segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Draxletter | IRS, Estoril revisited e a fátua de Bruno de Carvalho


No FC Porto, temos uma óptima relação com os impostos. De todas as maroscas a que Pinto da Costa foi associado, fuga ao fisco não consta, até porque se levamos cinco, declaramos cinco. Somos de boas contas. O mais importante está feito. Fomos práticos a aplicar um penso sobre um dos momentos mais dolorosos da história recente do clube. Fomos rápidos a passar uma demão sobre o chavascal em que ficou o Dragão na noite de quarta-feira. Exercemos o nosso direito de resposta com convicção e demos sinais de que é mais provável trazer a liderança mais reforçada na quarta-feira do que deixar tudo como está. Bonito e promissor.

Quando comecei a ver o jogo, já o jogo estava resolvido (daí não haver Trivelas & Roscas). Tanto que me deu para pensar logo na bola extra de quarta-feira e na melhor forma de a capitalizar. De um modo geral, ditam as regras que não se podem usar reforços inscritos depois do jogo, jogadores castigados na altura do jogo e, naturalmente, todos os que estão actualmente lesionados. A isto se junta uma espécie de injunção que evita substituições fantasma e impede qualquer titular do jogo de janeiro de ser suplente. Ora, tudo somado, dá 16 gajos disponíveis para quarta-feira. Em suma, não jogam Paciência, Waris, Paulinho e Osorio, Ricardo Pereira, Danilo, Aboubakar.


O que significa que o nosso XI não deve andar muito longe do que despachou o Rio Ave. A entrada de Iker atira Sá para a bancada, devido ao regulamento. A entrada de Marcano no onze faz o mesmo a Reyes (que foi titular a 15 de janeiro), o que deixaria Conceição sem nenhum central no banco. Em teoria, manter a titularidade de Reyes para poder contar com Marcano de prevenção será a opção mais viável. Resumindo e baralhando: Iker, Maxi, Reyes, Felipe, Telles, Sérgio, Hector, Brahimi, Corona, Marega e Soares.

Até um relógio parado está certo duas vezes por dia. A fátua de Bruno de Carvalho contra a imprensa nacional é desconcertante no estilo, mas compreensível no conteúdo. Não podemos ser anarquistas à segunda e progressistas à terça. Pior do que a falta de pluralismo dos órgãos de comunicação social é a presença de agentes infecciosos para a opinião pública que se propagam debaixo do manto da imparcialidade. Pior do que um canal de TV ou um jornal ser responsável por um Pedro Guerra, que faz militância doentia, mas fá-la a descoberto, é serem responsáveis por um Rui Pedro Braz, que destila a mesma doença na sombra da isenção. Pior do que jornalistas que não veem são os que não querem ver. Para esses, bardamerda.


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

FC Porto 0 x 5 Liverpool | Trivelas & Roscas


Uma das coisas que mais me chateia nestas derrotas cataclísmicas, contra equipas que são melhores do que o FC Porto mas que estão ao alcance do melhor Porto, é o nosso gene da autodestruição. O complexo de inferioridade que nos banaliza e nos transforma em máquinas de guerra com disfunção eréctil. Hei-de ter sempre maior compreensão para desastres como o de Munique, frente a 11 protótipos do futebol quântico, do que para descalabros como o de ontem, em casa, perante um Liverpool claramente superior, mas nunca cinco vezes melhor que o FC Porto. A quebra de ontem deve-se mais à nossa apetência para vestir a pele de cordeiro do que à qualidade lupina dos ingleses. Perdemo-nos nos caprichos da sorte, na incapacidade mental para lidar com a adversidade e na apatia voluntária contra uma equipa que se alimenta precisamente da apatia dos outros. Tenho os ossos frios. Levar cinco secos no nosso próprio ringue não é algo que me aqueça escrever. Mas deixa-me de sangue bem mais azul.


Arranques trocados: O que o FC Porto devia ter feito na primeira parte fez na segunda. E vice-versa. Com o resultado a zeros, um jogo desta natureza pede uma entrada agressiva em campo, mais que não fosse para intimidar o setor mais recuado - e também o mais fraco - do Liverpool e impor algum equilíbrio na balança de estatutos. Não aconteceu. O FC Porto foi traído pela dormência colectiva e pelos erros individuais. Com 0-2 no placard à saída para o intervalo, acreditei que o mais prudente seria fazer controlo de danos e tentar uma abordagem mais cautelosa na segunda metade para tentar, pelo menos, não sofrer e até marcar um golo que não deixasse a eliminatória metastizar. No entanto, o FC Porto optou por um kamikaze desorganizado que expôs a baliza à velocidade do contra-ataque adversário. Diga-se de passagem: tudo correu bem ao Liverpool, numa espécie de Lei de Murphy invertida.

José Sá: Vamos lá encarar o elefante de frente, sem merdas. Sá está longe de ser o grande culpado disto. Mas é evidente que ainda lhe faltam umas paletes de danoninhos para assumir a responsabilidade astronómica que é defender a baliza do FC Porto. O problema de Sá não são as falhas técnicas que tem e que ainda vai a tempo de resolver. É a indisposição psicológica para jogos deste calibre. Para não tremer com a bola nos pés e para não se borrar com um peido de Mané. É a incapacidade para não diferenciar caras, camisolas e salários. As equipas de Champions são um avião com demasiado comandos para o nervo de Sá e o seu suplente, Casillas, tem horas de voo mais do que suficientes para evitar que nos despenhássemos da forma que foi.

Sérgio Conceição: Isto leva-nos ao treinador. Foi sua a decisão de à nona jornada sentar Casillas por acomodação e lançar Sá por respeito aos princípios do grupo. Qualquer aposta arrojada tem riscos. O que importa é o balanço final entre o que se ganha o que se perde com elas. À medida que a época avança e a pressão aumenta, torna-se cada vez mais óbvio que temos o melhor guarda-redes no banco. E se Casillas perdeu o lugar por não estar empenhado, parece-me justo que Sá também possa perder a titularidade por não estar preparado. Já se percebeu a mensagem de Conceição. No FC Porto, joga quem dá mais nos treinos e não quem faz melhor em campo. Uma filosofia educada, mas perigosa e a possivelmente incompatível com os interesses do clube. Sobre a estratégia da partida, estamos conversados. Como ele próprio assumiu no fim, a responsabilidade é dele.


You'll never walk alone: A demonstração de fé dos adeptos depois de terem sofrido a maior humilhação da história europeia do clube foi incrível e será provavelmente recordada como um dos momentos-chave da época quando estivermos todos bêbados em Maio abraçados a malta que não conhecemos. Este é também um manifesto para os que a partir de ontem deixaram de "ligar à bola" ou "já não acompanham muito o Porto este ano". Que esta derrota seja o contraveneno necessário para o neoportismo que se alastra pelo clube. E estabeleça a diferença entre os que são e os que pensam que são. Ontem, meu FC Porto, pedi-te que mostrasses o teu pulsar à Europa. E, na hora mais negra, tu mostraste. You'll never walk alone.


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Coração de dragão


Diz que hoje é dia de dedicatória paneleira com corações e afins. Cá nada. Resiste ao perfume e não te armes em coração de manteiga, dragãozinho. O que eu quero é uma entrada bárbara em campo, capaz de intimidar até uma horda de dinossauros famintos. Carlos Carvalhal disse que o Liverpool é um Formula 1. Eu acho que é um motor Porsche encafuado num chassis Trabant com pneus Intermarché.

Não tenho o hábito de escrever por antecipação, mas carrego a cruz de quem sofre por antecipação. Estou nervoso, confesso.Tenho em mim a sensação permeável de que este empreendimento tanto pode correr muito bem como ser um desastre. Sou assim, vivo na contramão da fé. Apesar de já teres provado constantemente que és o Cesar Millan de gatos e galinhas.

Hoje, jantamos juntos. Tu convidas, eu aceito. Aceito sempre. Partilhar a mesa contigo é um prazer que não prescreve. És boa companhia mesmo quando não estás nos teus dias. E nesta relação, ao contrário do que parece, sofres mais do que eu. Sou eu que te viro as costas quando falhas. Sou eu que te grito quando erras. Sou eu que ganho e nunca perco.

