terça-feira, 29 de maio de 2018

Sobre Dalot

Em Fevereiro, afirmei neste espaço que Dalot iria renovar com o FC Porto. Estava convicto disso porque esse era, na altura, o cenário mais firme em cima da mesa. Estava certo porque todas as partes envolvidas estavam certas de que seria uma questão de tempo e timing.

Não aconteceu. Nem vai acontecer. Dalot será jogador do Manchester United num negócio que deverá ser comunicado publicamente na sexta-feira. A cláusula do jogador é de 20 milhões de euros mas a operação pode trazer leves surpresas (positivas) no que diz respeito ao montante envolvido.

Um ligeiro consolo para uma perda que, já se sabe, é enorme para o FC Porto. Desde logo porque ficará com o lado direito da defesa numa situação precária, após a saída de Ricardo Pereira e com Maxi a 30 dias de terminar contrato. E, acima de tudo, porque Dalot é o futuro do futebol português. Custa vê-lo partir com tanta história por escrever ao serviço do seu clube de sempre. Mas compreendo os motivos. Acredito que voltará a casa um dia.

Acresce dizer que a operação coloca o FC Porto em situação de cumprimento do acordo de fair play financeiro, ficando o défice orçamental abaixo do limite máximo de 20 milhões de euros estipulados para 2018.

Ao Diogo, votos de enorme sucesso em Inglaterra. À SAD do FC Porto, que a resposta seja rápida e contundente. Há um bicampeonato para conquistar. O nosso melhor negócio ainda são as vitórias.


quinta-feira, 17 de maio de 2018

Apito surdo

Enquanto são pontapeados pela imprensa, pelo poder político, pelas autoridades, pelos rivais da 2C, talvez os adeptos do Sporting tirem uma lição importante de tudo isto.

Foi o julgamento sumário que nos revoltou durante o Apito Dourado. A perseguição cega e sem direito a contraditório, na qual vocês participaram, que condenou o FC Porto e o Norte ainda antes dos tribunais se pronunciarem.

Nenhum adepto lúcido do FC Porto nega o Apito Dourado. Ouvimos as escutas, lemos os autos. Sabemos o que significa fruta e café com leite. Não sofremos de negacionismo e sabemos o que custa ver um presidente que vos deu tudo dar-vos também o que nunca pediram.

Mas isso não significa que a verdade não possa ser maquilhada, adulterada para parecer uma ilha. O bolo da vossa eventual corrupção, tal como o nosso há dez anos, tem ingredientes a mais. E é assim que ele será vendido ao público. Pelos mesmos que não coíbem de mascarar a gravidade do que se passa do outro lado da estrada, os co-autores do apito surdo.

Essa revolta interior para com a diferença de tratamento não é nova para nós. Passámos pelo mesmo. Fomos espezinhados quando só pedíamos que a investigação fosse justa e estendida a todos os suspeitos. Não foi.

2018 ensina-vos uma coisa que nós já aprendemos há uma década. Só há um clube em Portugal cuja maioria dos adeptos prefere comer o hambúrguer sem saber de que ele é feito. Agora, vocês sabem qual é.


terça-feira, 15 de maio de 2018

Bola na mão ou mão na bola


A história de corrupção no Andebol, que o CM chama hoje à capa, é demasiado complexa para ser inventada e demasiado grave para ser um mero exercício de difamação ou perseguição. Contudo, provém de um órgão de comunicação social suspeito e pouco fidedigno, que já se prestou no passado a comportamentos meretrícios a certos players do nosso futebol.

É também um exemplo claro da diferença de tratamento que a imprensa dá aos casos de corrupção, uma vez mais atendendo aos intervenientes. Em apenas algumas horas, o alegado esquema de corrupção montado pelo Sporting no andebol já teve mais eco do que os terabytes de emails que saem quase semanalmente sobre o alegado esquema de corrupção do Benfica no futebol. Um pouco à semelhança das denúncias anónimas sobre alegados subornos do FC Porto, cuja sustentação era precária mas às quais foram dedicados rios de tinta até se esgotar a racionalidade.

Subitamente, o conteúdo de uma mensagem deixa de ser acessório e volta a ser essencial e os jornalistas focam-se no quadro e não na moldura, enquanto publicam manifestos de lucidez e ortodoxia sobre a profissão.

A história, em si, é extremamente (talvez até demasiado) suculenta, directa e envolve um cardápio de personagens com motivações, no mínimo, estranhas. Um sportinguista arrependido, um empresário ligado às malas mafiosas do futebol que publicitou a história antecipadamente, um director de futebol que supostamente geria tudo sem aparecer e árbitros com demasiado à-vontade para compactuar com estas práticas. À primeira vista, há vários ingredientes típicos de orquestração nisto. Não se exclui que tudo isto seja uma tentativa cirúrgica de capitalizar a crise em Alvalade, sobretudo quando ainda há um título nacional para ganhar.

Por outro lado, a revelação é sustentada com áudios reveladores, que indiciam a existência de algo mais substancial. Vale o que vale. O silêncio da SAD do Sporting, que demorou mais horas a reagir do que devia, também não é muito abonatório para quem quer desacreditar esta história. E o facto de o Sporting ser presidido por uma figura imprevisível, polémica e feita de material ainda desconhecido não ajuda.

A verdade é que, na época das alegações (2016/17), o Benfica x FC Porto da penúltima jornada do campeonato foi um dos maiores assaltos ao dragão de que há memória na modalidade, com uma partida carregada de erros técnicos, que o FC Porto contestou e a Federação nunca quis explicar. Para quem não acompanha a modalidade, se quiser traçar um bom paralelo, recorde o que aconteceu à equipa de futebol do FC Porto na Feira. Não foi muito diferente.

Não sei se estamos perante um caso de corrupção activa ou uma narrativa cirurgicamente adaptada aos acontecimentos. De qualquer forma, a PGR já confirmou que o DIAP do Porto está a investigar o caso e, com o descuido brutal com que o alegado esquema terá sido desenvolvido, se ele tiver existido, facilmente será exposto e desmontado.

Avaliar se é bola na mão ou mão na bola é da competência das autoridades. Em todo o caso, o grande prejudicado no final será sempre o mesmo: o FC Porto.


sexta-feira, 11 de maio de 2018

Porto seguro

Nunca houve dias perfeitos. Pelo menos para nós, portistas. Nem aqueles em que vencemos, porque as vitórias são o caminho, não o destino. Somos capitalistas no sucesso. Há sempre mais qualquer coisa para ganhar. Passámos tantos anos a codificar esta natureza de insatisfação permanente nos nossos genes que já não nos é possível beber e cair sem pensar na campanha seguinte.

Ainda mal empossados como campeões e já a mente navega em conquistas que ainda não aconteceram, temporais que nos aguardam, noites em que voltaremos a ser nós contra tudo e todos. Ser portista é obedecer a um ritmo de vida alucinante, exigente, cada vez mais desgastante. É perseguir a diferença, ter a vontade demolidora de polarizar o mundo, desafiar convenções, centrifugar a ordem decretada das coisas. E tirar prazer disso.

Perdi a conta ao tempo que passou desde a última vez que senti o aroma a terra ensopada. Foram muitos meses exilado na nau, agarrado às cordas, à madeira empobrecida, a vaguear no princípio da incerteza sem saber se haveria futuro. Não fui convidado, entrei à socapa na barca, num dos mil buracos que todos lhe apontavam antes de partir.

E ela aparentava ser frágil, despida, condenada desde o berço, feita de sobras, troncos e escombros. Mas fintou as expectativas e voou e voou e continuou a voar na trama dos retalhos que fingiam ser velas. E que, com o tempo, se tornaram velas.

Marega, por exemplo, esse empecilho que só servia para caricaturar uma política de contratações anedótica virou o escárnio contra os escarnecedores e transformou-se no piloto da equipa, o astrolábio inesperado que vectorizou o jogo do FC Porto. O maliano foi a figura de proa deste colectivo e os números estão com ele. Enquanto esteve presente, o FC Porto ganhou quase todos os jogos e esteve sempre em primeiro lugar. Quando se lesionou, em março, após a vitória crucial sobre o Sporting, na tangente de um ciclo que se considerava o mais abrasivo da época para o FC Porto, os seus colegas perderam o norte em campo, o conforto da referência que só reencontraram após o regresso de Marega em bom tempo, antes da Luz. Marega não nasceu para jogar futebol e ele sabe-o, ninguém precisa de lho dizer. Mas encontrou a sua essência no acessório, no físico, não no técnico, tirando partido das suas características para arrastar o jogo do FC Porto para a frente. Foi ele quem segurou o barco muitas vezes, quando choviam bolas inconsequentes à procura de um toque de fé. Não é o futebol mais bonito que tivemos, mas foi eficaz. Sobretudo, porque Marega estava lá.

