Vítor Pereira vai parecer Bernard Shaw depois disto. Beeleeve mii, tragam pipocas que esta pérola vale umas boas gargalhadas em cadeia.
Ah, carai, cadeia não, que eu não estou preso!
sábado, 5 de setembro de 2015
O euro que faltava
Faz uns anos, a respeito da transferência de Ricardo Quaresma, Pinto da Costa prometeu que, se fosse preciso, punha o euro que faltava.
A promessa ficou por cumprir e o euro acabaria por não sair do porta-moedas do presidente do FC Porto.
Por estes dias, também há promessas e vidas congeladas, viradas do avesso por um terror inenarrável para quem nunca o atravessou.
Numa altura em que grassa no planeta um problema humanitário grave que urge resolver e o que realmente interessa à maioria dos portugueses é medir o escrúpulo das suas alminhas através do facebook -- esse barómetro clássico da ética nacional --, o FC Porto avançou com uma iniciativa real e objectiva que poderá atenuar a agonia dos milhares de refugiados sírios aportados na periferia da Europa, para os quais o horizonte é um deserto.
Enquanto a prioridade de uns é dissecar publicamente os níveis de sensibilidade e hipocrisia dos vizinhos virtuais, desdobrando-se numa tempestade perfeita de correntes e contra-correntes que mais não serve do que para inflamar o ego de cada um, o FC Porto apresentou uma solução prática, aproveitando os desequilíbrios grotescos do sistema financeiro global para dar algum contrapeso à balança das desigualdades.
Enfim, o que para os outros é um problema de moral, para o FC Porto é um problema moral.
Por isso, Pinto da Costa decidiu dar o exemplo e informou que o clube vai doar parte das receitas de um dos jogos mais concorridos da temporada aos refugiados sírios, convidando a UEFA e os restantes clubes a seguirem o exemplo.
Se todos os clubes aceitarem a proposta dos dragões, oferecendo um euro por cada bilhete vendido no primeiro jogo como anfitrião, a uma média de 50.000 espetadores por partida, teremos um total de 50.000 euros angariados em 32 partidas. O que perfaz qualquer coisa como 1,6 milhões de euros.
Se ainda assim quisermos ser pessimistas e mesquinhos, como se estivéssemos numa rede social, e fizermos as contas por baixo, assumindo erradamente que um Astana x Galatasaray na 2ª jornada da Liga dos Campeões terá meia-dúzia de gatos pingados nas bancadas, a iniciativa teria ainda assim um potencial mínimo de 1 milhão de euros.
Para uma impressora de dinheiro, como é o caso da UEFA e da Liga dos Campões, parcos milhões de euros são uma mera picada de insecto na pele da alta roda do futebol europeu, mas um banho vital de oxigénio para os milhões de sírios que tentaram legitimamente sobreviver às barbáries perpetradas no seu país, território que atravessa uma situação onde a emenda é pior do que o soneto.
O FC Porto não diz que quer ajudar. O FC Porto ajuda.
Pode haver maior orgulho em ser Porto?
Por aqui, ainda há quem não transforme o drama em trampolim, nem procure bater recordes estratosféricos de likes ou partilhas. Existem formas mais nobres de crescer. Como esta.
O FC Porto está mais rico dentro de cada portista.
Ontem, Pinto da Costa pôs finalmente o euro que faltava.
A promessa ficou por cumprir e o euro acabaria por não sair do porta-moedas do presidente do FC Porto.
Por estes dias, também há promessas e vidas congeladas, viradas do avesso por um terror inenarrável para quem nunca o atravessou.
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Os cães de Pawel Kuczynski |
Enquanto a prioridade de uns é dissecar publicamente os níveis de sensibilidade e hipocrisia dos vizinhos virtuais, desdobrando-se numa tempestade perfeita de correntes e contra-correntes que mais não serve do que para inflamar o ego de cada um, o FC Porto apresentou uma solução prática, aproveitando os desequilíbrios grotescos do sistema financeiro global para dar algum contrapeso à balança das desigualdades.
