terça-feira, 21 de novembro de 2017

Habemus Treta


O ano é 2017, mas o Benfica comporta-se como se estivesse em 1984, procurando vedar a realidade com uma narrativa alternativa, retalhada e distópica.

Falo da mais recente iniciativa do clube para tentar apagar o fogo em que está metido no caso dos emails… com fumo.

Um espetáculo absolutamente deprimente e sem ponta por onde se lhe pegue, mais próximo da apresentação de um trabalho de grupo de outcasts do 7º ano do que uma televisão gerida por profissionais da comunicação.

O circo montado por José Marinho foi embaraçoso. O zombie de Vieira prometia petróleo, mas só trouxe areia. Substrato que mais não serve do que para encobrir uma investigação cada vez mais esclarecedora sobre a face oculta da águia.

O "Novo Apito Dourado", assim baptizado - talvez pelos mesmos criativos que pensaram o nome do Novo Banco -, era afinal uma recompilação mal parida do velho Apito Dourado a que se somam umas quantas novas suposições, com a respectiva prova documental a resumir-se a um powerpoint com informação reciclada e extrapolações assentes não em factos mas rumores e opiniões. Sem uma linha argumentativa incontestável, um fio condutor decente, raciocínios aceitáveis, nada. Um freakshow extremamente vazio e especulativo, sem substância nem seriedade, conduzido com o mesmo rigor de uma alpaca a operar um cérebro. Hora e meia de vergonha alheia.

Os últimos meses foram ricos em revelações sobre o que se passa atrás do pano, onde a bola não chega, e mostram como os corredores do futebol são actualmente mais encarnados do que um filme de Stanley Kubrick.

É inegável a existência de uma rede de proteção e favorecimento ao Benfica cujo poder de alcance extravasa os limites do próprio clube. Uma engrenagem movida por gente que se cansou da genética perdedora do Benfica e tentou manipulá-la, alterando as variáveis que preservavam a higiene do desporto nacional.

Ao contrário do triste espetáculo patrocinado pelo Benfica, o FC Porto tem apresentado factos que indiciam a viciação de uma das maiores e mais lucrativas indústrias do país. São factos porque aconteceram. Aconteceram porque já foram directa ou indirectamente confirmados por quem os praticou.

Factos esses que não escondem apenas pressões ou jogos de poder. Indiciam manobras de corrupção, tráfico de influências, coação, ameaças, proxenetismo e outros crimes cometidos por elementos ligados ao Benfica. E isto só na ponta do iceberg.

O "Chama Imensa" é a resposta típica do encurralado. A reação tímida de alguém a quem a carapuça assenta. Uma nova bala mágica que visa atingir o mesmo alvo das anteriores: minar a opinião pública, reescrevendo a História.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Vale tudo

"Todos são rápidos para julgar e opinar sobre a vida dos outros,
mas são cegos e mudos para a vida própria."
Felipe

O que distingue a maioria dos portistas do carnaval que os rodeia é a capacidade de olhar para dentro. Eu, que sou portista por convicção e não de nascimento, sei o que isso é.

No Benfica, já se sabe, o culto é cego. Os benfiquistas defendem o clube como pais defendem o filho bully que rouba a turma e arreia na professora. A culpa nunca é dele, mas dos outros. Sempre.

Já a idiossincrasia sportinguista, sendo mais moderada, anda adulterada por uma espécie de lampionismo agudo que tem contagiado Alvalade à mesma velocidade com que a legionella percorre hospitais. No entanto, não é só na redneckosfera que as bombas rebentam nas mãos dos terroristas morais.

A época arrancou em Agosto. Foi preciso chegar a Novembro para ver o primeiro jogo da época em que o FC Porto sai com saldo positivo da incompetência da equipa de arbitragem. Sim, teríamos perdido pontos na última jornada, em casa, frente ao Belenenses. Mas isso não equilibra nem de perto uma balança que no outro prato tem penalties sonegados contra Estoril, Tondela, Braga, Moreirense e Paços. Lances que só não tiveram influência na classificação porque o FC Porto passou-lhes por cima.

O que ainda é menos justificável é a onda de indignação gerada após a partida no Dragão, prontamente calada pelo karma no dia seguinte, onde o Sporting ganhou um ponto graças a uma actuação desastrosa de Carlos Xistra.

Mais desonesto ainda - e aí entramos no ramo da filha da putice intelectual - é querer associar Fábio Veríssimo ao FC Porto e FC Porto a Fábio Veríssimo, como se viu por aí. Fábio Veríssimo, benfiquista assumido e denunciado, já foi responsável directo por quatro pontos mal atribuídos ao Benfica esta temporada. Nos jogos do seu clube, teve sempre uma invulgar capacidade para descobrir offsides ao milímetro e sem tecnologia. Nos jogos do FC Porto, infelizmente, Veríssimo não aparenta ter o mesmo olho de lince, tendo sido responsável por decisões que podiam ter lesado o clube e desvirtuado a verdade desportiva. Por isso, nem vale a pena tentar perceber a estrutura lógica de um raciocínio absurdo.