O capitão Herrera foi o último a descer do barco quando aportámos. Fez questão de olhar para trás e deitar um último olhar sobre o imenso mar azul. Foi Herrera quem nos ensinou a não desistir. Que nos demonstrou que o erro não nos condena. Somos nós próprios que nos condenamos por errar. Foi Herrera que nos relembrou a esquizofrenia do futebol, a dança frenética entre a besta e o bestial. Foi Herrera que elevou o símbolo onde muitos elevariam o nome. Herrera foi o gerente de campo, um capitão silencioso mas sensato, que redescobriu a vontade de jogar de futebol com a função certa. Herrera não é bombeiro, nem sapador, nem maestro nem artista. Herrera não cabe no futebol académico, no jogo teórico, mas também não é difícil de compreender. É um médio com atitude e amplitude, liderança na voz e no pé, que joga em linhas rectas. Herrera é o transportador que procura encurtar distâncias sem forçar a bola a fazer desvios. Joga simples e sem merdas. Como o seu pontapé na Luz. O capitão abateu o polvo quando o polvo já fugia. E quando já nenhum de nós acreditava.

A experiência não abundava no convés quando içámos as primeiras velas e navegamos os primeiros mares. Mas havia Iker, uma lenda do Atlântico que fez história e depois tornou-se a própria História. Entre nós, havia quem lhe chamasse santo. Talvez porque Iker era a forma mais aproximada que tínhamos de tocar o céu e pedir intervenção divina quando a barca ameaçava ceder. E a verdade é que as luvas abençoadas de Iker nunca falharam quando mais precisámos. Quando toda a gente desistia de segurar a nau e assistia impotente à inevitabilidade do destino que Iker se encarregava de desmentir. Como naquele paradón no Dragão, contra o Sporting, em que Montero tinha mil formas de nos desfazer e Iker apenas uma de nos salvar. E hoje aqui estamos, vivos, graças ao santo que largou o conforto do Éden para se aventurar connosco neste cemitério andante.

A convicção de Brahimi é algo que dificilmente esquecerei. Foi, desde cedo, o que mais queria vencer. Atravessou connosco um deserto de títulos e ideias e, tal como nós, também chegou a morrer na praia antes de tentar uma última vez. Ele sabia que esta seria a última vez. Quando o polvo atacou na Feira, Brahimi subiu mais alto e viu no horizonte a vitória final. É um navegador louco. Desatou os nós mais intrincados e brindou-nos com as manobras mais elegantes que vamos ver em muito tempo. Consola-me saber que poderei revisitar a sua magistralidade individual, finalmente apurada para o colectivo, e a sintonia cega com Alex Telles, criando a bombordo uma orquestra de luxo que vai continuar a ecoar por muitos anos.

E tudo isto aconteceu porque encontrámos a peça que faltava para redimir o conjunto. Sérgio Conceição, o homem do leme, a quem tentaram prender, impor uma fé. É fundamental ser bom estratega para vencer uma batalha. Mas não é possível vencer uma guerra sem coragem nem inteligência emocional. Conceição teve tudo isto, nos momentos certos. Tentou, errou, aprendeu, acertou. Foi humilde. Contrariou os profetas da raiva. Geriu o descontrolo e a adversidade com um brilhantismo incrível. Mas o que mais admirei nesta viagem foi a forma como Conceição adaptou o barco aos homens, quando toda a gente faria o contrário, invertendo a lógica dominante e arriscando uma ideia audacioso mas francamente lúcida. Só hoje sinto o aroma a terra ensopada ao comandante agradeço. Fomos gigantes no mar da Galileia.

Mas não há dias perfeitos. O polvo feriu mas não morreu. Já refeito, começo a caminhar em direcção às primeiras cabanas da praia, onde espero encontrar um lugar para comer e dormir. Enquanto caminho, penso no que fica por fazer. Naturalmente insatisfeito, porque é só um título nacional. Ser portista fez-me assim.

The Storm on the Sea of Galilee | 1633, Rembrandt

segunda-feira, 12 de março de 2018

Paços de Ferreira 1 x 0 FC Porto | Trivelas & Roscas

foto fcporto.pt

É extremamente irritante perder, seja de que forma for. E tentar imaginar mil cenários onde a derrota não aconteceria é uma quadratura do círculo que nada acrescenta a esta segunda-feira cinzenta. A verdade é que o FC Porto tombou num jogo com mais armadilhas do que a casa dos McCallister. A um relvado que parecia o festival do caldo verde, some-se as limitações da equipa, privada de quatro elementos fundamentais, a arbitragem a cargo de uma task force destacada pelo gabinete de crise, a má forma de alguns jogadores e um plano de jogo discutível por parte de Sérgio Conceição e temos a fórmula do "se tudo correr bem vai dar merda". E deu. Mas acima de tudo por dois factores que não estavam na brochura. A incapacidade do treinador em ler a partida e o anti-jogo do adversário que, sendo expectável, roçou um nível grotesco, atestado pela falcatrua do guarda-redes pacense quando se lançou na poça da vergonha derrubado apenas pela própria indecência. Vamos a notas.


Ricardo: Ontem, pouca gente fez um jogo conseguido. E mesmo os que escaparam à mediocridade não ultrapassaram o aceitável. Um deles foi Ricardo, que na primeira parte foi dos poucos que conseguiu conduzir a bola sem parecer que estava a limpar a água do quintal. Teve algumas incursões promissoras que acabaram quase sempre na leitura contracíclica de Aboubakar, na teimosia de Waris em bater a melhor marca pessoal nos 100 metros ou na incapacidade Corona em jogar com um bocadinho mais de humidade. Foi um dos dois ou três que assistiram às enfadonhas aulas de "Física do Futebol: O Comportamento da Bola em Relva Molhada" porque percebeu cedo que 98% dos passes longos para a corrida de X ou Y iam acabar com a bola a acelerar pela linha de fundo. Mas pronto, não chegou.


Sérgio Conceição: Nem melhor treinador do FC Porto nos últimos anos está imune à crítica. Não pode estar, porque também é humano, também erra. Ontem, Conceição falhou em toda a linha, desde o planeamento à execução. Desde logo porque a titularidade de André André só foi novidade para quem não lê jornais. E isso deixa-me exasperado porque me faz pensar que há toupeiras a cavar buracos onde não devem. Depois porque Conceição parece não ter um plano B para equipas que tenham muito pouca vontade de jogar à bola. O treinador do FC Porto quis desde o momento zero agarrar o jogo pelo meio-campo mas errou no casting, tendo demorado demasiado tempo a corrigi-lo. Por fim, não consigo perceber como Hernâni passa à frente de Paulinho ou Óliver, quando voltou a provar pela 3419ª vez que não traz rigorosamente nada de valor ao jogo. Agora, o que é realmente absurdo é este estranho fenómeno dos adeptos portistas de venerar tudo na vitória e espancar a eito na derrota. Termino como comecei porque para mim nunca houve dúvidas: Sérgio Conceição é o melhor treinador do FC Porto dos últimos anos. E vai continuar a sê-lo.

André André: Jogo horrível, provavelmente o pior que o vi fazer com a camisola do FC Porto. Todas as suas ações com bola, na primeira parte, foram praticamente nulas. Falhou todos os seus remates, cruzamentos, dribles e duelos aéreos, segundo uma estatística do Goalpoint publicada pouco antes do intervalo, o que demonstra bem o contributo que (não) deu ao colectivo. Também é verdade que não mereceu grande apoio de Sérgio Oliveira e foi forçado a assumir quase sempre sozinho as disputas pelas segunda bola, sem grande rede de segurança, pois nem Brahimi nem Corona nem Waris foram eficazes do ponto de vista posicional no primeiro tempo. Contudo, a surpreendente aposta de Sérgio Conceição para cadenciar o jogo saiu furada. A oscilar entre a hesitação e a precipitação, André André foi sempre um pêndulo descompassado que só agravou com o cronómetro. Mas a responsabilidade de ter ficado mais de uma hora em campo nessas condições não lhe pode ser imputada.

