quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Coração de dragão


Diz que hoje é dia de dedicatória paneleira com corações e afins. Cá nada. Resiste ao perfume e não te armes em coração de manteiga, dragãozinho. O que eu quero é uma entrada bárbara em campo, capaz de intimidar até uma horda de dinossauros famintos. Carlos Carvalhal disse que o Liverpool é um Formula 1. Eu acho que é um motor Porsche encafuado num chassis Trabant com pneus Intermarché.

Não tenho o hábito de escrever por antecipação, mas carrego a cruz de quem sofre por antecipação. Estou nervoso, confesso.Tenho em mim a sensação permeável de que este empreendimento tanto pode correr muito bem como ser um desastre. Sou assim, vivo na contramão da fé. Apesar de já teres provado constantemente que és o Cesar Millan de gatos e galinhas.

Hoje, jantamos juntos. Tu convidas, eu aceito. Aceito sempre. Partilhar a mesa contigo é um prazer que não prescreve. És boa companhia mesmo quando não estás nos teus dias. E nesta relação, ao contrário do que parece, sofres mais do que eu. Sou eu que te viro as costas quando falhas. Sou eu que te grito quando erras. Sou eu que ganho e nunca perco.

Joga como se não houvesse segunda mão. Como se o planeta explodisse à meia-noite. Como se quem marcasse ganhasse a Liga dos Campeões. Quero que a Europa sinta o teu pulsar. Nada temas. Everything will be okay in the end. If it's not okay, it's not the end.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

FC Porto 1 x 0 Sporting | Trivelas & Roscas


Picture this. São 22h e só tomaste o pequeno-almoço. Vais ao restaurante e colocam-te à frente a maior e mais suculenta francesinha que já viste. Os dedos tremem. As narinas absorvem o vapor do queijo fundido por cima da ilha de carnes seleccionadas, confortavelmente repousadas entre as fatias de pão bijou. Os olhos acusam a provocação fácil do mar de batatas fritas que envolve o prato. Pegas no garfo e levas um pedaço daquele sabor olímpico à boca. Abraças interiormente a explosão de endorfinas, numa euforia silenciosa que termina com a alma sedenta. Depois, vem o garçon, tira-te o prato e diz que o tasco fechou até abril. Para obras. Olhas para o relógio e vês que ele tem razão. Tiveste a iguaria à tua mercê o tempo todo mas só a provaste uma vez. Devias ter dado maior expressão ao teu domínio. Podendo trucidar, uma batatinha não dá grande conforto a ninguém.


Ricardo: Abismal. Deixou Coentrão a soro e à procura de uma nova forma de fazer xixi. Aquela maldade sobre o caxineiro vai ficar na retina para a eternidade. E na internet para quando quisermos revisitá-la. Tirou-me do sério ver Herrera tratar a obra prima do mestre como a prima do mestre de obras e borrar aquela pincelada magnífica com um remate frouxo e desinteressado. Teve uma boa química com Corona e mostrou uma resistência invejável para esta altura da época. Aos 85 minutos, ainda sprintava como um louco e nem aquele deslize perto do fim lhe poderia ser totalmente imputado se desse em golo porque nasce de uma perda de bola absurda de Otávio.

Sérgio Oliveira: Soberbo. Quase sozinho, vulgarizou a trincheira montada por Jesus no meio-campo. Com enorme presença e disponibilidade física, tapou quase sempre bem as saídas rápidas do Sporting, sobretudo na segunda parte. É impressionante a forma como muda rapidamente o chip entre o desarme e a construção. Recupera, pensa e executa a uma velocidade acima da média, como no lance do golo. E é provavelmente o melhor executante de livres directos da equipa. O lugar é dele.

Centrais: Imperiais. Sei que Doumbia é um bocadinho mais simpático que Bas Dost mas, não raras vezes, Felipe e Reyes foram chamados a resolver os contragolpes manhosos de Gelson e companhia ou uma ou outra distração dos colegas. Situações ingratas que foram sempre bem resolvidas. O corte de Felipe vale meia eliminatória. Mais importante do que marcar era não sofrer.

Corona: Ajudou Ricardo a detonar o corredor esquerdo leonino e reduziu drasticamente o rácio de decisões parvas em relação à última partida. Foi o desbloqueador do encontro. Dele nasceram três oportunidades flagrantes de golo que, fossem aproveitadas pelos colegas, resolvia-se a questão já hoje.


