sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Basta!

Basta de Fernando Gomes, o subserviente líder da FPF, cujas SMS foram ilegalmente vigiadas e usurpadas pelo Benfica para benefício próprio, desvirtuando com isso a verdade desportiva nos últimos quatro anos. Fernando Gomes, que sempre se furtou a abordar esse assunto, quebrou hoje um longo e perturbador silêncio. Um silêncio que resistiu estóico à denúncia do esquema de corrupção promovido pelo Benfica, à revelação dos emails que emporcalharam o futebol em Portugal, ao segundo homicídio cometido por uma claque ilegal e ao apoio ilícito de um clube a essa claque. Foi necessário o Benfica entrar numa crise de resultados para Fernando Gomes falar. A credibilidade da FPF, em particular a do seu presidente, entraram num coma irreversível onde a melhor opção é deixar morrer.

Basta de Nuno Cárcomo, o lobo com pele de cordeiro que parece filho de um casamento entre a hipocrisia e o descaramento. O presidente da Associação de Futebol de Lisboa, que quer “centralizar o poder na capital”, deixou a toca para defender as palavras de Fernando Gomes, com um discurso cínico, imprudente e vago, característico de um operacional à paisana do Estado Lampiânico. Nuno Cárcomo Lobo diz que “acompanha, desde há muito, as preocupações agora registadas”, mas não mencionou que o estado climatérico tempestuoso do futebol nacional é também da sua responsabilidade. E do seu centralismo bacoco, anti-portismo primário e racismo indigente.

Basta dos NN. Vultos sem nome e sem rosto responsáveis pelos únicos dois homicídios por ódio clubístico no país. Marco Ficcini e Rui Mendes morreram às mãos da claque do Benfica. Fernando Madureira escapou a uma emboscada com machados e cabos elétricos. Filipe Santos sofreu um grave traumatismo craniano que o deixou à beira da morte. Há um bando de homicidas à solta que rubrica os crimes em nome do Benfica e as autoridades continuam a assobiar para o lado.

Basta da justiça desportiva. E da sua inércia inerente quando o arguido é vermelho. Já passaram três meses desde que o BenficaGate começou a ser investigado pela Polícia Judiciária, a que se somam mais umas semanas desde que o polvo foi destapado e despido pelo FC Porto. A única coisa que mudou desde então foi a ruborização assumida do sector da arbitragem em Portugal e a consciencialização internacional em relação ao problema. Lá fora, já perceberam de que calibre é feito o Benfica. Cá dentro, já todos tínhamos percebido. Mas nem a Liga nem a FPF começaram a inquirir quem quer que seja.

Basta do Estado Lampiânico. É do fundamentalismo insensato, desregrado e anti-lógico que grassa a verdadeira ameaça para o ambiente. É da segmentação entre anjos e demónios que os Rumiyahs desportivos alimentam desde o Apito Dourado e da consequente diferença de tratamentos que se vê agora no BenficaGate que espreita o perigo para a imagem do futebol português. É de ciclopes como José Marinho ou paquidermes como Pedro Guerra, funcionários ou ex-funcionários do Benfica, que vem o cheiro que afugenta os cães. É dos crimes verbais de parasitas como José Manuel Antunes ou Pragal Colaço que resulta a chuva ácida que encharca o pano. A canonização cega do Benfica é o objectivo de muita gente com poder e responsabilidade, embriagada em líquido amniótico encarnado, que só vive e respira bem se o Benfica ganhar, seja a que preço for.

Basta da imprensa. Que não escrutina, não questiona, não investiga, que não abre a gaveta proibida. Por mero sabujismo, por coacção ou por falta de distanciamento. O quarto poder está enclausurado no terceiro anel. E ainda há quem fique ofendido por ser apanhado em flagrante.

Basta. Antes que seja tarde demais.



