sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Sporting 0 x 0 FC Porto (4-3 g.p.) | Trivelas & Roscas


Um dos aspectos mais notáveis da susceptibilidade humana é procurar explicações complexas para coisas simples. Somos a navalha da navalha de Occam. A contraparte que não se conforma com a improbabilidade. Que não aceita que nem sempre ganhe o melhor. Perdoem-me os neomarxistas da língua, mas a vida é mesmo assim. No terceiro clássico da época, fomos uma vez mais contra todas as possibilidades. Fomos superiores ao adversário, empatámos uma vez mais a zero e, no fim de contas, saímos outra vez a perder. Agora, tal como antes, perdemos bem e perdemos mal. Bem porque o Sporting foi mais competente nos penalties. Mal porque continua a faltar instinto durante os 90 minutos contra os arquirrivais. Sentimo-nos confortáveis na pele de predadores mas passamos demasiado tempo a rondar a presa, mostrando um certo receio de lhe tentar afiambrar o cachaço. O tempo suficiente para ela se refugiar na sorte. Vamos a notas:


Marega: Definir um jogo do maliano como excelente é dizer que deu muito trabalho ao adversário, lutou muito, suou como ninguém, correu mais do que todos os outros juntos, quis ganhar uma taça que, geralmente, ninguém se importa de perder. Porém, também é dizer que o faz com todos os defeitos que lhe são inerentes, como o perfil atabalhoado, a elevada propensão para o erro e a falta de definição. Pessoalmente, não me importo com a estética cubista do seu futebol. É como ter um impermeável comprado num outlet. Tem defeitos e linhas soltas, mas na hora do aperto cumpre a sua função. Útil, sobretudo, no futebol de correio-expresso que Conceição gosta. Isto não é uma piada com a Taça CTT.

Óliver: Quando Danilo abandonou lesionado, pensei que Sérgio Conceição fosse redefinir o elenco mantendo o modelo, atirando Reyes lá para dentro. Contudo, a entrada de Óliver trouxe uma mutação genética à equipa. Com riscos, mas também com boas perspectivas. Depois de quebrarem o gelo, Herrera, Sérgio Oliveira e Óliver, prenderam os movimentos de um adversário que tem no meio-campo a sua maior virtude. Óliver é, ao mesmo tempo, uma benção e uma chaga. Continuando na senda das comparações parvas, o seu CPU é consideravelmente mais rápido que os colegas. Os seus oito núcleos de processamento trabalham para uma equipa que, na fase de construção, pensa à velocidade de uma GeForce 4. Por isso, tende a desenhar jogadas geniais que só a sua cabeça (e a nossa) entende.



Lesão de Danilo: Depois de saber que pode variar entre um mês e dois, fiquei com imunodepressão. Seria um erro de leitura grave de Conceição avançar com ideias paralelas depois da segunda parte que fez com Herrera a 6 (tal como faz no México, com grande sucesso). A transformação da equipa foi evidente. Para melhor. O problema é mantê-la. Herrera é muito mais propício a desconcentrações que Danilo e pode custar mais golos. Mas Reyes iria tirar demasiado óleo ao motor sem a garantia de que vedaria tão bem quanto o Comendador.



Waris: Não o conheço. Ver jogos da Ligue 2 aparece para aí na 183ª posição da minha lista de passatempos. E dez minutos de jogo conversa não chegam, embora me tenha parecido um tipo educadadinho. Isso e um penalty batido com a convicção de quem quer deixar uma boa primeira impressão. Desde logo, salta à vista que Majeed Waris é o jogador-tipo de Sérgio Conceição. Compleição física de respeito, pulmão aberto, compromisso com a pressão alta, velocidade. Diz a tradição que somos bons a escolher jogadores oriundos da África subsariana ao Lorient. E fé, tenho sempre.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Desconstruindo mitos

O ruído que o inacabado Estoril x FC Porto da 18ª jornada tem provocado está a gerar mais brechas na interpretação dos factos do que as que cobrem o António Coimbra da Mota. Vamos ao que interessa.

O jogo não chegou ao fim. A partida foi suspensa ao intervalo devido ao risco de colapso de uma das bancadas do Estádio António Coimbra da Mota, construída há menos de três anos. Só o sangue frio e o bom senso dos adeptos portistas e a intervenção célere e coordenada das autoridades evitou que a noite de ontem se transformasse num dia de luto para o desporto nacional. Isso mesmo foi atestado pelo comandante da Proteção Civil Municipal de Cascais, Pedro Araújo. Ou em alternativa, pelo insuspeito do costume.


Há quatro parcelas fundamentais nesta equação.

1. A SAD do Estoril admitiu, em comunicado, que a estrutura da bancada sofreu um "abatimento", violando assim as regras de segurança. Antes, já tinha admitido que aquele setor tinha sofrido manutenção a poucas horas do jogo.

2. O já citado comandante Pedro Araújo, em análise preliminar, descartou a hipótese que muitos queriam colar: a influência do sismo de Arraiolos, atribuindo implicitamente a responsabilidade ao clube e/ou à empreitada da obra.

3. O Regulamento de Disciplina da Liga prevê sanção de derrota caso a falta de condições necessárias para a realização de um jogo seja da responsabilidade do clube.

4. Apurar responsabilidades através da peritagem e do inquérito. Se a falta de segurança for imputada ao Estoril, o artigo 94.º é claro. Se não for, siga para bingo.


Numa primeira instância, o FC Porto terá recusado, e bem, acertar com a Liga e com o Estoril nova data para o jogo dentro das 30 horas seguintes. A alínea d) do artigo 46.º do Regulamento das Competições organizadas pela LPFP refere que caso não estejam satisfeitas as condições de segurança adequadas para prosseguir o jogo dentro do prazo definido pelo enquadramento legal, a partida é remarcada dentro das quatro semanas seguintes (cumprindo o disposto no ponto 4. do artigo 42.º).


Ora, o FC Porto estará prestes a anunciar que chegou a acordo com o Estoril para jogar a segunda parte a 21 de Fevereiro, entre a recepção ao Rio Ave (21) e a deslocação a Portimão (25). A minha teoria é de que o acordo não é vinculativo, isto é, não impede que o FC Porto abdique de lutar pelo cumprimento do regulamento, se for caso disso. O Departamento Jurídico do clube já estará certamente a apreciar o caso, porque acredito que a mesma estrutura que nos projetou para o mundo não ficou subitamente amadora na defesa dos nossos interesses.

Contudo, enquanto não for concluída a investigação - e imputadas responsabilidades - a invocação do artigo 94.º fica congelada. Por isso, a remarcação do resto do jogo é um passo urgente. Se o parecer final do inquérito for desfavorável ao FC Porto, o jogo terá de ser retomado e quanto mais cedo isso estiver definido, melhor. Se for favorável, o FC Porto ganha os três pontos na secretaria. Simples. Seria muito mas muito mais polémico completar a segunda parte hoje ou amanhã. Pois se o FC Porto perdesse em campo e acabasse por vencer na secretaria, a única derrotada seria a já empalidecida imagem da Liga.

Não trago para esta conversa as descabidas teorias da conspiração que proliferaram entre ontem e hoje. A lama pertence à lama. No dia em que o FC Porto salvar o país, o FC Porto será acusado de ter salvo o país. Mas há um aspeto muito mais fundamental do que os três pontos em causa. A segurança dos que sustentam o futebol português: os adeptos. É crucial que o FC Porto lute até à exaustão pelo cumprimento da lei, para fazer disto uma wake up call abençoada e garantir um futuro mais saudável para a competição. Por um futebol sem medo, pela devolução da confiança aos adeptos, legitimamente descrentes num sistema incompetente que manda uma multidão regressar a uma bancada à beira da derrocada.

Desportivamente, tenho uma recomendação para Sérgio Conceição e para os jogadores. Mentalizem o jogo de ontem como uma derrota virtual. Aceitem o facto de termos caído para o segundo lugar e lutem como se tivessem de correr atrás da liderança. Se isso acontecer, tenho a convicção de que o hipotético jogo de Fevereiro será apenas um bónus onde podemos ganhar um ou três pontos extra.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Moreirense 1 x 2 FC Porto | Trivelas & Roscas


Vitória insípida. A possibilidade de termos perdido um, possivelmente dois, dos jogadores mais influentes da equipa por tempo indeterminado trava o sabor do regresso às meias-finais da prova raínha. É certo que a quebra física é consequência natural da escassez de recursos. Neste micro FC Porto, todos jogam e (quase) todos jogam muito. Mas não posso deixar de notar também uma espécie de jogo de forças cósmicas que me perturba mais do que seria desejável. Se ganhamos um Herrera, perdemos um Óliver. Se ganhamos um Sá, perdemos um Casillas. Se reabilitamos um quase dispensado Layún, lesiona-se um Marega a aquecer. Se é frustrante para mim, imagino para Sérgio Conceição, que até ao final da temporada vai ter de racionar melhor do que uma ONG no Ruanda. E estando em todas as provas, não sei se temos bateria que chegue para a maratona.


Maxi: Deve andar a jogar infiltrado no Campeonato Nacional de Séniores. Só assim se explica a falta de ritmo que não acusou. Incansável em toda a linha,  estendeu-se bem no terreno e mostrou uma percentagem de acerto simpática nos cruzamentos, o seu ponto fraco, mantendo a habitual solidez a defender. Tenho de respeitá-lo. Maxi faz por demonstrar que não veio para o FC Porto gozar a reforma antecipada depois de ganhar quase tudo no rival. Fosse eu assalariado do Benfica e o único esforço que faria era para não me cuspir todo nas palestras de Rui Vitória.

