Vitória insípida. A possibilidade de termos perdido um, possivelmente dois, dos jogadores mais influentes da equipa por tempo indeterminado trava o sabor do regresso às meias-finais da prova raínha. É certo que a quebra física é consequência natural da escassez de recursos. Neste micro FC Porto, todos jogam e (quase) todos jogam muito. Mas não posso deixar de notar também uma espécie de jogo de forças cósmicas que me perturba mais do que seria desejável. Se ganhamos um Herrera, perdemos um Óliver. Se ganhamos um Sá, perdemos um Casillas. Se reabilitamos um quase dispensado Layún, lesiona-se um Marega a aquecer. Se é frustrante para mim, imagino para Sérgio Conceição, que até ao final da temporada vai ter de racionar melhor do que uma ONG no Ruanda. E estando em todas as provas, não sei se temos bateria que chegue para a maratona.
Maxi: Deve andar a jogar infiltrado no Campeonato Nacional de Séniores. Só assim se explica a falta de ritmo que não acusou. Incansável em toda a linha, estendeu-se bem no terreno e mostrou uma percentagem de acerto simpática nos cruzamentos, o seu ponto fraco, mantendo a habitual solidez a defender. Tenho de respeitá-lo. Maxi faz por demonstrar que não veio para o FC Porto gozar a reforma antecipada depois de ganhar quase tudo no rival. Fosse eu assalariado do Benfica e o único esforço que faria era para não me cuspir todo nas palestras de Rui Vitória.
Layún: Não foi o melhor jogo do mexicano com a camisola portista, mas voltou a mostrar que pode ser o joker que a equipa procura. Joga em qualquer posição, fazendo prevalecer a sua inteligência na leitura do jogo sobre a anarquia táctica em que mergulha por levar a polivalência ao extremo. Sérgio Conceição pode fazer com ele aquilo que Jorge Jesus está a fazer com Bryan Ruiz. Em 2017/18, Miguel Layún já foi titular, esteve para sair, desapareceu das opções, regressou, dizia-se que era preguiçoso, mas no fim de contas é um jogador que "dá garantias" a Conceição. E ainda bem.
Herrera: "Patinho feio, o caralho. O meu nome agora é Zahovic", disse o mexicano ao espelho algures em setembro de 2017. Está feito um senhor jogador. É o catalisador da máquina. Começa finalmente a dar razão aos que nunca deixaram de acreditar nele, a silenciar os que sempre o criticaram e a agradar ambas as partes. Temia que as mini férias lhe fizessem mal, porque a taxa de rendimento de Herrera está indexada ao índice de confiança. Mas a Herreronomia está a tornar-se uma ciência exacta. Yay.
Hernâni: Nope. Não serve. Há mínimos olímpicos que não consegue cumprir. Dizer que Hernâni é alternativa a Corona é dizer que soja é alternativa à carne. Na falta de reforços, Galeno, ou até André Pereira, podem preencher a vaga do ex-vimaranense sem prejuízo para a qualidade global da equipa.
Felipe: O FC Porto voltou a sofrer um golo (e a sofrer em geral) muito por culpa do brasileiro. Tem o descomplicómetro avariado e mesmo quando não tem a bola nos pés parece andar a gravitar à volta de outros assuntos da vida, como o preço do fubá ou a extinção em massa das chinchilas da Índia. Acorda, rapaz.
Mercado: "Se tivesse a certeza que não havia lesões e castigos, mas não temos. Com jogos de três em três dias é preciso muito dos jogadores". Strike three. A mensagem do treinador à direcção é inequívoca. Conceição quer e precisa de mais mão-de-obra. Da outra parte, resta fazer um pequeno esforço para não deitar todo o sacrifício do grupo ao charco. Não podemos é estar à espera que os azares aconteçam - ou fazer fé para que não aconteçam. Porque ninguém pretende passar o final de Maio a lamentar uma política de contratações reactiva que devia ter sido proactiva.

