quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
Estoril 1 x 3 FC Porto | Trivelas & Roscas
45 minutos à Porto. A expressão que encerra a essência da partida. Um lugar-comum cristalizado no Norte e que encontrou na segunda parte do Estoril x FC Porto a sua mais fiel manifestação até hoje. A prova de contrarrelógio era exigente mas foi descomplicada em poucos minutos, muito mais graças à vontade dos jogadores do que ao jeito. Concordo com o curador da Porta 19. O que define esta meia partida é não haver nuances táticas encriptadas na vitória. Foi mesmo só entrar com tudo e rematar com todos e subir e recuperar e massacrar e insistir e acabar com o pulmão deles como eu acabei com o pulmão de quem acabou de ler esta frase. E no fim, três pontos extraordinários, imprevistos, contingentes, que podem vir a fazer a diferença na fotografia final. Mais do que isso, esta turma sai da Amoreira com a sensação de que pode superar qualquer adversidade em dez ou quinze minutos. Outro detalhe psicológico que pode vir a ser muito útil neste sprint final. 37 dias depois, faz-me pouco sentido apreciar uma primeira parte que já se perdeu na memória. Não foram duas metades do mesmo jogo. Foram dois jogos distintos, com equipas, momentos e jogadores diferentes. Segue-se, por isso, a análise do que aconteceu ontem.
Arranque avassalador: Como se pedia, sem fantochadas, a mostrar ao visitado toda a parafernália de tortura que levámos connosco para resgatar aqueles três pontos. Se grande parte do mérito da reviravolta é dos jogadores, pela forma abnegada como encararam o desafio, não posso deixar de atribuir a Cruz de Guerra a Sérgio Conceição pela maneira como o preparou. Aos poucos, o mad dog torna-se um general de campanha exemplar, senhor do seu lago negro, mais inteligente na gestão de emoções e capaz de ajustar a mentalidade dos seus jogadores ao adversário. Numa época com mais de 50 jogos, é impossível ter sempre a mesma agressividade, a mesma dinâmica e a mesma motivação. É um erro militar usar repetidamente uma fórmula à espera de obter sempre o mesmo resultado. Há jogos em que temos de ser cínicos, calculistas. Há outros em que temos de ser a horda dourada de Genghis Kahn. Por vezes, temos de mudar para manter. E, no geral, Sérgio tem mantido um equilíbrio assinalável, que faz do FC Porto a equipa mais regular do campeonato.
Soares: De todos os que participaram no cerco ao Estoril, Soares foi o homem do aríete. Mais do que os dois golos e meio - obviamente cruciais - foram as suas investidas que ajudaram a colapsar a defesa canarinha (a malta das bancadas que me desculpe). Soares foi um autêntico bully de Renan, surgindo sempre no sítio certo para lhe espezinhar na cara o esforço de duas ou três defesas fantásticas consecutivas. Até no primeiro golo, do qual falaremos mais abaixo, intimidou Renan com a sua cabeçada na atmosfera. Está numa fase monstra. Desde a pissada pública de Conceição, Soares já marcou sete golos e contribuiu com uma assistência, tendo estado envolvido em 62% dos golos marcados pela equipa desde essa altura.
Alex Telles: À hora que escrevo esta crónica, já sei que a entorse do brasileiro não é assim tão grave. O nosso melhor fornecedor de golos é tão genial que até se assistiu a ele próprio no golo do empate. Até torcer o joelho, coube-lhe a tarefa ingrata de lidar com o gajo mais irrequieto deles, Víctor Andrade, e mesmo assim ainda lhe sobrava tempo para aterrorizar o quarteto de escudeiros do Estoril com os seus cruzamentos equipados com GPS e sensor anti-central. Vai falhar alguns dos encontros mais importantes da época e deixa-nos com apenas dois (!) laterais no curto prazo. O custo de oportunidade é Diogo Dalot. Que pode crescer e afirmar-se na ausência de Telles. Ainda que não me agrade muito vê-lo lançado a frio numa posição que não é a sua.
VAR: Os árbitros continuam a ser os protagonistas de um sistema que foi concebido para lhes tirar o protagonismo. Apesar das linhas, dos frames e da interpretação literal da lei do fora-de-jogo, mantenho a opinião de que o primeiro golo deveria ter sido anulado. Embora não tape a visão ao guarda-redes, o gesto de Soares obriga Renan a hesitar na abordagem à bola. Não é uma intervenção directa mas é suficiente para alterar o desfecho da jogada. E como não sofro de escoliose, não me custa reconhecer que o FC Porto marcou um golo irregular. É preciso que as instâncias parem e avaliem seriamente o fiasco que tem sido o videoárbitro em Portugal. Enquanto se continuar a tapar o sol com a peneira e a fazer "balanços positivos" a situações como a de ontem, como o fora-de-jogo inexistente de Aboubakar contra o Benfica ou o golo irregular de Bas Dost ao Rio Ave só se vai contribuir para que o debate construtivo rebente nas mãos de quem tenta melhorar a qualidade de vida do futebol português. Num futuro indefinido, o VAR pode vir a ser útil e fundamental para a modalidade. Mas, para já, é só mais um nível de decisão subjectiva, mais um nível para explorar em termos de polémica. Urge criar um modelo único e um critério uniforme a todos. Um tema para outro dia.
