terça-feira, 10 de outubro de 2017

A soma de todas as partes

Não é novidade para ninguém que o Benfica se desdobra em várias frentes para atingir os seus objectivos. A face mais visível da inseminação encarnada às instâncias nacionais é, sem dúvida, a comunicação social e o bailado compulsivo que alguns jornais fazem para impingir, promover e levantar o nacional-benfiquismo. Atente-se nas capas d'Abola e do Record nos últirmos dias.


No dia 6 de outubro, poucos dias após novo percalço do Benfica, na Madeira, a propaganda do regime mandou Abola regar o molhado. O jornal fez manchete com um "pacto de união" encomenadado, redundante, vazio e, no mínimo, exigível num clube que tem um tetracampeonato a defender. Se o plantel do Benfica não quisesse dar a volta à situação que atravessa -- onde venceu apenas dois dos últios oito encontros -- é que seria notícia. Ainda assim, Abola achou que um comportamento normal merecia uma atenção especial.

Especial foi também o destaque dado, um dia depois e pela mesma publicação, a Gabigol, um jogador que tarda em justificar a sua alcunha e muito menos a sua arrogância. José Marinho avisou que os adeptos ainda não perceberam muito bem o "impacto que Gabigol pode ter no futebol português". Mas, até agora, só mesmo Jardel sentiu o impacto de Gabriel Barbosa.

Nada bate, contudo, a mega entrevista a Douglas feita pelo Record. Douglas é um dos reforços desta temporada que ainda não somou qualquer minuto. Chegou rotulado de promessa e com carimbo da melhor escola de formação do mundo. Mas nunca jogou. André Almeida, um nome que não é consensual no Benfica nem após o "chouriço" contra o Portimonense, é suficiente para sentar o brasileiro. No meio disto tudo, o Record encontrou sumo para fazer uma entrevista a um jogador até agora praticamente invisível no Benfica e no futebol português.

Tudo isto é premeditado e faz parte de uma estratégia de branqueamento da mediocridade interna, com a conivência de agentes que se vendem sob a chancela da independência e imparcialidade. Tudo isto é grave porque produz e legitima verdades alternativas, assiste o Estado Lampiânico, engorda o seu fundamentalismo, inebria a opinião pública e, ao mesmo tempo, camufla casos de polícia onde a culpa morre consecutivamente solteira.

Tudo isto serve um propósito, o de enaltecimento do Benfica à base da diabolização do resto. A colagem de um código moral sobre um sistema arbitrário. A imagem que se segue comprova que o estratagema tem resultado. Ouve-se muitas vezes que "o Benfica são os adeptos". Qualquer instituição é o espelho de quem a compõe. É por isso que a desonestidade intelectual imanente do Benfica é também reflexo da cultura dos respectivos apoiantes.


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Sporting 0 x 0 FC Porto | Trivelas & Roscas



Há coisas que só acontecem uma vez na vida. Ganhar o Euromilhões, ler 'Os Maias', ficar enrolado no pára-quedas ou assistir ao Sporting x Porto sozinho no meio de uma bancada pejada de felinos famintos e ávidos do "sangue" que alimenta a rivalidade, prontos a fuzilar-me os tímpanos com uma carga pujante de mamas e chupas quando as redes de Casillas abanassem. Tenho um gato, por isso sei o que é ser mordido. Estava preparado para isso. Nem tinha sequer a estatística do meu lado. Afinal, o FC Porto ia defrontar tão somente o adversário mais forte desta época, numa casa onde raramente triunfa. Mas movia-me a crença que Sérgio Conceição me injectou. A mim e aos outros três mil tripeiros, ora semeados no pano verde, ora congregados naquele bloco azul maciço, a personificação de um mar que nunca se cansou de ser bravo. No fim de contas, saímos todos pela mesma porta por onde entrámos. Com o mesmo respeito e a mesma distância pontual e emocional. Deste meu convívio saudável com sportinguistas anónimos sobram duas certezas: a de que o FC Porto é, para já, a equipa mais forte do campeonato. Mas também a de que este leão tem garras para açambarcar o título.



Primeira parte:
45' minutos de domínio claro, grande intensidade e fulgor ofensivo que só não resultaram em golos porque faltou acerto na conclusão. Na retina fica um lance de Herrera, que desperdiçou um contra-ataque auspicioso com um remate para o boné. Foi a segunda pior decisão do ano, só batida pelo momento em que Pedro Passos Coelho decidiu recomendar Teresa Leal Coelho para a corrida à Câmara de Lisboa. Quando não eram as ideias de jerico a travar-nos, São Patrício expurgava os males do Sporting. O guardião leonino continua a ser um empecilho maior para o FC Porto do que Isaltino Morais para a política portuguesa. O meio-campo portista ocupou bem o buraco oferecido pelo pelo Sporting e tanto Aboubakar como Marega estiveram muito activos enquanto as pernas não cederam e o motor central não agarrou.