Enfim, o que para os outros é um problema de moral, para o FC Porto é um problema moral.
Por isso, Pinto da Costa decidiu dar o exemplo e informou que o clube vai doar parte das receitas de um dos jogos mais concorridos da temporada aos refugiados sírios, convidando a UEFA e os restantes clubes a seguirem o exemplo.
Se todos os clubes aceitarem a proposta dos dragões, oferecendo um euro por cada bilhete vendido no primeiro jogo como anfitrião, a uma média de 50.000 espetadores por partida, teremos um total de 50.000 euros angariados em 32 partidas. O que perfaz qualquer coisa como 1,6 milhões de euros.
Se ainda assim quisermos ser pessimistas e mesquinhos, como se estivéssemos numa rede social, e fizermos as contas por baixo, assumindo erradamente que um Astana x Galatasaray na 2ª jornada da Liga dos Campeões terá meia-dúzia de gatos pingados nas bancadas, a iniciativa teria ainda assim um potencial mínimo de 1 milhão de euros.
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Orgulho. |
O FC Porto não diz que quer ajudar. O FC Porto ajuda.
Pode haver maior orgulho em ser Porto?
Por aqui, ainda há quem não transforme o drama em trampolim, nem procure bater recordes estratosféricos de likes ou partilhas. Existem formas mais nobres de crescer. Como esta.
O FC Porto está mais rico dentro de cada portista.
Ontem, Pinto da Costa pôs finalmente o euro que faltava.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Brahimi: Uma questão de fé
Desde que me lembro de existir, colecciono interesses que nunca pararam de crescer comigo.
Herdei a curiosidade natural do meu pai e cedo distingui no mundo uma miríade de coisas que me fascinam até hoje. O povo costuma chamar-lhe pancadas.
Para além da já aqui bem propalada paixão pelo futebol, sempre fui mais campo que praia, mais fotografia que vídeo, mais ciclismo que ténis, mais SUVs que crossovers, mais Kafka que Kundera, mais Censurados que Fonzie.
Porém, nunca nenhum destes ímanes pessoais me atraiu tanto como o singular mundo árabe. Em particular, aquela mancha do planisfério que chamamos de Médio Oriente e toda a efervescência que dele emana. Para mim, ateu que confessa já ter lido mais Corão do que Bíblia, é um dos puzzles geopolíticos mais intrigantes, complexos e absorventes do mundo contemporâneo.
Abramos o mapa. Apontemos àquele local onde a Eurásia parece segurar África por um braço. Quase como se estivéssemos a colocar o dedo numa ferida antiga: Gaza, o epicentro de um conflito muito mais vetusto do que os rockets do Hamas ou os massacres da Tzahal. E muito mais vasto do que o petróleo de Meged, as teses do Sionismo ou o revolucionarismo do Fatah.
O conflito Israelo-Palestiniano é uma guerra que trespassa décadas e fronteiras e que nasceu de uma mesma história contada de duas formas diferentes.
Seria redutor chamar-lhe apenas uma disputa por território sagrado. Trata-se de uma luta de génese, política e, sobretudo, fé, entre dois povos com identidades religiosas antagónicas -- judaísmo e islamismo. É talvez o maior exemplo vivo da verdadeira Guerra Santa. E nós, portistas, bem sabemos que não há espaço para duas crenças diferentes no mesmo coração.
Mas este texto não versa sobre conflitos alheios. Versa sobre os nossos. Os interiores. A jihad inócua que praticamos diariamente connosco próprios, às vezes sem nos darmos conta disso.
Precisamente o dilema que devassa Yacine Brahimi por estes dias.
O extremo argelino nunca escondeu o seu apoio à causa palestiniana. A Argélia, aliado histórico e uma espécie de meia-irmã magrebina da Palestina, não suporta nem possui relações diplomáticas com Israel. São Estados imiscíveis.
Do Magrebe, os conterrâneos pressionam Brahimi a passar “das palavras aos actos” e a boicotar a viagem a Tel-Aviv. O próprio jogador deve preferir quatro Ramadões de enfiada a ter de pisar solo israelita. Pelo que ainda sem se comprometer publicamente sobre o assunto, o argelino afirma que essa decisão diz respeito a ele próprio e ao clube que representa.
