terça-feira, 13 de junho de 2017

Cortina de fumo



“É mais importante ter pessoas na Liga do que contratar bons jogadores”. Isto foi dito em 2006 pelo responsável máximo de um clube nacional. Era o arroto desprevenido de quem quebrava um longo jejum de 11 anos.

Fast forward mais onze anos.

Em 2017, a Liga de Clubes legitima o cartilhismo e aprova a presença de dirigentes de clubes nos espaços mediáticos de comentário.

Em 2017, a Liga de Clubes considera peregrina a ideia de penalizar emblemas que apoiem claques ilegais com homicídios voluntários no currículo.

Em 2017, a Liga de Clubes diz que é premente castigar o arremesso de fumo de cigarro eletrónico, saliva e outras substâncias que não água benta na área técnica.

Em 2017, a Liga que despreza o que é crucial para a credibilidade do futebol português é a mesma que arranja tempo para alinhar em achincalhamentos pessoais.

Ironicamente, as assembleias-gerais daquele organismo são, por estes dias, como reuniões do colégio episcopal. Há dois ou três clubes que (ainda) estão nisto pela fé no futebol. Mas os restantes só lá andam a lamber a anilha ao sumo pontífice. Ou, como quem diz, para seguir religiosamente os “mandamentos” a troco de uns dízimos que dão jeito.



O alternativo para 2017/2018
As duas resoluções de ontem são sintomáticas. O polvo entranhou-se nas mais variadas instâncias do país, aproveitando o nacional-benfiquismo de quem as dirige.

E assim se lança uma cortina de fumo sobre as denúncias do FC Porto, do Sporting, de Marco Ferreira e de todos aqueles que não embarcam na cientologia lampiânica.

O BenficaGate, ou Apito Divino, não terá consequências legais. Não adianta rezar, nem esperar por milagres.

Mas ajudará a tirar a “imaculidade” a um emblema que nunca a teve mas sempre a vendeu.

Ajudará a perceber porque é que o Estádio da Luz é a apelidado de Catedral, porque é que o pasquim Abola se auto-intitula a bíblia do desporto, porque motivo a nossa Justiça peca tanto e porque razão há uma vaca sagrada com uma dívida de mais de €600 milhões ao Estado à solta no prado que é este país.

Ajuda também a destapar o resto do rebanho. Porque os bois têm nome. Guerras, Gomes da Silvas, Goberns, Cervans, Delgados, Garcias, Marinhos, Brazes e Aguilares.

A religião tem destas coisas. Para o bem ou para o mal, ilumina-nos.

Hoje, o Estado Lampiânico "manda mesmo". Hoje, o Estado Lampiânico é tudo.

Clubes, Liga, Federação, APAF, Comunicação Social, PJ, PGR, Governo. Tudo.

É obra.


Amén.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

São Bento, São Pedro, San Iker

Sempre defendi que política e futebol devem ser como água e azeite -- e não como água e sal, como realmente são. Dois campos de tal forma dissolvidos um no outro, que não se percebe com clareza onde se ergue a fronteira entre ambos. Duas esferas que, devido às próprias enfermidades, deveriam estar em alas diferentes do asilo. Contudo, como o respeito não abunda, nem pelos portugueses, nem pela verdade, lá tivemos um domingo eleitoral e futebolístico ao mesmo tempo, algo nunca antes visto por cá e que deixa um certo saveur a Estado Novo, quando o futebol era utilizado como instrumento de alienação das massas.

Um domingo tão crespo que pôs o santo Pedro (o divino, não o da divina comédia) a chorar compulsivamente, com dó dos habitantes deste rectângulo à beira-mar prostrado. Por uma miríade de motivos, foi-me impossível assistir à partida pela televisão, tendo o coração ligado à máquina, que é como quem diz o livescore, algo que odeio profundamente. Um camarada meu baptizou-o engenhosamente de “futexto”. Ou a pior forma de acompanhar uma partida de futebol. Relembra-me aquelas tardes de domingo passadas a assistir modalidades de pavilhão no Canal 2 só para camuflar a ansiedade oculta de que ver surgir aquela bolinha no canto do ecrã que anunciava o golo dos jogos do campeonato. Não saber o que passa quando sabes que se passa alguma coisa é corrosivo para o nervo.