Brahimi: O dínamo da equipa. O argelino esteve tão endiabrado que acho que Sérgio Conceição lhe impingiu a ideia de que o clássico contava para a Liga dos Campeões. Zoeira. Brahimi tem estado numa forma soberba e já não é de agora. Faltava-lhe presença nos grandes jogos e parece que o freestyler portista venceu finalmente essa malapata. Bem acompanhado por Alex Telles, Brahimi forçou Piccini a cingir-se à defesa e obrigou Gelson a vir mais vezes atrás apagar fogos. Não se pode dizer que a extrema-esquerda portista obteve um excelente resultado, mas pelo menos fez muito melhor figura do que o PCP no domingo.

Tríade Felipe/Marcano/Danilo: O ataque do Sporting andou desaparecido neste triângulo das Bermudas durante a primeira metade. O comité central do FC Porto desnorteou a bússola do adversário e ganhou praticamente todos os duelos directos, a ponto de Iker Casillas não ter feito uma única defesa durante esse período. O brasileiro esteve menos ébrio e mais atento, o espanhol manteve o bom nível a que nos habituou e o português fez mais cortes do que a coligação PSD/CDS durante os anos do resgate. Na segunda parte, acusaram o cansaço e o ascendente do Sporting, mas nem assim permitiram grandes veleidades. Imperiais.



Timing das substituições:
Tal como esta crónica, chegaram demasiado tarde. E no caso de Otávio nem devia ter acontecido. Ao ver a equipa decair na segunda metade, Sérgio Conceição demorou a impedir que o jogo ficasse repartido. Tentou depois reverter a falta de ímpeto do miolo com o nervo de Otávio, quando o jogo pedia Óliver e a sua matemática capacidade de temporização. No banco, por demasiado tempo, ficou também Corona, que bem podia ter sido mais bem aproveitado para desbaratar um já arruínado Jonathan Silva. No entanto, entendo a cautela, sobretudo tendo em conta que, a partir de certa altura, segurar o empate tornou-se bem mais prioritário do que procurar a vitória.

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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

AS Mónaco 0 x 3 FC Porto | Trivelas & Roscas


Agora que a excitação de ontem já acalmou um bocado, vamos por as coisas em termos simples. O jogo no Principado foi a melhor exibição do FC Porto esta época, depois de a recepção ao Portimonense ter sido a melhor exibição do FC Porto esta época. Isto só pode significar uma de duas coisas: ou a equipa está a crescer ou eu ando a ver futebol de pernas para o ar. Embora menos provável, esta segunda hipótese é mais plausível do que aparenta. É que a inclusão de Sérgio Oliveira no onze - até ontem um jogador com zero minutos de competição, pouco óleo, sem pegada histórica no clube e uma expectativa reduzida de almejar uma carreira superior a Josué - foi provavelmente a aposta mais arriscada que a capital europeia dos casinos alguma vez viu. Eu, que tenho a mania que percebo alguma coisa de fruta, estava assumidamente cético. E redondamente errado. Sérgio Conceição não foi ao Louis II inventar, mas reinventar o pouco que tem, com as peças que ele conhece melhor do que ninguém e que sobrevivem a qualquer preconceito de bancada. Conceição prometeu e cumpriu. Pelo meio, deu ainda uma lição a quem ainda por vezes acredita que o futebol é uma ciência exacta. Como eu.



Andy Marega/Dwight Aboubakar: Hey, eu sei. Acho a lucidez importante e não pretendo de forma alguma comparar um dos duos jurássicos da história do futebol a esta startup promissora que Marega e Aboubakar estão a formar. Mas esta dupla de avançados, que foi levedando no FC Porto sem darmos por isso, está a dar cartas. E a sua química lembra a de Andy Cole e Dwight Yorke, o dueto sinfónico do Manchester United na década de 90. Parece-me evidente que Vincent e Moussa jogam muito melhor juntos do que isoladamente. Esse holismo ficou patente na partida frente ao Besiktas, onde o todo não foi a soma de todas as partes. Com Marega, Aboubakar ganha mais espaço para se movimentar. Com Aboubakar, Marega tem menos responsabilidade para finalizar e torna-se num jogador mais objetivo. O terceiro golo do FC Porto exemplifica o melhor que podemos esperar do maliano - processos simples e directos. Não é preciso ser-se um predestinado da bola para fazer um passe daqueles, mas é necessário possuir uma qualidade ainda mais invulgar no mundo do futebol: humildade. A humildade de saber entender o nosso papel e de resistir à tentação de absorver o protagonismo. Enquanto tivermos uma dupla que se complementa desta forma, só podemos ter motivos para estar otimistas.