O Sporting já percebeu com quem terá de lutar pelo título. Talvez por isso se tenha rendido à hipocrisia habitualmente praticada do outro lado da Segunda Circular. Mas enquanto o mundo debatia os encontrões de Felipe, o Benfica voltou a passar entre os pingos da chuva, beneficiando de uma impunidade que, quando não oferece directamente a vitória, ajuda a construí-la de forma discreta. Pelo meio, o Estado Lampiânico aproveitou para adensar a cortina de fumo que tem camuflado a verdadeira Liga Vale Tudo: a que corre nos relvados e bancadas por onde a passa a caravana encarnada.

Sabemos que o Benfica não gosta de Felipe Augusto. O que é compreensível para quem tem Filipe Augusto.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

FC Porto 3 x 1 RB Leipzig | Trivelas & Roscas


Sérgio, quando li o XI que escalaste para a partida frente ao Leipzig fiquei mais eurocéptico que os Le Pen. Tal como a esmagadora maioria dos portistas, esperava mais presença e proteína no meio-campo e não um motor a dois tempos a competir com a elevada cilindrada dos alemães, como constava do teu esboço inicial. Sou dos que acha que a saída forçada de Marega foi um mal que veio por bem e corrigiu a tua ideia arrojada mas peregrina de despovoar o centro. Nunca vamos saber realmente o que podia ter acontecido se tivesses jogado mais tempo só com dois médios. Na volta, até ganhavas. Mas desta importante vitória sobra apenas uma certeza: a de que criaste um grupo incrivelmente autoconfiante e mais unido do que um sindicato nos anos 80. Até conseguiste por os habituais artistas a solo a preocuparem-se mais com a banda e menos com a performance individual. Esse é o teu maior mérito, ainda que o teu pensamento táctico permaneça, por vezes, difícil de decifrar aos olhos do cidadão comum sem o nível IV do Curso de Treinador da UEFA. Por isso, não me ligues, sou apenas treinador de chaise lounge, que não ganha uma Champions no FM desde o tempo do Chapuisat. Em suma, sou um completo ignorante. E desde que continues a ganhar, vivo bem com isso.


Transcendência: Um dia, na preparatória, houve um concurso de matemática. A participação era facultativa, mas os meus pais incentivaram-me a entrar. Com o mesmo jeito para os números que Paulo Fonseca tem para nomes e a velocidade de raciocínio de um Pesaresi, lá entrei na olimpíada. Fiquei em último ou perto disso e jurei para nunca mais. Hoje em dia, sou analista financeiro. Reparem que o FC Porto nunca se apresenta como o maior de Portugal. Nem como o mais eclético. A força do FC Porto não vem de cima nem de baixo. Não vem das massas nem das elites. Vem da unidade e da união. Vem do trabalho e da vontade. Da cultura de superação que inspira os seus adeptos a vencer na vida. Durante uma boa parte da partida, os alemães foram mais fortes. Mas nós fomos aquilo que realmente somos: melhores.

Mexicanos: Não fizeram grande espada no arranque, mas a reorganização imprevista do tetris do jogo beneficiou-os. Tecatito cresceu com o relógio, destacando-se sobretudo pelo contributo defensivo, onde foi o grande amigo de Ricardo até sair lesionado. Há dias em que Corona percebe que é tão importante ser irreverente a atacar como civilizado a defender e nesses dias as coisas correm geralmente bem ao FC Porto. Já Herrera sentiu as costas quentes com a entrada de André André, que o empurrou para a frente e lhe permitiu concentrar mais na distribuição e menos na cobertura ao centro. Exibição prática, coroada com um golo e assombrada por um ou outro passe criminoso, tão típicos de um jogador que tanto dá pontos como tira anos de vida.



Ideia inicial: Keita, Kampl e Sabitzer não são médios tugas de 28 anos que passaram ao lado de uma grande carreira, nem volantes brasileiros formados no Buscapé de Itaguaçu e negociados pela Traffic. São três bestinhas com cultura de futebol europeu que daqui a um ano (Keita já está reservado pelo Liverpool) estarão em clubes maiores do que o Leipzig, sem desprimor. Se na Alemenha três médios portistas foram insuficientes, dois no Dragão parecia um hospital em greve, deixando antever um abismo aterrador no miolo, sem se perceber muito bem como é que a equipa iria colar setores só com Herrera e Danilo a comunicarem por telégrafo. A verdade é que nem mesmo com André André retomámos o controlo teórico do jogo, apesar de esta ideia de controlar sem ter a bola ser um princípio do qual Sérgio Conceição não vai abdicar.