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Rio Ave 1 x 2 FC Porto | Trivelas & Roscas



Passaram sensivelmente 100 dias desde que Sérgio Conceição pôs o azul no branco com Pinto da Costa e decidiu sair da zona de conforto francesa para ousar uma aventura no cemitério de treinadores da Invicta. Se em junho recebesse uma visita do Drax de setembro para me dizer que íamos chegar à sétima jornada com o pleno de vitórias, 14 golos marcados e apenas um sofrido, pediria encarecidamente ao meu “eu” do futuro que abandonasse o vinho, pois nem nas minhas projeções mais quiméricas estava à espera de números tão requintados. E, acreditem, eu sonho todos os anos com um cenário onde o FC Porto conquista a Liga dos Campeões com um 5-4 ao Real Madrid, depois de estar a perder 0-4 ao intervalo. Mas a verdade é que cá estamos, em setembro, na liderança, com o máximo possível de pontos conquistados no campeonato, com a melhor defesa da Europa, o segundo melhor ataque em Portugal e já com três cabeças de borrego à cintura, numa prova inequívoca de que estamos vivos e prontos para não dar descanso a ninguém, apesar de termos um plantel menos talentoso e completo do que os rivais. O que vou dizer a seguir pode parecer uma perspetiva resultadista, e é, mas define aquilo que pode ser a chave da matriz ganhadora do FC Porto em muitas das deslocações mais perigosas desta época: o Rio Ave dominou, mas o FC Porto materializou. No final, o que contam são elas lá dentro.



Danilo Pereira: Voltou. Depois de um arranque de temporada intermitente, o trinco que mais me enche as medidas desde o fim do mandato do Polvo regressou à velha forma fazendo uma exibição absolutamente soberba, na forma como contribuiu para suster a linha média do Rio Ave o mais atrás possível, impedindo a construção do adversário em toda (toda!) a largura. Além do golo, o comendador foi essencial para que a estratégia de “jogar sem bola” montada por Sérgio Conceição, dando amplitude ao jogo e assegurando que os dois homens do meio-campo vila-condense produzissem o mínimo possível. Garanto-vos que não sou do clã Carreira, embora isto pareça plágio, uma vez que esta crónica foi escrita depois de ter lido as do Tribunal do Dragão, do Porto Universal, do Porta 19, etc. Qualquer semelhança com os demais é pura coincidência. Ou então é simplesmente a consequência natural de todos termos visto o mesmo jogo.

Brahimi: Começa a ser um padrão inegável. Quando o FC Porto actua em campos curtos, Brahimi destaca-se. Com mais ou menos objectividade, empurra a equipa para a frente e, mais importante, acaba por injectar na equipa uma confiança decisiva nos momentos cruciais. Exemplo disso foi a convicção que emprestou à cavalgada meio atabalhoada de Marega, o que fez com que o maliano não desistisse do lance e aparecesse para o finalizar. Jorge Bertocchini, autor do Porta 19, tem uma tirada sublime sobre isto, que recupero aqui para ilustrar melhor aquilo que quero dizer. Disse o Jorge, no rescaldo do FC Porto x Besiktas, que Brahimi “espetou pregos numa parede sem que ninguém pendurasse um quadro que se visse”. Uma expressão que resume na perfeição o papel actual do argelino do argelino no FC Porto. Está menos artista e mais curador. Só precisa que um dos matulões do ataque o ajude a pendurar os quadros. Foi o que fez Marega. Assim se conquistam três pontos.