Penalties: Não me venham com cruzes nem credos. O FC Porto tem um índice de aproveitamento de penalties demasiado baixo para grande equipa e por detrás deste número tem de existir uma explicação racional. Não se treinam, não se estudam, não se trabalha o factor psicológico? O que acontece aos jogadores do FC Porto na hora do castigo máximo? Sérgio Conceição tem de responder (para dentro) a estas perguntas e resolver de uma vez por todas esta afta que cada vez mais problemática e arde como cornos na hora de morder o lábio. Posto isto, resta-me falar do episódio Sérgio Oliveira/Brahimi. Não me choca que o médio português Sérgio Oliveira tenha delegado o compromisso ao colega. Se não se sente confiante para assumir é perfeitamente aceitável que encarregue alguém que demonstre maior disponibilidade anímica. Chateia-me é ficar sempre com a ideia de que estamos a transformar a maior oportunidade de golo do futebol num complexo.

sábado, 10 de março de 2018

A estratégia do ruído


A notícia do Expresso de hoje vem confirmar a suspeita que gravita há muito sobre o universo benfiquista.

Não foi coincidência a mudança de estratégia por parte do Ministério da Propaganda lampiânica nas últimas semanas. O silêncio ensurdecedor deu lugar a uma overdose de ruído, que viajou desde as suspeitas sobre o Estoril x FC Porto ao novo treinador do Sporting. O objectivo? Tentar abafar o impacto iminente da detenção de Paulo Gonçalves.

Alguém acredita que um clube que condiciona e manipula dezenas de organismos nacionais, de tribunais a televisões, e que gere uma rede de toupeiras com acesso privilegiado a informação judicial, não soube antecipadamente da operação de detenção?

A injeção maciça de contrainformação promovida pelo Benfica não é nova. É impossível ignorar os paralelismos entre a denúncia anónima do Estoril x FC Porto e o alegado jantar entre Pinto da Costa e o árbitro Björn Kuipers, em 2011, uma fantasia que também foi alvo de denúncia fantasma no DIAP e ampliada pelos jornais, sem qualquer prova factual que a consubstanciasse.

O modus operandi é o mesmo. O vírus é plantado nas autoridades por alguém ligado ao Benfica e disseminado publicamente com a ajuda das habituais caixas de ressonância encarnada, como o jornal Abola, que lhe dá uma roupagem legítima e o coloca no topo da agenda pública. A história de suborno no Estoril x Porto é tão artificial que quem a noticiou sentiu necessidade de se justificar. Por fim, os opinion makers avençados e o resto dos peões pro-bono da propaganda encarnada levam ao limite a velha máxima de Joseph Goebbels, repetindo a mentira mil vezes até ela se tornar verdade.

Vejamos a denúncia do jogo do FC Porto. Uma acusação com fundações de papel, fruto de extrapolações altamente sugestionadas, que podem ser aplicadas a qualquer equipa em qualquer momento do campeonato. É a interpretação low cost dos factos. O sofisma do carro com vidros fumados, que se tem vidros fumados é porque esconde alguma coisa.

Nem o Estoril foi a única equipa portuguesa a receber pagamentos do FC Porto naquela altura, nem o FC Porto é o único clube a pagar dívidas a equipas da mesma liga em datas próximas dos jogos. Mas corrupção no Porto era a história que os adeptos do Benfica queriam ouvir, sobretudo num momento como este.

Enquanto foi vivo, o caso foi raspado até ao osso nas távolas redondas da comunicação social, levando o FC Porto a fazer o que na Luz ninguém faz: explicar com clareza e transparência, por via oficial, as operações financeiras que manteve com o Estoril.

O propósito final da propaganda encarnada foi alcançado: criar uma cortina de fumo para o que aí vinha. As visitas de Luís Filipe Vieira ao Campus da Justiça no âmbito da Operação Lex e a detenção iminente de Paulo Gonçalves. Pelo meio, atingir o mérito e a estabilidade do FC Porto foi só um bónus, nunca a principal directriz.

A detenção de Paulo Gonçalves só apanhou de surpresa os rivais. Porque na Luz continua a viver-se dez anos à frente. Das consequências, sobretudo.

domingo, 4 de março de 2018

FC Porto 2 x 1 Sporting | Trivelas & Roscas


Mais do que os golos, a maior herança que Jardel nos deixou foi esta obra-prima: "Clássico é clássico e vice-versa". Jardel provavelmente estava bêbado, mas tinha razão. Vamos subir juntos a escada do conhecimento e perceber o alcance deste pedaço de sabedoria gourmet. Um clássico é mais imprevisível do que a trajectória de um avião de papel. Um clássico também pode ser mais injusto do que um juiz-desembargador ou mais inclinado do que o Estádio Nacional do Benfiquistão. O que um clássico raramente é, é extremamente desequilibrado como Pedro Guerra. E 99% das vezes um clássico é um jogo que faz história. Um duelo à parte, que marca toda uma época. Se em Maio, os Aliados estiverem a abarrotar, garanto-vos que grande parte das conversas vai andar à volta da paradona épica de Casillas, da assistência de Gonçalo, do jogaço de Dalot, do falhanço (e do bom jogo) de Leão, do penalty sobre Doumbia ou da falta a meio-campo antes do golo do empate, da superioridade geral do Sporting e da eficácia do FC Porto. Foi uma bela homenagem à grandeza das duas equipas, um espectáculo bem condimentado, com emoção, sofrimento, injustiça, ansiedade, euforia e frustração. Infelizmente, levou Coentrão a mais. Mas um cagalhão só é bem-vindo no esgoto. Vamos a notas.



San Iker: Bendita a hora em que Sérgio Conceição se marimbou para o politicamente correcto e desfez a mudança que ele próprio promoveu. Sá é bom e tem tempo para ser melhor. No entanto, Casillas é o homem certo para o momento actual da época e ontem voltou a ser fundamental. Foi imprudente, Montero, quando tentou voar demasiado perto do sol. Foi imponente, Iker, a castigar a insolência do colombiano com o olhar que os comuns mortais merecem. É o preço que se paga por brincar com os deuses. Embora a equipa não tenha sido tão serena a defender como habitualmente acontece, foi Iker quem colou o nervo da defesa na hora do aperto. Seguro. Soberbo. Santo.

Dalot: Para primeiro clássico, não está nada mau. É difícil encontrar alguém tão novo com a maturidade tão apurada no futebol português. Sentiu algumas dificuldades em coordenar-se com os colegas da defesa por falta de rotina mas, no ataque, parecia conhecer Brahimi da primária. No lance com Doumbia, deixou-se vencer pela inexperiência. Embora não me pareça penalty, se fosse assinalado não me chocava. De resto, este a bom nível em todos os aspectos. Vai ser importante nos últimos quilómetros desta época e indiscutível na próxima.

Produtividade: Ao contrário do que li por aí, o FC Porto não foi menos produtivo do que costuma ser nos embates frente ao Sporting. Na verdade, o FC Porto criou mais uma oportunidade flagrante (5) do que a média dos confrontos anteriores contra o rival (4). Sucede que fomos mais assertivos a explorar os desequilíbrios abertos pelo balanço ofensivo do Sporting, sobretudo nos dois corredores, mais pragmáticos nas transições e acertámos menos vezes em Patrício, o que também ajuda. A ideia de que criámos menos mas marcámos mais é um mito, uma análise na diagonal extraída pela exibição menos conseguida.



Menos Porto: A verdade é que o FC Porto não fez um grande jogo. Não do ponto de vista estético, pelo menos. O Sporting, talvez porque tinha de assumir, foi mais agressivo na disputa pela segunda bola. Contudo, no Dragão, estou sempre à espera que o incentivo dado pela onda azul dê os centímetros que faltam para chegar primeiro. Só que desta vez não aconteceu. Sem bola, a equipa pareceu não ter ordens para pressionar alto e defendeu sempre com o bloco baixo, o que permitiu várias incursões aos jogadores do Sporting área adentro. O problema, julgo, esteve na abordagem ao jogo a meio-campo. No miolo mais suave do que o costume e em dois ou três dejá vus de experiências traumáticas do passado: as paragens cerebrais de Herrera e as parvoíces de Sérgio Oliveira, como a de tentar marcar um canto olímpico.

Corona: Horrível, como um elefante numa loja de espelhos. Virou uma data de bandejas de prata, sobejamente preparadinhas, com centros balísticos e passes antrofóbicos. A certa altura, nos mil contra-ataques em que podíamos ter matado o jogo, já havia um certo sentimento de decepção antecipada, de que se a bola chegasse a Corona a jogada iria afundar-se numa decisão absurda do mexicano.

Lesões: As putas das lesões. E sempre em dose de cavalo para dar uso ao estaleiro. Por este andar, vamos chegar a maio com o ginásio do Olival mais povoado do que o Fitness Hut a 2 de janeiro.

quinta-feira, 1 de março de 2018

R&C | Os números do FC Porto


Chamemos os números pelos nomes. O FC Porto apresentou ontem as contas do primeiro semestre e o resultado tem tanto de desconfortável quanto de expectável.

