segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
FC Porto 3 x 1 Braga | Trivelas & Roscas
A vitória do FC Porto sobre o Braga é a radiografia perfeita do momento atual da equipa. O FC Porto expôs o melhor e o pior de si em 90 minutos que podem - e devem - servir de molde para Sérgio Conceição preparar os próximos 270. Sem Danilo, há um desequilíbrio notório entra a forma como a equipa ataca e defende. Por outras palavras, como progride com bola e reage sem ela. O processo de construção rápida continua lá, embora mais aleatório, a propensão para pressionar o adversário na saída de bola também, mas em maior dispersão e com menos efeitos práticos e existe uma grande anarquia no posicionamento defensivo, agravado pela ausência de Marcano - que supervisiona melhor que Felipe. Contudo, há aspectos que nem Danilo nem Marcano vão resolver quando regressarem. Como a precipitação constante no último passe, que faz com que a equipa desaproveite demasiada energia sem conseguir chegar ao golo. Mais do que um problema de eficácia na cara do guarda-redes, o FC Porto tem é dificuldades no penúltimo toque que precisam de mais entalhe.
Telles: Com Danilo no estaleiro, o FC Porto perde o serviço de perdidos e achados, o que obriga a equipa a procurar desenfreadamente outras soluções para atacar com critério. É aí que Alex Telles tem sido crucial, funcionando como um recurso de ouro para uma equipa que às vezes tem dificuldade em criar perigo em ataque continuado. Telles mete a bola onde quer e somou no sábado mais três assistências (16) que o colocam acima de Alex Sandro (15) na lista dos laterais de campeonatos europeus com maior número de golos oferecidos esta época. Uma vez mais, foi o brasileiro quem safou a equipa. Um achado.
Sérgio Oliveira: A sua cabeçada foi preciosa para colar o nervo da equipa que, embora tenha sido sempre superior ao adversário, deu a sensação de ter apenas o jogo controlado pelas pontas. Falta algum compromisso a Sérgio Oliveira em certos momentos mas está bem menos desleixado do que o menino "30 milhões" que teimou ser durante muito tempo. No sábado, pegou na batuta quando mais ninguém o conseguia fazer. Mostrou que pode jogar bem contra os pequenos e - ironia deliciosa - parece ter finalmente a cabeça no lugar para jogar ao mais alto nível.
Atitude? É um problema que chamo à pedra porque... não existe. Podemos apontar várias deficiências aos jogadores, mas nenhuma de natureza moral. Este grupo já demonstrou que encara todos os jogos de forma séria, embora nem sempre escolha o melhor caminho para a baliza. Mas que a apatia não se confunda com a vontade. A sobrecarga de esforço, a falta de rotatividade de alguns setores e deficiências na forma como a equipa, por vezes, distribui a pressão em campo são as razões por detrás do subrendimento de algumas unidades. Inconseguimentos que são da responsabilidade de Sérgio Conceição.
Corona: De certeza que há um narco dos Zettas na bancada a fazer-lhe cara feia de cada vez que pega na bola. Só isso explica como Corona consegue iniciar certos lances com brilhantismo qb para depois de se perder na decisão mais absurda possível. Foi uma espécie de joker sem que nunca se percebesse bem de que lado estava a jogar. Atrevo-me a dizer que terá tido uma das últimas oportunidades para manter a titularidade. Paulinho não tem a sua genialidade mas também não tem capos na bancada a ameaçá-lo. No jogo da primeira volta, Corona foi mexican. Desta vez, foi mexican't.
Marega: Não é novidade para ninguém que o seu maior trunfo é a capacidade física que empresta à equipa. Estando numa fase mais tardia da época, a entrega já não camufla tanto a aselhice natural. Aguentou o barco na primeira metade do campeonato, isso é inegável. Mas está na hora de Conceição considerar levantar-lhe a imunidade. É bom sinal que Marega comece a ser insuficiente. Significa que a qualidade de opções atacantes está a subir.