Layún: Não foi o melhor jogo do mexicano com a camisola portista, mas voltou a mostrar que pode ser o joker que a equipa procura. Joga em qualquer posição, fazendo prevalecer a sua inteligência na leitura do jogo sobre a anarquia táctica em que mergulha por levar a polivalência ao extremo. Sérgio Conceição pode fazer com ele aquilo que Jorge Jesus está a fazer com Bryan Ruiz. Em 2017/18, Miguel Layún já foi titular, esteve para sair, desapareceu das opções, regressou, dizia-se que era preguiçoso, mas no fim de contas é um jogador que "dá garantias" a Conceição. E ainda bem.

Herrera: "Patinho feio, o caralho. O meu nome agora é Zahovic", disse o mexicano ao espelho algures em setembro de 2017. Está feito um senhor jogador. É o catalisador da máquina. Começa finalmente a dar razão aos que nunca deixaram de acreditar nele, a silenciar os que sempre o criticaram e a agradar ambas as partes. Temia que as mini férias lhe fizessem mal, porque a taxa de rendimento de Herrera está indexada ao índice de confiança. Mas a Herreronomia está a tornar-se uma ciência exacta. Yay.


Hernâni: Nope. Não serve. Há mínimos olímpicos que não consegue cumprir. Dizer que Hernâni é alternativa a Corona é dizer que soja é alternativa à carne. Na falta de reforços, Galeno, ou até André Pereira, podem preencher a vaga do ex-vimaranense sem prejuízo para a qualidade global da equipa.

Felipe: O FC Porto voltou a sofrer um golo (e a sofrer em geral) muito por culpa do brasileiro. Tem o descomplicómetro avariado e mesmo quando não tem a bola nos pés parece andar a gravitar à volta de outros assuntos da vida, como o preço do fubá ou a extinção em massa das chinchilas da Índia. Acorda, rapaz.

Mercado: "Se tivesse a certeza que não havia lesões e castigos, mas não temos. Com jogos de três em três dias é preciso muito dos jogadores". Strike three. A mensagem do treinador à direcção é inequívoca. Conceição quer e precisa de mais mão-de-obra. Da outra parte, resta fazer um pequeno esforço para não deitar todo o sacrifício do grupo ao charco. Não podemos é estar à espera que os azares aconteçam - ou fazer fé para que não aconteçam. Porque ninguém pretende passar o final de Maio a lamentar uma política de contratações reactiva que devia ter sido proactiva.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

FC Porto 4 x 2 Vitória SC | Trivelas & Roscas


Quando Artur Soares Dias apitou para o intervalo, Sérgio Conceição saiu a correr e foi ao balneário virar o boneco. Não o acólito demoníaco que o seu filho tem em casa - ele há coisas que é melhor não questionar -, mas o boneco aos seus homens, que passaram metade do jogo a oscilar entre a agitação e a apatia - e uma certa sensação de impotência perante as gaffes do videocoiso. A diferença de rendimento da primeira para segunda parte foi tão abismal que Nuno Espírito Santo só ficaria orgulhoso dos primeiros 45 minutos. Vai acontecer mais vezes. Vamos sofrer primeiro em muitas ocasiões. Chegaremos mais vezes a meio do jogo com as asneiras todas por limpar. Vamos ter de aguentar tabuleiros com maior ou menor inclinação durante o resto da época, enquanto lidamos com as nossas próprias carências. No futebol, vontade não é tudo mas pesa muito. Se reagirmos com a pujança de ontem, dificilmente sairemos derrotados. Em tempos, tivemos um treinador que nos prometeu que, caso estivéssemos a perder, as outras equipas iriam "levar massacres que nem respiram". O mesmo a quem devemos um terço da nossa glória europeia.


Brahimi: Podia arrancar este parágrafo de várias formas diferentes. Podia mencionar, por exemplo, o passe de triângulo do argelino para Aboubakar logo a abrir a partida, num gesto que está a tornar-se viral nos nossos jogos: bola lançada na diagonal, geralmente da direita para o meio, com tensão suficiente para rasgar a defesa contrária e o açúcar necessário para atrair o redes, antes de parar cinicamente nos pés do avançado. Ou notar os 88 dribles eficazes que Yacine já leva em meio campeonato. Uma média de 5,2 por jogo. Mais reviengas juntas do que o segundo e o terceiro melhor da Liga juntos - Rúben Ribeiro (38) e Gelson Martins (36). Até podia falar do golo fantástico e da exibição avassaladora na segunda parte. Mas tudo isto, bem dobradinho, cabe no bolso, quando comparado com a forma como Brahimi celebrou a reviravolta no marcador. Podem tirar Brahimi do FC Porto, mas já não tiram o FC Porto de Brahimi.

Alex Telles: Dobra, recua, corre, sobe, desmarca, centra, tabela, assiste. Raramente falha. É como um daqueles mecânicos que toda a gente procura mas ninguém encontra. Não foi caro, está sempre disponível, é extremamente competente no trabalho, resolve todo o tipo de berbicachos e se te diz que te vai entregar a bola no segundo poste é porque vai entregar a bola no segundo poste.

Marega: Dois golos mais do que acessórios, que foram o antibiótico de que a equipa precisava para consumar a remontada. A sua preponderância para o FC Porto mede-se em número de sportinguistas que bufa das narinas quando vê a tarja "Mete o Marega!!!!" na net.


Corona: Sei que não é fácil jogar numa Liga que ainda não implementou o videoárbitro, mas temo que uma boa parte dos picos de corrente ainda sejam da nossa responsabilidade. Corona, infelizmente, anda mais Dr. Jekyll do que Mr. Hyde e, sim, não me enganei. Corona quer-se é uma besta dentro de campo porque tem potencial para isso. E não um soccer boy enfadado por não o terem deixado dormir em casa dos amigos. Óliver também pareceu acusar a titularidade (ou a falta de jogos nas pernas), mostrando-se um pouco desorientado de processos na fase inicial. Abonatório para ambos foi o facto de a equipa se ter diluído toda ela no marasmo exibicional na primeira parte, o que de certa forma torna injusto apontar réus.

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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O dissidente


Bem-vindos ao planeta do futebol. São 23h43 e ainda estou na esquadra à espera de ser atendido. Viver no Benfiquistão habituou-me a conviver com o roubo, mas não me preparou para o terrorismo. Aos olhos do regime, sou um cidadão problemático, um dissidente de partido clandestino. Aos meus, um anticorpo à procura de justiça num organismo que não funciona. Revejo o momento do crime na minha cabeça, num circuito contínuo de choque e incompreensão. Há em mim, confesso, uma leve vontade de resignação. De sair daqui e entrar na maré. De fingir, como todos fingem. Sou interrompido por um indivíduo alto, autoritário, de bigode farto. Chefe Guerra, consta na lapela da farda encarnada. Convida-me a entrar, estende-me uma cadeira e pede-me para contar o que se passou. Tento recuperar o que a memória me permite, erguer um raciocínio que sustente a denúncia. Mas é impossível explicar o inexplicável. Começo pelo princípio, ciente de que ninguém vai acreditar em mim.

Cheguei ao local do crime pouco antes do primeiro golo, disse-lhe. O ambiente era calmo, dentro da normalidade aparente que um jogo amorfo e longe de ser bonito costuma ter. O golo de Aboubakar não mudou grande coisa. Tudo continuou igual dentro de campo. Brahimi, como habitualmente acontece, partia adversários até acabar ele próprio partido pelos pitóns deles, numa relação desencontrada com o apito do árbitro. Corona, como habitualmente acontece, somava más decisões em barda, numa relação difícil consigo mesmo. Óliver, como habitualmente acontece, via do banco André André produzir um décimo daquilo que o espanhol produz em campo, numa relação estéril com o seu treinador.

Silencioso, o Chefe Guerra amestra uma caneta nos dedos por cima de um bloco de notas ainda sem tinta. Pergunta-me onde está o crime. Descrevo, ao pormenor, o atentado de Fábio Veríssimo contra o FC Porto. A permissividade deliberada perante o massacre constante a Brahimi, um tipo que leva mais pau do que todas as lareiras da Escandinávia juntas. A tendência daltónica de ver amarelo onde é vermelho e vermelho onde é amarelo. A gritante discrepância entre a insígnia que carrega ao peito e aquela que realmente defende. A obscenidade de transformar um lançamento de linha lateral num livre directo. Fábio Veríssimo, remato, foi contratado para sabotar o meu clube.

Nem todos os crimes se fazem apenas de vítimas e vilões, continuei. Este também tem heróis. Descrevo-lhe a bravura de um grupo de jogadores que, mesmo perante a inclinação do campo, soube dobrar a adversidade com inteligência e um enorme auto-controlo. Conto-lhe as recuperações de bola de Óliver, o espírito de sacrifício de Soares, a cabeçada de Felipe, a raça de Brahimi. Conto-lhe sobre a excelência da réplica dada pelo Feirense. Peço-lhe um pouco de justiça por todos os que jogaram futebol naquela noite. O Chefe Guerra ri-se.

Você está preso, diz-me, fechando o bloco ainda por estrear. Na capa, reluz o emblema do regime. Tem alguma coisa a acrescentar?

Vamos ganhar, respondi calmamente.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

1904

A empresa X tem um livro preto onde regista todas as operações que faz. Legais e obscuras. Um funcionário desertor decide fotocopiar páginas do livro e lançá-las pela janela. Na rua, espaço público, transeuntes apanham as páginas e testemunham-nas. A empresa X decide perseguir e ameaçar os transeuntes.

O parágrafo anterior podia ser a sinopse de uma série de ficção da Netflix ou uma distopia imaginada por Orwell ou Bradbury, mas não é. É real e grave, é próximo e sinistro.