Os traços gerais vocês já sabem. Continuamos no vermelho, mas o prejuízo desagravou ligeiramente para cerca de 24 milhões de euros, contra os 29,5 milhões do período homólogo.


Na base desta melhoria está uma conjugação entre o aumento das receitas e a diminuição dos custos. Isto excluindo vendas de jogadores.

Que isto dizer que nos últimos seis meses de 2017, a SAD portista rentabilizou rubricas como a publicidade & sponsorização e averbou maiores receitas televisivas.

No caso da publicidade, não tendo havido nenhuma renegociação de contratos vigentes, o aumento deve-se às variações habituais que existem entre períodos. Já as receitas televisivas cresceram sobretudo devido ao calendário desportivo, pois entre junho e dezembro de 2017 jogámos mais um jogo em casa (9) do que em igual período do ano anterior (8).

Curiosamente, a coluna que fez verdadeiramente a diferença neste quadro foram as Outras Receitas Desportivas. Esta rubrica disparou quase 2,5 milhões de euros. E porquê? Por causa da presença na Supercopa Tecate, durante a pré-época.

Isto é particularmente assinalável porque podemos estar perante uma mudança de paradigma. As digressões intercontinentais, embora submetam as equipas a preparações por vezes deficientes e a um desgaste desnecessário, são uma boa fonte de rendimento para SADs com cada vez menos capacidade de financiamento, como é o caso dos três grandes. Desconfio de que vamos ver isto acontecer mais vezes nos próximos anos.

Continuo a não ser muito favorável a esta política, mas se o FC Porto for campeão este ano, não haverá muita gente a poder contrargumentar com o impacto desportivo que estas deslocações têm no arranque do campeonato. Lembrem-se que em 2016, polvos à parte, o Benfica também fez o mesmo e venceu o título nacional.


Estes proveitos compensaram a quebra das receitas nas competições europeias este ano. A SAD encaixou menos em 2017/18 porque perdeu mais um jogo na fase de grupos esta época e não passou pelo playoff (que o ano passado nos rendeu mais 2 milhões de euros extra).

Do lado da despesa, o destaque vai para o alívio de cerca de 3 milhões de euros da massa salarial com atletas, sobretudo no futebol. O desinvestimento é bem-vindo, estava preconizado e em linha com as directrizes do fair play financeiro imposto pela UEFA.

Ainda assim, confesso que esperava um valor mais assinalável aqui, tendo em conta o número de atletas que alienamos e colocámos esta temporada. Contudo, jogadores como Casillas, Maxi ou Brahimi, cuja saída no final da época é quase certa, vão representar um alívio bastante significativo da folha. E é bem possível que ainda estejamos a suportar parcialmente salários de jogadores como Bueno ou Ádrian López.


Um outro aspecto menos positivo foi o corte das remunerações de jogadores e técnicos não se ter traduzido propriamente na redução dos custos com pessoal. Porque a massa salarial da administração e dos funcionários do clube aumentou, seja através do salário (uma possibilidade, tendo em conta as pressões ascendentes da inflação), seja através do reforço dos quadros. No geral, a carga salarial da estrutura caiu apenas cerca de 1 milhão de euros para 38 milhões.

Os gastos com fornecimentos e serviços externos aumentaram cerca de 2,5 milhões de euros. Tenham em atenção que aqui não entram as comissões de transações de jogadores.

Aqui, o que aumentou foram os custos com serviços de prospeção de mercado e os custos com serviços de consultadoria jurídica e financeira. Também se verificou um aumento das despesas de produção do Porto Canal.


Isto estará provavelmente relacionado com a denúncia dos emails, que o FC Porto tem levado a cabo no canal e que terá certamente intensificado o aconselhamento jurídico no clube. A alçada do FFP também poderá ter movimentado mais serviços de consultadoria financeira, mas aqui estou apenas em terreno especulativo.

Resumindo e baralhando, os proveitos operacionais aumentaram ligeiramente, mas os custos também, o que significa que aqui ainda há muito trabalho a fazer para queimar gorduras. A redução do prejuízo esteve portanto concentrada nas transações de jogadores, tema que abordarei no próximo post.

Se houver, que isto comigo nunca se sabe.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Draxletter | O segredo dos detalhes e os detalhes do segredo


Nas entrelinhas do Portimonense x FC Porto escondem-se detalhes interessantes. Não é de agora, mas a formação de Portimão é das equipas da Liga que melhor organiza o ataque e que melhor preenche o campo, fazendo da fluidez de papéis o recurso mais visível (e agradável) do seu futebol. Se há algo que podemos esperar de Vítor Oliveira é equipas onde os avançados também constroem e os médios também finalizam. Como dita o manual dos grandes clubes.

O Portimonense rematou quase o dobro, ganhou mais duelos a meio-campo e fez mais faltas. Só que o FC Porto foi brutalmente eficaz. Quem acusa a equipa algarvia de facilitismo produziu muito menos contra o FC Porto. Das duas uma: ou são bem piores do que a classificação diz ou talvez se deva abrir investigações a Fábio Coentrão ou Luisão por match fixing.


Sobre Dalot, várias notas e um segredo. Duas assistências e autossuficiência defensiva numa estreia auspiciosa a titular que só rivaliza com a aura que o fantasma amigo de Bobby Robson deixou no Algarve. O miúdo é um poço de talento como já não via há muito tempo na formação portista. Uma mente de 28 anos bem arrumada num corpo de 18.

E, como também tenho os meus passarinhos (felizmente muito mais afinados do que as gralhas enfrascadas de Rui Pedro Braz), segue um mimo: Dalot está prestes a renovar com o FC Porto. Com cláusula de €20 milhões e contrato até junho de 2019, Dalot vai prolongar o vínculo em breve, cumprindo a vontade dele e do clube. Nada que não se antecipasse, mas que sabe bem ver preto no branco. Até porque não foi um processo linear.

Sim, houve impasse nas negociações, que se deveu a indefinições relacionadas com o futuro do jogador no seu clube do coração. É legítimo. Não vamos esconder, o FC Porto não tem tido uma percentagem muito generosa de aproveitamento da formação nos últimos anos. Mas a ascensão meteórica e a consolidação no plantel principal varreu todas as dúvidas. As que o FC Porto tinha nele e as que ele tinha no FC Porto. Dalot é diamante puro, já meio polido. Transparente nos pés e na atitude. O tipo de jogador que passa por cima de qualquer tendência nefasta porque é ele que define a tendência.

Segue-se o clássico. A primeira finalíssima do ciclo de finais pré-sprint final. Nós jogamos a fuga ao pelotão. O Sporting joga o campeonato. Nós para colocar os rivais em xeque, eles para impedir o xeque-mate. Se formos iguais ao que temos sido nas últimas partidas , onde a determinação e a tranquilidade atingiram o ponto de rebuçado, tenho a convicção de que venceremos. Soares é a maior incógnita. Alex e Corona é para esquecer. Danilo também. Aboubakar e Ricardo são possibilidades remotas. Vamos ter uma equipa raquítica nas opções. Contudo, não podemos perder a fome por isso.

Cu bo ti fim di campjonati! Para cima deles, carai!


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Estoril 1 x 3 FC Porto | Trivelas & Roscas


45 minutos à Porto. A expressão que encerra a essência da partida. Um lugar-comum cristalizado no Norte e que encontrou na segunda parte do Estoril x FC Porto a sua mais fiel manifestação até hoje. A prova de contrarrelógio era exigente mas foi descomplicada em poucos minutos, muito mais graças à vontade dos jogadores do que ao jeito. Concordo com o curador da Porta 19. O que define esta meia partida é não haver nuances táticas encriptadas na vitória. Foi mesmo só entrar com tudo e rematar com todos e subir e recuperar e massacrar e insistir e acabar com o pulmão deles como eu acabei com o pulmão de quem acabou de ler esta frase. E no fim, três pontos extraordinários, imprevistos, contingentes, que podem vir a fazer a diferença na fotografia final. Mais do que isso, esta turma sai da Amoreira com a sensação de que pode superar qualquer adversidade em dez ou quinze minutos. Outro detalhe psicológico que pode vir a ser muito útil neste sprint final. 37 dias depois, faz-me pouco sentido apreciar uma primeira parte que já se perdeu na memória. Não foram duas metades do mesmo jogo. Foram dois jogos distintos, com equipas, momentos e jogadores diferentes. Segue-se, por isso, a análise do que aconteceu ontem.