Lesões: Além de Corona, Marega e logo na altura mais ingrata. Primeiro, porque nos deixa o ataque no osso em vésperas de novo ciclo exigente. Depois, porque o maliano vivia a melhor fase da carreira e temo que esta paragem de mais ou menos um mês lhe possa tirar algum ímpeto. Lembremo-nos que Marega passou de flop a proscrito, a solução temporária, a gajo-que-até-nem-está-a-jogar-mal-mas-quando-Soares-voltar-o-lugar-é-dele, a indiscutível do FC Porto. É uma pena o músculo ter sucumbido quando mais precisávamos dele. Juro que não sei o que é maior. Se o meu desejo para que volte depressa ou se a surpresa por estar a escrever esta frase.

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Segue-se o Belém a contar para aquilo que mais conta, o campeonato. Como tu bem acabas de dizer, Sérgio, amanhã "é ganhar ou ganhar, não há outra opção".

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

FC Porto 6 x 1 Paços | Trivelas & Roscas


Vitória contundente. Resposta enérgica à ressaca de Leipzig de um Porto maduro e frutado, com leve nota artística. O adversário não deu para mais, é verdade. O Paços de Ferreira - a par do Belenenses quando joga contra o Benfica - é equipa que pior defende no campeonato. O sexto golo então é um workshop de "Futebol Primitivo - Como Defendiam as Equipas no Paleolítico", que embaraça qualquer treinador de Elifoot. Mas mesmo perante um castelo de cartas, o dragão achou por bem aplicar-lhe um vendaval ofensivo, o que demonstra a seriedade com que a equipa encarou o desafio. Não é assim tão incomum deixar pontos em jogos que damos subconscientemente como pré-ganhos. Ora porque a displicência pós-Champions se instala nos jogadores, ora porque o VAR está a espetar garfos nos olhos sempre que a bola passeia na área dos adversários do FC Porto. Era crucial vencer e o FC Porto convenceu. Mostrou que o que se passou na Alemanha ficou na Alemanha e que no Dragão as novelas de balneário duram menos que uma embalagem de Donuts na minha dispensa. E olhem que é difícil.

Ricardo Pereira: O golo inaugural é uma sinédoque do festival de ataque que se seguiu. Trocas de bola frenéticas, tabelas eficientes a rasgar a defesa pacense e discernimento em frente à baliza. Ricardo Pereira personificou a exibição do FC Porto naquele lance, sendo ele próprio o maior diabo à solta no meio daqueles girassóis desorientados com tantas estrelas para perseguir. Livre de constrangimentos defensivos, o lateral português é um terceiro extremo. O que é extremamente útil contra adversários que vêm ao Dragão com linhas de montagem mais proficientes do que a da Auto Europa. MVP da partida, Ricardo ainda somou duas assistências ao golo que marcou, na sua melhor performance desde que voltou. Em jogos de maior exigência defensiva, continuo a preferir Maxi. O uruguaio ainda nos vai ser muito útil nesta caminhada. Mas em dias assim, o palco merece ser de Ricardo. Perfeitamente apoiado pelo sidekick Corona e por um ou outro cameo de Brahimi no lado direito, o português quase fazia mais estragos no Paços do que os 50 casuals do Benfica ontem à noite na Vila das Aves.

Herrera: Podem montar a narrativa como quiserem. Podem não gostar daquele passe mais tosco ou daquele AVC da praxe. Podem achar que 60 minutos bons não compensam 30 minutos maus. Podem até recusar-se a perdoá-lo por aquele canto oferecido ao Benfica. Mas Herrera, este Herrera, é importante para o FC Porto. Com o mexicano em campo, a equipa joga de forma diferente, com maior velocidade nas transições e mais pragmatismo no ataque. Perde no domínio e capacidade de retenção da bola que Óliver dá, mas ganha na verticalidade e no jogo directo. Umas vezes seguro, outras desajeitado, Herrera encontrou nesta versaodo FC Porto a melhor forma de manifestar o seu futebol pendular. O único problema do mexicano é o binómio de opiniões em que vive - e para o qual ele activamente contribuiu no passado -, que leva os adeptos portistas a ter posições extremadas sobre a sua utilização. Não é incompatível com Óliver. Nem o complemento perfeito do espanhol. É somente diferente. Quem ganha, somos nós.

Marega: O facto de ter bisado torna-se quase irrelevante perante isto. E isto é o que eu quero ver na minha equipa nos próximos 100 anos. Um jogador à Porto.