Joga como se não houvesse segunda mão. Como se o planeta explodisse à meia-noite. Como se quem marcasse ganhasse a Liga dos Campeões. Quero que a Europa sinta o teu pulsar. Nada temas. Everything will be okay in the end. If it's not okay, it's not the end.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

FC Porto 1 x 0 Sporting | Trivelas & Roscas


Picture this. São 22h e só tomaste o pequeno-almoço. Vais ao restaurante e colocam-te à frente a maior e mais suculenta francesinha que já viste. Os dedos tremem. As narinas absorvem o vapor do queijo fundido por cima da ilha de carnes seleccionadas, confortavelmente repousadas entre as fatias de pão bijou. Os olhos acusam a provocação fácil do mar de batatas fritas que envolve o prato. Pegas no garfo e levas um pedaço daquele sabor olímpico à boca. Abraças interiormente a explosão de endorfinas, numa euforia silenciosa que termina com a alma sedenta. Depois, vem o garçon, tira-te o prato e diz que o tasco fechou até abril. Para obras. Olhas para o relógio e vês que ele tem razão. Tiveste a iguaria à tua mercê o tempo todo mas só a provaste uma vez. Devias ter dado maior expressão ao teu domínio. Podendo trucidar, uma batatinha não dá grande conforto a ninguém.


Ricardo: Abismal. Deixou Coentrão a soro e à procura de uma nova forma de fazer xixi. Aquela maldade sobre o caxineiro vai ficar na retina para a eternidade. E na internet para quando quisermos revisitá-la. Tirou-me do sério ver Herrera tratar a obra prima do mestre como a prima do mestre de obras e borrar aquela pincelada magnífica com um remate frouxo e desinteressado. Teve uma boa química com Corona e mostrou uma resistência invejável para esta altura da época. Aos 85 minutos, ainda sprintava como um louco e nem aquele deslize perto do fim lhe poderia ser totalmente imputado se desse em golo porque nasce de uma perda de bola absurda de Otávio.

Sérgio Oliveira: Soberbo. Quase sozinho, vulgarizou a trincheira montada por Jesus no meio-campo. Com enorme presença e disponibilidade física, tapou quase sempre bem as saídas rápidas do Sporting, sobretudo na segunda parte. É impressionante a forma como muda rapidamente o chip entre o desarme e a construção. Recupera, pensa e executa a uma velocidade acima da média, como no lance do golo. E é provavelmente o melhor executante de livres directos da equipa. O lugar é dele.

Centrais: Imperiais. Sei que Doumbia é um bocadinho mais simpático que Bas Dost mas, não raras vezes, Felipe e Reyes foram chamados a resolver os contragolpes manhosos de Gelson e companhia ou uma ou outra distração dos colegas. Situações ingratas que foram sempre bem resolvidas. O corte de Felipe vale meia eliminatória. Mais importante do que marcar era não sofrer.

Corona: Ajudou Ricardo a detonar o corredor esquerdo leonino e reduziu drasticamente o rácio de decisões parvas em relação à última partida. Foi o desbloqueador do encontro. Dele nasceram três oportunidades flagrantes de golo que, fossem aproveitadas pelos colegas, resolvia-se a questão já hoje.


Brahimi: Que mau dia para ter o pior Brahimi. Perdeu inúmeros lances de forma pouco habitual, sobretudo em passes cegos que acabavam sempre nos pés do adversário. Entende-se a substituição. Está cansado e precisa de pernas para as milhas finais da maratona. Mas mesmo a versão light do argelino é um problema maior para qualquer lateral do que qualquer Hernâni.

Otávio/Hernâni: Mau demais. Ambos. Otávio não tem responsabilidade posicional, joga como se o campo só tivesse uma baliza e não houvesse uma consequência para cada decisão mal medida. Hernâni é uma dama perdida num tabuleiro de xadrez.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Campeão da hipocrisia



Em Maio de 2017, Pedro Adão e Silva escreveu um artigo intitulado "Campeão da Democracia", publicado no jornal Record, onde se insurgia contra o termo "Liga Salazar" usado pelos rivais para apelidar o campeonato nacional.

Para demonstrar que o clube do regime não era o clube do regime, Adão e Silva socorreu-se da sua veia pedagógica e, através de um levantamento histórico, propôs a relação directa entre a matriz de um clube e a doutrina dos respetivos líderes.

Escreveu Adão e Silva que "enquanto tivemos vários presidentes de meios oposicionistas (Félix Bermudes, Manuel Conceição Afonso ou Ribeiro da Costa), os nossos rivais eram presididos por figuras do regime (Urgel Horta e Ângelo César no Porto; Casal Ribeiro e Góis Mota no Sporting)".

Hoje, o mesmo Pedro Adão e Silva escreveu um artigo intitulado "Separar as Águas", publicado no jornal Record, onde se insurge contra os que misturam a matriz de um clube com a doutrina dos respetivos líderes.

Para demonstrar que o clube de Vieira não é, afinal, o clube de Vieira, Adão e Silva socorre-se da sua veia demagógica e, através de um desmembramento histórico, virou do avesso o argumento que ele próprio criou para colar a raiz fascista a FC Porto e Sporting.

Escreve Pedro Adão e Silva que "ontem, como hoje e amanhã, no Benfica, nenhum presidente se pode confundir com o clube."

Existem dois tipos de pessoas neste mundo. Os que admiram as árvores e os que as esbanjam.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

FC Porto 3 x 1 Braga | Trivelas & Roscas


A vitória do FC Porto sobre o Braga é a radiografia perfeita do momento atual da equipa. O FC Porto expôs o melhor e o pior de si em 90 minutos que podem - e devem - servir de molde para Sérgio Conceição preparar os próximos 270. Sem Danilo, há um desequilíbrio notório entra a forma como a equipa ataca e defende. Por outras palavras, como progride com bola e reage sem ela. O processo de construção rápida continua lá, embora mais aleatório, a propensão para pressionar o adversário na saída de bola também, mas em maior dispersão e com menos efeitos práticos e existe uma grande anarquia no posicionamento defensivo, agravado pela ausência de Marcano - que supervisiona melhor que Felipe. Contudo, há aspectos que nem Danilo nem Marcano vão resolver quando regressarem. Como a precipitação constante no último passe, que faz com que a equipa desaproveite demasiada energia sem conseguir chegar ao golo. Mais do que um problema de eficácia na cara do guarda-redes, o FC Porto tem é dificuldades no penúltimo toque que precisam de mais entalhe.


Telles: Com Danilo no estaleiro, o FC Porto perde o serviço de perdidos e achados, o que obriga a equipa a procurar desenfreadamente outras soluções para atacar com critério. É aí que Alex Telles tem sido crucial, funcionando como um recurso de ouro para uma equipa que às vezes tem dificuldade em criar perigo em ataque continuado. Telles mete a bola onde quer e somou no sábado mais três assistências (16) que o colocam acima de Alex Sandro (15) na lista dos laterais de campeonatos europeus com maior número de golos oferecidos esta época. Uma vez mais, foi o brasileiro quem safou a equipa. Um achado.

Sérgio Oliveira: A sua cabeçada foi preciosa para colar o nervo da equipa que, embora tenha sido sempre superior ao adversário, deu a sensação de ter apenas o jogo controlado pelas pontas. Falta algum compromisso a Sérgio Oliveira em certos momentos mas está bem menos desleixado do que o menino "30 milhões" que teimou ser durante muito tempo. No sábado, pegou na batuta quando mais ninguém o conseguia fazer. Mostrou que pode jogar bem contra os pequenos e - ironia deliciosa - parece ter finalmente a cabeça no lugar para jogar ao mais alto nível.

Atitude? É um problema que chamo à pedra porque... não existe. Podemos apontar várias deficiências aos jogadores, mas nenhuma de natureza moral. Este grupo já demonstrou que encara todos os jogos de forma séria, embora nem sempre escolha o melhor caminho para a baliza. Mas que a apatia não se confunda com a vontade. A sobrecarga de esforço, a falta de rotatividade de alguns setores e deficiências na forma como a equipa, por vezes, distribui a pressão em campo são as razões por detrás do subrendimento de algumas unidades. Inconseguimentos que são da responsabilidade de Sérgio Conceição.


Corona: De certeza que há um narco dos Zettas na bancada a fazer-lhe cara feia de cada vez que pega na bola. Só isso explica como Corona consegue iniciar certos lances com brilhantismo qb para depois de se perder na decisão mais absurda possível. Foi uma espécie de joker sem que nunca se percebesse bem de que lado estava a jogar. Atrevo-me a dizer que terá tido uma das últimas oportunidades para manter a titularidade. Paulinho não tem a sua genialidade mas também não tem capos na bancada a ameaçá-lo. No jogo da primeira volta, Corona foi mexican. Desta vez, foi mexican't.