Arranque avassalador: Como se pedia, sem fantochadas, a mostrar ao visitado toda a parafernália de tortura que levámos connosco para resgatar aqueles três pontos. Se grande parte do mérito da reviravolta é dos jogadores, pela forma abnegada como encararam o desafio, não posso deixar de atribuir a Cruz de Guerra a Sérgio Conceição pela maneira como o preparou. Aos poucos, o mad dog torna-se um general de campanha exemplar, senhor do seu lago negro, mais inteligente na gestão de emoções e capaz de ajustar a mentalidade dos seus jogadores ao adversário. Numa época com mais de 50 jogos, é impossível ter sempre a mesma agressividade, a mesma dinâmica e a mesma motivação. É um erro militar usar repetidamente uma fórmula à espera de obter sempre o mesmo resultado. Há jogos em que temos de ser cínicos, calculistas. Há outros em que temos de ser a horda dourada de Genghis Kahn. Por vezes, temos de mudar para manter. E, no geral, Sérgio tem mantido um equilíbrio assinalável, que faz do FC Porto a equipa mais regular do campeonato.

Soares: De todos os que participaram no cerco ao Estoril, Soares foi o homem do aríete. Mais do que os dois golos e meio - obviamente cruciais - foram as suas investidas que ajudaram a colapsar a defesa canarinha (a malta das bancadas que me desculpe). Soares foi um autêntico bully de Renan, surgindo sempre no sítio certo para lhe espezinhar na cara o esforço de duas ou três defesas fantásticas consecutivas. Até no primeiro golo, do qual falaremos mais abaixo, intimidou Renan com a sua cabeçada na atmosfera. Está numa fase monstra. Desde a pissada pública de Conceição, Soares já marcou sete golos e contribuiu com uma assistência, tendo estado envolvido em 62% dos golos marcados pela equipa desde essa altura.

Alex Telles: À hora que escrevo esta crónica, já sei que a entorse do brasileiro não é assim tão grave. O nosso melhor fornecedor de golos é tão genial que até se assistiu a ele próprio no golo do empate. Até torcer o joelho, coube-lhe a tarefa ingrata de lidar com o gajo mais irrequieto deles, Víctor Andrade, e mesmo assim ainda lhe sobrava tempo para aterrorizar o quarteto de escudeiros do Estoril com os seus cruzamentos equipados com GPS e sensor anti-central. Vai falhar alguns dos encontros mais importantes da época e deixa-nos com apenas dois (!) laterais no curto prazo. O custo de oportunidade é Diogo Dalot. Que pode crescer e afirmar-se na ausência de Telles. Ainda que não me agrade muito vê-lo lançado a frio numa posição que não é a sua.


VAR: Os árbitros continuam a ser os protagonistas de um sistema que foi concebido para lhes tirar o protagonismo. Apesar das linhas, dos frames e da interpretação literal da lei do fora-de-jogo, mantenho a opinião de que o primeiro golo deveria ter sido anulado. Embora não tape a visão ao guarda-redes, o gesto de Soares obriga Renan a hesitar na abordagem à bola. Não é uma intervenção directa mas é suficiente para alterar o desfecho da jogada. E como não sofro de escoliose, não me custa reconhecer que o FC Porto marcou um golo irregular. É preciso que as instâncias parem e avaliem seriamente o fiasco que tem sido o videoárbitro em Portugal. Enquanto se continuar a tapar o sol com a peneira e a fazer "balanços positivos" a situações como a de ontem, como o fora-de-jogo inexistente de Aboubakar contra o Benfica ou o golo irregular de Bas Dost ao Rio Ave só se vai contribuir para que o debate construtivo rebente nas mãos de quem tenta melhorar a qualidade de vida do futebol português. Num futuro indefinido, o VAR pode vir a ser útil e fundamental para a modalidade. Mas, para já, é só mais um nível de decisão subjectiva, mais um nível para explorar em termos de polémica. Urge criar um modelo único e um critério uniforme a todos. Um tema para outro dia.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Draxletter | IRS, Estoril revisited e a fátua de Bruno de Carvalho


No FC Porto, temos uma óptima relação com os impostos. De todas as maroscas a que Pinto da Costa foi associado, fuga ao fisco não consta, até porque se levamos cinco, declaramos cinco. Somos de boas contas. O mais importante está feito. Fomos práticos a aplicar um penso sobre um dos momentos mais dolorosos da história recente do clube. Fomos rápidos a passar uma demão sobre o chavascal em que ficou o Dragão na noite de quarta-feira. Exercemos o nosso direito de resposta com convicção e demos sinais de que é mais provável trazer a liderança mais reforçada na quarta-feira do que deixar tudo como está. Bonito e promissor.

Quando comecei a ver o jogo, já o jogo estava resolvido (daí não haver Trivelas & Roscas). Tanto que me deu para pensar logo na bola extra de quarta-feira e na melhor forma de a capitalizar. De um modo geral, ditam as regras que não se podem usar reforços inscritos depois do jogo, jogadores castigados na altura do jogo e, naturalmente, todos os que estão actualmente lesionados. A isto se junta uma espécie de injunção que evita substituições fantasma e impede qualquer titular do jogo de janeiro de ser suplente. Ora, tudo somado, dá 16 gajos disponíveis para quarta-feira. Em suma, não jogam Paciência, Waris, Paulinho e Osorio, Ricardo Pereira, Danilo, Aboubakar.


O que significa que o nosso XI não deve andar muito longe do que despachou o Rio Ave. A entrada de Iker atira Sá para a bancada, devido ao regulamento. A entrada de Marcano no onze faz o mesmo a Reyes (que foi titular a 15 de janeiro), o que deixaria Conceição sem nenhum central no banco. Em teoria, manter a titularidade de Reyes para poder contar com Marcano de prevenção será a opção mais viável. Resumindo e baralhando: Iker, Maxi, Reyes, Felipe, Telles, Sérgio, Hector, Brahimi, Corona, Marega e Soares.

Até um relógio parado está certo duas vezes por dia. A fátua de Bruno de Carvalho contra a imprensa nacional é desconcertante no estilo, mas compreensível no conteúdo. Não podemos ser anarquistas à segunda e progressistas à terça. Pior do que a falta de pluralismo dos órgãos de comunicação social é a presença de agentes infecciosos para a opinião pública que se propagam debaixo do manto da imparcialidade. Pior do que um canal de TV ou um jornal ser responsável por um Pedro Guerra, que faz militância doentia, mas fá-la a descoberto, é serem responsáveis por um Rui Pedro Braz, que destila a mesma doença na sombra da isenção. Pior do que jornalistas que não veem são os que não querem ver. Para esses, bardamerda.


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

FC Porto 0 x 5 Liverpool | Trivelas & Roscas


Uma das coisas que mais me chateia nestas derrotas cataclísmicas, contra equipas que são melhores do que o FC Porto mas que estão ao alcance do melhor Porto, é o nosso gene da autodestruição. O complexo de inferioridade que nos banaliza e nos transforma em máquinas de guerra com disfunção eréctil. Hei-de ter sempre maior compreensão para desastres como o de Munique, frente a 11 protótipos do futebol quântico, do que para descalabros como o de ontem, em casa, perante um Liverpool claramente superior, mas nunca cinco vezes melhor que o FC Porto. A quebra de ontem deve-se mais à nossa apetência para vestir a pele de cordeiro do que à qualidade lupina dos ingleses. Perdemo-nos nos caprichos da sorte, na incapacidade mental para lidar com a adversidade e na apatia voluntária contra uma equipa que se alimenta precisamente da apatia dos outros. Tenho os ossos frios. Levar cinco secos no nosso próprio ringue não é algo que me aqueça escrever. Mas deixa-me de sangue bem mais azul.


Arranques trocados: O que o FC Porto devia ter feito na primeira parte fez na segunda. E vice-versa. Com o resultado a zeros, um jogo desta natureza pede uma entrada agressiva em campo, mais que não fosse para intimidar o setor mais recuado - e também o mais fraco - do Liverpool e impor algum equilíbrio na balança de estatutos. Não aconteceu. O FC Porto foi traído pela dormência colectiva e pelos erros individuais. Com 0-2 no placard à saída para o intervalo, acreditei que o mais prudente seria fazer controlo de danos e tentar uma abordagem mais cautelosa na segunda metade para tentar, pelo menos, não sofrer e até marcar um golo que não deixasse a eliminatória metastizar. No entanto, o FC Porto optou por um kamikaze desorganizado que expôs a baliza à velocidade do contra-ataque adversário. Diga-se de passagem: tudo correu bem ao Liverpool, numa espécie de Lei de Murphy invertida.