Brahimi: Que mau dia para ter o pior Brahimi. Perdeu inúmeros lances de forma pouco habitual, sobretudo em passes cegos que acabavam sempre nos pés do adversário. Entende-se a substituição. Está cansado e precisa de pernas para as milhas finais da maratona. Mas mesmo a versão light do argelino é um problema maior para qualquer lateral do que qualquer Hernâni.

Otávio/Hernâni: Mau demais. Ambos. Otávio não tem responsabilidade posicional, joga como se o campo só tivesse uma baliza e não houvesse uma consequência para cada decisão mal medida. Hernâni é uma dama perdida num tabuleiro de xadrez.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Campeão da hipocrisia



Em Maio de 2017, Pedro Adão e Silva escreveu um artigo intitulado "Campeão da Democracia", publicado no jornal Record, onde se insurgia contra o termo "Liga Salazar" usado pelos rivais para apelidar o campeonato nacional.

Para demonstrar que o clube do regime não era o clube do regime, Adão e Silva socorreu-se da sua veia pedagógica e, através de um levantamento histórico, propôs a relação directa entre a matriz de um clube e a doutrina dos respetivos líderes.

Escreveu Adão e Silva que "enquanto tivemos vários presidentes de meios oposicionistas (Félix Bermudes, Manuel Conceição Afonso ou Ribeiro da Costa), os nossos rivais eram presididos por figuras do regime (Urgel Horta e Ângelo César no Porto; Casal Ribeiro e Góis Mota no Sporting)".

Hoje, o mesmo Pedro Adão e Silva escreveu um artigo intitulado "Separar as Águas", publicado no jornal Record, onde se insurge contra os que misturam a matriz de um clube com a doutrina dos respetivos líderes.

Para demonstrar que o clube de Vieira não é, afinal, o clube de Vieira, Adão e Silva socorre-se da sua veia demagógica e, através de um desmembramento histórico, virou do avesso o argumento que ele próprio criou para colar a raiz fascista a FC Porto e Sporting.

Escreve Pedro Adão e Silva que "ontem, como hoje e amanhã, no Benfica, nenhum presidente se pode confundir com o clube."

Existem dois tipos de pessoas neste mundo. Os que admiram as árvores e os que as esbanjam.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

FC Porto 3 x 1 Braga | Trivelas & Roscas


A vitória do FC Porto sobre o Braga é a radiografia perfeita do momento atual da equipa. O FC Porto expôs o melhor e o pior de si em 90 minutos que podem - e devem - servir de molde para Sérgio Conceição preparar os próximos 270. Sem Danilo, há um desequilíbrio notório entra a forma como a equipa ataca e defende. Por outras palavras, como progride com bola e reage sem ela. O processo de construção rápida continua lá, embora mais aleatório, a propensão para pressionar o adversário na saída de bola também, mas em maior dispersão e com menos efeitos práticos e existe uma grande anarquia no posicionamento defensivo, agravado pela ausência de Marcano - que supervisiona melhor que Felipe. Contudo, há aspectos que nem Danilo nem Marcano vão resolver quando regressarem. Como a precipitação constante no último passe, que faz com que a equipa desaproveite demasiada energia sem conseguir chegar ao golo. Mais do que um problema de eficácia na cara do guarda-redes, o FC Porto tem é dificuldades no penúltimo toque que precisam de mais entalhe.


Telles: Com Danilo no estaleiro, o FC Porto perde o serviço de perdidos e achados, o que obriga a equipa a procurar desenfreadamente outras soluções para atacar com critério. É aí que Alex Telles tem sido crucial, funcionando como um recurso de ouro para uma equipa que às vezes tem dificuldade em criar perigo em ataque continuado. Telles mete a bola onde quer e somou no sábado mais três assistências (16) que o colocam acima de Alex Sandro (15) na lista dos laterais de campeonatos europeus com maior número de golos oferecidos esta época. Uma vez mais, foi o brasileiro quem safou a equipa. Um achado.

Sérgio Oliveira: A sua cabeçada foi preciosa para colar o nervo da equipa que, embora tenha sido sempre superior ao adversário, deu a sensação de ter apenas o jogo controlado pelas pontas. Falta algum compromisso a Sérgio Oliveira em certos momentos mas está bem menos desleixado do que o menino "30 milhões" que teimou ser durante muito tempo. No sábado, pegou na batuta quando mais ninguém o conseguia fazer. Mostrou que pode jogar bem contra os pequenos e - ironia deliciosa - parece ter finalmente a cabeça no lugar para jogar ao mais alto nível.