Marega: Não é novidade para ninguém que o seu maior trunfo é a capacidade física que empresta à equipa. Estando numa fase mais tardia da época, a entrega já não camufla tanto a aselhice natural.  Aguentou o barco na primeira metade do campeonato, isso é inegável. Mas está na hora de Conceição considerar levantar-lhe a imunidade. É bom sinal que Marega comece a ser insuficiente. Significa que a qualidade de opções atacantes está a subir.


Paciência: Nos meus tempos de infância tinha três heróis: Optimus Prime, Goku e Domingos Paciência. O filho deste último regressou ao Dragão numa altura em que está finalmente a conciliar o potencial que sempre teve com a intensidade que nunca atingiu. Na única que vez tocou na bola fez um passe de tal forma açucarado que a forma como Marega espalhou o açúcar no chão deu-me diabetes. Se mantiver o foco será um reforço vital para o que resta da caminhada.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Draxletter | Rei Sol, Coentrão e o segredo mais mal guardado


Sexta-feira à tarde é sempre uma benção, sobretudo para quem saiu da cama cedo para escrever comunicados. Não deve ser fácil produzir um texto de sete parágrafos sobre um arguido sem escrever um única vez a palavra arguido. Os comunicados de António Galamba estão a ficar cada vez mais curtos e menos líricos. Mas os jogos de palavras continuam lá. Diz 'Vieira': "não pratiquei qualquer ilícito que me possa ser imputado». E diz bem. Não fosse ele a figura de que maior impunidade goza na praça portuguesa.

Quem também tem jeito para comunicados ambíguos é a Liga Portugal. A organização da prova anunciou que a bancada norte do António Coimbra da Mota está ok e vai reabrir na recepção do Estoril ao Sporting. No mesmo comunicado, a organização refere que o topo estará acessível ao «público em geral», mas que o acesso dos visitantes, por indicação do Estoril, será feito através «através da Bancada Central Nascente». Quer isto dizer que os adeptos do Sporting serão acomodados noutra bancada e quem quiser pode tentar a sua sorte no topo norte? Ou que o acesso da claque do Sporting ao topo norte é feito a partir da central? Ou, melhor, que a bancada reabriu mas vai estar fechada? Domingo saberemos. De resto:


O que também já não espanta é os organismos que tutelam o futebol português terem pesos e medidas diferentes para cada cor. Só isso explica porque Fábio Coentrão pode partir acrílicos sem ter de os pagar e Sérgio Conceição não. Aliás, Coentrão tem fintado de tal forma os critérios disciplinares do Conselho de Disciplina da LPFP e da FPF que admira que o GoalPoint ainda não o tenha colocado ao lado de Brahimi em número de dribles eficazes.

Por falar em GoalPoint, e na véspera de um sempre complicado FC Porto x Braga, eis a análise pertinente do Luís Cristóvão às soluções que Conceição tem para colmatar a ausência de Danilo. Tal como sustenta o artigo - e já o referi algumas vezes neste espaço - Herrera a 6 continua a parecer-me a solução imediata mais indicada. Contudo, agora, também Osorio - que pelos vistos até sabe sair a jogar - poderá ter voto na matéria.


Antes de terminar, recomendo a prosa lúcida de Bernardino Barros na Coluna do Pôncio desta semana para se perceber como o segredo de Justiça portuguesa é o mais mal guardado de sempre. E para irem preparando o estômago para as voltas que o desfecho do BenficaGate vos vai dar. Bom fim-de-semana.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Draxletter | Arquivando o mercado de inverno



O Ministério Público decidiu arquivar o processo que envolvia Mário Centeno e a alegada de troca de favores por bilhetes para o Benfica. A verdade é que a decisão era esperada, uma vez que a base jurídica que sustentava a investigação era manifestamente insuficiente. A frio, pedir bilhetes num sítio onde já se tem lugar cativo por troca de isenção num imposto municipal - e sobre o qual o Governo não tem intervenção directa - parece-me uma associação rebuscada e uma jogada de risco extremamente estúpida, até para Centeno. Mas é inegável a promiscuidade que continua a existir entre o Benfica e o Estado, ainda que este caso tivesse tudo para terminar numa rua sem saída.

No fim de contas, ficam quase todos mal na foto. António Costa, pela dualidade de critérios com que tratou este processo e o do GalpGate, atropelando todas as linhas do código de conduta que ele próprio concebeu; a oposição de centro-direita, habitual campeã do aproveitamento político, manteve um silêncio copioso sobre a matéria do início ao fim; a comunicação social pró-cefalópode, que já começou a vender o arquivamento como uma vitória, e o próprio Centeno, que fica sempre mal em qualquer fotografia. Ah, e porque vai continuar a sentar-se ao lado de um criminoso.

O mercado de inverno encerrou ontem e o FC Porto conseguiu reforçar-se, apesar das condicionantes financeiras impostas pela UEFA. Se ainda queremos sonhar com títulos esta época era essencial dar mais pernas ao plantel, sobretudo numa altura em que a resposta física começa a cair drasticamente nos três grandes. O perfil da abordagem ao mercado não foi muito diferente das épocas anteriores. O FC Porto procurou jogadores já familiarizados com o futebol nacional e que deem garantias de rendimento imediado: Paulinho, Paciência e Osório. A exceção foi Majeed Waris, um investimento estrangeiro pouco habitual nesta janela, que se deveu a uma oportunidade de negócio.

De resto, o mês de Janeiro fica marcado por isso mesmo: oportunidades de negócio. A SAD portista garantiu três jogadores por empréstimo com opção de compra obrigatória (um dado que só o R&C vai confirmar) adiando os respetivos investimentos para julho. Uma boa forma de flexibilizar a rigidez das contas, mas também um risco que poderá, no pior cenário, agravar os pesos mortos do exercício fiscal do próximo ano. Tudo dependerá do rendimento destes jogadores nos próximos seis meses. Querem uma antevisão de qualidade? Consultem a análise que o Lápis Azul e Branco fez aqui.

Depois do nulo em Moreira de Cónegos, segue-se o Braga, partida onde se inicia o ciclo nuclear da temporada. Atrevo-me a dizer que nos próximos oito jogos - Braga, Sporting (TP), Chaves, Liverpool (CL), Rio Ave, Portimonense, Sporting (Liga), Liverpool (CL) - há mais do uma época em jogo. Joga-se também uma luta fora de campo contra a corrupção e para a qual inúmeros portistas se voluntariaram para defender o seu emblema na linha da frente.

A fechar, ficam a saber que uma empresa de chocolates de Coimbra passou a ser dona de 2% do capital do Benfica. Por estes dias, é fodido ser benfiquista.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Moreirense 0 x 0 FC Porto | Trivelas & Roscas


Existe algum portista que não tenha acordado com os lábios secos? Duvido. É exasperante perder pontos desta forma, onde a conjugação de erros próprios, alheios, involuntários e deliberados frustra qualquer tentativa de fuga ao pelotão. Distraímo-nos de tal maneira a ver o Ferrari despistar-se no retrovisor que nos esquecemos de olhar para a frente. E batemos, também, sabendo que esta corrida nunca terá um policiamento justo. Há uma série de diferenças entre o FC Porto da 1ª volta e o que arrancou a 2ª. A mais natural e expectável, o cansaço. A menos visível, a falta de arcaboiço mental dos jogadores para lidar com a liderança. Se olharmos para o onze que entrou ontem em campo, só Telles, Reyes, Felipe e Óliver sabem o que é ser campeões nacionais (e por uma vez). Há menos velocidade na transição e mais hesitação no último terço. O que não existe é diferença de atitude. Atitude pressupõe vontade e a equipa já demonstrou mais do que uma vez que quer vencer o campeonato. Se terá pernas e estofo para o fazer é outra conversa.


Telles/Felipe: O quarteto defensivo esteve genericamente bem, o que explica um dos zeros do jogo, mas os dois brasileiros alargaram o seu raio de ação ao ataque, tendo contrariado uma boa parte do mau desempenho dos colegas da frente. Alex fez um jogo equilibrado, a atacar e a defender, sobretudo tendo em conta que os laterais têm trabalho redobrado sem a presença de um pivot defensivo. Felipe sofreu um penalty grotesco que ficou por assinalar e esteve perto do golo num par de ocasiões, sem oferecer malabarismos arriscados junto da sua área como contrapartida ao adversário.