Sérgio Conceição: Por várias razões. Em primeiro lugar, soube aprender com os erros da primeira jornada e percebeu que um meio-campo com dois elementos é insuficiente para equipas com caparro europeu. Em segundo, soube ler onde estava o calcanhar de Aquiles deste Mónaco de Leonardo Jardim e montar uma estratégia onde, alienando a posse, manteve o controlo durante praticamente os 90 minutos. Em terceiro, além dos milhões, dos três pontos e da tonelada de prestígio, o FC Porto trouxe de França um “reforço”: Sérgio Oliveira. E por último, Conceição deixou definitivamente uma mensagem ao plantel. Todos contam e todos jogam. Em apenas 9 partidas, sem taças, todos os jogadores (de campo) do plantel já somaram minutos. Haverá maior demonstração de confiança no grupo?

Herrera: A nação portista dá primazia a importantes parceiros, tais como Brahimi, Ricardo, Felipe, Marcano, Alex Telles, Oliver, Aboubakar, Casillas, Danilo, Marega, Layún, Corona, Diogo Dalot, José Sá e outros parceiros não menos importantes nas vitórias do FC Porto. Há um pouco novo chefe de Estado angolano, João Lourenço, em todos nós, quando se trata de esquecer Herrera. Mesmo quando joga bem. O caso de ontem, com o mexicano a trabalhar imenso, sobretudo a nível defensivo, tendo sido crucial para engolir o miolo francês, alimentado pelo sempre genial João Moutinho. Foi também o pêndulo da equipa em grande parte das transições rápidas, aplicando uma vez mais o tal futebol pragmático que se vislumbrou contra o Portimonense e que se costuma ver nos jogos da seleção mexicana. É uma versão aprimorada de um jogador que tem muito mais sumo do que aquilo que tem dado. Talvez tenha encontrado em Sérgio Conceição o espremedor certo.


Não há, e isso por si é extraordinário. Podia pegar pela tendência público-privada deste FC Porto em abrir auto-estradas no centro quando se entusiasma em demasia no ataque, mas a verdade é que, ontem, o sector recuado esteve quase sempre imperial - com o grande contributo de Sérgio Oliveira nesse particular. Em vésperas de um clássico complicadíssimo, Mónaco deixa-nos a certeza de que o horizonte é mais azul do que a água nas praias de Monte Carlo.

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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Basta!

Basta de Fernando Gomes, o subserviente líder da FPF, cujas SMS foram ilegalmente vigiadas e usurpadas pelo Benfica para benefício próprio, desvirtuando com isso a verdade desportiva nos últimos quatro anos. Fernando Gomes, que sempre se furtou a abordar esse assunto, quebrou hoje um longo e perturbador silêncio. Um silêncio que resistiu estóico à denúncia do esquema de corrupção promovido pelo Benfica, à revelação dos emails que emporcalharam o futebol em Portugal, ao segundo homicídio cometido por uma claque ilegal e ao apoio ilícito de um clube a essa claque. Foi necessário o Benfica entrar numa crise de resultados para Fernando Gomes falar. A credibilidade da FPF, em particular a do seu presidente, entraram num coma irreversível onde a melhor opção é deixar morrer.

Basta de Nuno Cárcomo, o lobo com pele de cordeiro que parece filho de um casamento entre a hipocrisia e o descaramento. O presidente da Associação de Futebol de Lisboa, que quer “centralizar o poder na capital”, deixou a toca para defender as palavras de Fernando Gomes, com um discurso cínico, imprudente e vago, característico de um operacional à paisana do Estado Lampiânico. Nuno Cárcomo Lobo diz que “acompanha, desde há muito, as preocupações agora registadas”, mas não mencionou que o estado climatérico tempestuoso do futebol nacional é também da sua responsabilidade. E do seu centralismo bacoco, anti-portismo primário e racismo indigente.