Ontem, um mero clube de futebol decidiu notificar empresas nacionais para instaurar processos disciplinares aos funcionários que tenham lido material no domínio público. Ontem, um mero clube de futebol tentou coagir a população de um país. Ontem, o Estado Lampiânico abandonou de vez a sua alcunha mais célebre: Sport Lisboa e Benfica.

Estamos perante um de dois cenários hediondos.

Ou a lógica do absurdo, onde, seguindo a linha de raciocínio do Benfica nos últimos tempos, o clube quer proibir pessoas de ler emails falsos. (!)

Ou a lógica do abuso, onde o Benfica quer atropelar a democracia e usurpar um poder que não tem para intimidar quem não pode. (!!)

Esta tentativa de se vestir de polícia da internet e tentar controlar um povo pelo medo é o maior atentado à democracia em 43 anos.

Façam o seguinte exercício: imaginem por momentos que, em vez do Benfica, recebiam a mesma carta mas de José Sócrates, Ricardo Salgado, a EDP, o Governo, a IURD, o CDS, o Novo Banco, a Raríssimas ou a Sonae. Apelo aos benfiquistas que ainda vivem acima da linha de água. De zero a Pedro Guerra, quanta revolta sentiriam?

A ameaça do Benfica toca num outro aspeto fundamental da democracia. A queixa formalizada ontem contra um jornalista do JN por ter acedido aos emails é dos processos mais kafkianos de que há memória no país. O jornalista foi intimado por um crime que o Benfica não especifica nem quer explicar.

Que estado de direito é este em que vivemos se um jornalista não puder aplicar a sua regra mais básica de trabalho, a curiosidade? Mais do que um direito, é um dever para qualquer jornalista questionar o mundo em que vive. Sobretudo quando, sem cometer crime nenhum, tem acesso a material que está no domínio público. As ilações que tira da análise é com ele. Mas nada nem ninguém o pode proibir de escrutinar documentos. Lembram-se dos Panama Papers?

Chegámos ao ponto crítico onde a piada se transformou num caso sério. Em Portugal, o Benfica comporta-se como um regime autoritário. Mas esquece que este não é apenas um país habituado a conviver com ditaduras. É também um país habituado a derrubá-las.


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Vitória FC 0 x 5 FC Porto | Trivelas & Roscas


Começo com um mea culpa. Quando Tiago Martins assinalou uma falta de Marega a pedido de José Couceiro, ali por volta do minuto 15, convenci-me de que o FC Porto não ia vencer o jogo em Setúbal. E mesmo depois dos dois primeiros golos, fiquei especado à espera da tempestade de anomalias que normalmente acontece nos jogos do FC Porto. Esclareça-se que este miserabilismo nada tem a ver com o nosso grupo de jogadores, capazes de feitos extraordinários perante tantos ventos contrários. Trata-se sim de uma descrença acumulada com o estado das coisas. Da revolta que sinto em ver o abismo em que a arbitragem portuguesa voluntariamente mergulhou. Da vergonha que me assola ao acordar todos os dias num país sem noção. Da repulsa que carrego contra o falso moralismo de uma imprensa daltónica, que escrutina empurrões até à última fibra mas continua a ignorar os verdadeiros atropelos à modalidade. Por isso, a mão cheia de golos foi uma boa chapada despertadora contra a indiferença em que, por vezes, me apetece cair. No lodo que é o futebol português, ainda sobrevivem uns quantos inconformados.



Aboubakar: Três golos, uma assistência brilhante, uma roleta à Zidane, dois passes de morte e uma presença incansável no ataque que deixam Jonas mais perto de vencer o prémio Jogador do Mês de Dezembro.

Marega: Chega a ser desconcertante. Passa o tempo a desfazer mitos e criar novas interrogações. No segundo golo, dá ideia que escapou por sorte a um dos falhanços do ano. No lance do quarto golo, fez um duplo drible na linha que deixou adversários, críticos, adeptos, crentes e ateus rendidos e confusos ao mesmo tempo. No último, pica a bola por cima de Cristiano após um sprint magnífico aos 80 (!), qual mistura genética entre Obafemi Martins e Zlatan Ibrahimovic. Marega não é um poço de técnica, mas tem um poço de variedades e surpresas dentro de si. Um fenómeno.


Brahimi: O falhanço na cara de Cristiano, logo na fase inicial da partida, seguido de um domínio nada menos do que Licáneano, resume a sua prestação. Inconformado mas inconsequente. Há dias em que nem o mais talentoso dos chefs deve entrar numa cozinha.

Caso Óliver: Sou apologista de que certos assuntos não devem transbordar a blindagem de um plantel. Sobretudo, quando ainda temos tudo a ganhar e a perder. No entanto, um dia destes, lá para fins de Maio, gostaria de compreender o motivo que levou Conceição a desistir do espanhol. É técnico? Não me parece. É estratégico? Não me admiraria se Óliver fosse negociado já em Janeiro. É disciplinar? Também não me surpreenderia se Óliver regressasse em breve às opções. Enquanto se ganha, não se questiona - e eu aceito que este não seja o momento ideal para abordar publicamente o assunto, até porque já temos anticorpos suficientes. Mas ninguém pode fugir das perguntas para sempre.

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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

FC Porto 5 x 2 AS Mónaco | Trivelas & Roscas


Zero zero no Dragão é resultado para deixar qualquer portista a navegar na maionese o resto da semana. Para mim, é pior do que um empate com golos, porque aí sempre se pode açucarar a nossa própria incompetência com o mérito do adversário, que ousou plantar uma ou duas batatas em terreno alheio. Mas o nulo do Clássico, contra uma equipa radioactiva, de futebol empobrecido e presença extremamente nociva para o desporto, foi ainda mais anticlimático. Sobretudo se pensarmos que aquele empate seco poderia facilmente ter sido uma vitória gorda, tivéssemos nós feito o nosso trabalho e o polvo não fizesse o dele. Adiante. Urgia acordar deste estado catatónico e nada melhor do que um passaporte para os oitavos da Champions para recuperar a alegria. Vencemos cumprimos o plano e aconchegámos o cofre para o inverno rigoroso que vivemos. Só se pode dizer que o Mónaco foi presa fácil porque nós, quando queremos, somos um predador voraz. Que o banquete não nos tire a fome. Venha o mata-mata.



Aboubakar: Marcou dois golos completamente diferentes que mostram a sua versatilidade enquanto ponta de lança. Fez uma assistência sublime que mostra a sua versatilidade como avançado. Quando chegou ao FC Porto, em 2014, Aboubakar era mais parra do que uva. Transformou-se um jogador extraordinário nos últimos anos e é um exemplo de que nem todos os empréstimos para a Turquia servem apenas para escoar o entulho.

Laterais: A fase de construção ofensiva da equipa passa muito pela dinâmica de Telles e Ricardo, dois jogadores sempre muito interventivos no processo atacante. Anteontem, foram os mais influentes a seguir a Aboubakar. Telles marcou, Ricardo deu a marcar. Uma dupla destas, que faz mais piscinas em 90 minutos do que Phelps numa semana de treinos, numa montra como a Liga dos Campeões, dura tanto como Raffaellos numa mesa de Natal. É aproveitar enquanto cá estão.

Herrera: Tal como Vincent, Héctor também foi dono de uma evolução brutal desde o momento em que chegou. Mais volátil, mais pautada por altos e baixos, mas numa tendência que sempre me pareceu apontar à maturação. Herrera não é propriamente um maestro, mas é o gajo que nunca se esquece metrónomo. Aprendeu a ditar os ritmos do jogo e está mais apurado na definição, que foi o que sempre lhe faltou. Os passes "herráticos" vão sempre acontecer, como uma espécie de assinatura teimosa e infantil da qual o artista nunca abdica. Contudo, a grande responsabilidade de a orquestra estar tão bem sincronizada é dele.

Brahimi: Leva uma média de 6 dribles bem sucedidos por jogo na Champions - melhor só Bruma, Perotti e Neymar - e voltou a marcar, colocando ao lado de Zahovic e McCarthy no patamar dos ilustres, com 8 golos ao serviço dos dragões na prova. O FC Porto sempre fez questão de ter um mago nas suas equipas de ferreiros. E Brahimi é um deles. Falta-lhe um título pelo clube e ele bem o procura.



Displicência defensiva: Na quarta-feira, juntaram-se no Dragão dois treinadores da escola "o que interessa é marcar mais golos do que o adversário". A pose ofensiva e vertiginosa do FC Porto, esteticamente, é um regalo para o comum adepto, que quer ver a equipa a jogar como o Brasil de 82. Mas do ponto de vista prático, expõe a equipa a situações desagradáveis e desnecessárias. O golo de Falcao foi um exemplo do adormecimento geral que toma conta da equipa em certas fases do jogo. A rever, até porque nem sempre acontece com três golos de diferença.

Felipe: Sou dos que acha que houve excesso de zelo do árbitro no lance da expulsão. Jonas Eriksson só pode vir de uma remota e pacata vila sueca onde o maior crime cometido até hoje foi o vandalismo de uma placa de trânsito. Mas isso não isenta Felipe, que não devia ter respondido, sobretudo porque priva a equipa de um elemento chave numa eliminatória importante. Antes, o brasileiro já tinha averbado uma série de erros, que começam a ser mais habituais do que pontuais nos últimos tempos.