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018
Draxletter | IRS, Estoril revisited e a fátua de Bruno de Carvalho
No FC Porto, temos uma óptima relação com os impostos. De todas as maroscas a que Pinto da Costa foi associado, fuga ao fisco não consta, até porque se levamos cinco, declaramos cinco. Somos de boas contas. O mais importante está feito. Fomos práticos a aplicar um penso sobre um dos momentos mais dolorosos da história recente do clube. Fomos rápidos a passar uma demão sobre o chavascal em que ficou o Dragão na noite de quarta-feira. Exercemos o nosso direito de resposta com convicção e demos sinais de que é mais provável trazer a liderança mais reforçada na quarta-feira do que deixar tudo como está. Bonito e promissor.
Quando comecei a ver o jogo, já o jogo estava resolvido (daí não haver Trivelas & Roscas). Tanto que me deu para pensar logo na bola extra de quarta-feira e na melhor forma de a capitalizar. De um modo geral, ditam as regras que não se podem usar reforços inscritos depois do jogo, jogadores castigados na altura do jogo e, naturalmente, todos os que estão actualmente lesionados. A isto se junta uma espécie de injunção que evita substituições fantasma e impede qualquer titular do jogo de janeiro de ser suplente. Ora, tudo somado, dá 16 gajos disponíveis para quarta-feira. Em suma, não jogam Paciência, Waris, Paulinho e Osorio, Ricardo Pereira, Danilo, Aboubakar.
Ahhh.....Resumindo, pode jogar o mesmo 11 de ontem!— L.Barbosa (@82Dragao) February 19, 2018
O que significa que o nosso XI não deve andar muito longe do que despachou o Rio Ave. A entrada de Iker atira Sá para a bancada, devido ao regulamento. A entrada de Marcano no onze faz o mesmo a Reyes (que foi titular a 15 de janeiro), o que deixaria Conceição sem nenhum central no banco. Em teoria, manter a titularidade de Reyes para poder contar com Marcano de prevenção será a opção mais viável. Resumindo e baralhando: Iker, Maxi, Reyes, Felipe, Telles, Sérgio, Hector, Brahimi, Corona, Marega e Soares.
Até um relógio parado está certo duas vezes por dia. A fátua de Bruno de Carvalho contra a imprensa nacional é desconcertante no estilo, mas compreensível no conteúdo. Não podemos ser anarquistas à segunda e progressistas à terça. Pior do que a falta de pluralismo dos órgãos de comunicação social é a presença de agentes infecciosos para a opinião pública que se propagam debaixo do manto da imparcialidade. Pior do que um canal de TV ou um jornal ser responsável por um Pedro Guerra, que faz militância doentia, mas fá-la a descoberto, é serem responsáveis por um Rui Pedro Braz, que destila a mesma doença na sombra da isenção. Pior do que jornalistas que não veem são os que não querem ver. Para esses, bardamerda.
Podemos até discordar, na forma e no conteúdo, das "recomendações" de BdC sobre a imprensa. Mas não podemos ignorar o que as justifica: entrevistas e perguntas combinadas, comentadores "independentes" com guiões, avençados, etc. Lixo tóxico a boiar há anos nas TVs e jornais.— Pedro Bragança (@pfbraganca) February 18, 2018
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
FC Porto 0 x 5 Liverpool | Trivelas & Roscas
Uma das coisas que mais me chateia nestas derrotas cataclísmicas, contra equipas que são melhores do que o FC Porto mas que estão ao alcance do melhor Porto, é o nosso gene da autodestruição. O complexo de inferioridade que nos banaliza e nos transforma em máquinas de guerra com disfunção eréctil. Hei-de ter sempre maior compreensão para desastres como o de Munique, frente a 11 protótipos do futebol quântico, do que para descalabros como o de ontem, em casa, perante um Liverpool claramente superior, mas nunca cinco vezes melhor que o FC Porto. A quebra de ontem deve-se mais à nossa apetência para vestir a pele de cordeiro do que à qualidade lupina dos ingleses. Perdemo-nos nos caprichos da sorte, na incapacidade mental para lidar com a adversidade e na apatia voluntária contra uma equipa que se alimenta precisamente da apatia dos outros. Tenho os ossos frios. Levar cinco secos no nosso próprio ringue não é algo que me aqueça escrever. Mas deixa-me de sangue bem mais azul.
José Sá: Vamos lá encarar o elefante de frente, sem merdas. Sá está longe de ser o grande culpado disto. Mas é evidente que ainda lhe faltam umas paletes de danoninhos para assumir a responsabilidade astronómica que é defender a baliza do FC Porto. O problema de Sá não são as falhas técnicas que tem e que ainda vai a tempo de resolver. É a indisposição psicológica para jogos deste calibre. Para não tremer com a bola nos pés e para não se borrar com um peido de Mané. É a incapacidade para não diferenciar caras, camisolas e salários. As equipas de Champions são um avião com demasiado comandos para o nervo de Sá e o seu suplente, Casillas, tem horas de voo mais do que suficientes para evitar que nos despenhássemos da forma que foi.