Herrera/Óliver: O regresso ao esquema com dois médios não correu como Conceição desejava. O FC Porto emperrou a partir do primeiro quarto de hora e só a intervenção do newcomer Paulinho deu, a espaços, algum critério à construção. Primeiro, Herrera. Está em quebra, o que equivale a dizer que está a perder confiança. Depois, Óliver. O espanhol acusou falta de ritmo e mostrou alguma deficiência na entrega e na adaptação ao modelo.

BAM: Desinspiração, indecisão e desacerto. Jhonatan até teve um dia feliz, mas não era imbatível. Do trio africano, nenhum se aproveitou. O que explica o outro zero do jogo.

Sérgio Conceição: Desde a viragem do ano que as primeiras partes se tornaram exercícios sofríveis de assistir. Conceição tem conseguido inverter a tendência na segunda metade, mas talvez esteja na hora de repensar a ideia de dar 45 minutos de avanço. Agora que conseguimos fazer em janeiro o que não fizemos no Verão - contratar - pede-se a rotatividade sensata que o segundo e terceiro terços exigem. Caso contrário, nem a Maio chegamos.


Paulinho: Óptima estreia, com movimentações interessantes para quem acabou de entrar na equipa. As boas investidas do FC Porto na primeira parte passaram quase sempre por ele e o golo, na estreia, também não andou longe. Quem me acompanha no Twitter sabe que este é um dos jogadores que tenho seguido e que acredito que possam trazer valor acrescentado ao FC Porto. Paulinho dá a mesma dimensão interior ao jogo que Brahimi oferece no lado contrário. O que vai ser particularmente útil contra adversários que só vão mendigar um pontinho.

Waris: Voltou a causar boa impressão e mostrou que pode valer pontos. Se deixarem.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Draxletter | Os provérbios do Benfiquistão


Eis a Draxletter. Uma espécie de newsletter diária que só vai acontecer uma vez.

Ontem, assistimos ao primeiro plot twist de uma das novelas mais previsíveis (e perversas) do futebol português. O arrufo de namorados no Restelo trocou as voltas aos que esperavam o forrobodó habitual entre Belenenses e Benfica. Os da casa fizeram-se de difíceis perante o coro encarnado e tudo o que o amante conseguiu foi arrancar um chocho à força, já bem depois da hora de deitar. Até as histórias de amor superlativo têm os seus momentos mais cinzentos. O Benfica não pode esperar que a relação de poliamor que mantém com a maioria dos clubes da Liga não dê num ou noutro caso de ciúme. Nada que, no fim de contas, a Paixão não resolva. O empate de ontem reacende também uma velha questão que promete inflamar susceptibilidades. Afinal, qual deles é melhor: o pastel de Nathan ou o pastel de Belém?

Soubemos hoje que o líder máximo do Benfica, Luís Filipe Vieira, foi constituído arguido no âmbito de um processo que também motivou buscas ao seu gabinete no estádio do Benfica. Na mesma operação, levada a cabo pela Unidade Nacional de Combate à Corrupção, está envolvido o juiz-desembargador Rui Rangel (um ex-candidato a líder máximo do Benfica) e José Veiga (um dos ex-braços direitos do líder máximo do Benfica). Uma operação que nada tem a ver com o Benfica, diz o Benfica. Mas João Correia, o advogado-mor do Benfica, que mais parece uma espécie de Paulo Madeira da defesa jurídica do clube, desarmou todos os que pretendiam tirar algum tipo de aproveitamento da situação com um provérbio popular no Benfiquistão: "Quem não é arguido não é bom chefe de família". Nos próximos dias ainda vamos ouvir que "em casa onde não há corrupção, todos ralham e ninguém tem razão" ou que "boa fama granjeia quem faz tráfico de influência".


Também esta terça-feira, o FC Porto enfrenta uma das deslocações mais complicadas da segunda volta. Começamos já em desvantagem em número de comendadores, porque eles têm o Joaquim de Almeida Freitas e nós não temos o nosso por lesão. Mas o FC Porto que eu conheci não desperdiçava as abébias dadas pelos rivais. Pelo contrário, alimentava-se delas. E Sérgio Conceição tem sido, após Vítor Pereira, o homem que mais tem reaproximado o dragão do caçador de oportunidades que já foi. Sem Danilo no miolo e sem Marcano no eixo da defesa, a presença de um pivot é fundamental. Se nos próximos jogos Conceição quiser abdicar do trinco tradicional e voltar ao modelo com dois médios, não deverá fazê-lo agora. Aposto em Héctor, Óliver e Sérgio Oliveira de início. E, eventualmente, Paulinho no lugar de Corona. Jogue quem jogar, o foco terá de ser a vitória e a liderança isolada da Liga, que fará o regresso a Estoril parecer cada vez mais uma extra ball.

O calendário astronómico diz-nos que se olharmos para o céu esta noite, vamos ver uma super Lua. Que, basicamente, é uma lua gigante, impossível de não notar, que não terá consequências para ninguém. Já se olharmos em frente, vamos continuar ver um super escândalo de corrupção. Que, basicamente, é uma metástase político-desportiva gigante, impossível de não notar, que não terá consequências para ninguém.

Cheers.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Sporting 0 x 0 FC Porto (4-3 g.p.) | Trivelas & Roscas


Um dos aspectos mais notáveis da susceptibilidade humana é procurar explicações complexas para coisas simples. Somos a navalha da navalha de Occam. A contraparte que não se conforma com a improbabilidade. Que não aceita que nem sempre ganhe o melhor. Perdoem-me os neomarxistas da língua, mas a vida é mesmo assim. No terceiro clássico da época, fomos uma vez mais contra todas as possibilidades. Fomos superiores ao adversário, empatámos uma vez mais a zero e, no fim de contas, saímos outra vez a perder. Agora, tal como antes, perdemos bem e perdemos mal. Bem porque o Sporting foi mais competente nos penalties. Mal porque continua a faltar instinto durante os 90 minutos contra os arquirrivais. Sentimo-nos confortáveis na pele de predadores mas passamos demasiado tempo a rondar a presa, mostrando um certo receio de lhe tentar afiambrar o cachaço. O tempo suficiente para ela se refugiar na sorte. Vamos a notas:


Marega: Definir um jogo do maliano como excelente é dizer que deu muito trabalho ao adversário, lutou muito, suou como ninguém, correu mais do que todos os outros juntos, quis ganhar uma taça que, geralmente, ninguém se importa de perder. Porém, também é dizer que o faz com todos os defeitos que lhe são inerentes, como o perfil atabalhoado, a elevada propensão para o erro e a falta de definição. Pessoalmente, não me importo com a estética cubista do seu futebol. É como ter um impermeável comprado num outlet. Tem defeitos e linhas soltas, mas na hora do aperto cumpre a sua função. Útil, sobretudo, no futebol de correio-expresso que Conceição gosta. Isto não é uma piada com a Taça CTT.

Óliver: Quando Danilo abandonou lesionado, pensei que Sérgio Conceição fosse redefinir o elenco mantendo o modelo, atirando Reyes lá para dentro. Contudo, a entrada de Óliver trouxe uma mutação genética à equipa. Com riscos, mas também com boas perspectivas. Depois de quebrarem o gelo, Herrera, Sérgio Oliveira e Óliver, prenderam os movimentos de um adversário que tem no meio-campo a sua maior virtude. Óliver é, ao mesmo tempo, uma benção e uma chaga. Continuando na senda das comparações parvas, o seu CPU é consideravelmente mais rápido que os colegas. Os seus oito núcleos de processamento trabalham para uma equipa que, na fase de construção, pensa à velocidade de uma GeForce 4. Por isso, tende a desenhar jogadas geniais que só a sua cabeça (e a nossa) entende.



Lesão de Danilo: Depois de saber que pode variar entre um mês e dois, fiquei com imunodepressão. Seria um erro de leitura grave de Conceição avançar com ideias paralelas depois da segunda parte que fez com Herrera a 6 (tal como faz no México, com grande sucesso). A transformação da equipa foi evidente. Para melhor. O problema é mantê-la. Herrera é muito mais propício a desconcentrações que Danilo e pode custar mais golos. Mas Reyes iria tirar demasiado óleo ao motor sem a garantia de que vedaria tão bem quanto o Comendador.