Mas vá, as pulsações normalizaram na segunda parte, quando o frasco do ketchup perdeu a tampa e os golos sucederam em catadupa. Primeiro Corona, depois Brahimi, cujo nome é parecido com Brahma, a bejeca brasileira, e que me fez pensar que no Dragão estava em curso uma verdadeiro Oktoberfest. De seguida, uns vinte minutos sem nada no telemóvel e, finalmente, Osvaldo. O tal que veio passar férias a Portugal e que parece demasiado ativo e empenhado para um procrastinador. Até abraçou o roupeiro. No FC Porto, engoma-se com classe. Quando o pensamento já estava em Varzim, marcou Marcano. O espanhol já merecia o golo, por todos aqueles que tem ajudado a evitar aos adversários. Tem sido imperial neste início de temporada, sendo um dos elementos mais discretos desta formação. E discreto é o supremo elogio que um defesa-central pode receber. Não está lá para ter protagonismo, mas para o roubar. Cumpre quase sempre.

Já esta segunda-feira, Casillas revelou aquilo que já todos líamos na sua expressão: está a desfrutar novamente dessa mui nobre arte de jogar à bola. Madrid estava demasiado radioactivo para o lendário guarda-redes espanhol, que ontem voltou a evitar males maiores à equipa ainda antes dos motores estarem plenamente aquecidos. Gosto disto. Há portismo a crescer dentro deste homem. Quem diria?

Aliás, se há um ano me dissessem que, em 2015, Jesus ia para o Sporting, Maxi para o FC Porto, Casillas estaria a defender a baliza do Dragão, o nosso meio-campo teria uma contratação de 20 milhões, Aboubakar ia fazer esquecer Jackson Martinez ou o PAN ia eleger um deputado para a Assembleia recomendaria de imediato o internamento desse indivíduo no Júlio de Matos.

Dado que não vi o jogo, salto as apreciações individuais. Recomendo, contudo, uma passagem pela coluna Bluegosfera aqui ao lado, onde estão disponíveis algumas prosas saborosas, que vos ajudarão a passar agradavelmente um dia mais cinzento do que o negócio da porta 18. Consolidamos a liderança, mas não nos livrámos do empecilho parceiro desta coligação inusitada e indesejada. Ainda.

Quanto às legislativas, bom. Algo me diz que não ficaremos por aqui. A coligação Portugal À Frente venceu na urnas, mas perdeu no Parlamento, falhando a maioria absoluta, o que deixa o futuro em São Bento sob suspense. Se a esquerda se mantiver fiel à sua filosofia, não haverá blocos centrais. O que fará com que este governo veja o seu programa eleitoral vetado no Parlamento. Mesmo que subsista, enfrentará uma maior dificuldade na aprovação de novas reformas económicas. Tudo muito bem embrulhado poderá redundar em eleições antecipadas daqui a um ano. Tem a palavra o sr. Presidente da República.

Não, não me esqueci de ti. Guardo sempre o melhor para o fim. Rápidas melhoras, campeão.

Goleada, três pontos, vitória antes da paragem, liderança. Perfeito.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Hipocri-Leaks

Caiu que nem uma bomba em Hamburgo, sob o falso signo da imparcialidade clubística e aparentemente preocupado em expor a face oculta do futebol português.

Debaixo do sugestivo nome Football Leaks, ei-lo, o novo Assange dos relvados tugas, autoproclamado purgador das impurezas do dirigismo português, que se diz farto de “fundos, comissões e negociatas” da modalidade em Portugal. Whistleblower dixit.

Nada contra e até aplaudiria este projecto noutra circunstância, não houvesse por detrás de todo este teatro de vigilantismo um aspeto que o desmascara e descaracteriza: a agenda do autor. Mais encarnada do que as paredes de Pamplona depois de uma tomatina.

Não suporto ideais movidos a hipocrisia. Detesto protótipos da razão fundamentados em ópticas pessoais e não em valores universais.

Depois, mesmo que o observador não consiga escapar às suas próprias inclinações, não basta escolher um nome que cola, colocar a máscara de Guy Fawkes, disparar uns quantos chavões da ética e no final remover apenas parte do cancro. É preciso extraí-lo todo. A justiça não é uma sinédoque. A justiça não admite cartilhas.

Mas este jovem diácono que decidiu exorcizar o futebol português traz mais do que a mera missão de equilibrar a balança. Pretende fazê-la pender para o lado que lhe convém. Ou que convém ao seu coração.