E diz bem. Muito bem até.
Sobretudo, porque essa decisão cabe mais a Brahimi do que ao FC Porto.
Importa esclarecer que não estamos a falar de birras ou cismas triviais, mas da força e relevância de um credo. O mesmo que levou Islam Slimani a praguejar forte e feio contra Adrien quando este o regou com meia garrafa de champanhe na Supertaça -- o islão abomina o álcool.
Sim, o FC Porto poderia fazer prevalecer os trâmites contratuais e pressionar Brahimi a jogar o jogo que o jogador não quer. Mas teria mais a perder fora do que dentro dos relvados. Estou certo de que o clube compreenderá isso.
Por isso, meu caro Yacine: subscrevo qualquer que seja a tua resolução moral. Reconheço-te pleno direito de te recusares a jogar contra o Maccabi em Israel e se a tua decisão for essa, apoio e nunca te censurarei por isso.
Não te censurarei mesmo que o FC Porto vá a Tel-Aviv sem ti e a precisar dos três pontos como de pão para a boca.
Não te censurarei mesmo que o FC Porto vá a Tel-Aviv sem ti e empate o jogo com uma exibição cinzenta.
Não te censurarei mesmo que o FC Porto vá a Tel-Aviv sem ti e perca a partida e as possibilidades de passar à fase seguinte porque faltou um rato atómico capaz de judiar toda a defesa contrária.
Nunca te censurarei pelas escolhas que faças em nome da tua família, religião, credo, raça ou ideário, se elas vierem, de facto, do âmago individual. Nem a ti nem a qualquer outro jogador do FC Porto.
Porque a fé será sempre uma questão delicada, que deve ser tratada à luz da magnitude que tem.
E porque o futebol continua a ser apenas a coisa mais importante das coisas sem importância nenhuma.
Herdei a curiosidade natural do meu pai e cedo distingui no mundo uma miríade de coisas que me fascinam até hoje. O povo costuma chamar-lhe pancadas.
Para além da já aqui bem propalada paixão pelo futebol, sempre fui mais campo que praia, mais fotografia que vídeo, mais ciclismo que ténis, mais SUVs que crossovers, mais Kafka que Kundera, mais Censurados que Fonzie.
Porém, nunca nenhum destes ímanes pessoais me atraiu tanto como o singular mundo árabe. Em particular, aquela mancha do planisfério que chamamos de Médio Oriente e toda a efervescência que dele emana. Para mim, ateu que confessa já ter lido mais Corão do que Bíblia, é um dos puzzles geopolíticos mais intrigantes, complexos e absorventes do mundo contemporâneo.

O conflito Israelo-Palestiniano é uma guerra que trespassa décadas e fronteiras e que nasceu de uma mesma história contada de duas formas diferentes.
Seria redutor chamar-lhe apenas uma disputa por território sagrado. Trata-se de uma luta de génese, política e, sobretudo, fé, entre dois povos com identidades religiosas antagónicas -- judaísmo e islamismo. É talvez o maior exemplo vivo da verdadeira Guerra Santa. E nós, portistas, bem sabemos que não há espaço para duas crenças diferentes no mesmo coração.
Mas este texto não versa sobre conflitos alheios. Versa sobre os nossos. Os interiores. A jihad inócua que praticamos diariamente connosco próprios, às vezes sem nos darmos conta disso.
Precisamente o dilema que devassa Yacine Brahimi por estes dias.
O extremo argelino nunca escondeu o seu apoio à causa palestiniana. A Argélia, aliado histórico e uma espécie de meia-irmã magrebina da Palestina, não suporta nem possui relações diplomáticas com Israel. São Estados imiscíveis.