José Sá: Vamos lá encarar o elefante de frente, sem merdas. Sá está longe de ser o grande culpado disto. Mas é evidente que ainda lhe faltam umas paletes de danoninhos para assumir a responsabilidade astronómica que é defender a baliza do FC Porto. O problema de Sá não são as falhas técnicas que tem e que ainda vai a tempo de resolver. É a indisposição psicológica para jogos deste calibre. Para não tremer com a bola nos pés e para não se borrar com um peido de Mané. É a incapacidade para não diferenciar caras, camisolas e salários. As equipas de Champions são um avião com demasiado comandos para o nervo de Sá e o seu suplente, Casillas, tem horas de voo mais do que suficientes para evitar que nos despenhássemos da forma que foi.

Sérgio Conceição: Isto leva-nos ao treinador. Foi sua a decisão de à nona jornada sentar Casillas por acomodação e lançar Sá por respeito aos princípios do grupo. Qualquer aposta arrojada tem riscos. O que importa é o balanço final entre o que se ganha o que se perde com elas. À medida que a época avança e a pressão aumenta, torna-se cada vez mais óbvio que temos o melhor guarda-redes no banco. E se Casillas perdeu o lugar por não estar empenhado, parece-me justo que Sá também possa perder a titularidade por não estar preparado. Já se percebeu a mensagem de Conceição. No FC Porto, joga quem dá mais nos treinos e não quem faz melhor em campo. Uma filosofia educada, mas perigosa e a possivelmente incompatível com os interesses do clube. Sobre a estratégia da partida, estamos conversados. Como ele próprio assumiu no fim, a responsabilidade é dele.


You'll never walk alone: A demonstração de fé dos adeptos depois de terem sofrido a maior humilhação da história europeia do clube foi incrível e será provavelmente recordada como um dos momentos-chave da época quando estivermos todos bêbados em Maio abraçados a malta que não conhecemos. Este é também um manifesto para os que a partir de ontem deixaram de "ligar à bola" ou "já não acompanham muito o Porto este ano". Que esta derrota seja o contraveneno necessário para o neoportismo que se alastra pelo clube. E estabeleça a diferença entre os que são e os que pensam que são. Ontem, meu FC Porto, pedi-te que mostrasses o teu pulsar à Europa. E, na hora mais negra, tu mostraste. You'll never walk alone.


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Coração de dragão


Diz que hoje é dia de dedicatória paneleira com corações e afins. Cá nada. Resiste ao perfume e não te armes em coração de manteiga, dragãozinho. O que eu quero é uma entrada bárbara em campo, capaz de intimidar até uma horda de dinossauros famintos. Carlos Carvalhal disse que o Liverpool é um Formula 1. Eu acho que é um motor Porsche encafuado num chassis Trabant com pneus Intermarché.

Não tenho o hábito de escrever por antecipação, mas carrego a cruz de quem sofre por antecipação. Estou nervoso, confesso.Tenho em mim a sensação permeável de que este empreendimento tanto pode correr muito bem como ser um desastre. Sou assim, vivo na contramão da fé. Apesar de já teres provado constantemente que és o Cesar Millan de gatos e galinhas.

Hoje, jantamos juntos. Tu convidas, eu aceito. Aceito sempre. Partilhar a mesa contigo é um prazer que não prescreve. És boa companhia mesmo quando não estás nos teus dias. E nesta relação, ao contrário do que parece, sofres mais do que eu. Sou eu que te viro as costas quando falhas. Sou eu que te grito quando erras. Sou eu que ganho e nunca perco.

Joga como se não houvesse segunda mão. Como se o planeta explodisse à meia-noite. Como se quem marcasse ganhasse a Liga dos Campeões. Quero que a Europa sinta o teu pulsar. Nada temas. Everything will be okay in the end. If it's not okay, it's not the end.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

FC Porto 1 x 0 Sporting | Trivelas & Roscas


Picture this. São 22h e só tomaste o pequeno-almoço. Vais ao restaurante e colocam-te à frente a maior e mais suculenta francesinha que já viste. Os dedos tremem. As narinas absorvem o vapor do queijo fundido por cima da ilha de carnes seleccionadas, confortavelmente repousadas entre as fatias de pão bijou. Os olhos acusam a provocação fácil do mar de batatas fritas que envolve o prato. Pegas no garfo e levas um pedaço daquele sabor olímpico à boca. Abraças interiormente a explosão de endorfinas, numa euforia silenciosa que termina com a alma sedenta. Depois, vem o garçon, tira-te o prato e diz que o tasco fechou até abril. Para obras. Olhas para o relógio e vês que ele tem razão. Tiveste a iguaria à tua mercê o tempo todo mas só a provaste uma vez. Devias ter dado maior expressão ao teu domínio. Podendo trucidar, uma batatinha não dá grande conforto a ninguém.


Ricardo: Abismal. Deixou Coentrão a soro e à procura de uma nova forma de fazer xixi. Aquela maldade sobre o caxineiro vai ficar na retina para a eternidade. E na internet para quando quisermos revisitá-la. Tirou-me do sério ver Herrera tratar a obra prima do mestre como a prima do mestre de obras e borrar aquela pincelada magnífica com um remate frouxo e desinteressado. Teve uma boa química com Corona e mostrou uma resistência invejável para esta altura da época. Aos 85 minutos, ainda sprintava como um louco e nem aquele deslize perto do fim lhe poderia ser totalmente imputado se desse em golo porque nasce de uma perda de bola absurda de Otávio.

Sérgio Oliveira: Soberbo. Quase sozinho, vulgarizou a trincheira montada por Jesus no meio-campo. Com enorme presença e disponibilidade física, tapou quase sempre bem as saídas rápidas do Sporting, sobretudo na segunda parte. É impressionante a forma como muda rapidamente o chip entre o desarme e a construção. Recupera, pensa e executa a uma velocidade acima da média, como no lance do golo. E é provavelmente o melhor executante de livres directos da equipa. O lugar é dele.

Centrais: Imperiais. Sei que Doumbia é um bocadinho mais simpático que Bas Dost mas, não raras vezes, Felipe e Reyes foram chamados a resolver os contragolpes manhosos de Gelson e companhia ou uma ou outra distração dos colegas. Situações ingratas que foram sempre bem resolvidas. O corte de Felipe vale meia eliminatória. Mais importante do que marcar era não sofrer.

Corona: Ajudou Ricardo a detonar o corredor esquerdo leonino e reduziu drasticamente o rácio de decisões parvas em relação à última partida. Foi o desbloqueador do encontro. Dele nasceram três oportunidades flagrantes de golo que, fossem aproveitadas pelos colegas, resolvia-se a questão já hoje.


Brahimi: Que mau dia para ter o pior Brahimi. Perdeu inúmeros lances de forma pouco habitual, sobretudo em passes cegos que acabavam sempre nos pés do adversário. Entende-se a substituição. Está cansado e precisa de pernas para as milhas finais da maratona. Mas mesmo a versão light do argelino é um problema maior para qualquer lateral do que qualquer Hernâni.

Otávio/Hernâni: Mau demais. Ambos. Otávio não tem responsabilidade posicional, joga como se o campo só tivesse uma baliza e não houvesse uma consequência para cada decisão mal medida. Hernâni é uma dama perdida num tabuleiro de xadrez.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Campeão da hipocrisia



Em Maio de 2017, Pedro Adão e Silva escreveu um artigo intitulado "Campeão da Democracia", publicado no jornal Record, onde se insurgia contra o termo "Liga Salazar" usado pelos rivais para apelidar o campeonato nacional.

Para demonstrar que o clube do regime não era o clube do regime, Adão e Silva socorreu-se da sua veia pedagógica e, através de um levantamento histórico, propôs a relação directa entre a matriz de um clube e a doutrina dos respetivos líderes.

Escreveu Adão e Silva que "enquanto tivemos vários presidentes de meios oposicionistas (Félix Bermudes, Manuel Conceição Afonso ou Ribeiro da Costa), os nossos rivais eram presididos por figuras do regime (Urgel Horta e Ângelo César no Porto; Casal Ribeiro e Góis Mota no Sporting)".

Hoje, o mesmo Pedro Adão e Silva escreveu um artigo intitulado "Separar as Águas", publicado no jornal Record, onde se insurge contra os que misturam a matriz de um clube com a doutrina dos respetivos líderes.

Para demonstrar que o clube de Vieira não é, afinal, o clube de Vieira, Adão e Silva socorre-se da sua veia demagógica e, através de um desmembramento histórico, virou do avesso o argumento que ele próprio criou para colar a raiz fascista a FC Porto e Sporting.