Waris: Não o conheço. Ver jogos da Ligue 2 aparece para aí na 183ª posição da minha lista de passatempos. E dez minutos de jogo conversa não chegam, embora me tenha parecido um tipo educadadinho. Isso e um penalty batido com a convicção de quem quer deixar uma boa primeira impressão. Desde logo, salta à vista que Majeed Waris é o jogador-tipo de Sérgio Conceição. Compleição física de respeito, pulmão aberto, compromisso com a pressão alta, velocidade. Diz a tradição que somos bons a escolher jogadores oriundos da África subsariana ao Lorient. E fé, tenho sempre.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Desconstruindo mitos

O ruído que o inacabado Estoril x FC Porto da 18ª jornada tem provocado está a gerar mais brechas na interpretação dos factos do que as que cobrem o António Coimbra da Mota. Vamos ao que interessa.

O jogo não chegou ao fim. A partida foi suspensa ao intervalo devido ao risco de colapso de uma das bancadas do Estádio António Coimbra da Mota, construída há menos de três anos. Só o sangue frio e o bom senso dos adeptos portistas e a intervenção célere e coordenada das autoridades evitou que a noite de ontem se transformasse num dia de luto para o desporto nacional. Isso mesmo foi atestado pelo comandante da Proteção Civil Municipal de Cascais, Pedro Araújo. Ou em alternativa, pelo insuspeito do costume.


Há quatro parcelas fundamentais nesta equação.

1. A SAD do Estoril admitiu, em comunicado, que a estrutura da bancada sofreu um "abatimento", violando assim as regras de segurança. Antes, já tinha admitido que aquele setor tinha sofrido manutenção a poucas horas do jogo.

2. O já citado comandante Pedro Araújo, em análise preliminar, descartou a hipótese que muitos queriam colar: a influência do sismo de Arraiolos, atribuindo implicitamente a responsabilidade ao clube e/ou à empreitada da obra.

3. O Regulamento de Disciplina da Liga prevê sanção de derrota caso a falta de condições necessárias para a realização de um jogo seja da responsabilidade do clube.

4. Apurar responsabilidades através da peritagem e do inquérito. Se a falta de segurança for imputada ao Estoril, o artigo 94.º é claro. Se não for, siga para bingo.


Numa primeira instância, o FC Porto terá recusado, e bem, acertar com a Liga e com o Estoril nova data para o jogo dentro das 30 horas seguintes. A alínea d) do artigo 46.º do Regulamento das Competições organizadas pela LPFP refere que caso não estejam satisfeitas as condições de segurança adequadas para prosseguir o jogo dentro do prazo definido pelo enquadramento legal, a partida é remarcada dentro das quatro semanas seguintes (cumprindo o disposto no ponto 4. do artigo 42.º).


Ora, o FC Porto estará prestes a anunciar que chegou a acordo com o Estoril para jogar a segunda parte a 21 de Fevereiro, entre a recepção ao Rio Ave (21) e a deslocação a Portimão (25). A minha teoria é de que o acordo não é vinculativo, isto é, não impede que o FC Porto abdique de lutar pelo cumprimento do regulamento, se for caso disso. O Departamento Jurídico do clube já estará certamente a apreciar o caso, porque acredito que a mesma estrutura que nos projetou para o mundo não ficou subitamente amadora na defesa dos nossos interesses.

Contudo, enquanto não for concluída a investigação - e imputadas responsabilidades - a invocação do artigo 94.º fica congelada. Por isso, a remarcação do resto do jogo é um passo urgente. Se o parecer final do inquérito for desfavorável ao FC Porto, o jogo terá de ser retomado e quanto mais cedo isso estiver definido, melhor. Se for favorável, o FC Porto ganha os três pontos na secretaria. Simples. Seria muito mas muito mais polémico completar a segunda parte hoje ou amanhã. Pois se o FC Porto perdesse em campo e acabasse por vencer na secretaria, a única derrotada seria a já empalidecida imagem da Liga.

Não trago para esta conversa as descabidas teorias da conspiração que proliferaram entre ontem e hoje. A lama pertence à lama. No dia em que o FC Porto salvar o país, o FC Porto será acusado de ter salvo o país. Mas há um aspeto muito mais fundamental do que os três pontos em causa. A segurança dos que sustentam o futebol português: os adeptos. É crucial que o FC Porto lute até à exaustão pelo cumprimento da lei, para fazer disto uma wake up call abençoada e garantir um futuro mais saudável para a competição. Por um futebol sem medo, pela devolução da confiança aos adeptos, legitimamente descrentes num sistema incompetente que manda uma multidão regressar a uma bancada à beira da derrocada.

Desportivamente, tenho uma recomendação para Sérgio Conceição e para os jogadores. Mentalizem o jogo de ontem como uma derrota virtual. Aceitem o facto de termos caído para o segundo lugar e lutem como se tivessem de correr atrás da liderança. Se isso acontecer, tenho a convicção de que o hipotético jogo de Fevereiro será apenas um bónus onde podemos ganhar um ou três pontos extra.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Moreirense 1 x 2 FC Porto | Trivelas & Roscas


Vitória insípida. A possibilidade de termos perdido um, possivelmente dois, dos jogadores mais influentes da equipa por tempo indeterminado trava o sabor do regresso às meias-finais da prova raínha. É certo que a quebra física é consequência natural da escassez de recursos. Neste micro FC Porto, todos jogam e (quase) todos jogam muito. Mas não posso deixar de notar também uma espécie de jogo de forças cósmicas que me perturba mais do que seria desejável. Se ganhamos um Herrera, perdemos um Óliver. Se ganhamos um Sá, perdemos um Casillas. Se reabilitamos um quase dispensado Layún, lesiona-se um Marega a aquecer. Se é frustrante para mim, imagino para Sérgio Conceição, que até ao final da temporada vai ter de racionar melhor do que uma ONG no Ruanda. E estando em todas as provas, não sei se temos bateria que chegue para a maratona.


Maxi: Deve andar a jogar infiltrado no Campeonato Nacional de Séniores. Só assim se explica a falta de ritmo que não acusou. Incansável em toda a linha,  estendeu-se bem no terreno e mostrou uma percentagem de acerto simpática nos cruzamentos, o seu ponto fraco, mantendo a habitual solidez a defender. Tenho de respeitá-lo. Maxi faz por demonstrar que não veio para o FC Porto gozar a reforma antecipada depois de ganhar quase tudo no rival. Fosse eu assalariado do Benfica e o único esforço que faria era para não me cuspir todo nas palestras de Rui Vitória.

Layún: Não foi o melhor jogo do mexicano com a camisola portista, mas voltou a mostrar que pode ser o joker que a equipa procura. Joga em qualquer posição, fazendo prevalecer a sua inteligência na leitura do jogo sobre a anarquia táctica em que mergulha por levar a polivalência ao extremo. Sérgio Conceição pode fazer com ele aquilo que Jorge Jesus está a fazer com Bryan Ruiz. Em 2017/18, Miguel Layún já foi titular, esteve para sair, desapareceu das opções, regressou, dizia-se que era preguiçoso, mas no fim de contas é um jogador que "dá garantias" a Conceição. E ainda bem.

Herrera: "Patinho feio, o caralho. O meu nome agora é Zahovic", disse o mexicano ao espelho algures em setembro de 2017. Está feito um senhor jogador. É o catalisador da máquina. Começa finalmente a dar razão aos que nunca deixaram de acreditar nele, a silenciar os que sempre o criticaram e a agradar ambas as partes. Temia que as mini férias lhe fizessem mal, porque a taxa de rendimento de Herrera está indexada ao índice de confiança. Mas a Herreronomia está a tornar-se uma ciência exacta. Yay.


Hernâni: Nope. Não serve. Há mínimos olímpicos que não consegue cumprir. Dizer que Hernâni é alternativa a Corona é dizer que soja é alternativa à carne. Na falta de reforços, Galeno, ou até André Pereira, podem preencher a vaga do ex-vimaranense sem prejuízo para a qualidade global da equipa.

Felipe: O FC Porto voltou a sofrer um golo (e a sofrer em geral) muito por culpa do brasileiro. Tem o descomplicómetro avariado e mesmo quando não tem a bola nos pés parece andar a gravitar à volta de outros assuntos da vida, como o preço do fubá ou a extinção em massa das chinchilas da Índia. Acorda, rapaz.