Paciência: Nos meus tempos de infância tinha três heróis: Optimus Prime, Goku e Domingos Paciência. O filho deste último regressou ao Dragão numa altura em que está finalmente a conciliar o potencial que sempre teve com a intensidade que nunca atingiu. Na única que vez tocou na bola fez um passe de tal forma açucarado que a forma como Marega espalhou o açúcar no chão deu-me diabetes. Se mantiver o foco será um reforço vital para o que resta da caminhada.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
Draxletter | Rei Sol, Coentrão e o segredo mais mal guardado
Sexta-feira à tarde é sempre uma benção, sobretudo para quem saiu da cama cedo para escrever comunicados. Não deve ser fácil produzir um texto de sete parágrafos sobre um arguido sem escrever um única vez a palavra arguido. Os comunicados de António Galamba estão a ficar cada vez mais curtos e menos líricos. Mas os jogos de palavras continuam lá. Diz 'Vieira': "não pratiquei qualquer ilícito que me possa ser imputado». E diz bem. Não fosse ele a figura de que maior impunidade goza na praça portuguesa.
Quem também tem jeito para comunicados ambíguos é a Liga Portugal. A organização da prova anunciou que a bancada norte do António Coimbra da Mota está ok e vai reabrir na recepção do Estoril ao Sporting. No mesmo comunicado, a organização refere que o topo estará acessível ao «público em geral», mas que o acesso dos visitantes, por indicação do Estoril, será feito através «através da Bancada Central Nascente». Quer isto dizer que os adeptos do Sporting serão acomodados noutra bancada e quem quiser pode tentar a sua sorte no topo norte? Ou que o acesso da claque do Sporting ao topo norte é feito a partir da central? Ou, melhor, que a bancada reabriu mas vai estar fechada? Domingo saberemos. De resto:
É triste haver obras compulsivas só para não assumir responsabilidades.— Porto Universal (@PortoUniversal) February 2, 2018
É muito triste quando uma instituição tenta safar-se das perversões das suas escolhas.
É um absurdo que tudo isto seja feito só para não dar razão a um clube.
Só espero que nada de grave aconteça.. pic.twitter.com/FzuoD7Ugt8
O que também já não espanta é os organismos que tutelam o futebol português terem pesos e medidas diferentes para cada cor. Só isso explica porque Fábio Coentrão pode partir acrílicos sem ter de os pagar e Sérgio Conceição não. Aliás, Coentrão tem fintado de tal forma os critérios disciplinares do Conselho de Disciplina da LPFP e da FPF que admira que o GoalPoint ainda não o tenha colocado ao lado de Brahimi em número de dribles eficazes.
Por falar em GoalPoint, e na véspera de um sempre complicado FC Porto x Braga, eis a análise pertinente do Luís Cristóvão às soluções que Conceição tem para colmatar a ausência de Danilo. Tal como sustenta o artigo - e já o referi algumas vezes neste espaço - Herrera a 6 continua a parecer-me a solução imediata mais indicada. Contudo, agora, também Osorio - que pelos vistos até sabe sair a jogar - poderá ter voto na matéria.
conhecia o Osorio de o ver no Tondela, mas normalmente só via a parte defensiva. vendo este video...ui, vou estar com as mãos na cabeça muitas vezes, vou sim... https://t.co/cGoSl2XPGm— Porta 19 (@portadezanove) February 2, 2018
Antes de terminar, recomendo a prosa lúcida de Bernardino Barros na Coluna do Pôncio desta semana para se perceber como o segredo de Justiça portuguesa é o mais mal guardado de sempre. E para irem preparando o estômago para as voltas que o desfecho do BenficaGate vos vai dar. Bom fim-de-semana.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
Draxletter | Arquivando o mercado de inverno
O Ministério Público decidiu arquivar o processo que envolvia Mário Centeno e a alegada de troca de favores por bilhetes para o Benfica. A verdade é que a decisão era esperada, uma vez que a base jurídica que sustentava a investigação era manifestamente insuficiente. A frio, pedir bilhetes num sítio onde já se tem lugar cativo por troca de isenção num imposto municipal - e sobre o qual o Governo não tem intervenção directa - parece-me uma associação rebuscada e uma jogada de risco extremamente estúpida, até para Centeno. Mas é inegável a promiscuidade que continua a existir entre o Benfica e o Estado, ainda que este caso tivesse tudo para terminar numa rua sem saída.
No fim de contas, ficam quase todos mal na foto. António Costa, pela dualidade de critérios com que tratou este processo e o do GalpGate, atropelando todas as linhas do código de conduta que ele próprio concebeu; a oposição de centro-direita, habitual campeã do aproveitamento político, manteve um silêncio copioso sobre a matéria do início ao fim; a comunicação social pró-cefalópode, que já começou a vender o arquivamento como uma vitória, e o próprio Centeno, que fica sempre mal em qualquer fotografia. Ah, e porque vai continuar a sentar-se ao lado de um criminoso.