Desequilíbrios: Há resquícios de Jorge Jesus em Sérgio Conceição. A forma como a máquina funciona de José Sá para a frente têm de agradar a qualquer adepto que pague para ver o FC Porto jogar, mas há coisas a melhorar. Nomeadamente, o equilíbrio na gestão do jogo. É bonito vermos o FC Porto inclinado para a frente, numa busca interminável pelo golo, sobretudo quando passámos os últimos quatro anos a vê-los passar para o lado ou para trás. Contudo, a equipa parece por vezes não perceber ou respeitar esses equilíbrios e embebeda-se, tal como nós, na vertigem ofensiva. O golo de Welthon nasce de uma perda de bola em zona proibida e numa altura em que o ímpeto era tanto que a equipa se esqueceu de como se devia distribuir no meio-campo. Um pormenor que não belisca mas que pode vir a fazer ferida se não for corrigido no futuro.

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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

RB Leipzig 3 x 2 FC Porto | Trivelas & Roscas


Não adianta andar a dar voltas ao peixe no prato, porque vamos ter de o comer. O FC Porto jogou mal e perdeu bem. Jogou mal porque Sérgio Conceição se colocou a jeito, invocando uma opção técnica bizarra que ou esconde um conflito interno ou expõe a jesuíta presunção de cunhar os grandes jogos com notas de autor. Perdeu bem porque o RB Leipzig foi superior em quase toda a linha. A margem mínima é mesmo o único conforto de um jogo que descambou cedo e podia ter terminado pior. A derrota em Leipzig nada compromete, mas intrinca as contas de um grupo onde qualquer equipa pode ganhar a qualquer equipa. Vale que temos dois jogos Dragão -- o verdadeiro, não a cópia alemã -- e isso pode ser determinante para garantir o bilhete que resta para os oitavos. Sim, o do Besiktas já ninguém lho tira.

Brahimi enquanto durou: Numa partida genericamente péssima, sobram duas ou três notas de registo. Brahimi é uma delas. Não tanto pelo esclarecimento, mas pela forma abnegada como tentou carregar o FC Porto para a frente. Na primeira parte, foi o único escuteiro da equipa. Parecia que só ele tinha bússola para se orientar no meio do eucaliptal que era o Leipzig, tal era a quantidade de jogadores alemães por metro quadrado. Além disso, os poucos lances corridos de perigo do FC Porto passaram quase sempre pelo seu crivo.

Óliver: Embora fosse mais baixo do qualquer médio em jogo quando entrou, Óliver trouxe água fresca, estabilidade e bola ao meio-campo portista. Foi o homem certo na altura errada, pois os seus passes geométricos encontraram os companheiros já em declínio físico e anímico. Acima de tudo, fica patente que Óliver, não sendo insubstituível, é singular na equipa. Se a ideia é ter mais bola, ser menos vertical e mais soberano no centro, o espanhol tem de lá estar. Se o plano é ser mais rápido na transição, objetivo e ultra-vertical, o espanhol tem de sair. Não existem é receitas permanentes e ontem pedia-se mais da primeira do que da segunda.


Sérgio Conceição: A derrota pode até nem ser da sua responsabilidade, mas a má exibição da equipa é. Com Casillas e Ricardo em campo, é discutível afirmar que o resultado seria outro, mas é pouco provável que a equipa apresentasse o mesmo desnorte defensivo que mostrou na primeira metade. Sobretudo porque Iker é muito mais do que um homem entre dois postes. Se o FC Porto tinha chegado ao 12º jogo oficial da época com apenas seis golos sofridos, não o devia apenas às luvas do guardião espanhol mas também à sua capacidade em liderar e organizar a defesa. Dificilmente a opção técnica de trocar Iker por Sá é uma passagem de testemunho ou um capricho pessoal de Sérgio Conceição, que já provou ser mais inteligente do que o jogo de ontem demonstrou. E a ter havido um choque entre os dois pesos pesados do balneário, Casillas e Conceição, só existe uma solução possível: resolvê-lo. O quanto antes e para bem do FC Porto.

Meio-campo inoperante: O jogo de ontem ficou inevitavelmente marcado pelo arranque em falso, que enervou toda a equipa, mas o golo do empate - caído do céu - foi uma oportunidade desaproveitada para começar de novo. A somar a uma defesa já tremida, o meio-campo dos primeiros 60 minutos foi incapaz de colar sectores e ganhar segundas bolas, com Danilo a tentar apagar os incêndios que deflagravam à sua volta com apenas um balde de água e Sérgio Oliveira sem andamento nem poder de choque para ganhar duelos aéreos. Já Herrera demorou 45 minutos a decidir se queria ser um 8 ou um 9,5. Acresce dizer que os alemães também foram tacticamente superiores e pareciam conhecer (bem) melhor o FC Porto do que o FC Porto a eles.

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