Mercado: "Se tivesse a certeza que não havia lesões e castigos, mas não temos. Com jogos de três em três dias é preciso muito dos jogadores". Strike three. A mensagem do treinador à direcção é inequívoca. Conceição quer e precisa de mais mão-de-obra. Da outra parte, resta fazer um pequeno esforço para não deitar todo o sacrifício do grupo ao charco. Não podemos é estar à espera que os azares aconteçam - ou fazer fé para que não aconteçam. Porque ninguém pretende passar o final de Maio a lamentar uma política de contratações reactiva que devia ter sido proactiva.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

FC Porto 4 x 2 Vitória SC | Trivelas & Roscas


Quando Artur Soares Dias apitou para o intervalo, Sérgio Conceição saiu a correr e foi ao balneário virar o boneco. Não o acólito demoníaco que o seu filho tem em casa - ele há coisas que é melhor não questionar -, mas o boneco aos seus homens, que passaram metade do jogo a oscilar entre a agitação e a apatia - e uma certa sensação de impotência perante as gaffes do videocoiso. A diferença de rendimento da primeira para segunda parte foi tão abismal que Nuno Espírito Santo só ficaria orgulhoso dos primeiros 45 minutos. Vai acontecer mais vezes. Vamos sofrer primeiro em muitas ocasiões. Chegaremos mais vezes a meio do jogo com as asneiras todas por limpar. Vamos ter de aguentar tabuleiros com maior ou menor inclinação durante o resto da época, enquanto lidamos com as nossas próprias carências. No futebol, vontade não é tudo mas pesa muito. Se reagirmos com a pujança de ontem, dificilmente sairemos derrotados. Em tempos, tivemos um treinador que nos prometeu que, caso estivéssemos a perder, as outras equipas iriam "levar massacres que nem respiram". O mesmo a quem devemos um terço da nossa glória europeia.


Brahimi: Podia arrancar este parágrafo de várias formas diferentes. Podia mencionar, por exemplo, o passe de triângulo do argelino para Aboubakar logo a abrir a partida, num gesto que está a tornar-se viral nos nossos jogos: bola lançada na diagonal, geralmente da direita para o meio, com tensão suficiente para rasgar a defesa contrária e o açúcar necessário para atrair o redes, antes de parar cinicamente nos pés do avançado. Ou notar os 88 dribles eficazes que Yacine já leva em meio campeonato. Uma média de 5,2 por jogo. Mais reviengas juntas do que o segundo e o terceiro melhor da Liga juntos - Rúben Ribeiro (38) e Gelson Martins (36). Até podia falar do golo fantástico e da exibição avassaladora na segunda parte. Mas tudo isto, bem dobradinho, cabe no bolso, quando comparado com a forma como Brahimi celebrou a reviravolta no marcador. Podem tirar Brahimi do FC Porto, mas já não tiram o FC Porto de Brahimi.

Alex Telles: Dobra, recua, corre, sobe, desmarca, centra, tabela, assiste. Raramente falha. É como um daqueles mecânicos que toda a gente procura mas ninguém encontra. Não foi caro, está sempre disponível, é extremamente competente no trabalho, resolve todo o tipo de berbicachos e se te diz que te vai entregar a bola no segundo poste é porque vai entregar a bola no segundo poste.

Marega: Dois golos mais do que acessórios, que foram o antibiótico de que a equipa precisava para consumar a remontada. A sua preponderância para o FC Porto mede-se em número de sportinguistas que bufa das narinas quando vê a tarja "Mete o Marega!!!!" na net.


Corona: Sei que não é fácil jogar numa Liga que ainda não implementou o videoárbitro, mas temo que uma boa parte dos picos de corrente ainda sejam da nossa responsabilidade. Corona, infelizmente, anda mais Dr. Jekyll do que Mr. Hyde e, sim, não me enganei. Corona quer-se é uma besta dentro de campo porque tem potencial para isso. E não um soccer boy enfadado por não o terem deixado dormir em casa dos amigos. Óliver também pareceu acusar a titularidade (ou a falta de jogos nas pernas), mostrando-se um pouco desorientado de processos na fase inicial. Abonatório para ambos foi o facto de a equipa se ter diluído toda ela no marasmo exibicional na primeira parte, o que de certa forma torna injusto apontar réus.

@

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O dissidente


Bem-vindos ao planeta do futebol. São 23h43 e ainda estou na esquadra à espera de ser atendido. Viver no Benfiquistão habituou-me a conviver com o roubo, mas não me preparou para o terrorismo. Aos olhos do regime, sou um cidadão problemático, um dissidente de partido clandestino. Aos meus, um anticorpo à procura de justiça num organismo que não funciona. Revejo o momento do crime na minha cabeça, num circuito contínuo de choque e incompreensão. Há em mim, confesso, uma leve vontade de resignação. De sair daqui e entrar na maré. De fingir, como todos fingem. Sou interrompido por um indivíduo alto, autoritário, de bigode farto. Chefe Guerra, consta na lapela da farda encarnada. Convida-me a entrar, estende-me uma cadeira e pede-me para contar o que se passou. Tento recuperar o que a memória me permite, erguer um raciocínio que sustente a denúncia. Mas é impossível explicar o inexplicável. Começo pelo princípio, ciente de que ninguém vai acreditar em mim.

Cheguei ao local do crime pouco antes do primeiro golo, disse-lhe. O ambiente era calmo, dentro da normalidade aparente que um jogo amorfo e longe de ser bonito costuma ter. O golo de Aboubakar não mudou grande coisa. Tudo continuou igual dentro de campo. Brahimi, como habitualmente acontece, partia adversários até acabar ele próprio partido pelos pitóns deles, numa relação desencontrada com o apito do árbitro. Corona, como habitualmente acontece, somava más decisões em barda, numa relação difícil consigo mesmo. Óliver, como habitualmente acontece, via do banco André André produzir um décimo daquilo que o espanhol produz em campo, numa relação estéril com o seu treinador.

Silencioso, o Chefe Guerra amestra uma caneta nos dedos por cima de um bloco de notas ainda sem tinta. Pergunta-me onde está o crime. Descrevo, ao pormenor, o atentado de Fábio Veríssimo contra o FC Porto. A permissividade deliberada perante o massacre constante a Brahimi, um tipo que leva mais pau do que todas as lareiras da Escandinávia juntas. A tendência daltónica de ver amarelo onde é vermelho e vermelho onde é amarelo. A gritante discrepância entre a insígnia que carrega ao peito e aquela que realmente defende. A obscenidade de transformar um lançamento de linha lateral num livre directo. Fábio Veríssimo, remato, foi contratado para sabotar o meu clube.

Nem todos os crimes se fazem apenas de vítimas e vilões, continuei. Este também tem heróis. Descrevo-lhe a bravura de um grupo de jogadores que, mesmo perante a inclinação do campo, soube dobrar a adversidade com inteligência e um enorme auto-controlo. Conto-lhe as recuperações de bola de Óliver, o espírito de sacrifício de Soares, a cabeçada de Felipe, a raça de Brahimi. Conto-lhe sobre a excelência da réplica dada pelo Feirense. Peço-lhe um pouco de justiça por todos os que jogaram futebol naquela noite. O Chefe Guerra ri-se.

Você está preso, diz-me, fechando o bloco ainda por estrear. Na capa, reluz o emblema do regime. Tem alguma coisa a acrescentar?

Vamos ganhar, respondi calmamente.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

1904

A empresa X tem um livro preto onde regista todas as operações que faz. Legais e obscuras. Um funcionário desertor decide fotocopiar páginas do livro e lançá-las pela janela. Na rua, espaço público, transeuntes apanham as páginas e testemunham-nas. A empresa X decide perseguir e ameaçar os transeuntes.

O parágrafo anterior podia ser a sinopse de uma série de ficção da Netflix ou uma distopia imaginada por Orwell ou Bradbury, mas não é. É real e grave, é próximo e sinistro.

Ontem, um mero clube de futebol decidiu notificar empresas nacionais para instaurar processos disciplinares aos funcionários que tenham lido material no domínio público. Ontem, um mero clube de futebol tentou coagir a população de um país. Ontem, o Estado Lampiânico abandonou de vez a sua alcunha mais célebre: Sport Lisboa e Benfica.

Estamos perante um de dois cenários hediondos.