Escreve Pedro Adão e Silva que "ontem, como hoje e amanhã, no Benfica, nenhum presidente se pode confundir com o clube."

Existem dois tipos de pessoas neste mundo. Os que admiram as árvores e os que as esbanjam.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

FC Porto 3 x 1 Braga | Trivelas & Roscas


A vitória do FC Porto sobre o Braga é a radiografia perfeita do momento atual da equipa. O FC Porto expôs o melhor e o pior de si em 90 minutos que podem - e devem - servir de molde para Sérgio Conceição preparar os próximos 270. Sem Danilo, há um desequilíbrio notório entra a forma como a equipa ataca e defende. Por outras palavras, como progride com bola e reage sem ela. O processo de construção rápida continua lá, embora mais aleatório, a propensão para pressionar o adversário na saída de bola também, mas em maior dispersão e com menos efeitos práticos e existe uma grande anarquia no posicionamento defensivo, agravado pela ausência de Marcano - que supervisiona melhor que Felipe. Contudo, há aspectos que nem Danilo nem Marcano vão resolver quando regressarem. Como a precipitação constante no último passe, que faz com que a equipa desaproveite demasiada energia sem conseguir chegar ao golo. Mais do que um problema de eficácia na cara do guarda-redes, o FC Porto tem é dificuldades no penúltimo toque que precisam de mais entalhe.


Telles: Com Danilo no estaleiro, o FC Porto perde o serviço de perdidos e achados, o que obriga a equipa a procurar desenfreadamente outras soluções para atacar com critério. É aí que Alex Telles tem sido crucial, funcionando como um recurso de ouro para uma equipa que às vezes tem dificuldade em criar perigo em ataque continuado. Telles mete a bola onde quer e somou no sábado mais três assistências (16) que o colocam acima de Alex Sandro (15) na lista dos laterais de campeonatos europeus com maior número de golos oferecidos esta época. Uma vez mais, foi o brasileiro quem safou a equipa. Um achado.

Sérgio Oliveira: A sua cabeçada foi preciosa para colar o nervo da equipa que, embora tenha sido sempre superior ao adversário, deu a sensação de ter apenas o jogo controlado pelas pontas. Falta algum compromisso a Sérgio Oliveira em certos momentos mas está bem menos desleixado do que o menino "30 milhões" que teimou ser durante muito tempo. No sábado, pegou na batuta quando mais ninguém o conseguia fazer. Mostrou que pode jogar bem contra os pequenos e - ironia deliciosa - parece ter finalmente a cabeça no lugar para jogar ao mais alto nível.

Atitude? É um problema que chamo à pedra porque... não existe. Podemos apontar várias deficiências aos jogadores, mas nenhuma de natureza moral. Este grupo já demonstrou que encara todos os jogos de forma séria, embora nem sempre escolha o melhor caminho para a baliza. Mas que a apatia não se confunda com a vontade. A sobrecarga de esforço, a falta de rotatividade de alguns setores e deficiências na forma como a equipa, por vezes, distribui a pressão em campo são as razões por detrás do subrendimento de algumas unidades. Inconseguimentos que são da responsabilidade de Sérgio Conceição.


Corona: De certeza que há um narco dos Zettas na bancada a fazer-lhe cara feia de cada vez que pega na bola. Só isso explica como Corona consegue iniciar certos lances com brilhantismo qb para depois de se perder na decisão mais absurda possível. Foi uma espécie de joker sem que nunca se percebesse bem de que lado estava a jogar. Atrevo-me a dizer que terá tido uma das últimas oportunidades para manter a titularidade. Paulinho não tem a sua genialidade mas também não tem capos na bancada a ameaçá-lo. No jogo da primeira volta, Corona foi mexican. Desta vez, foi mexican't.

Marega: Não é novidade para ninguém que o seu maior trunfo é a capacidade física que empresta à equipa. Estando numa fase mais tardia da época, a entrega já não camufla tanto a aselhice natural.  Aguentou o barco na primeira metade do campeonato, isso é inegável. Mas está na hora de Conceição considerar levantar-lhe a imunidade. É bom sinal que Marega comece a ser insuficiente. Significa que a qualidade de opções atacantes está a subir.


Paciência: Nos meus tempos de infância tinha três heróis: Optimus Prime, Goku e Domingos Paciência. O filho deste último regressou ao Dragão numa altura em que está finalmente a conciliar o potencial que sempre teve com a intensidade que nunca atingiu. Na única que vez tocou na bola fez um passe de tal forma açucarado que a forma como Marega espalhou o açúcar no chão deu-me diabetes. Se mantiver o foco será um reforço vital para o que resta da caminhada.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Draxletter | Rei Sol, Coentrão e o segredo mais mal guardado


Sexta-feira à tarde é sempre uma benção, sobretudo para quem saiu da cama cedo para escrever comunicados. Não deve ser fácil produzir um texto de sete parágrafos sobre um arguido sem escrever um única vez a palavra arguido. Os comunicados de António Galamba estão a ficar cada vez mais curtos e menos líricos. Mas os jogos de palavras continuam lá. Diz 'Vieira': "não pratiquei qualquer ilícito que me possa ser imputado». E diz bem. Não fosse ele a figura de que maior impunidade goza na praça portuguesa.

Quem também tem jeito para comunicados ambíguos é a Liga Portugal. A organização da prova anunciou que a bancada norte do António Coimbra da Mota está ok e vai reabrir na recepção do Estoril ao Sporting. No mesmo comunicado, a organização refere que o topo estará acessível ao «público em geral», mas que o acesso dos visitantes, por indicação do Estoril, será feito através «através da Bancada Central Nascente». Quer isto dizer que os adeptos do Sporting serão acomodados noutra bancada e quem quiser pode tentar a sua sorte no topo norte? Ou que o acesso da claque do Sporting ao topo norte é feito a partir da central? Ou, melhor, que a bancada reabriu mas vai estar fechada? Domingo saberemos. De resto:


O que também já não espanta é os organismos que tutelam o futebol português terem pesos e medidas diferentes para cada cor. Só isso explica porque Fábio Coentrão pode partir acrílicos sem ter de os pagar e Sérgio Conceição não. Aliás, Coentrão tem fintado de tal forma os critérios disciplinares do Conselho de Disciplina da LPFP e da FPF que admira que o GoalPoint ainda não o tenha colocado ao lado de Brahimi em número de dribles eficazes.

Por falar em GoalPoint, e na véspera de um sempre complicado FC Porto x Braga, eis a análise pertinente do Luís Cristóvão às soluções que Conceição tem para colmatar a ausência de Danilo. Tal como sustenta o artigo - e já o referi algumas vezes neste espaço - Herrera a 6 continua a parecer-me a solução imediata mais indicada. Contudo, agora, também Osorio - que pelos vistos até sabe sair a jogar - poderá ter voto na matéria.


Antes de terminar, recomendo a prosa lúcida de Bernardino Barros na Coluna do Pôncio desta semana para se perceber como o segredo de Justiça portuguesa é o mais mal guardado de sempre. E para irem preparando o estômago para as voltas que o desfecho do BenficaGate vos vai dar. Bom fim-de-semana.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Draxletter | Arquivando o mercado de inverno



O Ministério Público decidiu arquivar o processo que envolvia Mário Centeno e a alegada de troca de favores por bilhetes para o Benfica. A verdade é que a decisão era esperada, uma vez que a base jurídica que sustentava a investigação era manifestamente insuficiente. A frio, pedir bilhetes num sítio onde já se tem lugar cativo por troca de isenção num imposto municipal - e sobre o qual o Governo não tem intervenção directa - parece-me uma associação rebuscada e uma jogada de risco extremamente estúpida, até para Centeno. Mas é inegável a promiscuidade que continua a existir entre o Benfica e o Estado, ainda que este caso tivesse tudo para terminar numa rua sem saída.

No fim de contas, ficam quase todos mal na foto. António Costa, pela dualidade de critérios com que tratou este processo e o do GalpGate, atropelando todas as linhas do código de conduta que ele próprio concebeu; a oposição de centro-direita, habitual campeã do aproveitamento político, manteve um silêncio copioso sobre a matéria do início ao fim; a comunicação social pró-cefalópode, que já começou a vender o arquivamento como uma vitória, e o próprio Centeno, que fica sempre mal em qualquer fotografia. Ah, e porque vai continuar a sentar-se ao lado de um criminoso.