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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Besiktas 1 x 1 FC Porto | Trivelas & Roscas


Descer ao inferno e voltar vivo. O FC Porto atravessou os 90 minutos mais diabólicos de que me recordo nos últimos anos e sobreviveu. Não é que a Turquia seja um local azedo para a memória portista, bem pelo contrário. A estatística ainda nos dá razão. Mas convenhamos que o Besiktas 2017 é substancialmente diferente dos antecessores, mais Europeu, mais técnico e sobretudo mais atlético. O empate foi um prémio justo para a competência táctica dos nossos na primeira parte e lisonjeiro para uma segunda parte pouco acima de sofrível, onde a superioridade física dos turcos fez a diferença. Resistimos à avalanche sonora mais famosa do futebol e mantivemos esta bela tendência de resolver as deslocações difíceis, o que me faz acreditar que este grupo pode bem ser capaz de aguentar uma aula inteira de Educação Moral e Religiosa. Não quero ser demasiado ambicioso, contento-me para já com o bom futebol que temos apresentado à Europa e com todas as hipóteses e mais alguma de seguir em frente na prova, numa época em que se dizia que o FC Porto ia morrer de tuberculose antes de Novembro.


Posicionamento nos primeiros 45': O FC Porto desdobrou-se bem em campo na primeira parte, ocupando os espaços com critério durante a transição defensiva. A vitória do FC Porto nesse período foi posicional. No ataque, esteve sempre dependente das descidas de Aboubakar no terreno e dos solos de Brahimi, com o trio do meio-campo mais preocupado em suster do que em criar. Mas, a nível defensivo, a dinâmica colectiva funcionou bem, sendo traída pelas falhas individuais. Foi pena o golo do empate ter nascido de um desses pecados.

Ambiente: Abandon hope all ye who enter here. O Besiktas Park (oficialmente Arena Vodafone), sucessor do mítico Inonu, é um monstro vivo. E não é só barulho. Os Ultras do Besiktas sabem como intimidar um gajo que está a ver o jogo no sofá da sua sala a uns confortáveis 4000 kms, com cânticos que parecem vociferados em aramaico. É insana a forma como os turcos vivem o futebol, dando ao jogo um significado sobrenatural e abrindo uma clareira na floresta de interesses, poder e dinheiro que cercou a modalidade. Qualquer verdadeiro adepto de futebol tem de ter um dos principais estádios turcos na bucket list. O Diabo mora ali.

Jose Sá: Grande jogo, um par de defesas importantíssimas e confiança cheia. Está a deixar para trás as dores de crescimento.

Laboratório: O golo do FC Porto nasce de um livre que se transforma numa bonita jogada ensaiada. Dos dez golos marcados pelo FC Porto na presente edição da Champions League, seis foram em lances de bola parada. Um número revelador, que mostra que nem todos os laboratórios precisam de propaganda para serem notados pela crítica.


Quebra nos segundos 45': Uma boa parte do sucesso deste FC Porto passa pelos dois poços de força que tem no ataque, secundados pela magia do amigo baixinho. O trio BAM fez falta na Turquia. Marega para ajudar no braço de ferro no último terço, libertar Aboubakar da inglória tarefa de lidar sozinho com Pepe e Tosic e permitir que as deambulações de Brahimi tivessem melhor aproveitamento. O argelino que tantas vezes teve de parar e rodar enquanto procurava destino para a bola. Sem andamento para a Jandarma que comandava o meio-campo turco, a queda drástica da qualidade de jogo do FC Porto na segunda parte foi natural. O FC Porto foi perdendo discernimento. Não havendo Herrera, não havia Sérgio Oliveira. E não havendo os dois médios mais avançados, não havia construção, levando a equipa a refugiar-se mais atrás e a aproveitar uma ou outra saída rápida para criar perigo. Sérgio Conceição demorou um pouco a mexer e quando o fez foi, no mínimo, discutível.

Felipe: Com Felipe vale mesmo tudo. Desde silenciar um estádio turco com um golo à ponta-de-lança a demonstrações de banha da cobra à entrada da sua própria área. Uma delas está directamente ligada ao golo do empate e Felipe só não saiu da Turquia com pesadelos porque Sá é um gajo cinco estrelas. Não sei se foi contagiado pelo nervosismo geral da equipa ou se foi ele o paciente zero dessa insegurança. Mas agora que experimentou a sensação de jogar com os tímpanos furados, receber o Estado Lampiânico e a sua máquina de propaganda no Dragão vai ser duck soup. Né, Felipe?

Pinto da Costa: "Não contratei o Sérgio para não tentar ganhar ou melhorar. Para isso ia buscar o Lopetegui". Claro que aceito uma leve insolência do presidente mais titulado do mundo, memória curta não. Trazer Lopetegui ao barulho foi incorrecto. Para não dizer que Lopetegui foi, em última instância, aprovado por si. Tal como Robson, Mourinho e Villas-Boas. Ou Octávio, Couceiro e Peseiro. A desresponsabilização fica mal a Pinto da Costa. Além disso, Lopetegui? O tal basco que, sozinho, defendeu o FC Porto num tempo em que no Dragão não havia baluartes? Nos anos em que o polvo andava refastelado? Desnecessário.

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terça-feira, 21 de novembro de 2017

Habemus Treta


O ano é 2017, mas o Benfica comporta-se como se estivesse em 1984, procurando vedar a realidade com uma narrativa alternativa, retalhada e distópica.

Falo da mais recente iniciativa do clube para tentar apagar o fogo em que está metido no caso dos emails… com fumo.

Um espetáculo absolutamente deprimente e sem ponta por onde se lhe pegue, mais próximo da apresentação de um trabalho de grupo de outcasts do 7º ano do que uma televisão gerida por profissionais da comunicação.

O circo montado por José Marinho foi embaraçoso. O zombie de Vieira prometia petróleo, mas só trouxe areia. Substrato que mais não serve do que para encobrir uma investigação cada vez mais esclarecedora sobre a face oculta da águia.

O "Novo Apito Dourado", assim baptizado - talvez pelos mesmos criativos que pensaram o nome do Novo Banco -, era afinal uma recompilação mal parida do velho Apito Dourado a que se somam umas quantas novas suposições, com a respectiva prova documental a resumir-se a um powerpoint com informação reciclada e extrapolações assentes não em factos mas rumores e opiniões. Sem uma linha argumentativa incontestável, um fio condutor decente, raciocínios aceitáveis, nada. Um freakshow extremamente vazio e especulativo, sem substância nem seriedade, conduzido com o mesmo rigor de uma alpaca a operar um cérebro. Hora e meia de vergonha alheia.

Os últimos meses foram ricos em revelações sobre o que se passa atrás do pano, onde a bola não chega, e mostram como os corredores do futebol são actualmente mais encarnados do que um filme de Stanley Kubrick.

É inegável a existência de uma rede de proteção e favorecimento ao Benfica cujo poder de alcance extravasa os limites do próprio clube. Uma engrenagem movida por gente que se cansou da genética perdedora do Benfica e tentou manipulá-la, alterando as variáveis que preservavam a higiene do desporto nacional.

Ao contrário do triste espetáculo patrocinado pelo Benfica, o FC Porto tem apresentado factos que indiciam a viciação de uma das maiores e mais lucrativas indústrias do país. São factos porque aconteceram. Aconteceram porque já foram directa ou indirectamente confirmados por quem os praticou.

Factos esses que não escondem apenas pressões ou jogos de poder. Indiciam manobras de corrupção, tráfico de influências, coação, ameaças, proxenetismo e outros crimes cometidos por elementos ligados ao Benfica. E isto só na ponta do iceberg.

O "Chama Imensa" é a resposta típica do encurralado. A reação tímida de alguém a quem a carapuça assenta. Uma nova bala mágica que visa atingir o mesmo alvo das anteriores: minar a opinião pública, reescrevendo a História.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Vale tudo

"Todos são rápidos para julgar e opinar sobre a vida dos outros,
mas são cegos e mudos para a vida própria."
Felipe

O que distingue a maioria dos portistas do carnaval que os rodeia é a capacidade de olhar para dentro. Eu, que sou portista por convicção e não de nascimento, sei o que isso é.

No Benfica, já se sabe, o culto é cego. Os benfiquistas defendem o clube como pais defendem o filho bully que rouba a turma e arreia na professora. A culpa nunca é dele, mas dos outros. Sempre.

Já a idiossincrasia sportinguista, sendo mais moderada, anda adulterada por uma espécie de lampionismo agudo que tem contagiado Alvalade à mesma velocidade com que a legionella percorre hospitais. No entanto, não é só na redneckosfera que as bombas rebentam nas mãos dos terroristas morais.

A época arrancou em Agosto. Foi preciso chegar a Novembro para ver o primeiro jogo da época em que o FC Porto sai com saldo positivo da incompetência da equipa de arbitragem. Sim, teríamos perdido pontos na última jornada, em casa, frente ao Belenenses. Mas isso não equilibra nem de perto uma balança que no outro prato tem penalties sonegados contra Estoril, Tondela, Braga, Moreirense e Paços. Lances que só não tiveram influência na classificação porque o FC Porto passou-lhes por cima.

O que ainda é menos justificável é a onda de indignação gerada após a partida no Dragão, prontamente calada pelo karma no dia seguinte, onde o Sporting ganhou um ponto graças a uma actuação desastrosa de Carlos Xistra.

Mais desonesto ainda - e aí entramos no ramo da filha da putice intelectual - é querer associar Fábio Veríssimo ao FC Porto e FC Porto a Fábio Veríssimo, como se viu por aí. Fábio Veríssimo, benfiquista assumido e denunciado, já foi responsável directo por quatro pontos mal atribuídos ao Benfica esta temporada. Nos jogos do seu clube, teve sempre uma invulgar capacidade para descobrir offsides ao milímetro e sem tecnologia. Nos jogos do FC Porto, infelizmente, Veríssimo não aparenta ter o mesmo olho de lince, tendo sido responsável por decisões que podiam ter lesado o clube e desvirtuado a verdade desportiva. Por isso, nem vale a pena tentar perceber a estrutura lógica de um raciocínio absurdo.

