segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O elefante na sala

Irónico. No dia em que o FC Porto disse oficialmente "olá" aos sócios e adeptos no Estádio do Dragão, foi o "adeus" de Adrián López um dos pontos mais badalados da festa azul-e-branca.

Adrián não foi apresentado e, embora não tenha almoçado o mesmo que Ciani, está naturalmente de saída, algo entretanto confirmado pelo próprio Lopetegui.

A notícia em si não é novidade. A utilização do jogador na pré-época apontava para este desfecho. Mas não deixa de ser um alívio.

Não apenas porque o jogador estava claramente desenquadrado com a realidade do FC Porto, não se vislumbrando sinais de uma epifania iminente, como era/é um dos atletas com mais peso na folha salarial do clube.

Mas acima de tudo, porque o FC Porto decidiu finalmente olhar para o elefante que havia na sala.

Adrián chegou há um ano com carimbo -- e preço -- de craque. Vinha directamente do vice-campeão europeu, onde tinha somado 39 jogos em 2013/2014, às ordens de Diego Simeone. Era a principal alternativa a David Villa, jogando normalmente como segundo avançado no apoio ao ponta-de-lança, sendo ainda uma das opções aos contratempos de Diego Costa, como aconteceu na final da Liga dos Campeões, frente ao Real Madrid.

Foi um jogador que mereceu total confiança de El Cholo -- que não é fácil de agradar --, sendo o suplente mais utilizado pelo técnico nas liga espanhola (22 jogos) e europeia (9).

E se mesmo assim o currículo do jogador levantasse dúvidas, a história recente encarregava-se de dar razão aos mais optimistas. Afinal, José Antonio Reyes e Eduardo Salvio também não eram titulares no Atlético.
Chegou em 2014, mas nunca parece ter "chegado".

Sabia-se que a contratação de Adrián envolvia um certo grau de risco. O preço pago pelo FC Porto na operação foi um fantasma que a comunicação social nunca se cansou de alimentar. Mas se os "11 milhões por 60% do passe" já assombravam mesmo antes de o jogador aterrar no Porto e o valor e talento do avançado nunca foram questionados, já o compromisso do mesmo para com o projecto foi matéria que levou muito tempo até ser encarada de frente.

É natural que toda a atmosfera à volta da contratação de Adrián lhe tenha dado uma margem de tolerância bastante maior do que a de outros jogadores. Aconteceria o mesmo com Imbula. Aconteceu com Herrera durante algum tempo. Jogadores nos quais a estrutura portista deposita tamanha confiança que acredita que dificilmente flopam.

Mas a verdade é que Adrián foi um tabu que se arrastou durante demasiado tempo. E não pela sua escassa utilização, lesões, pela falta de enquadramento na táctica de Lopetegui ou inadaptação à cidade ou ao país. O que realmente transformou o jogador num caso cada vez mais constrangedor foi a sua incompatibilidade com o espírito e a filosofia portista; que é o mesmo que dizer: falta de empenho e vontade.

Sim, Adrián López podia e devia ter feito mais. Não melhor, apenas mais. Para si e para o clube. Compensar com raça o que não conseguia dar em contributo prático.

E se, mesmo assim, o sucesso colectivo não estivesse no topo das suas prioridades, aproveitar o espaço e o estatuto que trouxe na bagagem para o FC Porto, a montra europeia e a oportunidade de ganhar enriquecer o palmarés para relançar a própria carreira.

Tivéssemos um pitbull em rehab -- e não um koala com sono -- em campo e Adrián não seria a bota incómoda que a estrutura e a equipa técnica portista demoraram a descalçar.

Nós, a SAD e o próprio Lope esperávamos todos muito mais. Contudo, a decepção com Adrián (aliada ao preço que custou) foi tão pesada que o transformou num elefante demasiado gordo para uma sala tão curta. Até anteontem.

Ao atleta, votos de boa sorte na sua próxima aventura, por empréstimo ou em definitivo. É novo, ainda vai a tempo. Mas um conselho: não é só o jogador que tem de caber no clube, o clube também tem de caber no jogador.

2 comentários :

  1. Agradeço muito reconhecido a sua disponibilidade manifestada no comentário colocado no m/ blogue MP. Apenas não respondi antes porque estive uns dias sem internet. Entretanto...Já coloquei este blogue na lista dos meus blogues, no "Memória Portista".
    Armando Pinto

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    1. Eu é que agradeço o serviço que o amigo presta ao portismo e aos portistas.

      O seu blog figura também aqui numa secção especial, pois é para mim uma espécie de museu virtual do FC Porto.

      Continue o magnífico trabalho.

      Drax

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Comenta com respeito e juízo. Como se estivesses a falar com a tua avó na véspera de Natal.

Saudações Portistas.