Ou a lógica do absurdo, onde, seguindo a linha de raciocínio do Benfica nos últimos tempos, o clube quer proibir pessoas de ler emails falsos. (!)

Ou a lógica do abuso, onde o Benfica quer atropelar a democracia e usurpar um poder que não tem para intimidar quem não pode. (!!)

Esta tentativa de se vestir de polícia da internet e tentar controlar um povo pelo medo é o maior atentado à democracia em 43 anos.

Façam o seguinte exercício: imaginem por momentos que, em vez do Benfica, recebiam a mesma carta mas de José Sócrates, Ricardo Salgado, a EDP, o Governo, a IURD, o CDS, o Novo Banco, a Raríssimas ou a Sonae. Apelo aos benfiquistas que ainda vivem acima da linha de água. De zero a Pedro Guerra, quanta revolta sentiriam?

A ameaça do Benfica toca num outro aspeto fundamental da democracia. A queixa formalizada ontem contra um jornalista do JN por ter acedido aos emails é dos processos mais kafkianos de que há memória no país. O jornalista foi intimado por um crime que o Benfica não especifica nem quer explicar.

Que estado de direito é este em que vivemos se um jornalista não puder aplicar a sua regra mais básica de trabalho, a curiosidade? Mais do que um direito, é um dever para qualquer jornalista questionar o mundo em que vive. Sobretudo quando, sem cometer crime nenhum, tem acesso a material que está no domínio público. As ilações que tira da análise é com ele. Mas nada nem ninguém o pode proibir de escrutinar documentos. Lembram-se dos Panama Papers?

Chegámos ao ponto crítico onde a piada se transformou num caso sério. Em Portugal, o Benfica comporta-se como um regime autoritário. Mas esquece que este não é apenas um país habituado a conviver com ditaduras. É também um país habituado a derrubá-las.


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Vitória FC 0 x 5 FC Porto | Trivelas & Roscas


Começo com um mea culpa. Quando Tiago Martins assinalou uma falta de Marega a pedido de José Couceiro, ali por volta do minuto 15, convenci-me de que o FC Porto não ia vencer o jogo em Setúbal. E mesmo depois dos dois primeiros golos, fiquei especado à espera da tempestade de anomalias que normalmente acontece nos jogos do FC Porto. Esclareça-se que este miserabilismo nada tem a ver com o nosso grupo de jogadores, capazes de feitos extraordinários perante tantos ventos contrários. Trata-se sim de uma descrença acumulada com o estado das coisas. Da revolta que sinto em ver o abismo em que a arbitragem portuguesa voluntariamente mergulhou. Da vergonha que me assola ao acordar todos os dias num país sem noção. Da repulsa que carrego contra o falso moralismo de uma imprensa daltónica, que escrutina empurrões até à última fibra mas continua a ignorar os verdadeiros atropelos à modalidade. Por isso, a mão cheia de golos foi uma boa chapada despertadora contra a indiferença em que, por vezes, me apetece cair. No lodo que é o futebol português, ainda sobrevivem uns quantos inconformados.



Aboubakar: Três golos, uma assistência brilhante, uma roleta à Zidane, dois passes de morte e uma presença incansável no ataque que deixam Jonas mais perto de vencer o prémio Jogador do Mês de Dezembro.

Marega: Chega a ser desconcertante. Passa o tempo a desfazer mitos e criar novas interrogações. No segundo golo, dá ideia que escapou por sorte a um dos falhanços do ano. No lance do quarto golo, fez um duplo drible na linha que deixou adversários, críticos, adeptos, crentes e ateus rendidos e confusos ao mesmo tempo. No último, pica a bola por cima de Cristiano após um sprint magnífico aos 80 (!), qual mistura genética entre Obafemi Martins e Zlatan Ibrahimovic. Marega não é um poço de técnica, mas tem um poço de variedades e surpresas dentro de si. Um fenómeno.


Brahimi: O falhanço na cara de Cristiano, logo na fase inicial da partida, seguido de um domínio nada menos do que Licáneano, resume a sua prestação. Inconformado mas inconsequente. Há dias em que nem o mais talentoso dos chefs deve entrar numa cozinha.

Caso Óliver: Sou apologista de que certos assuntos não devem transbordar a blindagem de um plantel. Sobretudo, quando ainda temos tudo a ganhar e a perder. No entanto, um dia destes, lá para fins de Maio, gostaria de compreender o motivo que levou Conceição a desistir do espanhol. É técnico? Não me parece. É estratégico? Não me admiraria se Óliver fosse negociado já em Janeiro. É disciplinar? Também não me surpreenderia se Óliver regressasse em breve às opções. Enquanto se ganha, não se questiona - e eu aceito que este não seja o momento ideal para abordar publicamente o assunto, até porque já temos anticorpos suficientes. Mas ninguém pode fugir das perguntas para sempre.

@

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

FC Porto 5 x 2 AS Mónaco | Trivelas & Roscas


Zero zero no Dragão é resultado para deixar qualquer portista a navegar na maionese o resto da semana. Para mim, é pior do que um empate com golos, porque aí sempre se pode açucarar a nossa própria incompetência com o mérito do adversário, que ousou plantar uma ou duas batatas em terreno alheio. Mas o nulo do Clássico, contra uma equipa radioactiva, de futebol empobrecido e presença extremamente nociva para o desporto, foi ainda mais anticlimático. Sobretudo se pensarmos que aquele empate seco poderia facilmente ter sido uma vitória gorda, tivéssemos nós feito o nosso trabalho e o polvo não fizesse o dele. Adiante. Urgia acordar deste estado catatónico e nada melhor do que um passaporte para os oitavos da Champions para recuperar a alegria. Vencemos cumprimos o plano e aconchegámos o cofre para o inverno rigoroso que vivemos. Só se pode dizer que o Mónaco foi presa fácil porque nós, quando queremos, somos um predador voraz. Que o banquete não nos tire a fome. Venha o mata-mata.



Aboubakar: Marcou dois golos completamente diferentes que mostram a sua versatilidade enquanto ponta de lança. Fez uma assistência sublime que mostra a sua versatilidade como avançado. Quando chegou ao FC Porto, em 2014, Aboubakar era mais parra do que uva. Transformou-se um jogador extraordinário nos últimos anos e é um exemplo de que nem todos os empréstimos para a Turquia servem apenas para escoar o entulho.

Laterais: A fase de construção ofensiva da equipa passa muito pela dinâmica de Telles e Ricardo, dois jogadores sempre muito interventivos no processo atacante. Anteontem, foram os mais influentes a seguir a Aboubakar. Telles marcou, Ricardo deu a marcar. Uma dupla destas, que faz mais piscinas em 90 minutos do que Phelps numa semana de treinos, numa montra como a Liga dos Campeões, dura tanto como Raffaellos numa mesa de Natal. É aproveitar enquanto cá estão.

Herrera: Tal como Vincent, Héctor também foi dono de uma evolução brutal desde o momento em que chegou. Mais volátil, mais pautada por altos e baixos, mas numa tendência que sempre me pareceu apontar à maturação. Herrera não é propriamente um maestro, mas é o gajo que nunca se esquece metrónomo. Aprendeu a ditar os ritmos do jogo e está mais apurado na definição, que foi o que sempre lhe faltou. Os passes "herráticos" vão sempre acontecer, como uma espécie de assinatura teimosa e infantil da qual o artista nunca abdica. Contudo, a grande responsabilidade de a orquestra estar tão bem sincronizada é dele.

Brahimi: Leva uma média de 6 dribles bem sucedidos por jogo na Champions - melhor só Bruma, Perotti e Neymar - e voltou a marcar, colocando ao lado de Zahovic e McCarthy no patamar dos ilustres, com 8 golos ao serviço dos dragões na prova. O FC Porto sempre fez questão de ter um mago nas suas equipas de ferreiros. E Brahimi é um deles. Falta-lhe um título pelo clube e ele bem o procura.



Displicência defensiva: Na quarta-feira, juntaram-se no Dragão dois treinadores da escola "o que interessa é marcar mais golos do que o adversário". A pose ofensiva e vertiginosa do FC Porto, esteticamente, é um regalo para o comum adepto, que quer ver a equipa a jogar como o Brasil de 82. Mas do ponto de vista prático, expõe a equipa a situações desagradáveis e desnecessárias. O golo de Falcao foi um exemplo do adormecimento geral que toma conta da equipa em certas fases do jogo. A rever, até porque nem sempre acontece com três golos de diferença.