Do Magrebe, os conterrâneos pressionam Brahimi a passar “das palavras aos actos” e a boicotar a viagem a Tel-Aviv. O próprio jogador deve preferir quatro Ramadões de enfiada a ter de pisar solo israelita. Pelo que ainda sem se comprometer publicamente sobre o assunto, o argelino afirma que essa decisão diz respeito a ele próprio e ao clube que representa.
E diz bem. Muito bem até.
Sobretudo, porque essa decisão cabe mais a Brahimi do que ao FC Porto.
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Brahimi: Um dos dois jogadores muçulmanos do FC Porto. O outro é Aboubakar. |
Sim, o FC Porto poderia fazer prevalecer os trâmites contratuais e pressionar Brahimi a jogar o jogo que o jogador não quer. Mas teria mais a perder fora do que dentro dos relvados. Estou certo de que o clube compreenderá isso.
Por isso, meu caro Yacine: subscrevo qualquer que seja a tua resolução moral. Reconheço-te pleno direito de te recusares a jogar contra o Maccabi em Israel e se a tua decisão for essa, apoio e nunca te censurarei por isso.
Não te censurarei mesmo que o FC Porto vá a Tel-Aviv sem ti e a precisar dos três pontos como de pão para a boca.
Não te censurarei mesmo que o FC Porto vá a Tel-Aviv sem ti e empate o jogo com uma exibição cinzenta.
Não te censurarei mesmo que o FC Porto vá a Tel-Aviv sem ti e perca a partida e as possibilidades de passar à fase seguinte porque faltou um rato atómico capaz de judiar toda a defesa contrária.
Nunca te censurarei pelas escolhas que faças em nome da tua família, religião, credo, raça ou ideário, se elas vierem, de facto, do âmago individual. Nem a ti nem a qualquer outro jogador do FC Porto.
Porque a fé será sempre uma questão delicada, que deve ser tratada à luz da magnitude que tem.
E porque o futebol continua a ser apenas a coisa mais importante das coisas sem importância nenhuma.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
O mercado da fome
Ir às compras com fome nunca foi uma boa estratégia.
A privação tolhe-nos o raciocínio e influencia o cérebro a ponto de este se desdobrar numa ginástica de relativização do valor das coisas. O caro torna-se barato; o muito nunca deixa de parecer pouco e qualquer gordura passa a fazer todo o sentido. Engavetamos o longo-prazo num canto da consciência e desprotegemos o discernimento, rapidamente anexado pelo instinto do imediato.
Com o estômago em suplício, um supermercado é como um Louvre para a nossa percepção sensorial. Então se chegarmos perto da hora do fecho, multiplique-se tudo por mil.
Ora, o FC Porto tem aqui um problema de barriga.
As últimas investidas da SAD ao mercado têm sido marcadas por decisões precipitadas, práticas contraditórias e aquisições questionáveis, distantes do modelo de negócio ganhador que projectou o FC Porto para o topo dos clubes que "compram bem, vendem melhor" na Europa do futebol.
A perda da exclusividade desse modelo era previsível. O sucesso sempre foi sinónimo de exemplo e seria impossível o clube manter um método transacional tão eficaz sem ser copiado.
Mas o aparecimento de novos players nesta máquina retirou força, peso e poder ao FC Porto na esfera negocial. Os fundos e outras plataformas de financiamento tornaram-se uma realidade incontornável e açambarcaram o domínio das operações do mercado de tal forma que até o patriarca do modelo ganhador sucumbiu à dependência de terceiros.
Nenhum grande dos campeonatos intermédios europeus se pode gabar de ter escapado a este assalto. E, paulatinamente, os fundos vão começando a bater à porta da nata fina do velho continente.
Que o paradigma do mercado mudou não é novidade. Novidade é a dimensão que a subordinação dos clubes a estas third parties tomou. Surpreendente e assustadora.
Hoje, já nem os próprios clubes fazem as suas listas de compras. Entrámos na era dos catálogos por imposição, que empobrecem os cofres e a independência dos emblemas. Uma gestão Laredoutiana que, temo, tenha chegado também ao FC Porto.
O plantel orientado por Julen Lopetegui expôs cedo as suas lacunas: a falta de um criador, de um patrão e de um agitador. Mais tarde, haveria de faltar também um elemento para suprir a saída de Alex Sandro.