O Sporting já percebeu com quem terá de lutar pelo título. Talvez por isso se tenha rendido à hipocrisia habitualmente praticada do outro lado da Segunda Circular. Mas enquanto o mundo debatia os encontrões de Felipe, o Benfica voltou a passar entre os pingos da chuva, beneficiando de uma impunidade que, quando não oferece directamente a vitória, ajuda a construí-la de forma discreta. Pelo meio, o Estado Lampiânico aproveitou para adensar a cortina de fumo que tem camuflado a verdadeira Liga Vale Tudo: a que corre nos relvados e bancadas por onde a passa a caravana encarnada.

Sabemos que o Benfica não gosta de Felipe Augusto. O que é compreensível para quem tem Filipe Augusto.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

FC Porto 3 x 1 RB Leipzig | Trivelas & Roscas


Sérgio, quando li o XI que escalaste para a partida frente ao Leipzig fiquei mais eurocéptico que os Le Pen. Tal como a esmagadora maioria dos portistas, esperava mais presença e proteína no meio-campo e não um motor a dois tempos a competir com a elevada cilindrada dos alemães, como constava do teu esboço inicial. Sou dos que acha que a saída forçada de Marega foi um mal que veio por bem e corrigiu a tua ideia arrojada mas peregrina de despovoar o centro. Nunca vamos saber realmente o que podia ter acontecido se tivesses jogado mais tempo só com dois médios. Na volta, até ganhavas. Mas desta importante vitória sobra apenas uma certeza: a de que criaste um grupo incrivelmente autoconfiante e mais unido do que um sindicato nos anos 80. Até conseguiste por os habituais artistas a solo a preocuparem-se mais com a banda e menos com a performance individual. Esse é o teu maior mérito, ainda que o teu pensamento táctico permaneça, por vezes, difícil de decifrar aos olhos do cidadão comum sem o nível IV do Curso de Treinador da UEFA. Por isso, não me ligues, sou apenas treinador de chaise lounge, que não ganha uma Champions no FM desde o tempo do Chapuisat. Em suma, sou um completo ignorante. E desde que continues a ganhar, vivo bem com isso.


Transcendência: Um dia, na preparatória, houve um concurso de matemática. A participação era facultativa, mas os meus pais incentivaram-me a entrar. Com o mesmo jeito para os números que Paulo Fonseca tem para nomes e a velocidade de raciocínio de um Pesaresi, lá entrei na olimpíada. Fiquei em último ou perto disso e jurei para nunca mais. Hoje em dia, sou analista financeiro. Reparem que o FC Porto nunca se apresenta como o maior de Portugal. Nem como o mais eclético. A força do FC Porto não vem de cima nem de baixo. Não vem das massas nem das elites. Vem da unidade e da união. Vem do trabalho e da vontade. Da cultura de superação que inspira os seus adeptos a vencer na vida. Durante uma boa parte da partida, os alemães foram mais fortes. Mas nós fomos aquilo que realmente somos: melhores.

Mexicanos: Não fizeram grande espada no arranque, mas a reorganização imprevista do tetris do jogo beneficiou-os. Tecatito cresceu com o relógio, destacando-se sobretudo pelo contributo defensivo, onde foi o grande amigo de Ricardo até sair lesionado. Há dias em que Corona percebe que é tão importante ser irreverente a atacar como civilizado a defender e nesses dias as coisas correm geralmente bem ao FC Porto. Já Herrera sentiu as costas quentes com a entrada de André André, que o empurrou para a frente e lhe permitiu concentrar mais na distribuição e menos na cobertura ao centro. Exibição prática, coroada com um golo e assombrada por um ou outro passe criminoso, tão típicos de um jogador que tanto dá pontos como tira anos de vida.



Ideia inicial: Keita, Kampl e Sabitzer não são médios tugas de 28 anos que passaram ao lado de uma grande carreira, nem volantes brasileiros formados no Buscapé de Itaguaçu e negociados pela Traffic. São três bestinhas com cultura de futebol europeu que daqui a um ano (Keita já está reservado pelo Liverpool) estarão em clubes maiores do que o Leipzig, sem desprimor. Se na Alemenha três médios portistas foram insuficientes, dois no Dragão parecia um hospital em greve, deixando antever um abismo aterrador no miolo, sem se perceber muito bem como é que a equipa iria colar setores só com Herrera e Danilo a comunicarem por telégrafo. A verdade é que nem mesmo com André André retomámos o controlo teórico do jogo, apesar de esta ideia de controlar sem ter a bola ser um princípio do qual Sérgio Conceição não vai abdicar.

Lesões: Além de Corona, Marega e logo na altura mais ingrata. Primeiro, porque nos deixa o ataque no osso em vésperas de novo ciclo exigente. Depois, porque o maliano vivia a melhor fase da carreira e temo que esta paragem de mais ou menos um mês lhe possa tirar algum ímpeto. Lembremo-nos que Marega passou de flop a proscrito, a solução temporária, a gajo-que-até-nem-está-a-jogar-mal-mas-quando-Soares-voltar-o-lugar-é-dele, a indiscutível do FC Porto. É uma pena o músculo ter sucumbido quando mais precisávamos dele. Juro que não sei o que é maior. Se o meu desejo para que volte depressa ou se a surpresa por estar a escrever esta frase.

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Segue-se o Belém a contar para aquilo que mais conta, o campeonato. Como tu bem acabas de dizer, Sérgio, amanhã "é ganhar ou ganhar, não há outra opção".

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

FC Porto 6 x 1 Paços | Trivelas & Roscas


Vitória contundente. Resposta enérgica à ressaca de Leipzig de um Porto maduro e frutado, com leve nota artística. O adversário não deu para mais, é verdade. O Paços de Ferreira - a par do Belenenses quando joga contra o Benfica - é equipa que pior defende no campeonato. O sexto golo então é um workshop de "Futebol Primitivo - Como Defendiam as Equipas no Paleolítico", que embaraça qualquer treinador de Elifoot. Mas mesmo perante um castelo de cartas, o dragão achou por bem aplicar-lhe um vendaval ofensivo, o que demonstra a seriedade com que a equipa encarou o desafio. Não é assim tão incomum deixar pontos em jogos que damos subconscientemente como pré-ganhos. Ora porque a displicência pós-Champions se instala nos jogadores, ora porque o VAR está a espetar garfos nos olhos sempre que a bola passeia na área dos adversários do FC Porto. Era crucial vencer e o FC Porto convenceu. Mostrou que o que se passou na Alemanha ficou na Alemanha e que no Dragão as novelas de balneário duram menos que uma embalagem de Donuts na minha dispensa. E olhem que é difícil.

Ricardo Pereira: O golo inaugural é uma sinédoque do festival de ataque que se seguiu. Trocas de bola frenéticas, tabelas eficientes a rasgar a defesa pacense e discernimento em frente à baliza. Ricardo Pereira personificou a exibição do FC Porto naquele lance, sendo ele próprio o maior diabo à solta no meio daqueles girassóis desorientados com tantas estrelas para perseguir. Livre de constrangimentos defensivos, o lateral português é um terceiro extremo. O que é extremamente útil contra adversários que vêm ao Dragão com linhas de montagem mais proficientes do que a da Auto Europa. MVP da partida, Ricardo ainda somou duas assistências ao golo que marcou, na sua melhor performance desde que voltou. Em jogos de maior exigência defensiva, continuo a preferir Maxi. O uruguaio ainda nos vai ser muito útil nesta caminhada. Mas em dias assim, o palco merece ser de Ricardo. Perfeitamente apoiado pelo sidekick Corona e por um ou outro cameo de Brahimi no lado direito, o português quase fazia mais estragos no Paços do que os 50 casuals do Benfica ontem à noite na Vila das Aves.

Herrera: Podem montar a narrativa como quiserem. Podem não gostar daquele passe mais tosco ou daquele AVC da praxe. Podem achar que 60 minutos bons não compensam 30 minutos maus. Podem até recusar-se a perdoá-lo por aquele canto oferecido ao Benfica. Mas Herrera, este Herrera, é importante para o FC Porto. Com o mexicano em campo, a equipa joga de forma diferente, com maior velocidade nas transições e mais pragmatismo no ataque. Perde no domínio e capacidade de retenção da bola que Óliver dá, mas ganha na verticalidade e no jogo directo. Umas vezes seguro, outras desajeitado, Herrera encontrou nesta versaodo FC Porto a melhor forma de manifestar o seu futebol pendular. O único problema do mexicano é o binómio de opiniões em que vive - e para o qual ele activamente contribuiu no passado -, que leva os adeptos portistas a ter posições extremadas sobre a sua utilização. Não é incompatível com Óliver. Nem o complemento perfeito do espanhol. É somente diferente. Quem ganha, somos nós.

Marega: O facto de ter bisado torna-se quase irrelevante perante isto. E isto é o que eu quero ver na minha equipa nos próximos 100 anos. Um jogador à Porto.





Desequilíbrios: Há resquícios de Jorge Jesus em Sérgio Conceição. A forma como a máquina funciona de José Sá para a frente têm de agradar a qualquer adepto que pague para ver o FC Porto jogar, mas há coisas a melhorar. Nomeadamente, o equilíbrio na gestão do jogo. É bonito vermos o FC Porto inclinado para a frente, numa busca interminável pelo golo, sobretudo quando passámos os últimos quatro anos a vê-los passar para o lado ou para trás. Contudo, a equipa parece por vezes não perceber ou respeitar esses equilíbrios e embebeda-se, tal como nós, na vertigem ofensiva. O golo de Welthon nasce de uma perda de bola em zona proibida e numa altura em que o ímpeto era tanto que a equipa se esqueceu de como se devia distribuir no meio-campo. Um pormenor que não belisca mas que pode vir a fazer ferida se não for corrigido no futuro.