Marega: “Guarda o que não presta e terás o que te faz falta”. Isto foi o que meu avô me respondeu um dia, quando lhe perguntei porque raio é que estava a apanhar um parafuso torcido e enferrujado do chão. O velhote era um hoarder de primeira a quem nós, antes dos anglicismos tomarem conta da língua portuguesa, apelidávamos carinhosamente de “sucateiro”. Sérgio Conceição podia ter abdicado de Marega. Mesmo depois do pequeno episódio do início de época. Era o mais fácil. Mas ainda assim, o treinador portista, contra a corrente dominante de pensamento na qual me incluo, guardou o parafuso. Marega é o principal retrato de um plantel recauchutado. Não é que o maliano seja, ou possa vir a ser, o principal alicerce em que vão assentar todos os sucessos que o FC Porto pode acumular esta época. Acredito até que, com a evolução natural da temporada, a sua preponderância se possa desvanecer um pouco, em função do que Soares pode dar à equipa. No entanto, tem dado jeito, muito jeito. É desonesto fechar a porta a essa evidência. O Moussa que ainda nos embaraça com recepções piores do que uma residencial na Cova da Moura é o mesmo Moussa que por vezes leva tudo à frente -- e a equipa em bloco, às costas -- como se estivesse a desembarcar de carabina na mão na Normandia. Por isso, não há margem para crítica. Quem dá o que tem, a mais não é obrigado. Talvez seja melhor direccionar a crítica a quem contribuiu para que o actual barómetro de qualidade do FC Porto seja Marega e não um Falcão ou um Jardel. Puxando a memória atrás, tenho a certeza que o meu avô arranjou finalidade para aquele parafuso, tal como Sérgio Conceição o fez para as características do maliano. Não posso pedir mais.

Borrego no saco: A deslocação de um ombro, de um joelho ou de um pulso podem ser chatas, mas nenhuma é tão incómoda como a deslocação ao Estádio dos Arcos para o FC Porto. Já são nove pontos ganhos em campos extremamente difíceis. Um dado que pode dar um impulso extra na segunda metade do campeonato, onde, neste capítulo, o calendário é bem mais acessível.



Otávio: Houve uma fase em que cheguei a pensar que Otávio estava em sub-rendimento. Agora, tendo mais a considerar que o início da época passada é que foi um pico anormal na forma do jogador brasileiro. Otávio parece desligado dos processos da equipa. Amorfo e desconcentrado, continua a não compreender o seu papel em campo, mesmo quando o mesmo é claro. Não fosse Sérgio Conceição o treinador que lhe deu o banho mais eficaz de cultura táctica quando aterrou em Portugal, diria que o problema estava na orientação. Mas não está. A rever.

Meio-campo sem Óliver: Apostar numa estratégia sem Óliver é compreensível. Herrera dá (e deu) muita coisa ao jogo que o espanhol não oferece, mas sem Óliver, o FC Porto foi controlado no miolo, praticamente do início ao fim, onde só a transcendência de Danilo evitou maiores desequilíbrios. Sérgio arriscou e saiu-se bem. Esta foi também uma mensagem de confiança ao mexicano, que, com o nervo no lugar, pode ser mais solução do que problema. Mas era importante que a SAD priorizasse desde já um ataque preciso e contundente ao mercado de inverno que trouxesse uma alternativa credível ao espanhol. Porque Oliver não é apenas o nosso elemento mais criativo, é também o único.

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sábado, 2 de setembro de 2017

Disciplina avariada

O que têm em comum Eliseu, Mabil e Derley?

Comecemos pelos dois primeiros.

Esta semana, o Conselho de Disciplina da FPF ilibou Eliseu da pisadela deliberada a Diogo Viana no Benfica x Belenenses, de 18 de agosto. No mesmo dia, o mesmo órgão considerou que Mabil "pisou o adversário com força excessiva" no Paços x Vitória SC, de 26 de agosto.

O processo de Mabil demorou apenas dois dias a ser apreciado. O de Eliseu levou dez. Mabil foi suspenso por dois jogos. Eliseu foi absolvido. As imagens que se seguem falam por si.

Eliseu x Belenenses

Mabil x Vitória SC

Nenhuma das resoluções surpreende, embora a lógica que alicerça ambas seja anedótica. Quer no caso Eliseu, quer no caso Mabil, a mesa presidida por José Manuel Meirim escuda-se no relatório dos árbitros para sustentar a decisão final. Mabil foi "apanhado" pelo fiscal de linha, por isso foi punido com base no que foi escrito pela equipa de arbitragem. Eliseu escapou impune porque nem o árbitro Rui Costa viu a agressão, nem o videoárbitro Vasco Santos achou que tivesse sido uma.