Com excepção deste último, os restantes dossiers foram tratados de forma unidimensional: Lucas Lima foi o único 10 que o "FC Porto" procurou; Antonio Rudiger, o único central que o "FC Porto" admitia e Jesús Corona foi o tudo ou nada do "FC Porto" na recta final do defeso.
Três atletas sem universo alternativo e com um denominador comum: Doyen Sports Investment, o 'parceiro' habitual dos dragões nestes últimos anos.
Claro que este tipo de estratégia permite manter elevados índices de competitividade lá fora. Mas não é menos verdade que o planeamento do FC Porto, ano após ano, está a tornar-se perigosamente subvertido à agenda do fundo maltês. Haverá forma de equilibrar a balança?
É evidente que nesta relação FC Porto/Doyen as duas partes pretendam garantir o máximo de benefícios e isso só será possível se ambas remarem no mesmo sentido. O clube mantém um plantel de qualidade e com capacidade para discutir títulos; a Doyen retira dividendos da valorização dos seus ativos. Casos como o de Brahimi e Imbula, a título de exemplo, corroboram-no.
Mas esta associação é igualmente a prova de que estamos cada vez mais condicionados a "comer" aquilo que a Doyen nos dá. Mais fast-food e menos hortaliça, o que torna as equipas do FC Porto cada vez menos formatadas para o longo prazo e obrigadas a profundas reestruturações anuais que em nada a aproximam de resultados desportivos em série.
A ideia de projecto tornou-se obsoleta. A falta de ciclos duradouros ou apostas de futuro, como foram as bem sucedidas contratações de Danilo e Alex Sandro, talvez as duas últimas duas bandeiras do tal modelo ganhador do clube, traduzem-se em momentos como o de ontem, onde o FC Porto se vê agrilhoado aos únicos alvos que o catálogo tem para oferecer, sendo forçado a arrastar os processos quase até ao fecho das persianas do mercado.
Uma situação anormal noutras alturas, mas sinal (inquietante) dos novos tempos.
Corona transborda de promessas, mas ainda não é uma certeza. E o preço pago pelo mexicano é um numero pesado e que deixará muita gente a salivar pelas contas do próximo exercício.
Sobretudo quando no plantel existia um jogador português com um potencial muito semelhante, que se tornou na mais recente vítima da espiral de empréstimos dos quais os jogadores do FC Porto raramente regressam.
Falo, claro, de Ricardo Pereira: defesa-direito na equipa A, extremo na equipa B e avançado na selecção. Uma cobaia que merecia ter sido muito mais do que isso.
Uma gestão mais inteligente dos próprios ativos também ajuda a reduzir o risco e a influência exercida por terceiros no planeamento do clube. E é um bom princípio para começar a aliviar este grilhão.
@
Nota final: Não me esqueci de Miguel Layún. Recordo-me vagamente dele no último Mundial, naquele caos organizado que era o México de Miguel Herrera. Enquanto pessoa, do que tenho visto, demonstra uma selfawareness invulgar, uma maturidade assombrosa e mostra ser um exemplo de perseverança a vários níveis. Terá peso no balneário. Eis uma curta mas agradável história de superação. Recomendo:
A privação tolhe-nos o raciocínio e influencia o cérebro a ponto de este se desdobrar numa ginástica de relativização do valor das coisas. O caro torna-se barato; o muito nunca deixa de parecer pouco e qualquer gordura passa a fazer todo o sentido. Engavetamos o longo-prazo num canto da consciência e desprotegemos o discernimento, rapidamente anexado pelo instinto do imediato.
Com o estômago em suplício, um supermercado é como um Louvre para a nossa percepção sensorial. Então se chegarmos perto da hora do fecho, multiplique-se tudo por mil.
Ora, o FC Porto tem aqui um problema de barriga.
As últimas investidas da SAD ao mercado têm sido marcadas por decisões precipitadas, práticas contraditórias e aquisições questionáveis, distantes do modelo de negócio ganhador que projectou o FC Porto para o topo dos clubes que "compram bem, vendem melhor" na Europa do futebol.