O referido site, que em menos de 24 horas, abriu todas as torneiras de Alvalade, despindo praticamente todos os negócios controversos do Sporting, quis provar a sua equidade, mostrando que o seu leque também cobre o FC Porto e o Benfica.

Um projecto interessante com uma agenda interesseira.

Só que no caso do primeiro, o blog diz apenas meia verdade. Alerta que o FC Porto detinha, a 15 de Setembro, uma dívida de quase €10 milhões relativa à transferência de Giannelli Imbula. Mas não diz o resto.

Já não é a primeira vez, nem será a última, que o FC Porto falha datas de pagamentos contratualizadas, precisamente porque há quem esteja na mesma situação para com o FC Porto. O dinheiro ainda não nasce das árvores, pelo menos, no Norte do país.

Além disso, o respectivo autor do leak esqueceu-se do mais importante. Actualizar-se. Que é o mesmo que dizer: desviar e digitalizar a missiva mais recente enviada pelo Marselha ao FC Porto, que data de 24 de Setembro. Exactamente aquela que confirma a recepção dos pagamentos em atraso, anulando assim a dívida de €9,65 milhões ao clube francês. Talvez o scanner do pirata tenha metido água inoportunamente.

Já em relação ao Benfica, o site usa a verdade para reforçar a mentira. Ou seja, assiste-se a uma espécie de fogo posto e apagado logo de imediato.

A história foi seleccionada a dedo. Quase apetece falar em toque de Midas para recuperar uma expressão tão celebrizada aqui na 2ª Circular. O ERPA, ou acordo de participação do fundo (no caso, a Doyen) nos direitos de um jogador (o protagonista é Ola John), "denunciado" pelo whistleblower é provavelmente um dos negócios menos interessantes que o espólio de relíquias benfiquista tem para oferecer nessa matéria.

No fundo, a aquisição de Ola John foi um processo muito semelhante à contratação de Brahimi pelo FC Porto. O clube paga e depois cede uma parte do passe, que no caso do Benfica foi a totalidade.

A exposição em nada belisca o Benfica; pelo contrário. Passa um atestado de competência a Luís Filipe Vieira, que, pelo que conta a documentação, conseguiu amortizar o prejuízo de um jogador de dois dígitos de milhão que pouco ou nada rendeu no clube, imputando o risco a um fundo de jogadores. Pausa. É aqui que aplaudimos?

Este negócio até pode fazer o presidente do Benfica corar pelas voltas que o passe deu na máquina de lavar, mas está longe de expor qualquer fissura que não fosse conhecida sobre os contornos da dita transferência.

O Football Leaks afirma querer "mostrar tudo". Mas, por vezes, mostrar tudo é uma boa forma de esconder o essencial.

Rei Midas.
Não menos inocente foi a forma como toda esta documentação chegou à mãos de individualidades ligadas... ao Benfica, há várias semanas, ainda antes da existência do referido site. Isso ou Pedro Guerra e António Simões assinam a newsletter dos Anonymous.

Em todo o caso, o propósito destas fugas de informação é claro: desestabilizar dois alvos em particular e camuflar outro.

Não viro a cara ao problema interno. Preocupa-me o rombo na blindagem no caso do FC Porto, pois é inconcebível que informação desta natureza caia nas mãos erradas. Não é um bom princípio, mas é evitável.

Nope. Não sou seguidista. Folgo em saber o que se passa dentro do meu clube. Contudo, não acredito na idoneidade de quem cava de um lado para tapar buracos do outro.

Para o autor do recém-criado blog, que diz pretender desparasitar o futebol nacional, deixo alguns desafios. Todos simples, para quem parece ter o dom da ubiquidade:

i) que tal levantar um pouco mais do véu sobre os telefonemas que o ex-árbitro Marco Ferreira tentou denunciar ao país?
ii) que tal escrutinar as várias vendas de €15 milhões do Benfica, sem que as mesmas tenham sido comunicadas à CMVM, como exige a lei dos títulos cotados em bolsa?
iii) que tal elucidar como funciona realmente a relação Jorge Mendes/Benfica?
iv) que tal colocar a nú o mercado de commodities da porta 18 ou as escutas do Apito Vermelho?
v) que tal explicar como alguns membros afiliados ao Benfica chegaram à posse dos referidos documentos antes de os mesmos caírem no espaço público? Existe uma comissão de censura no Football Leaks? Um lápis azul? Ou será vermelho?