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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

RB Leipzig 3 x 2 FC Porto | Trivelas & Roscas


Não adianta andar a dar voltas ao peixe no prato, porque vamos ter de o comer. O FC Porto jogou mal e perdeu bem. Jogou mal porque Sérgio Conceição se colocou a jeito, invocando uma opção técnica bizarra que ou esconde um conflito interno ou expõe a jesuíta presunção de cunhar os grandes jogos com notas de autor. Perdeu bem porque o RB Leipzig foi superior em quase toda a linha. A margem mínima é mesmo o único conforto de um jogo que descambou cedo e podia ter terminado pior. A derrota em Leipzig nada compromete, mas intrinca as contas de um grupo onde qualquer equipa pode ganhar a qualquer equipa. Vale que temos dois jogos Dragão -- o verdadeiro, não a cópia alemã -- e isso pode ser determinante para garantir o bilhete que resta para os oitavos. Sim, o do Besiktas já ninguém lho tira.

Brahimi enquanto durou: Numa partida genericamente péssima, sobram duas ou três notas de registo. Brahimi é uma delas. Não tanto pelo esclarecimento, mas pela forma abnegada como tentou carregar o FC Porto para a frente. Na primeira parte, foi o único escuteiro da equipa. Parecia que só ele tinha bússola para se orientar no meio do eucaliptal que era o Leipzig, tal era a quantidade de jogadores alemães por metro quadrado. Além disso, os poucos lances corridos de perigo do FC Porto passaram quase sempre pelo seu crivo.

Óliver: Embora fosse mais baixo do qualquer médio em jogo quando entrou, Óliver trouxe água fresca, estabilidade e bola ao meio-campo portista. Foi o homem certo na altura errada, pois os seus passes geométricos encontraram os companheiros já em declínio físico e anímico. Acima de tudo, fica patente que Óliver, não sendo insubstituível, é singular na equipa. Se a ideia é ter mais bola, ser menos vertical e mais soberano no centro, o espanhol tem de lá estar. Se o plano é ser mais rápido na transição, objetivo e ultra-vertical, o espanhol tem de sair. Não existem é receitas permanentes e ontem pedia-se mais da primeira do que da segunda.


Sérgio Conceição: A derrota pode até nem ser da sua responsabilidade, mas a má exibição da equipa é. Com Casillas e Ricardo em campo, é discutível afirmar que o resultado seria outro, mas é pouco provável que a equipa apresentasse o mesmo desnorte defensivo que mostrou na primeira metade. Sobretudo porque Iker é muito mais do que um homem entre dois postes. Se o FC Porto tinha chegado ao 12º jogo oficial da época com apenas seis golos sofridos, não o devia apenas às luvas do guardião espanhol mas também à sua capacidade em liderar e organizar a defesa. Dificilmente a opção técnica de trocar Iker por Sá é uma passagem de testemunho ou um capricho pessoal de Sérgio Conceição, que já provou ser mais inteligente do que o jogo de ontem demonstrou. E a ter havido um choque entre os dois pesos pesados do balneário, Casillas e Conceição, só existe uma solução possível: resolvê-lo. O quanto antes e para bem do FC Porto.

Meio-campo inoperante: O jogo de ontem ficou inevitavelmente marcado pelo arranque em falso, que enervou toda a equipa, mas o golo do empate - caído do céu - foi uma oportunidade desaproveitada para começar de novo. A somar a uma defesa já tremida, o meio-campo dos primeiros 60 minutos foi incapaz de colar sectores e ganhar segundas bolas, com Danilo a tentar apagar os incêndios que deflagravam à sua volta com apenas um balde de água e Sérgio Oliveira sem andamento nem poder de choque para ganhar duelos aéreos. Já Herrera demorou 45 minutos a decidir se queria ser um 8 ou um 9,5. Acresce dizer que os alemães também foram tacticamente superiores e pareciam conhecer (bem) melhor o FC Porto do que o FC Porto a eles.

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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O princípio do fim


E o primeiro muro caiu. O Benfica viu esta sexta-feira rejeitada a Providência Cautelar interposta ao FC Porto, para impedir o rival de divulgar os emails que têm exposto o maior e mais complexo esquema de corrupção alguma vez montado no futebol luso. Em termos práticos, o impacto desta vitória é quase residual, embora permita ao FC Porto continuar a desmontar publicamente esta sórdida teia de favores.

Mas esta decisão é muito mais relevante do que aparenta. O Benfica perdeu "em casa" pela primeira vez em muito tempo, num campo que aprendeu a controlar e a inclinar a seu favor. Basta recordar o freio que travou o processo Apito Dourado em Leiria ou, mais recentemente, a placagem que o juiz Jorge Marques Antunes fez às buscas domiciliárias ao Benfica, que podiam ser determinantes para o processo.

Ao apresentar a providência cautelar, o Benfica admitiu a autenticidade dos emails. Arriscou, cedeu uma verdade para ganhar mais tempo para construir uma mentira à volta da qual se vai tentar defender. Tentou matar o mediatismo do caso, precisamente a única coisa que o tem feito sobreviver à inércia da Justiça e à impostura de parte da imprensa. Deu-se mal.

Segundo o acórdão, transcrito pelo Expresso, o Benfica alegou "concorrência desleal” por parte do FC Porto. Um argumento tão idiota que até Homer Simpson nos conseguia defender com sucesso em tribunal. O Benfica e o FC Porto são clubes e os adeptos são o seu património imaterial. Contudo, este raciocínio mostra que na óptica do Benfica os clubes são empresas e os seu adeptos mercadoria. Uma bela demonstração de apreço por quem os sustenta.

Esta ataque de papel configura também outra coisa: que o Departamento Jurídico do Benfica não tem um plano. E não tem um plano porque não sabe para onde se virar. E não sabe para onde se virar porque isso é o que acontece a quem se mete por caminhos apertados.

Em última análise, esta é uma decisão natural e pouco surpreendente. O BenficaGate é muito mais do que um escândalo, é um crime nacional em andamento, um episódio de interesse público que merece denúncia, escrutínio e consequências legais.

O parecer do Tribunal Cível do Porto, tomado por um juiz que teve o condão e a transparência de se assumir portista atempadamente, não é uma vitória do FC Porto sobre o Benfica na Justiça portuguesa. É a primeira vitória do futebol sobre o nacional-benfiquismo.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

A soma de todas as partes

Não é novidade para ninguém que o Benfica se desdobra em várias frentes para atingir os seus objectivos. A face mais visível da inseminação encarnada às instâncias nacionais é, sem dúvida, a comunicação social e o bailado compulsivo que alguns jornais fazem para impingir, promover e levantar o nacional-benfiquismo. Atente-se nas capas d'Abola e do Record nos últirmos dias.


No dia 6 de outubro, poucos dias após novo percalço do Benfica, na Madeira, a propaganda do regime mandou Abola regar o molhado. O jornal fez manchete com um "pacto de união" encomenadado, redundante, vazio e, no mínimo, exigível num clube que tem um tetracampeonato a defender. Se o plantel do Benfica não quisesse dar a volta à situação que atravessa -- onde venceu apenas dois dos últios oito encontros -- é que seria notícia. Ainda assim, Abola achou que um comportamento normal merecia uma atenção especial.

Especial foi também o destaque dado, um dia depois e pela mesma publicação, a Gabigol, um jogador que tarda em justificar a sua alcunha e muito menos a sua arrogância. José Marinho avisou que os adeptos ainda não perceberam muito bem o "impacto que Gabigol pode ter no futebol português". Mas, até agora, só mesmo Jardel sentiu o impacto de Gabriel Barbosa.

Nada bate, contudo, a mega entrevista a Douglas feita pelo Record. Douglas é um dos reforços desta temporada que ainda não somou qualquer minuto. Chegou rotulado de promessa e com carimbo da melhor escola de formação do mundo. Mas nunca jogou. André Almeida, um nome que não é consensual no Benfica nem após o "chouriço" contra o Portimonense, é suficiente para sentar o brasileiro. No meio disto tudo, o Record encontrou sumo para fazer uma entrevista a um jogador até agora praticamente invisível no Benfica e no futebol português.

Tudo isto é premeditado e faz parte de uma estratégia de branqueamento da mediocridade interna, com a conivência de agentes que se vendem sob a chancela da independência e imparcialidade. Tudo isto é grave porque produz e legitima verdades alternativas, assiste o Estado Lampiânico, engorda o seu fundamentalismo, inebria a opinião pública e, ao mesmo tempo, camufla casos de polícia onde a culpa morre consecutivamente solteira.

Tudo isto serve um propósito, o de enaltecimento do Benfica à base da diabolização do resto. A colagem de um código moral sobre um sistema arbitrário. A imagem que se segue comprova que o estratagema tem resultado. Ouve-se muitas vezes que "o Benfica são os adeptos". Qualquer instituição é o espelho de quem a compõe. É por isso que a desonestidade intelectual imanente do Benfica é também reflexo da cultura dos respectivos apoiantes.