Atitude? É um problema que chamo à pedra porque... não existe. Podemos apontar várias deficiências aos jogadores, mas nenhuma de natureza moral. Este grupo já demonstrou que encara todos os jogos de forma séria, embora nem sempre escolha o melhor caminho para a baliza. Mas que a apatia não se confunda com a vontade. A sobrecarga de esforço, a falta de rotatividade de alguns setores e deficiências na forma como a equipa, por vezes, distribui a pressão em campo são as razões por detrás do subrendimento de algumas unidades. Inconseguimentos que são da responsabilidade de Sérgio Conceição.


Corona: De certeza que há um narco dos Zettas na bancada a fazer-lhe cara feia de cada vez que pega na bola. Só isso explica como Corona consegue iniciar certos lances com brilhantismo qb para depois de se perder na decisão mais absurda possível. Foi uma espécie de joker sem que nunca se percebesse bem de que lado estava a jogar. Atrevo-me a dizer que terá tido uma das últimas oportunidades para manter a titularidade. Paulinho não tem a sua genialidade mas também não tem capos na bancada a ameaçá-lo. No jogo da primeira volta, Corona foi mexican. Desta vez, foi mexican't.

Marega: Não é novidade para ninguém que o seu maior trunfo é a capacidade física que empresta à equipa. Estando numa fase mais tardia da época, a entrega já não camufla tanto a aselhice natural.  Aguentou o barco na primeira metade do campeonato, isso é inegável. Mas está na hora de Conceição considerar levantar-lhe a imunidade. É bom sinal que Marega comece a ser insuficiente. Significa que a qualidade de opções atacantes está a subir.


Paciência: Nos meus tempos de infância tinha três heróis: Optimus Prime, Goku e Domingos Paciência. O filho deste último regressou ao Dragão numa altura em que está finalmente a conciliar o potencial que sempre teve com a intensidade que nunca atingiu. Na única que vez tocou na bola fez um passe de tal forma açucarado que a forma como Marega espalhou o açúcar no chão deu-me diabetes. Se mantiver o foco será um reforço vital para o que resta da caminhada.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Draxletter | Rei Sol, Coentrão e o segredo mais mal guardado


Sexta-feira à tarde é sempre uma benção, sobretudo para quem saiu da cama cedo para escrever comunicados. Não deve ser fácil produzir um texto de sete parágrafos sobre um arguido sem escrever um única vez a palavra arguido. Os comunicados de António Galamba estão a ficar cada vez mais curtos e menos líricos. Mas os jogos de palavras continuam lá. Diz 'Vieira': "não pratiquei qualquer ilícito que me possa ser imputado». E diz bem. Não fosse ele a figura de que maior impunidade goza na praça portuguesa.

Quem também tem jeito para comunicados ambíguos é a Liga Portugal. A organização da prova anunciou que a bancada norte do António Coimbra da Mota está ok e vai reabrir na recepção do Estoril ao Sporting. No mesmo comunicado, a organização refere que o topo estará acessível ao «público em geral», mas que o acesso dos visitantes, por indicação do Estoril, será feito através «através da Bancada Central Nascente». Quer isto dizer que os adeptos do Sporting serão acomodados noutra bancada e quem quiser pode tentar a sua sorte no topo norte? Ou que o acesso da claque do Sporting ao topo norte é feito a partir da central? Ou, melhor, que a bancada reabriu mas vai estar fechada? Domingo saberemos. De resto:


O que também já não espanta é os organismos que tutelam o futebol português terem pesos e medidas diferentes para cada cor. Só isso explica porque Fábio Coentrão pode partir acrílicos sem ter de os pagar e Sérgio Conceição não. Aliás, Coentrão tem fintado de tal forma os critérios disciplinares do Conselho de Disciplina da LPFP e da FPF que admira que o GoalPoint ainda não o tenha colocado ao lado de Brahimi em número de dribles eficazes.

Por falar em GoalPoint, e na véspera de um sempre complicado FC Porto x Braga, eis a análise pertinente do Luís Cristóvão às soluções que Conceição tem para colmatar a ausência de Danilo. Tal como sustenta o artigo - e já o referi algumas vezes neste espaço - Herrera a 6 continua a parecer-me a solução imediata mais indicada. Contudo, agora, também Osorio - que pelos vistos até sabe sair a jogar - poderá ter voto na matéria.


Antes de terminar, recomendo a prosa lúcida de Bernardino Barros na Coluna do Pôncio desta semana para se perceber como o segredo de Justiça portuguesa é o mais mal guardado de sempre. E para irem preparando o estômago para as voltas que o desfecho do BenficaGate vos vai dar. Bom fim-de-semana.