Para já só Doyen, FC Porto, Sporting, Imbula, Falcao, Mangala e Defour. De outras latitudes, zero.

Ansiosamente à espera de novidades.

A podridão não grassa apenas onde o coração não sente. A menos que sejamos desonestos a ponto de não conseguir olhar para dentro. Se é esse o caso, mais vale arrumar a capa na gaveta. Heróis com agendas nunca salvaram o que quer que fosse.

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Nota Final I: Quem me acompanha já terá certamente notado que não tenho analisado os jogos do nosso FC Porto na Liga dos Campeões. Isto porque, infelizmente, só consigo ver 20 a 30 minutos dos referidos encontros, o que me deixa sem qualquer hipótese de fazer uma avaliação correcta, fundamentada e estruturada, de forma atempada das noites europeias do Dragão. De qualquer forma, na coluna desse maravilhoso mundo que é a Bluegosfera é possível encontrar óptimas leituras sobre a vitória de terça-feira, ante o Chelsea.

Nota Final II: A Assistência ao Cliente da BuzzTrade.com não mentiu e a empresa deu uma conferência de imprensa conjunta com o clube a anunciar a parceria esta semana. Para já, cai o mito. A BuzzTrade não será o principal patrocinador do FC Porto este ano. Expectável.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

1893

Mil oito noventa e três.

O timbre dos algarismos ecoa repetidamente na mente.

Carregam o poder de me despertar da letargia em que me encontro.

Faça chuva, vento ou uma improvável tempestade de areia à George Milller, sorrio.

Nada é eterno. Nem o meu FC Porto. Extinguir-se-á um dia, mesmo que resista até ao fim dos tempos, quando o sol desistir de pulsar.

Afugento estes demónios existenciais de pensar no futuro após o futuro. Foco-me no presente.

Recupero uma antologia antiga da prateleira. Assenta-lhe bem a poeira. Confere-lhe peso. Quase me sinto indigno de tirar aquela capa empedernida do repouso secular.

1893, lê-se.

O ano em que se "apurou um grupo rijo de jogadores para medir-se contra os clubmen de Lisboa".

Raça que se perpetuaria no tempo, afrontando a tão humana mortalidade.

Invade-me uma profusão de sentimentos. Ali entre o orgulho e a nostalgia. Recordo mil golos, vitórias para lá do que é possível contar.

Resgato fotogramas encravados na memória sideral. Onde nem licença tenho para entrar voluntariamente.

Deixo o subconsciente apoderar-se de mim e gozar aquele momento. Folheio páginas que sei de cor, que leio antes de os meus olhos abraçarem as palavras.

É um livro velho, comprado num alfarrabista septuagenário ou esquecido no meio de uma herança qualquer.

São as minhas Teses de Abril. A minha Bíblia. O meu Conto de Duas Cidades, a minha e a do meu coração.

Cravejado de defeitos e feitios difíceis. Estórias mal contadas, histórias bem adornadas. Sucessos, acima de tudo, sucessos. A quintessência do meu FC Porto desdobrada em signos, palavras e epígrafes que marcaram o seu passado.

Deixo-me envolver.

Rendo-me a um passado de honra e de luta que pagava para viver. Sinto o aroma do couro gasto que não existe. Na verdade, é mais uma armadilha do cérebro. Amante de uma cultura tão própria.

Nobre, diferente, invicta. Acima de tudo, nossa. Entrego-me ao sentimento de pertença e a tudo o que ele encerra.

Recordo o anteontem, o ontem e prenuncio o amanhã. Penso no quanto me alegras, irritas e no quanto anseio ver-te de novo. Uma e outra vez.

Podes fazer-me sofrer como nunca.

Mas eu vou estar cá sempre.

Parabéns.


sábado, 26 de setembro de 2015

MFC 2 x 2 FC Porto: Estranha forma de vida

À hora a que vos escrevo esta análise ainda sinto a alma vazia. Já não são nervos, mas decepção. Tento encontrar a melhor forma de descrever o que aconteceu em Moreira de Cónegos, não consigo. Julgo que o texto de hoje vai acompanhar a mediocridade da equipa de ontem. Mas ao contrário deste FC Porto de Lopetegui não vou andar a dar voltas ao relvado para chegar onde quero. Vou optar por por uma solução mais directa e eficaz de diagnosticar o problema. Precisamente o que os dragões deviam ter feito ontem.