A perda da exclusividade desse modelo era previsível. O sucesso sempre foi sinónimo de exemplo e seria impossível o clube manter um método transacional tão eficaz sem ser copiado.
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Jesús Corona: o agitador azteca |
Nenhum grande dos campeonatos intermédios europeus se pode gabar de ter escapado a este assalto. E, paulatinamente, os fundos vão começando a bater à porta da nata fina do velho continente.
Que o paradigma do mercado mudou não é novidade. Novidade é a dimensão que a subordinação dos clubes a estas third parties tomou. Surpreendente e assustadora.
Hoje, já nem os próprios clubes fazem as suas listas de compras. Entrámos na era dos catálogos por imposição, que empobrecem os cofres e a independência dos emblemas. Uma gestão Laredoutiana que, temo, tenha chegado também ao FC Porto.
O plantel orientado por Julen Lopetegui expôs cedo as suas lacunas: a falta de um criador, de um patrão e de um agitador. Mais tarde, haveria de faltar também um elemento para suprir a saída de Alex Sandro.
Com excepção deste último, os restantes dossiers foram tratados de forma unidimensional: Lucas Lima foi o único 10 que o "FC Porto" procurou; Antonio Rudiger, o único central que o "FC Porto" admitia e Jesús Corona foi o tudo ou nada do "FC Porto" na recta final do defeso.
Três atletas sem universo alternativo e com um denominador comum: Doyen Sports Investment, o 'parceiro' habitual dos dragões nestes últimos anos.
Claro que este tipo de estratégia permite manter elevados índices de competitividade lá fora. Mas não é menos verdade que o planeamento do FC Porto, ano após ano, está a tornar-se perigosamente subvertido à agenda do fundo maltês. Haverá forma de equilibrar a balança?
É evidente que nesta relação FC Porto/Doyen as duas partes pretendam garantir o máximo de benefícios e isso só será possível se ambas remarem no mesmo sentido. O clube mantém um plantel de qualidade e com capacidade para discutir títulos; a Doyen retira dividendos da valorização dos seus ativos. Casos como o de Brahimi e Imbula, a título de exemplo, corroboram-no.
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Danilo: 141 jogos pelo FC Porto |
A ideia de projecto tornou-se obsoleta. A falta de ciclos duradouros ou apostas de futuro, como foram as bem sucedidas contratações de Danilo e Alex Sandro, talvez as duas últimas duas bandeiras do tal modelo ganhador do clube, traduzem-se em momentos como o de ontem, onde o FC Porto se vê agrilhoado aos únicos alvos que o catálogo tem para oferecer, sendo forçado a arrastar os processos quase até ao fecho das persianas do mercado.
Uma situação anormal noutras alturas, mas sinal (inquietante) dos novos tempos.
Corona transborda de promessas, mas ainda não é uma certeza. E o preço pago pelo mexicano é um numero pesado e que deixará muita gente a salivar pelas contas do próximo exercício.
Sobretudo quando no plantel existia um jogador português com um potencial muito semelhante, que se tornou na mais recente vítima da espiral de empréstimos dos quais os jogadores do FC Porto raramente regressam.
Falo, claro, de Ricardo Pereira: defesa-direito na equipa A, extremo na equipa B e avançado na selecção. Uma cobaia que merecia ter sido muito mais do que isso.
Uma gestão mais inteligente dos próprios ativos também ajuda a reduzir o risco e a influência exercida por terceiros no planeamento do clube. E é um bom princípio para começar a aliviar este grilhão.
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Nota final: Não me esqueci de Miguel Layún. Recordo-me vagamente dele no último Mundial, naquele caos organizado que era o México de Miguel Herrera. Enquanto pessoa, do que tenho visto, demonstra uma selfawareness invulgar, uma maturidade assombrosa e mostra ser um exemplo de perseverança a vários níveis. Terá peso no balneário. Eis uma curta mas agradável história de superação. Recomendo:
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