Felipe: Sou dos que acha que houve excesso de zelo do árbitro no lance da expulsão. Jonas Eriksson só pode vir de uma remota e pacata vila sueca onde o maior crime cometido até hoje foi o vandalismo de uma placa de trânsito. Mas isso não isenta Felipe, que não devia ter respondido, sobretudo porque priva a equipa de um elemento chave numa eliminatória importante. Antes, o brasileiro já tinha averbado uma série de erros, que começam a ser mais habituais do que pontuais nos últimos tempos.

@


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Besiktas 1 x 1 FC Porto | Trivelas & Roscas


Descer ao inferno e voltar vivo. O FC Porto atravessou os 90 minutos mais diabólicos de que me recordo nos últimos anos e sobreviveu. Não é que a Turquia seja um local azedo para a memória portista, bem pelo contrário. A estatística ainda nos dá razão. Mas convenhamos que o Besiktas 2017 é substancialmente diferente dos antecessores, mais Europeu, mais técnico e sobretudo mais atlético. O empate foi um prémio justo para a competência táctica dos nossos na primeira parte e lisonjeiro para uma segunda parte pouco acima de sofrível, onde a superioridade física dos turcos fez a diferença. Resistimos à avalanche sonora mais famosa do futebol e mantivemos esta bela tendência de resolver as deslocações difíceis, o que me faz acreditar que este grupo pode bem ser capaz de aguentar uma aula inteira de Educação Moral e Religiosa. Não quero ser demasiado ambicioso, contento-me para já com o bom futebol que temos apresentado à Europa e com todas as hipóteses e mais alguma de seguir em frente na prova, numa época em que se dizia que o FC Porto ia morrer de tuberculose antes de Novembro.


Posicionamento nos primeiros 45': O FC Porto desdobrou-se bem em campo na primeira parte, ocupando os espaços com critério durante a transição defensiva. A vitória do FC Porto nesse período foi posicional. No ataque, esteve sempre dependente das descidas de Aboubakar no terreno e dos solos de Brahimi, com o trio do meio-campo mais preocupado em suster do que em criar. Mas, a nível defensivo, a dinâmica colectiva funcionou bem, sendo traída pelas falhas individuais. Foi pena o golo do empate ter nascido de um desses pecados.

Ambiente: Abandon hope all ye who enter here. O Besiktas Park (oficialmente Arena Vodafone), sucessor do mítico Inonu, é um monstro vivo. E não é só barulho. Os Ultras do Besiktas sabem como intimidar um gajo que está a ver o jogo no sofá da sua sala a uns confortáveis 4000 kms, com cânticos que parecem vociferados em aramaico. É insana a forma como os turcos vivem o futebol, dando ao jogo um significado sobrenatural e abrindo uma clareira na floresta de interesses, poder e dinheiro que cercou a modalidade. Qualquer verdadeiro adepto de futebol tem de ter um dos principais estádios turcos na bucket list. O Diabo mora ali.

Jose Sá: Grande jogo, um par de defesas importantíssimas e confiança cheia. Está a deixar para trás as dores de crescimento.

Laboratório: O golo do FC Porto nasce de um livre que se transforma numa bonita jogada ensaiada. Dos dez golos marcados pelo FC Porto na presente edição da Champions League, seis foram em lances de bola parada. Um número revelador, que mostra que nem todos os laboratórios precisam de propaganda para serem notados pela crítica.


Quebra nos segundos 45': Uma boa parte do sucesso deste FC Porto passa pelos dois poços de força que tem no ataque, secundados pela magia do amigo baixinho. O trio BAM fez falta na Turquia. Marega para ajudar no braço de ferro no último terço, libertar Aboubakar da inglória tarefa de lidar sozinho com Pepe e Tosic e permitir que as deambulações de Brahimi tivessem melhor aproveitamento. O argelino que tantas vezes teve de parar e rodar enquanto procurava destino para a bola. Sem andamento para a Jandarma que comandava o meio-campo turco, a queda drástica da qualidade de jogo do FC Porto na segunda parte foi natural. O FC Porto foi perdendo discernimento. Não havendo Herrera, não havia Sérgio Oliveira. E não havendo os dois médios mais avançados, não havia construção, levando a equipa a refugiar-se mais atrás e a aproveitar uma ou outra saída rápida para criar perigo. Sérgio Conceição demorou um pouco a mexer e quando o fez foi, no mínimo, discutível.

Felipe: Com Felipe vale mesmo tudo. Desde silenciar um estádio turco com um golo à ponta-de-lança a demonstrações de banha da cobra à entrada da sua própria área. Uma delas está directamente ligada ao golo do empate e Felipe só não saiu da Turquia com pesadelos porque Sá é um gajo cinco estrelas. Não sei se foi contagiado pelo nervosismo geral da equipa ou se foi ele o paciente zero dessa insegurança. Mas agora que experimentou a sensação de jogar com os tímpanos furados, receber o Estado Lampiânico e a sua máquina de propaganda no Dragão vai ser duck soup. Né, Felipe?

Pinto da Costa: "Não contratei o Sérgio para não tentar ganhar ou melhorar. Para isso ia buscar o Lopetegui". Claro que aceito uma leve insolência do presidente mais titulado do mundo, memória curta não. Trazer Lopetegui ao barulho foi incorrecto. Para não dizer que Lopetegui foi, em última instância, aprovado por si. Tal como Robson, Mourinho e Villas-Boas. Ou Octávio, Couceiro e Peseiro. A desresponsabilização fica mal a Pinto da Costa. Além disso, Lopetegui? O tal basco que, sozinho, defendeu o FC Porto num tempo em que no Dragão não havia baluartes? Nos anos em que o polvo andava refastelado? Desnecessário.

@


terça-feira, 21 de novembro de 2017

Habemus Treta


O ano é 2017, mas o Benfica comporta-se como se estivesse em 1984, procurando vedar a realidade com uma narrativa alternativa, retalhada e distópica.

Falo da mais recente iniciativa do clube para tentar apagar o fogo em que está metido no caso dos emails… com fumo.

Um espetáculo absolutamente deprimente e sem ponta por onde se lhe pegue, mais próximo da apresentação de um trabalho de grupo de outcasts do 7º ano do que uma televisão gerida por profissionais da comunicação.

O circo montado por José Marinho foi embaraçoso. O zombie de Vieira prometia petróleo, mas só trouxe areia. Substrato que mais não serve do que para encobrir uma investigação cada vez mais esclarecedora sobre a face oculta da águia.

O "Novo Apito Dourado", assim baptizado - talvez pelos mesmos criativos que pensaram o nome do Novo Banco -, era afinal uma recompilação mal parida do velho Apito Dourado a que se somam umas quantas novas suposições, com a respectiva prova documental a resumir-se a um powerpoint com informação reciclada e extrapolações assentes não em factos mas rumores e opiniões. Sem uma linha argumentativa incontestável, um fio condutor decente, raciocínios aceitáveis, nada. Um freakshow extremamente vazio e especulativo, sem substância nem seriedade, conduzido com o mesmo rigor de uma alpaca a operar um cérebro. Hora e meia de vergonha alheia.

Os últimos meses foram ricos em revelações sobre o que se passa atrás do pano, onde a bola não chega, e mostram como os corredores do futebol são actualmente mais encarnados do que um filme de Stanley Kubrick.

É inegável a existência de uma rede de proteção e favorecimento ao Benfica cujo poder de alcance extravasa os limites do próprio clube. Uma engrenagem movida por gente que se cansou da genética perdedora do Benfica e tentou manipulá-la, alterando as variáveis que preservavam a higiene do desporto nacional.

Ao contrário do triste espetáculo patrocinado pelo Benfica, o FC Porto tem apresentado factos que indiciam a viciação de uma das maiores e mais lucrativas indústrias do país. São factos porque aconteceram. Aconteceram porque já foram directa ou indirectamente confirmados por quem os praticou.

Factos esses que não escondem apenas pressões ou jogos de poder. Indiciam manobras de corrupção, tráfico de influências, coação, ameaças, proxenetismo e outros crimes cometidos por elementos ligados ao Benfica. E isto só na ponta do iceberg.

O "Chama Imensa" é a resposta típica do encurralado. A reação tímida de alguém a quem a carapuça assenta. Uma nova bala mágica que visa atingir o mesmo alvo das anteriores: minar a opinião pública, reescrevendo a História.