O mercado de inverno encerrou ontem e o FC Porto conseguiu reforçar-se, apesar das condicionantes financeiras impostas pela UEFA. Se ainda queremos sonhar com títulos esta época era essencial dar mais pernas ao plantel, sobretudo numa altura em que a resposta física começa a cair drasticamente nos três grandes. O perfil da abordagem ao mercado não foi muito diferente das épocas anteriores. O FC Porto procurou jogadores já familiarizados com o futebol nacional e que deem garantias de rendimento imediado: Paulinho, Paciência e Osório. A exceção foi Majeed Waris, um investimento estrangeiro pouco habitual nesta janela, que se deveu a uma oportunidade de negócio.
De resto, o mês de Janeiro fica marcado por isso mesmo: oportunidades de negócio. A SAD portista garantiu três jogadores por empréstimo com opção de compra obrigatória (um dado que só o R&C vai confirmar) adiando os respetivos investimentos para julho. Uma boa forma de flexibilizar a rigidez das contas, mas também um risco que poderá, no pior cenário, agravar os pesos mortos do exercício fiscal do próximo ano. Tudo dependerá do rendimento destes jogadores nos próximos seis meses. Querem uma antevisão de qualidade? Consultem a análise que o Lápis Azul e Branco fez aqui.
Depois do nulo em Moreira de Cónegos, segue-se o Braga, partida onde se inicia o ciclo nuclear da temporada. Atrevo-me a dizer que nos próximos oito jogos - Braga, Sporting (TP), Chaves, Liverpool (CL), Rio Ave, Portimonense, Sporting (Liga), Liverpool (CL) - há mais do uma época em jogo. Joga-se também uma luta fora de campo contra a corrupção e para a qual inúmeros portistas se voluntariaram para defender o seu emblema na linha da frente.
A fechar, ficam a saber que uma empresa de chocolates de Coimbra passou a ser dona de 2% do capital do Benfica. Por estes dias, é fodido ser benfiquista.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Moreirense 0 x 0 FC Porto | Trivelas & Roscas
Existe algum portista que não tenha acordado com os lábios secos? Duvido. É exasperante perder pontos desta forma, onde a conjugação de erros próprios, alheios, involuntários e deliberados frustra qualquer tentativa de fuga ao pelotão. Distraímo-nos de tal maneira a ver o Ferrari despistar-se no retrovisor que nos esquecemos de olhar para a frente. E batemos, também, sabendo que esta corrida nunca terá um policiamento justo. Há uma série de diferenças entre o FC Porto da 1ª volta e o que arrancou a 2ª. A mais natural e expectável, o cansaço. A menos visível, a falta de arcaboiço mental dos jogadores para lidar com a liderança. Se olharmos para o onze que entrou ontem em campo, só Telles, Reyes, Felipe e Óliver sabem o que é ser campeões nacionais (e por uma vez). Há menos velocidade na transição e mais hesitação no último terço. O que não existe é diferença de atitude. Atitude pressupõe vontade e a equipa já demonstrou mais do que uma vez que quer vencer o campeonato. Se terá pernas e estofo para o fazer é outra conversa.
Telles/Felipe: O quarteto defensivo esteve genericamente bem, o que explica um dos zeros do jogo, mas os dois brasileiros alargaram o seu raio de ação ao ataque, tendo contrariado uma boa parte do mau desempenho dos colegas da frente. Alex fez um jogo equilibrado, a atacar e a defender, sobretudo tendo em conta que os laterais têm trabalho redobrado sem a presença de um pivot defensivo. Felipe sofreu um penalty grotesco que ficou por assinalar e esteve perto do golo num par de ocasiões, sem oferecer malabarismos arriscados junto da sua área como contrapartida ao adversário.
Herrera/Óliver: O regresso ao esquema com dois médios não correu como Conceição desejava. O FC Porto emperrou a partir do primeiro quarto de hora e só a intervenção do newcomer Paulinho deu, a espaços, algum critério à construção. Primeiro, Herrera. Está em quebra, o que equivale a dizer que está a perder confiança. Depois, Óliver. O espanhol acusou falta de ritmo e mostrou alguma deficiência na entrega e na adaptação ao modelo.
BAM: Desinspiração, indecisão e desacerto. Jhonatan até teve um dia feliz, mas não era imbatível. Do trio africano, nenhum se aproveitou. O que explica o outro zero do jogo.