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Sporting 0 x 0 FC Porto | Trivelas & Roscas



Há coisas que só acontecem uma vez na vida. Ganhar o Euromilhões, ler 'Os Maias', ficar enrolado no pára-quedas ou assistir ao Sporting x Porto sozinho no meio de uma bancada pejada de felinos famintos e ávidos do "sangue" que alimenta a rivalidade, prontos a fuzilar-me os tímpanos com uma carga pujante de mamas e chupas quando as redes de Casillas abanassem. Tenho um gato, por isso sei o que é ser mordido. Estava preparado para isso. Nem tinha sequer a estatística do meu lado. Afinal, o FC Porto ia defrontar tão somente o adversário mais forte desta época, numa casa onde raramente triunfa. Mas movia-me a crença que Sérgio Conceição me injectou. A mim e aos outros três mil tripeiros, ora semeados no pano verde, ora congregados naquele bloco azul maciço, a personificação de um mar que nunca se cansou de ser bravo. No fim de contas, saímos todos pela mesma porta por onde entrámos. Com o mesmo respeito e a mesma distância pontual e emocional. Deste meu convívio saudável com sportinguistas anónimos sobram duas certezas: a de que o FC Porto é, para já, a equipa mais forte do campeonato. Mas também a de que este leão tem garras para açambarcar o título.



Primeira parte:
45' minutos de domínio claro, grande intensidade e fulgor ofensivo que só não resultaram em golos porque faltou acerto na conclusão. Na retina fica um lance de Herrera, que desperdiçou um contra-ataque auspicioso com um remate para o boné. Foi a segunda pior decisão do ano, só batida pelo momento em que Pedro Passos Coelho decidiu recomendar Teresa Leal Coelho para a corrida à Câmara de Lisboa. Quando não eram as ideias de jerico a travar-nos, São Patrício expurgava os males do Sporting. O guardião leonino continua a ser um empecilho maior para o FC Porto do que Isaltino Morais para a política portuguesa. O meio-campo portista ocupou bem o buraco oferecido pelo pelo Sporting e tanto Aboubakar como Marega estiveram muito activos enquanto as pernas não cederam e o motor central não agarrou.

Brahimi: O dínamo da equipa. O argelino esteve tão endiabrado que acho que Sérgio Conceição lhe impingiu a ideia de que o clássico contava para a Liga dos Campeões. Zoeira. Brahimi tem estado numa forma soberba e já não é de agora. Faltava-lhe presença nos grandes jogos e parece que o freestyler portista venceu finalmente essa malapata. Bem acompanhado por Alex Telles, Brahimi forçou Piccini a cingir-se à defesa e obrigou Gelson a vir mais vezes atrás apagar fogos. Não se pode dizer que a extrema-esquerda portista obteve um excelente resultado, mas pelo menos fez muito melhor figura do que o PCP no domingo.

Tríade Felipe/Marcano/Danilo: O ataque do Sporting andou desaparecido neste triângulo das Bermudas durante a primeira metade. O comité central do FC Porto desnorteou a bússola do adversário e ganhou praticamente todos os duelos directos, a ponto de Iker Casillas não ter feito uma única defesa durante esse período. O brasileiro esteve menos ébrio e mais atento, o espanhol manteve o bom nível a que nos habituou e o português fez mais cortes do que a coligação PSD/CDS durante os anos do resgate. Na segunda parte, acusaram o cansaço e o ascendente do Sporting, mas nem assim permitiram grandes veleidades. Imperiais.



Timing das substituições:
Tal como esta crónica, chegaram demasiado tarde. E no caso de Otávio nem devia ter acontecido. Ao ver a equipa decair na segunda metade, Sérgio Conceição demorou a impedir que o jogo ficasse repartido. Tentou depois reverter a falta de ímpeto do miolo com o nervo de Otávio, quando o jogo pedia Óliver e a sua matemática capacidade de temporização. No banco, por demasiado tempo, ficou também Corona, que bem podia ter sido mais bem aproveitado para desbaratar um já arruínado Jonathan Silva. No entanto, entendo a cautela, sobretudo tendo em conta que, a partir de certa altura, segurar o empate tornou-se bem mais prioritário do que procurar a vitória.

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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

AS Mónaco 0 x 3 FC Porto | Trivelas & Roscas


Agora que a excitação de ontem já acalmou um bocado, vamos por as coisas em termos simples. O jogo no Principado foi a melhor exibição do FC Porto esta época, depois de a recepção ao Portimonense ter sido a melhor exibição do FC Porto esta época. Isto só pode significar uma de duas coisas: ou a equipa está a crescer ou eu ando a ver futebol de pernas para o ar. Embora menos provável, esta segunda hipótese é mais plausível do que aparenta. É que a inclusão de Sérgio Oliveira no onze - até ontem um jogador com zero minutos de competição, pouco óleo, sem pegada histórica no clube e uma expectativa reduzida de almejar uma carreira superior a Josué - foi provavelmente a aposta mais arriscada que a capital europeia dos casinos alguma vez viu. Eu, que tenho a mania que percebo alguma coisa de fruta, estava assumidamente cético. E redondamente errado. Sérgio Conceição não foi ao Louis II inventar, mas reinventar o pouco que tem, com as peças que ele conhece melhor do que ninguém e que sobrevivem a qualquer preconceito de bancada. Conceição prometeu e cumpriu. Pelo meio, deu ainda uma lição a quem ainda por vezes acredita que o futebol é uma ciência exacta. Como eu.



Andy Marega/Dwight Aboubakar: Hey, eu sei. Acho a lucidez importante e não pretendo de forma alguma comparar um dos duos jurássicos da história do futebol a esta startup promissora que Marega e Aboubakar estão a formar. Mas esta dupla de avançados, que foi levedando no FC Porto sem darmos por isso, está a dar cartas. E a sua química lembra a de Andy Cole e Dwight Yorke, o dueto sinfónico do Manchester United na década de 90. Parece-me evidente que Vincent e Moussa jogam muito melhor juntos do que isoladamente. Esse holismo ficou patente na partida frente ao Besiktas, onde o todo não foi a soma de todas as partes. Com Marega, Aboubakar ganha mais espaço para se movimentar. Com Aboubakar, Marega tem menos responsabilidade para finalizar e torna-se num jogador mais objetivo. O terceiro golo do FC Porto exemplifica o melhor que podemos esperar do maliano - processos simples e directos. Não é preciso ser-se um predestinado da bola para fazer um passe daqueles, mas é necessário possuir uma qualidade ainda mais invulgar no mundo do futebol: humildade. A humildade de saber entender o nosso papel e de resistir à tentação de absorver o protagonismo. Enquanto tivermos uma dupla que se complementa desta forma, só podemos ter motivos para estar otimistas.

Sérgio Conceição: Por várias razões. Em primeiro lugar, soube aprender com os erros da primeira jornada e percebeu que um meio-campo com dois elementos é insuficiente para equipas com caparro europeu. Em segundo, soube ler onde estava o calcanhar de Aquiles deste Mónaco de Leonardo Jardim e montar uma estratégia onde, alienando a posse, manteve o controlo durante praticamente os 90 minutos. Em terceiro, além dos milhões, dos três pontos e da tonelada de prestígio, o FC Porto trouxe de França um “reforço”: Sérgio Oliveira. E por último, Conceição deixou definitivamente uma mensagem ao plantel. Todos contam e todos jogam. Em apenas 9 partidas, sem taças, todos os jogadores (de campo) do plantel já somaram minutos. Haverá maior demonstração de confiança no grupo?

Herrera: A nação portista dá primazia a importantes parceiros, tais como Brahimi, Ricardo, Felipe, Marcano, Alex Telles, Oliver, Aboubakar, Casillas, Danilo, Marega, Layún, Corona, Diogo Dalot, José Sá e outros parceiros não menos importantes nas vitórias do FC Porto. Há um pouco novo chefe de Estado angolano, João Lourenço, em todos nós, quando se trata de esquecer Herrera. Mesmo quando joga bem. O caso de ontem, com o mexicano a trabalhar imenso, sobretudo a nível defensivo, tendo sido crucial para engolir o miolo francês, alimentado pelo sempre genial João Moutinho. Foi também o pêndulo da equipa em grande parte das transições rápidas, aplicando uma vez mais o tal futebol pragmático que se vislumbrou contra o Portimonense e que se costuma ver nos jogos da seleção mexicana. É uma versão aprimorada de um jogador que tem muito mais sumo do que aquilo que tem dado. Talvez tenha encontrado em Sérgio Conceição o espremedor certo.


Não há, e isso por si é extraordinário. Podia pegar pela tendência público-privada deste FC Porto em abrir auto-estradas no centro quando se entusiasma em demasia no ataque, mas a verdade é que, ontem, o sector recuado esteve quase sempre imperial - com o grande contributo de Sérgio Oliveira nesse particular. Em vésperas de um clássico complicadíssimo, Mónaco deixa-nos a certeza de que o horizonte é mais azul do que a água nas praias de Monte Carlo.

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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Basta!

Basta de Fernando Gomes, o subserviente líder da FPF, cujas SMS foram ilegalmente vigiadas e usurpadas pelo Benfica para benefício próprio, desvirtuando com isso a verdade desportiva nos últimos quatro anos. Fernando Gomes, que sempre se furtou a abordar esse assunto, quebrou hoje um longo e perturbador silêncio. Um silêncio que resistiu estóico à denúncia do esquema de corrupção promovido pelo Benfica, à revelação dos emails que emporcalharam o futebol em Portugal, ao segundo homicídio cometido por uma claque ilegal e ao apoio ilícito de um clube a essa claque. Foi necessário o Benfica entrar numa crise de resultados para Fernando Gomes falar. A credibilidade da FPF, em particular a do seu presidente, entraram num coma irreversível onde a melhor opção é deixar morrer.