Vasco Santos, provavelmente o elemento com maior influência no desfecho deste processo, entendeu "não ter existido qualquer agressão ou prática de jogo violento por parte do jogador do Benfica naquela sua ação". Apesar de ter analisado as mesmas imagens que toda gente viu, onde nenhum ângulo mente, o elenco do CD concluiu que a demonstração marcial de Eliseu foi uma reação natural e inocente.

Com isto, o CD aproveita e mata dois coelhos de uma só vez. Cola o fundamento da decisão ao julgamento subvertido do VAR e refugia-se na sentença que menos ondas levanta contra o órgão: a favor do Benfica. Em suma, livra-se de responsabilidades na polémica e sem abespinhar o polvo. É o recurso a um truque sujo para lavar as mãos.

Ora, o Conselho de Disciplina está a enviar duas mensagens perigosas. Por um lado, deixa implícito que o VAR vai concentrar em si um poder de decisão desmesurado, em última análise maior do que o do juiz principal. Por outro, o CD está a dizer-nos que neste tipo de casos prevalece o parecer do videoárbitro, mesmo que a sua opinião seja contrária à de 99% da nação futebolística. Instituições responsáveis pelo bom funcionamento da prova incluídas.

Em condições normais, Vasco Santos seria convidado a abandonar a arbitragem depois deste episódio, onde só ele, Pedro Guerra e José Marinho não vêm maldade no movimento debulhador de Eliseu, que fez das pernas do jogador belenense um trampolim. Como não existimos num país normal, ratifica-se a decisão e assobia-se para o lado. Alguém, mais tarde, haverá de pagar a fatura.

Mas vamos mais longe. Ainda na terça-feira, o mesmo Conselho que decidiu avaliar a intenção em vez da intensidade no caso Eliseu optou por medir a intensidade em vez da intenção num lance de Derley (Aves) contra o Boavista.

Derley x Boavista

Deliberou o CD que Derley "pontapeou um adversário na cara com força excessiva" no Boavista x Aves. Mas olvidou o facto de, tal como no lance de Eliseu, ter sido uma disputa de bola, onde o jogador do Aves nem sequer se apercebeu a aproximação do guarda-redes adversário. No máximo, foi imprudente. Mas aceitemos a deliberação final do Conselho. Derley foi suspenso por dois jogos, tal como Mabil. Eliseu não. Notam a diferença?

A Liga NOS conta com um organismo regulador que, na mesma reunião, baralhou a própria conduta e utilizou dois pesos e duas medidas na análise a cada caso. Os princípios da racionalidade e da equidade na justiça desportiva já foram abandonados há muito, em prol de uma nova metodologia que obedece exclusivamente a uma cor. É nesta pocilga que boia o futebol português, onde só quem sabe chafurdar, ganha. E consta que há por aí um clube a reclamar a hegemonia.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A bonança imperfeita

Finito. O dia com os minutos mais contados do ano terminou, finalmente. A meia-noite de 31 de agosto, essa espécie reveillon futebolístico, não trouxe novidades de última hora ao FC Porto, o que era expectável. Por outro lado, também não houve raides por nenhuma pedra basilar da equipa. Um dado extremamente positivo, sobretudo no contexto actual.

Não é notícia o facto de o clube estar a passar por uma certa asma financeira, que dificulta a gestão do plantel e embarga os planos para o ciclo desportivo a longo prazo. Por isso, e sem surpresas, o FC Porto fechou o defeso sem qualquer contratação anunciada - além de Vaná.

No capítulo das entradas, o FC Porto perdeu. Perdeu porque tinha de perder. É óbvio que o Dragão procurou boas oportunidades de negócio ou operações financeiras equilibradas para fortalecer a equipa, mas quem se encontra no trapézio, neste momento, é o FC Porto. E a flexibilidade não abunda.