Sérgio Conceição: Isto leva-nos ao treinador. Foi sua a decisão de à nona jornada sentar Casillas por acomodação e lançar Sá por respeito aos princípios do grupo. Qualquer aposta arrojada tem riscos. O que importa é o balanço final entre o que se ganha o que se perde com elas. À medida que a época avança e a pressão aumenta, torna-se cada vez mais óbvio que temos o melhor guarda-redes no banco. E se Casillas perdeu o lugar por não estar empenhado, parece-me justo que Sá também possa perder a titularidade por não estar preparado. Já se percebeu a mensagem de Conceição. No FC Porto, joga quem dá mais nos treinos e não quem faz melhor em campo. Uma filosofia educada, mas perigosa e a possivelmente incompatível com os interesses do clube. Sobre a estratégia da partida, estamos conversados. Como ele próprio assumiu no fim, a responsabilidade é dele.
You'll never walk alone: A demonstração de fé dos adeptos depois de terem sofrido a maior humilhação da história europeia do clube foi incrível e será provavelmente recordada como um dos momentos-chave da época quando estivermos todos bêbados em Maio abraçados a malta que não conhecemos. Este é também um manifesto para os que a partir de ontem deixaram de "ligar à bola" ou "já não acompanham muito o Porto este ano". Que esta derrota seja o contraveneno necessário para o neoportismo que se alastra pelo clube. E estabeleça a diferença entre os que são e os que pensam que são. Ontem, meu FC Porto, pedi-te que mostrasses o teu pulsar à Europa. E, na hora mais negra, tu mostraste. You'll never walk alone.
Remarkable scenes after the final whistle. Porto fans after losing 5-0 👏👏👏👏 pic.twitter.com/Vbk0w9Zq09— James Pearce (@JamesPearceEcho) February 15, 2018
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
Coração de dragão
Diz que hoje é dia de dedicatória paneleira com corações e afins. Cá nada. Resiste ao perfume e não te armes em coração de manteiga, dragãozinho. O que eu quero é uma entrada bárbara em campo, capaz de intimidar até uma horda de dinossauros famintos. Carlos Carvalhal disse que o Liverpool é um Formula 1. Eu acho que é um motor Porsche encafuado num chassis Trabant com pneus Intermarché.
Não tenho o hábito de escrever por antecipação, mas carrego a cruz de quem sofre por antecipação. Estou nervoso, confesso.Tenho em mim a sensação permeável de que este empreendimento tanto pode correr muito bem como ser um desastre. Sou assim, vivo na contramão da fé. Apesar de já teres provado constantemente que és o Cesar Millan de gatos e galinhas.
Hoje, jantamos juntos. Tu convidas, eu aceito. Aceito sempre. Partilhar a mesa contigo é um prazer que não prescreve. És boa companhia mesmo quando não estás nos teus dias. E nesta relação, ao contrário do que parece, sofres mais do que eu. Sou eu que te viro as costas quando falhas. Sou eu que te grito quando erras. Sou eu que ganho e nunca perco.
Joga como se não houvesse segunda mão. Como se o planeta explodisse à meia-noite. Como se quem marcasse ganhasse a Liga dos Campeões. Quero que a Europa sinta o teu pulsar. Nada temas. Everything will be okay in the end. If it's not okay, it's not the end.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
FC Porto 1 x 0 Sporting | Trivelas & Roscas
Sérgio Oliveira: Soberbo. Quase sozinho, vulgarizou a trincheira montada por Jesus no meio-campo. Com enorme presença e disponibilidade física, tapou quase sempre bem as saídas rápidas do Sporting, sobretudo na segunda parte. É impressionante a forma como muda rapidamente o chip entre o desarme e a construção. Recupera, pensa e executa a uma velocidade acima da média, como no lance do golo. E é provavelmente o melhor executante de livres directos da equipa. O lugar é dele.
Centrais: Imperiais. Sei que Doumbia é um bocadinho mais simpático que Bas Dost mas, não raras vezes, Felipe e Reyes foram chamados a resolver os contragolpes manhosos de Gelson e companhia ou uma ou outra distração dos colegas. Situações ingratas que foram sempre bem resolvidas. O corte de Felipe vale meia eliminatória. Mais importante do que marcar era não sofrer.
Corona: Ajudou Ricardo a detonar o corredor esquerdo leonino e reduziu drasticamente o rácio de decisões parvas em relação à última partida. Foi o desbloqueador do encontro. Dele nasceram três oportunidades flagrantes de golo que, fossem aproveitadas pelos colegas, resolvia-se a questão já hoje.
Otávio/Hernâni: Mau demais. Ambos. Otávio não tem responsabilidade posicional, joga como se o campo só tivesse uma baliza e não houvesse uma consequência para cada decisão mal medida. Hernâni é uma dama perdida num tabuleiro de xadrez.
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