Sérgio Conceição: Desde a viragem do ano que as primeiras partes se tornaram exercícios sofríveis de assistir. Conceição tem conseguido inverter a tendência na segunda metade, mas talvez esteja na hora de repensar a ideia de dar 45 minutos de avanço. Agora que conseguimos fazer em janeiro o que não fizemos no Verão - contratar - pede-se a rotatividade sensata que o segundo e terceiro terços exigem. Caso contrário, nem a Maio chegamos.
Paulinho: Óptima estreia, com movimentações interessantes para quem acabou de entrar na equipa. As boas investidas do FC Porto na primeira parte passaram quase sempre por ele e o golo, na estreia, também não andou longe. Quem me acompanha no Twitter sabe que este é um dos jogadores que tenho seguido e que acredito que possam trazer valor acrescentado ao FC Porto. Paulinho dá a mesma dimensão interior ao jogo que Brahimi oferece no lado contrário. O que vai ser particularmente útil contra adversários que só vão mendigar um pontinho.
Waris: Voltou a causar boa impressão e mostrou que pode valer pontos. Se deixarem.
terça-feira, 30 de janeiro de 2018
Draxletter | Os provérbios do Benfiquistão
Eis a Draxletter. Uma espécie de newsletter diária que só vai acontecer uma vez.
Ontem, assistimos ao primeiro plot twist de uma das novelas mais previsíveis (e perversas) do futebol português. O arrufo de namorados no Restelo trocou as voltas aos que esperavam o forrobodó habitual entre Belenenses e Benfica. Os da casa fizeram-se de difíceis perante o coro encarnado e tudo o que o amante conseguiu foi arrancar um chocho à força, já bem depois da hora de deitar. Até as histórias de amor superlativo têm os seus momentos mais cinzentos. O Benfica não pode esperar que a relação de poliamor que mantém com a maioria dos clubes da Liga não dê num ou noutro caso de ciúme. Nada que, no fim de contas, a Paixão não resolva. O empate de ontem reacende também uma velha questão que promete inflamar susceptibilidades. Afinal, qual deles é melhor: o pastel de Nathan ou o pastel de Belém?
Soubemos hoje que o líder máximo do Benfica, Luís Filipe Vieira, foi constituído arguido no âmbito de um processo que também motivou buscas ao seu gabinete no estádio do Benfica. Na mesma operação, levada a cabo pela Unidade Nacional de Combate à Corrupção, está envolvido o juiz-desembargador Rui Rangel (um ex-candidato a líder máximo do Benfica) e José Veiga (um dos ex-braços direitos do líder máximo do Benfica). Uma operação que nada tem a ver com o Benfica, diz o Benfica. Mas João Correia, o advogado-mor do Benfica, que mais parece uma espécie de Paulo Madeira da defesa jurídica do clube, desarmou todos os que pretendiam tirar algum tipo de aproveitamento da situação com um provérbio popular no Benfiquistão: "Quem não é arguido não é bom chefe de família". Nos próximos dias ainda vamos ouvir que "em casa onde não há corrupção, todos ralham e ninguém tem razão" ou que "boa fama granjeia quem faz tráfico de influência".
Grande expressão criada por João Correia, advogado de Vieira. A indústria de pratos de porcelana vai prosperar, não há benfiquista que não quererá exibir uma frase destas numa parede de seu lar. pic.twitter.com/HIUjMCe1gG— O Artista do Dia (@OArtistaDoDia) 30 de janeiro de 2018
Também esta terça-feira, o FC Porto enfrenta uma das deslocações mais complicadas da segunda volta. Começamos já em desvantagem em número de comendadores, porque eles têm o Joaquim de Almeida Freitas e nós não temos o nosso por lesão. Mas o FC Porto que eu conheci não desperdiçava as abébias dadas pelos rivais. Pelo contrário, alimentava-se delas. E Sérgio Conceição tem sido, após Vítor Pereira, o homem que mais tem reaproximado o dragão do caçador de oportunidades que já foi. Sem Danilo no miolo e sem Marcano no eixo da defesa, a presença de um pivot é fundamental. Se nos próximos jogos Conceição quiser abdicar do trinco tradicional e voltar ao modelo com dois médios, não deverá fazê-lo agora. Aposto em Héctor, Óliver e Sérgio Oliveira de início. E, eventualmente, Paulinho no lugar de Corona. Jogue quem jogar, o foco terá de ser a vitória e a liderança isolada da Liga, que fará o regresso a Estoril parecer cada vez mais uma extra ball.
Cheers.
Subscrever:
Mensagens
(
Atom
)