A nau portista sobreviveu ao vendaval do mercado sem rombos no casco. No entanto, continua sem mecanismos de emergência, o que torna qualquer acidente de percurso difícil de reparar. O XI base do FC Porto dispõe de qualidade suficiente para se candidatar ao título nacional, mas o plantel não tem a profundidade necessária para percorrer uma época longa, desgastante, com várias frentes e contra vários adversários. Dentro e fora de campo.

No global, estamos mais fortes, mais mecanizados e mais bem orientados do que no ano passado. Mas temos menos fail-safes.

Definhando a coisa por setores:


Na baliza, sobrevive o síndrome Bolat, que é aquela estranha patologia do FC Porto de comprar um guarda-redes low profile por época para nada. Confesso, quando vi o anúncio da contratação do guarda-redes brasileiro Vaná fiquei ali algures entre o satisfeito e o apreensivo. Satisfeito porque, por um lado, parecia que o FC Porto estava a dar sinais de estar financeiramente vivo e pronto para atacar o mercado. Apreensivo porque esta prática da SAD do FC Porto de coleccionar jogadores da mesma posição, não sendo nova nem exclusiva do nosso clube, é um fetiche que nunca deu grandes frutos, quer do ponto de vista desportivo quer da perspetiva financeira. Não é incomum ver o FC Porto contratar guardiões sombra, alternativas competitivas mas discretas, competentes mas diplomáticas, que saibam aceitar que a condição de partida é o banco. Entendi a contratação de Vaná como o destrancar da porta a José Sá para que o português pudesse ganhar rodagem para o futuro. Mas José Sá não saiu. O que significa que Vaná, que custou €1 milhão, deverá passar os próximos tempos entre a bancada e o sofá. Sobretudo, porque Sá tem uma vantagem assinalável para a restrita lista de inscrições na Liga dos Campeões: é português. Em relação a Fabiano, cumpriu-se o cenário mais provável. A sua presença no plantel é meramente figurativa: quando recuperar da lesão, deverá sair na próxima janela.



O dragão dispõe de três bons centrais e uma dupla que não dá grandes abébias a quem se queira por em bicos de pés. Felipe e Marcano são os zeladores fixos. Reyes estará lá para qualquer eventualidade. E só o pior cenário pode atirar Jorge Fernandes para o lago dos tubarões. Se o FC Porto tinha de cortar por algum lado, este seria um deles. Nas faixas, a permanência de Layún resolve o problema nos dois flancos. Importa saber qual será a disponibilidade psicológica do jogador, que me parece cada vez mais descomprometido do clube. A pior notícia foi a opção de compra com que Rafa foi para Inglaterra. A melhor foi a gripe de Ricardo Pereira. Porque foi apenas isso: uma gripe.


É talvez o que mais me preocupa. Desde logo, porque é o que está mais despido de alternativas directas aos titulares. Leia-se directas, não credíveis. Porque não se discute aqui a qualidade de André André, Herrera ou Sérgio Oliveira. A problemática prende-se com o facto de não existir homens que garantam a mesma estratégia de jogo que Óliver e Danilo fornecem à equipa. Com esta receita, o FC Porto joga de uma forma muito diferente de qualquer outro elenco. O meio-campo Danóli estará exposto a um desgaste absurdo ao longo da temporada, nomeadamente o espanhol, o alvo a abater, para quem uma visita ao estaleiro é mais certa do que Eliseu pisar alguém no próximo jogo. Por outro lado, esta é também uma oportunidade para quem cá ficou preso ao acaso. Moreto Cassamá ou Fede Varela estão à espreita.