O clássico não mentiu. Os momentos de brilho deste FC Porto escondem sérios problemas. Daqueles que comprometem mais do que apenas um jogo. No Comendador, não é a primeira parte cinzenta ou a falta de criação que preocupa. Estávamos cientes das dificuldades desta partida e só por muita ingenuidade alguém poderia pensar que este jogo se tornaria fácil. O mar de sofrimento era expectável. Até por estar ensanduichado entre dois dos encontros mais importantes da temporada: Benfica e Chelsea. Não, o que faz arrancar cabelo é a alma quebradiça destes jogadores.

O FC Porto 2015/16 tem duas condições do que começam a espoletar imensa comichão nos adeptos: sonolência e tremedeira, sobretudo fora de casa. Mas se a primeira é apanágio deste dragão quando se apanha a vencer e já sucedia, em maior ou menor grau, com outros treinadores ao leme, a segunda é uma novidade aterradora, que só estava habituado a ver noutras paragens. É inconcebível que uma equipa como a nossa, depois de fazer tudo e tudo fazer para chegar finalmente ao 1-2, se tenha diminuído perante um Moreirense. Mas desde quando? De onde herdámos esta súbita ansiedade? Onde pára aquele FC Porto que não deixava fugir vitórias? Perturbador.

A inoperância desta equipa chega a atingir níveis incompreensíveis, sobretudo porque a mesma já nos mostrou que pode fazer bem, mas bem melhor. Isto já não é fado. É culpa própria.


MAIS
André André: Foi dos poucos que foi transportando com sucesso a equipa para a frente. Faltou-lhe Imbula no apoio, uma vez que Herrera passou ao lado do jogo. Inconformado de sangue, André André foi preponderante no assalto ao segundo golo e voltou a vincar, uma vez mais, a importância de ter um jogador de combate no onze. Não sendo criativo nato, André André mostra dificuldades a decidir rápido, sobretudo em espaços curtos e sobrepovoados, como foi ontem a linha média do Moreirense, que plantou quatro homens no meio-campo. Contudo, o jogo do FC Porto tem passado cada vez mais por ele e pelas suas acções transversais em campo. É o pêndulo da equipa, garantidamente.

Maicon da primeira parte: Eficaz a defender e forte no passe longo. Esteve atento, concentrado, sem disparatar e ainda mostrou aos companheiros o segredo para bater aquele que é, sinceramente, um dos guarda-redes mais frágeis da primeira Liga: rematando. Excelente golo de livre directo, que demonstra treino e empenho do jogador em trabalhar esse capítulo. Quase apetece dizer que Maicon é o único que aparece na cadeira de Bolas Paradas, pois foi igualmente de uma cabeçada sua que saiu primeiro lance de perigo através de um canto que o FC Porto produziu em meses.

Casillas: Fez o que podia ter feito. Adiou o que começava a parecer inevitável até onde foi possível. Mas quando um tanque como André Fontes lhe surge, sem marcação e com embalo, apenas dois metros à sua frente, é desonesto pedir-lhe mais. É um redes de craveira mundial e tem-no provado desde que chegou ao FC Porto. Foi um dos que sacudiu males maiores ao FC Porto no clássico e, ontem, pela sua cara depois da partida, deve ter sacudido aquele balneário no final dos 90'. Com razão.

Danilo: Boa presença física e sempre muito disponível no seu raio de acção, foi eficiente na contenção a Gomes e Battaglia, que minaram sempre o seu território e não lhe permitiram grandes incursões no ataque continuado.


MENOS
Herrera: Era capaz de jurar que ouvi Job a gritar com ele ontem. Herrera é exasperante. É fácil perder a paciência com o mexicano. Porque não estamos a falar de um tipo que foi convidado à última da hora para fazer uma perninha no Moreirense x FC Porto. É um profissional de milhões. E para os milhões de que estamos a falar, a forma como erra passes simplicíssimos, falha recepções básicas e demora a executar é inaceitável. Passou uma hora a navegar na maionese, parecendo mais preocupado com a infinitude do universo do que em pressionar o adversário e em não deixar fugir Battaglia. Confesso que antevi isto tudo aos cinco minutos, quando o mexicano desperdiçou um dos centros mais fáceis da sua carreira e que tinha tudo para acabar na cabeça de Osvaldo. Herrera não sabe lidar com os próprios erros. E creio que nunca se libertará disso. Neste momento, é apenas mais um jogador do plantel, o que faz dele um jogador a mais.