Basta de Nuno Cárcomo, o lobo com pele de cordeiro que parece filho de um casamento entre a hipocrisia e o descaramento. O presidente da Associação de Futebol de Lisboa, que quer “centralizar o poder na capital”, deixou a toca para defender as palavras de Fernando Gomes, com um discurso cínico, imprudente e vago, característico de um operacional à paisana do Estado Lampiânico. Nuno Cárcomo Lobo diz que “acompanha, desde há muito, as preocupações agora registadas”, mas não mencionou que o estado climatérico tempestuoso do futebol nacional é também da sua responsabilidade. E do seu centralismo bacoco, anti-portismo primário e racismo indigente.

Basta dos NN. Vultos sem nome e sem rosto responsáveis pelos únicos dois homicídios por ódio clubístico no país. Marco Ficcini e Rui Mendes morreram às mãos da claque do Benfica. Fernando Madureira escapou a uma emboscada com machados e cabos elétricos. Filipe Santos sofreu um grave traumatismo craniano que o deixou à beira da morte. Há um bando de homicidas à solta que rubrica os crimes em nome do Benfica e as autoridades continuam a assobiar para o lado.

Basta da justiça desportiva. E da sua inércia inerente quando o arguido é vermelho. Já passaram três meses desde que o BenficaGate começou a ser investigado pela Polícia Judiciária, a que se somam mais umas semanas desde que o polvo foi destapado e despido pelo FC Porto. A única coisa que mudou desde então foi a ruborização assumida do sector da arbitragem em Portugal e a consciencialização internacional em relação ao problema. Lá fora, já perceberam de que calibre é feito o Benfica. Cá dentro, já todos tínhamos percebido. Mas nem a Liga nem a FPF começaram a inquirir quem quer que seja.

Basta do Estado Lampiânico. É do fundamentalismo insensato, desregrado e anti-lógico que grassa a verdadeira ameaça para o ambiente. É da segmentação entre anjos e demónios que os Rumiyahs desportivos alimentam desde o Apito Dourado e da consequente diferença de tratamentos que se vê agora no BenficaGate que espreita o perigo para a imagem do futebol português. É de ciclopes como José Marinho ou paquidermes como Pedro Guerra, funcionários ou ex-funcionários do Benfica, que vem o cheiro que afugenta os cães. É dos crimes verbais de parasitas como José Manuel Antunes ou Pragal Colaço que resulta a chuva ácida que encharca o pano. A canonização cega do Benfica é o objectivo de muita gente com poder e responsabilidade, embriagada em líquido amniótico encarnado, que só vive e respira bem se o Benfica ganhar, seja a que preço for.

Basta da imprensa. Que não escrutina, não questiona, não investiga, que não abre a gaveta proibida. Por mero sabujismo, por coacção ou por falta de distanciamento. O quarto poder está enclausurado no terceiro anel. E ainda há quem fique ofendido por ser apanhado em flagrante.

Basta. Antes que seja tarde demais.



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Rio Ave 1 x 2 FC Porto | Trivelas & Roscas



Passaram sensivelmente 100 dias desde que Sérgio Conceição pôs o azul no branco com Pinto da Costa e decidiu sair da zona de conforto francesa para ousar uma aventura no cemitério de treinadores da Invicta. Se em junho recebesse uma visita do Drax de setembro para me dizer que íamos chegar à sétima jornada com o pleno de vitórias, 14 golos marcados e apenas um sofrido, pediria encarecidamente ao meu “eu” do futuro que abandonasse o vinho, pois nem nas minhas projeções mais quiméricas estava à espera de números tão requintados. E, acreditem, eu sonho todos os anos com um cenário onde o FC Porto conquista a Liga dos Campeões com um 5-4 ao Real Madrid, depois de estar a perder 0-4 ao intervalo. Mas a verdade é que cá estamos, em setembro, na liderança, com o máximo possível de pontos conquistados no campeonato, com a melhor defesa da Europa, o segundo melhor ataque em Portugal e já com três cabeças de borrego à cintura, numa prova inequívoca de que estamos vivos e prontos para não dar descanso a ninguém, apesar de termos um plantel menos talentoso e completo do que os rivais. O que vou dizer a seguir pode parecer uma perspetiva resultadista, e é, mas define aquilo que pode ser a chave da matriz ganhadora do FC Porto em muitas das deslocações mais perigosas desta época: o Rio Ave dominou, mas o FC Porto materializou. No final, o que contam são elas lá dentro.



Danilo Pereira: Voltou. Depois de um arranque de temporada intermitente, o trinco que mais me enche as medidas desde o fim do mandato do Polvo regressou à velha forma fazendo uma exibição absolutamente soberba, na forma como contribuiu para suster a linha média do Rio Ave o mais atrás possível, impedindo a construção do adversário em toda (toda!) a largura. Além do golo, o comendador foi essencial para que a estratégia de “jogar sem bola” montada por Sérgio Conceição, dando amplitude ao jogo e assegurando que os dois homens do meio-campo vila-condense produzissem o mínimo possível. Garanto-vos que não sou do clã Carreira, embora isto pareça plágio, uma vez que esta crónica foi escrita depois de ter lido as do Tribunal do Dragão, do Porto Universal, do Porta 19, etc. Qualquer semelhança com os demais é pura coincidência. Ou então é simplesmente a consequência natural de todos termos visto o mesmo jogo.

Brahimi: Começa a ser um padrão inegável. Quando o FC Porto actua em campos curtos, Brahimi destaca-se. Com mais ou menos objectividade, empurra a equipa para a frente e, mais importante, acaba por injectar na equipa uma confiança decisiva nos momentos cruciais. Exemplo disso foi a convicção que emprestou à cavalgada meio atabalhoada de Marega, o que fez com que o maliano não desistisse do lance e aparecesse para o finalizar. Jorge Bertocchini, autor do Porta 19, tem uma tirada sublime sobre isto, que recupero aqui para ilustrar melhor aquilo que quero dizer. Disse o Jorge, no rescaldo do FC Porto x Besiktas, que Brahimi “espetou pregos numa parede sem que ninguém pendurasse um quadro que se visse”. Uma expressão que resume na perfeição o papel actual do argelino do argelino no FC Porto. Está menos artista e mais curador. Só precisa que um dos matulões do ataque o ajude a pendurar os quadros. Foi o que fez Marega. Assim se conquistam três pontos.

Marega: “Guarda o que não presta e terás o que te faz falta”. Isto foi o que meu avô me respondeu um dia, quando lhe perguntei porque raio é que estava a apanhar um parafuso torcido e enferrujado do chão. O velhote era um hoarder de primeira a quem nós, antes dos anglicismos tomarem conta da língua portuguesa, apelidávamos carinhosamente de “sucateiro”. Sérgio Conceição podia ter abdicado de Marega. Mesmo depois do pequeno episódio do início de época. Era o mais fácil. Mas ainda assim, o treinador portista, contra a corrente dominante de pensamento na qual me incluo, guardou o parafuso. Marega é o principal retrato de um plantel recauchutado. Não é que o maliano seja, ou possa vir a ser, o principal alicerce em que vão assentar todos os sucessos que o FC Porto pode acumular esta época. Acredito até que, com a evolução natural da temporada, a sua preponderância se possa desvanecer um pouco, em função do que Soares pode dar à equipa. No entanto, tem dado jeito, muito jeito. É desonesto fechar a porta a essa evidência. O Moussa que ainda nos embaraça com recepções piores do que uma residencial na Cova da Moura é o mesmo Moussa que por vezes leva tudo à frente -- e a equipa em bloco, às costas -- como se estivesse a desembarcar de carabina na mão na Normandia. Por isso, não há margem para crítica. Quem dá o que tem, a mais não é obrigado. Talvez seja melhor direccionar a crítica a quem contribuiu para que o actual barómetro de qualidade do FC Porto seja Marega e não um Falcão ou um Jardel. Puxando a memória atrás, tenho a certeza que o meu avô arranjou finalidade para aquele parafuso, tal como Sérgio Conceição o fez para as características do maliano. Não posso pedir mais.

Borrego no saco: A deslocação de um ombro, de um joelho ou de um pulso podem ser chatas, mas nenhuma é tão incómoda como a deslocação ao Estádio dos Arcos para o FC Porto. Já são nove pontos ganhos em campos extremamente difíceis. Um dado que pode dar um impulso extra na segunda metade do campeonato, onde, neste capítulo, o calendário é bem mais acessível.



Otávio: Houve uma fase em que cheguei a pensar que Otávio estava em sub-rendimento. Agora, tendo mais a considerar que o início da época passada é que foi um pico anormal na forma do jogador brasileiro. Otávio parece desligado dos processos da equipa. Amorfo e desconcentrado, continua a não compreender o seu papel em campo, mesmo quando o mesmo é claro. Não fosse Sérgio Conceição o treinador que lhe deu o banho mais eficaz de cultura táctica quando aterrou em Portugal, diria que o problema estava na orientação. Mas não está. A rever.

Meio-campo sem Óliver: Apostar numa estratégia sem Óliver é compreensível. Herrera dá (e deu) muita coisa ao jogo que o espanhol não oferece, mas sem Óliver, o FC Porto foi controlado no miolo, praticamente do início ao fim, onde só a transcendência de Danilo evitou maiores desequilíbrios. Sérgio arriscou e saiu-se bem. Esta foi também uma mensagem de confiança ao mexicano, que, com o nervo no lugar, pode ser mais solução do que problema. Mas era importante que a SAD priorizasse desde já um ataque preciso e contundente ao mercado de inverno que trouxesse uma alternativa credível ao espanhol. Porque Oliver não é apenas o nosso elemento mais criativo, é também o único.

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