Haveria coisa mais natural que integrar Alberto Bueno neste FC Porto? Um jogador cuja melhor fase da carreira foi precisamente num esquema de dois avançados? Se Sérgio Conceição conseguir, e Bueno quiser, o espanhol pode assentar que nem uma luva no plantel e ser mais do que uma mera ferramenta de recurso da equipa. Este ano, o segredo deste grupo passa - e muito - pelas segundas vidas de muitos jogadores proscritos. Reyes, Marega e Aboubakar são exemplos a seguir. Acima de tudo, porque o exemplo partiu deles próprios. Tem a palavra Alberto. Se Aboubakar, Soares, Marega e Bueno garantem profundidade ao centro, o mesmo não se pode dizer dos corredores. Brahimi e Corona são de outro campeonato. Otávio tem dias e Hernâni tem velocidade. E é só. O FC Porto não está apenas sem alternativas ao argelino e ao mexicano, também está dependente da forma - sempre volátil - de ambos.

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No que diz respeito a entradas, o FC Porto não tem grande história para contar. Do lado das saídas, o saldo é positivo. E não estou a falar apenas de números. O FC Porto encaixou cerca de EUR70 milhões com a venda de cinco jogadores, sendo que somente um deles era titular regular em 2016/17. A venda de Ruben Neves é a que menos anima, tanto emocional como desportivamente, porque o médio tinha no modelo actual as condições certas para evidenciar as suas qualidades. Era o jogador mais apto para render Óliver ou Danilo. Deixando a futurologia para Nhagas e Zandingas, tenho a convicção de que Rúben Neves seria o 12º jogador do FC Porto de Sérgio Conceição.

Luís Gonçalves fez um trabalho excecional no alívio da folha salarial. O FC Porto desligou-se em definitivo de Josué, Abdoulaye, Ángel, Tiago Rodrigues e Sami, colocou Zé Manel, Boly e até Adrián López e ainda embolsou €300 mil com o empréstimo de Mikel. Não me recordo, nos últimos anos, de uma dieta tão rigorosa e eficiente. Urgia limpar todo este colesterol e, em grande medida, isso foi conseguido.

Nota final para os empréstimos de João Carlos Teixeira e Rui Pedro. Nada contra, até porque compreendo a necessidade de dar quilómetros e maturidade aos dois. Só não concebo os destinos: Braga e Boavista, dois emblemas que têm sido o espelho do antiportismo na região norte nos últimos anos. Há alianças bem mais nocivas do que certos antagonismos.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Braga 0 x 1 FC Porto | Trivelas & Roscas


Há duas coisas que ninguém deve fazer a um domingo à noite. Jantar feijoada e ver o golo de Corona umas 67 vezes. O primeiro porque é pesado, dá azia e não só. O segundo porque obriga um gajo a ficar de pé até de madrugada, a apreciar cada detalhe da refinada arte do mexicano e a pensar na miríade de coisas que este pontapé pode valer no final da temporada. É que a vitória do FC Porto na Pedreira não vale apenas três pontos. Vale a dobragem de um dos cabos mais tormentosos para os dragões nas últimas temporadas e vale mais uma cauterização dos traumas da equipa, que parece cada vez mais reabilitada para jogar fora de portas sem ter ataques de pânico. A vitória foi curta, mas firme, fechando em beleza o primeiro ciclo da época, onde matámos dois borreguitos com ano e meio (Tondela e Braga) e trabalhámos o suficiente para merecer uma viagem sossegada nos dias de pausa que aí vêm.

Meio-campo orgânico: Braga era um teste de fogo ao miolo reinventado por Sérgio Conceição, onde Danilo assume mais protagonismo à frente e Óliver tem amplitude para iniciar a construção mais atrás. Quer isto dizer que, com o novo treinador, Óliver é menos 8 e Danilo é menos 6, sem deixarem necessariamente de desempenhar os seus papéis-base, sobretudo no momento defensivo. Era interessante testar esta nova dinâmica contra uma equipa mais rija no meio-campo e nada melhor do que a virilidade de Fransérgio e Vukcevic - e depois Danilo Silva - para medir a capacidade do novo motor do FC Porto. Danilo arrancou a sua melhor exibição esta temporada. Mostrou a espaços alguma dificuldade em suster o perímetro, devido à inferioridade numérica no centro do terreno, mas rapidamente acertava o passo, nunca dando muita rédea ao Braga para incomodar Casillas. Já Óliver sofreu o bullying habitual de quem sabe que é ali que mora o supercomputador da equipa. Manteve o bom nível, esgotou cedo.