Basta dos NN. Vultos sem nome e sem rosto responsáveis pelos únicos dois homicídios por ódio clubístico no país. Marco Ficcini e Rui Mendes morreram às mãos da claque do Benfica. Fernando Madureira escapou a uma emboscada com machados e cabos elétricos. Filipe Santos sofreu um grave traumatismo craniano que o deixou à beira da morte. Há um bando de homicidas à solta que rubrica os crimes em nome do Benfica e as autoridades continuam a assobiar para o lado.

Basta da justiça desportiva. E da sua inércia inerente quando o arguido é vermelho. Já passaram três meses desde que o BenficaGate começou a ser investigado pela Polícia Judiciária, a que se somam mais umas semanas desde que o polvo foi destapado e despido pelo FC Porto. A única coisa que mudou desde então foi a ruborização assumida do sector da arbitragem em Portugal e a consciencialização internacional em relação ao problema. Lá fora, já perceberam de que calibre é feito o Benfica. Cá dentro, já todos tínhamos percebido. Mas nem a Liga nem a FPF começaram a inquirir quem quer que seja.

Basta do Estado Lampiânico. É do fundamentalismo insensato, desregrado e anti-lógico que grassa a verdadeira ameaça para o ambiente. É da segmentação entre anjos e demónios que os Rumiyahs desportivos alimentam desde o Apito Dourado e da consequente diferença de tratamentos que se vê agora no BenficaGate que espreita o perigo para a imagem do futebol português. É de ciclopes como José Marinho ou paquidermes como Pedro Guerra, funcionários ou ex-funcionários do Benfica, que vem o cheiro que afugenta os cães. É dos crimes verbais de parasitas como José Manuel Antunes ou Pragal Colaço que resulta a chuva ácida que encharca o pano. A canonização cega do Benfica é o objectivo de muita gente com poder e responsabilidade, embriagada em líquido amniótico encarnado, que só vive e respira bem se o Benfica ganhar, seja a que preço for.

Basta da imprensa. Que não escrutina, não questiona, não investiga, que não abre a gaveta proibida. Por mero sabujismo, por coacção ou por falta de distanciamento. O quarto poder está enclausurado no terceiro anel. E ainda há quem fique ofendido por ser apanhado em flagrante.

Basta. Antes que seja tarde demais.



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Rio Ave 1 x 2 FC Porto | Trivelas & Roscas



Passaram sensivelmente 100 dias desde que Sérgio Conceição pôs o azul no branco com Pinto da Costa e decidiu sair da zona de conforto francesa para ousar uma aventura no cemitério de treinadores da Invicta. Se em junho recebesse uma visita do Drax de setembro para me dizer que íamos chegar à sétima jornada com o pleno de vitórias, 14 golos marcados e apenas um sofrido, pediria encarecidamente ao meu “eu” do futuro que abandonasse o vinho, pois nem nas minhas projeções mais quiméricas estava à espera de números tão requintados. E, acreditem, eu sonho todos os anos com um cenário onde o FC Porto conquista a Liga dos Campeões com um 5-4 ao Real Madrid, depois de estar a perder 0-4 ao intervalo. Mas a verdade é que cá estamos, em setembro, na liderança, com o máximo possível de pontos conquistados no campeonato, com a melhor defesa da Europa, o segundo melhor ataque em Portugal e já com três cabeças de borrego à cintura, numa prova inequívoca de que estamos vivos e prontos para não dar descanso a ninguém, apesar de termos um plantel menos talentoso e completo do que os rivais. O que vou dizer a seguir pode parecer uma perspetiva resultadista, e é, mas define aquilo que pode ser a chave da matriz ganhadora do FC Porto em muitas das deslocações mais perigosas desta época: o Rio Ave dominou, mas o FC Porto materializou. No final, o que contam são elas lá dentro.



Danilo Pereira: Voltou. Depois de um arranque de temporada intermitente, o trinco que mais me enche as medidas desde o fim do mandato do Polvo regressou à velha forma fazendo uma exibição absolutamente soberba, na forma como contribuiu para suster a linha média do Rio Ave o mais atrás possível, impedindo a construção do adversário em toda (toda!) a largura. Além do golo, o comendador foi essencial para que a estratégia de “jogar sem bola” montada por Sérgio Conceição, dando amplitude ao jogo e assegurando que os dois homens do meio-campo vila-condense produzissem o mínimo possível. Garanto-vos que não sou do clã Carreira, embora isto pareça plágio, uma vez que esta crónica foi escrita depois de ter lido as do Tribunal do Dragão, do Porto Universal, do Porta 19, etc. Qualquer semelhança com os demais é pura coincidência. Ou então é simplesmente a consequência natural de todos termos visto o mesmo jogo.