O mercado de inverno encerrou ontem e o FC Porto conseguiu reforçar-se, apesar das condicionantes financeiras impostas pela UEFA. Se ainda queremos sonhar com títulos esta época era essencial dar mais pernas ao plantel, sobretudo numa altura em que a resposta física começa a cair drasticamente nos três grandes. O perfil da abordagem ao mercado não foi muito diferente das épocas anteriores. O FC Porto procurou jogadores já familiarizados com o futebol nacional e que deem garantias de rendimento imediado: Paulinho, Paciência e Osório. A exceção foi Majeed Waris, um investimento estrangeiro pouco habitual nesta janela, que se deveu a uma oportunidade de negócio.

De resto, o mês de Janeiro fica marcado por isso mesmo: oportunidades de negócio. A SAD portista garantiu três jogadores por empréstimo com opção de compra obrigatória (um dado que só o R&C vai confirmar) adiando os respetivos investimentos para julho. Uma boa forma de flexibilizar a rigidez das contas, mas também um risco que poderá, no pior cenário, agravar os pesos mortos do exercício fiscal do próximo ano. Tudo dependerá do rendimento destes jogadores nos próximos seis meses. Querem uma antevisão de qualidade? Consultem a análise que o Lápis Azul e Branco fez aqui.

Depois do nulo em Moreira de Cónegos, segue-se o Braga, partida onde se inicia o ciclo nuclear da temporada. Atrevo-me a dizer que nos próximos oito jogos - Braga, Sporting (TP), Chaves, Liverpool (CL), Rio Ave, Portimonense, Sporting (Liga), Liverpool (CL) - há mais do uma época em jogo. Joga-se também uma luta fora de campo contra a corrupção e para a qual inúmeros portistas se voluntariaram para defender o seu emblema na linha da frente.

A fechar, ficam a saber que uma empresa de chocolates de Coimbra passou a ser dona de 2% do capital do Benfica. Por estes dias, é fodido ser benfiquista.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Moreirense 0 x 0 FC Porto | Trivelas & Roscas


Existe algum portista que não tenha acordado com os lábios secos? Duvido. É exasperante perder pontos desta forma, onde a conjugação de erros próprios, alheios, involuntários e deliberados frustra qualquer tentativa de fuga ao pelotão. Distraímo-nos de tal maneira a ver o Ferrari despistar-se no retrovisor que nos esquecemos de olhar para a frente. E batemos, também, sabendo que esta corrida nunca terá um policiamento justo. Há uma série de diferenças entre o FC Porto da 1ª volta e o que arrancou a 2ª. A mais natural e expectável, o cansaço. A menos visível, a falta de arcaboiço mental dos jogadores para lidar com a liderança. Se olharmos para o onze que entrou ontem em campo, só Telles, Reyes, Felipe e Óliver sabem o que é ser campeões nacionais (e por uma vez). Há menos velocidade na transição e mais hesitação no último terço. O que não existe é diferença de atitude. Atitude pressupõe vontade e a equipa já demonstrou mais do que uma vez que quer vencer o campeonato. Se terá pernas e estofo para o fazer é outra conversa.


Telles/Felipe: O quarteto defensivo esteve genericamente bem, o que explica um dos zeros do jogo, mas os dois brasileiros alargaram o seu raio de ação ao ataque, tendo contrariado uma boa parte do mau desempenho dos colegas da frente. Alex fez um jogo equilibrado, a atacar e a defender, sobretudo tendo em conta que os laterais têm trabalho redobrado sem a presença de um pivot defensivo. Felipe sofreu um penalty grotesco que ficou por assinalar e esteve perto do golo num par de ocasiões, sem oferecer malabarismos arriscados junto da sua área como contrapartida ao adversário.


Herrera/Óliver: O regresso ao esquema com dois médios não correu como Conceição desejava. O FC Porto emperrou a partir do primeiro quarto de hora e só a intervenção do newcomer Paulinho deu, a espaços, algum critério à construção. Primeiro, Herrera. Está em quebra, o que equivale a dizer que está a perder confiança. Depois, Óliver. O espanhol acusou falta de ritmo e mostrou alguma deficiência na entrega e na adaptação ao modelo.

BAM: Desinspiração, indecisão e desacerto. Jhonatan até teve um dia feliz, mas não era imbatível. Do trio africano, nenhum se aproveitou. O que explica o outro zero do jogo.

Sérgio Conceição: Desde a viragem do ano que as primeiras partes se tornaram exercícios sofríveis de assistir. Conceição tem conseguido inverter a tendência na segunda metade, mas talvez esteja na hora de repensar a ideia de dar 45 minutos de avanço. Agora que conseguimos fazer em janeiro o que não fizemos no Verão - contratar - pede-se a rotatividade sensata que o segundo e terceiro terços exigem. Caso contrário, nem a Maio chegamos.


Paulinho: Óptima estreia, com movimentações interessantes para quem acabou de entrar na equipa. As boas investidas do FC Porto na primeira parte passaram quase sempre por ele e o golo, na estreia, também não andou longe. Quem me acompanha no Twitter sabe que este é um dos jogadores que tenho seguido e que acredito que possam trazer valor acrescentado ao FC Porto. Paulinho dá a mesma dimensão interior ao jogo que Brahimi oferece no lado contrário. O que vai ser particularmente útil contra adversários que só vão mendigar um pontinho.

Waris: Voltou a causar boa impressão e mostrou que pode valer pontos. Se deixarem.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Draxletter | Os provérbios do Benfiquistão


Eis a Draxletter. Uma espécie de newsletter diária que só vai acontecer uma vez.

Ontem, assistimos ao primeiro plot twist de uma das novelas mais previsíveis (e perversas) do futebol português. O arrufo de namorados no Restelo trocou as voltas aos que esperavam o forrobodó habitual entre Belenenses e Benfica. Os da casa fizeram-se de difíceis perante o coro encarnado e tudo o que o amante conseguiu foi arrancar um chocho à força, já bem depois da hora de deitar. Até as histórias de amor superlativo têm os seus momentos mais cinzentos. O Benfica não pode esperar que a relação de poliamor que mantém com a maioria dos clubes da Liga não dê num ou noutro caso de ciúme. Nada que, no fim de contas, a Paixão não resolva. O empate de ontem reacende também uma velha questão que promete inflamar susceptibilidades. Afinal, qual deles é melhor: o pastel de Nathan ou o pastel de Belém?

Soubemos hoje que o líder máximo do Benfica, Luís Filipe Vieira, foi constituído arguido no âmbito de um processo que também motivou buscas ao seu gabinete no estádio do Benfica. Na mesma operação, levada a cabo pela Unidade Nacional de Combate à Corrupção, está envolvido o juiz-desembargador Rui Rangel (um ex-candidato a líder máximo do Benfica) e José Veiga (um dos ex-braços direitos do líder máximo do Benfica). Uma operação que nada tem a ver com o Benfica, diz o Benfica. Mas João Correia, o advogado-mor do Benfica, que mais parece uma espécie de Paulo Madeira da defesa jurídica do clube, desarmou todos os que pretendiam tirar algum tipo de aproveitamento da situação com um provérbio popular no Benfiquistão: "Quem não é arguido não é bom chefe de família". Nos próximos dias ainda vamos ouvir que "em casa onde não há corrupção, todos ralham e ninguém tem razão" ou que "boa fama granjeia quem faz tráfico de influência".


Também esta terça-feira, o FC Porto enfrenta uma das deslocações mais complicadas da segunda volta. Começamos já em desvantagem em número de comendadores, porque eles têm o Joaquim de Almeida Freitas e nós não temos o nosso por lesão. Mas o FC Porto que eu conheci não desperdiçava as abébias dadas pelos rivais. Pelo contrário, alimentava-se delas. E Sérgio Conceição tem sido, após Vítor Pereira, o homem que mais tem reaproximado o dragão do caçador de oportunidades que já foi. Sem Danilo no miolo e sem Marcano no eixo da defesa, a presença de um pivot é fundamental. Se nos próximos jogos Conceição quiser abdicar do trinco tradicional e voltar ao modelo com dois médios, não deverá fazê-lo agora. Aposto em Héctor, Óliver e Sérgio Oliveira de início. E, eventualmente, Paulinho no lugar de Corona. Jogue quem jogar, o foco terá de ser a vitória e a liderança isolada da Liga, que fará o regresso a Estoril parecer cada vez mais uma extra ball.

O calendário astronómico diz-nos que se olharmos para o céu esta noite, vamos ver uma super Lua. Que, basicamente, é uma lua gigante, impossível de não notar, que não terá consequências para ninguém. Já se olharmos em frente, vamos continuar ver um super escândalo de corrupção. Que, basicamente, é uma metástase político-desportiva gigante, impossível de não notar, que não terá consequências para ninguém.

Cheers.