Corona, o Mexican: Há uma tirada do filme Once Upon a Time in Mexico (Era Uma Vez No México em tuguês) de Robert Rodriguez, onde a personagem interpretada por Johnny Depp (Sheldon) pergunta a Danny Trejo (Cucuy) após um trabalho mal feito: "are you a mexican... or a mexican't?". A piadola assenta que nem uma luva ao nosso Tecatito, que ora é rei no relvado ora tem o rei na barriga. O golo de Corona é fantástico e nem vou cometer a heresia de reproduzi-lo em palavras, o vídeo está lá em baixo. A ação do extremo não se resume, porém, a esse lance. Corona deixou a inconsistência longe da Pedreira e esteve sempre muito activo no ataque e solidário a defender. Sobretudo, quando perdia a bola. A saída precoce do jogo deveu-se à permissividade de Xistra para com a pancada dos bracarenses. Mas nos 45' minutos que esteve em campo, Corona foi mexican.

Laterais: As faixas do FC Porto estão bem entregues. Tanto a defender como a atacar. Alex Telles parece mais apurado nos processos defensivos e Ricardo tem tudo para ser um dos principais municiadores do ataque a equipa - embora ainda tenha de corrigir certos aspectos do posicionamento defensivo. No global, foi mais uma vitória que passou - e muito - pelo trabalho de construção e desconstrução dos dois alas do FC Porto.

Marega: Podem dizer o que quiserem dele. Mas o atual Marega encarna aquilo que eu quero ver num jogador do FC Porto. Raça, resiliência e cara feia. Quem não tem pés, joga com sangue. O polvo precisa de inimigos. Este é um prémio cumulativo para o que Marega tem mostrado no arranque do campeonato, contra todas as expectativas. Não é que o maliano tenha feito um jogaço em Braga, mas tem sido mais útil do que empecilho. Isto para um tipo que chegou a ser debochado em tarjas. O monstro também precisa de amigos.


Meio-campo curto: É orgânico, mas é curto. E quem diz o meio-campo, diz outros sectores. Foco-me especificamente neste porque foi aqui que perdemos mais gás no domingo. André André e, sobretudo Herrera, estancaram o jogo mas não lhe acrescentaram valor. Embora cheguem para segurar uma partida, o português e o mexicano parecem-me insuficientes para constituírem uma alternativa eficaz aos titulares. A época é longa e cheia de incidências. Se o FC Porto perder a veia desbloqueadora de Óliver, não encontra igual no plantel. O mesmo serve para Danilo, da perspectiva defensiva. Curiosamente, o jogador que encaixaria melhor neste novo dinamismo do miolo portista era... Rúben Neves. Não é tão cerebral quanto Óliver nem um tampão como Danilo, mas julgo que seria o único com capacidade de elevar a qualidade de jogo da equipa in media res.

Xistrema: Mais uma voltinha, mais um penalty sonegado ao FC Porto. Mas não é por aí. Esta foi também mais um partida onde tudo foi permitido aos de vermelho, que parece ser o filtro predilecto do futebol português. O Braga tinha uma estratégia de intimidação bem montada, de dar porrada até ao osso, que só seria possível com a cumplicidade de Carlos Xistra. E foi. Mas não é por aí. Irritou-me sobretudo o amarelo mostrado a Ricardo Pereira. Fosse igual o critério usado para ambos os lados, o Braga tinha terminado o jogo com mais amarelos do que táxis em Nova Iorque. Há uma espécie de overcompensation dos árbitros esta época, que parecem fazer de propósito para travar o clube que denunciou a podridão da classe apitadora em Portugal. O polvo está vivo. Mas o FC Porto também. Não será por aí.

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