Brahimi: Começa a ser um padrão inegável. Quando o FC Porto actua em campos curtos, Brahimi destaca-se. Com mais ou menos objectividade, empurra a equipa para a frente e, mais importante, acaba por injectar na equipa uma confiança decisiva nos momentos cruciais. Exemplo disso foi a convicção que emprestou à cavalgada meio atabalhoada de Marega, o que fez com que o maliano não desistisse do lance e aparecesse para o finalizar. Jorge Bertocchini, autor do Porta 19, tem uma tirada sublime sobre isto, que recupero aqui para ilustrar melhor aquilo que quero dizer. Disse o Jorge, no rescaldo do FC Porto x Besiktas, que Brahimi “espetou pregos numa parede sem que ninguém pendurasse um quadro que se visse”. Uma expressão que resume na perfeição o papel actual do argelino do argelino no FC Porto. Está menos artista e mais curador. Só precisa que um dos matulões do ataque o ajude a pendurar os quadros. Foi o que fez Marega. Assim se conquistam três pontos.

Marega: “Guarda o que não presta e terás o que te faz falta”. Isto foi o que meu avô me respondeu um dia, quando lhe perguntei porque raio é que estava a apanhar um parafuso torcido e enferrujado do chão. O velhote era um hoarder de primeira a quem nós, antes dos anglicismos tomarem conta da língua portuguesa, apelidávamos carinhosamente de “sucateiro”. Sérgio Conceição podia ter abdicado de Marega. Mesmo depois do pequeno episódio do início de época. Era o mais fácil. Mas ainda assim, o treinador portista, contra a corrente dominante de pensamento na qual me incluo, guardou o parafuso. Marega é o principal retrato de um plantel recauchutado. Não é que o maliano seja, ou possa vir a ser, o principal alicerce em que vão assentar todos os sucessos que o FC Porto pode acumular esta época. Acredito até que, com a evolução natural da temporada, a sua preponderância se possa desvanecer um pouco, em função do que Soares pode dar à equipa. No entanto, tem dado jeito, muito jeito. É desonesto fechar a porta a essa evidência. O Moussa que ainda nos embaraça com recepções piores do que uma residencial na Cova da Moura é o mesmo Moussa que por vezes leva tudo à frente -- e a equipa em bloco, às costas -- como se estivesse a desembarcar de carabina na mão na Normandia. Por isso, não há margem para crítica. Quem dá o que tem, a mais não é obrigado. Talvez seja melhor direccionar a crítica a quem contribuiu para que o actual barómetro de qualidade do FC Porto seja Marega e não um Falcão ou um Jardel. Puxando a memória atrás, tenho a certeza que o meu avô arranjou finalidade para aquele parafuso, tal como Sérgio Conceição o fez para as características do maliano. Não posso pedir mais.

Borrego no saco: A deslocação de um ombro, de um joelho ou de um pulso podem ser chatas, mas nenhuma é tão incómoda como a deslocação ao Estádio dos Arcos para o FC Porto. Já são nove pontos ganhos em campos extremamente difíceis. Um dado que pode dar um impulso extra na segunda metade do campeonato, onde, neste capítulo, o calendário é bem mais acessível.



Otávio: Houve uma fase em que cheguei a pensar que Otávio estava em sub-rendimento. Agora, tendo mais a considerar que o início da época passada é que foi um pico anormal na forma do jogador brasileiro. Otávio parece desligado dos processos da equipa. Amorfo e desconcentrado, continua a não compreender o seu papel em campo, mesmo quando o mesmo é claro. Não fosse Sérgio Conceição o treinador que lhe deu o banho mais eficaz de cultura táctica quando aterrou em Portugal, diria que o problema estava na orientação. Mas não está. A rever.

Meio-campo sem Óliver: Apostar numa estratégia sem Óliver é compreensível. Herrera dá (e deu) muita coisa ao jogo que o espanhol não oferece, mas sem Óliver, o FC Porto foi controlado no miolo, praticamente do início ao fim, onde só a transcendência de Danilo evitou maiores desequilíbrios. Sérgio arriscou e saiu-se bem. Esta foi também uma mensagem de confiança ao mexicano, que, com o nervo no lugar, pode ser mais solução do que problema. Mas era importante que a SAD priorizasse desde já um ataque preciso e contundente ao mercado de inverno que trouxesse uma alternativa credível ao espanhol. Porque Oliver não é apenas o nosso elemento mais criativo, é também o único.

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