Lopetegui: Há uma razão para um plantel ter 25 elementos e não apenas 11. A rotação promovida por Lopetegui era necessária e não me pareceu exagerada. Dada a carga física dos dois jogos que balizavam este encontro, era importante fazer descansar alguns dos jogadores mais expostos ao esforço. Não é por aí. O problema é a incoerência do técnico basco na leitura que aplica ao jogo em partidas diferentes. O mesmo treinador que tirou Varela antes do intervalo contra o Estoril, manteve um Herrera bem pior em campo durante cerca de uma hora. A verticalidade do mexicano é incompatível com espaços demasiado exíguos e pouco terreno para correr. Lopetegui sabia disso. Ainda assim, preteriu de Evandro, Sérgio e até Bueno na convocatória. Depois, voltou a insistir em alterações posicionais que partem a equipa. Nos últimos 180 minutos, o FC Porto apresentou quatro desenhos tácticos diferentes. Colocar a carne toda no assador a vinte minutos do fim deu frutos. Mas este FC Porto está programado para reagir e não para agir, o que por si só é um mau princípio. Pede-se mais, Lope. E tu tens capacidade para isso.

Maicon da segunda parte: A concentração e assertividade do brasileiro ficaram na cabine ao intervalo. O golo de Iuri nasce de uma triangulação do Moreirense só possível pela precipitação de Maicon, que ataca o espaço vazio e convida o avançado português ao sprint. Líder dentro de campo, Maicon deve ser a voz que equipa precisa quando procura tranquilidade e não um exemplo desse mesmo nervosismo. Acabou por se afundar lentamente no mar de mediocridade da equipa e a lesão também não ajudou, forçando-o a fazer os últimos dez minutos em esforço.


Momento: Minuto 84'. Maxi alivia uma bola para as couves. Minto. Devidamente corrigido pelo SilvaAboubakar isola Osvaldo com um belíssimo passe, com o italo-argentino a atirar de pronto para uma baliza deserta, sem Stefanovic. Seria golo se André Micael tivesse desistido do lance. Um pormenor que mudaria tudo. Mas que não explica nada. É eufemismo apontar a culpa do resultado ao triste fado ou à embirração do destino com o FC Porto. Cabia-nos fazer muito mais do que esperar que bolas pingadas na área dessem descanso. Fomos nós quem descansámos após o primeiro golo e nunca mais vivemos descansados depois do segundo. Outro FC Porto, que não este, impediria que o nervo se instalasse na recta final. Mas fomos pequenos precisamente quando urgia que nos agigantássemos. 


Pormenor: Já não consigo perceber se o abalo sísmico de Kelvin aos 92' foi uma benção ou uma maldição. Ou ambas. É que desde essa noite memorável como nenhuma outra, o FC Porto nunca mais voltou a marcar em cima ou para lá dos noventa, oferecendo-nos uma daquelas vitórias que parece ter sido salva de um avião segundos antes deste se despenhar. Daquelas que valem campeonatos. Digo isto porque senti, logo após o 2-2 aos 87', que o resultado estava feito. E ainda me lembro dos tempos em que havia esperança noutro desfecho. Em que sobrava sempre mais um sopro de vida para conquistar a vitória. Este FC Porto reage mal a resultados adversos. E, ontem, até foi alérgico à vantagem.

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Depois da vitória no clássico, era importante dar continuidade à senda, até porque o este dragão tinha o hábito de cravar as garras na liderança. Não aconteceu e vamos, certamente, cedê-la hoje.


Lopetegui tem muito trabalho pela frente, sobretudo pedagógico. Este plantel do FC Porto possui em potencial o que tem em fragilidade. Se Lopetegui não for cola para unir os cacos, vamos ver o FC Porto perder mais pontos fora de casa. Todos os medos são progressivos. Crescem e diminuem conforme as experiências que vivenciamos com eles. E chegaremos à conclusão que somos o nosso maior receio.

Vamos ter mais de um mês para preparar novo embate contra este recém-criado fantasma. Só voltaremos a sair de casa a 31 de Outubro, na deslocação à Madeira, para defrontar a União. Cabe ao treinador capitalizar esse tempo. É fundamental mostrar-nos a nós próprios que o dragão não é raquítico.

Estranha forma de vida tem este meu FC Porto.