sábado, 2 de setembro de 2017

Disciplina avariada

O que têm em comum Eliseu, Mabil e Derley?

Comecemos pelos dois primeiros.

Esta semana, o Conselho de Disciplina da FPF ilibou Eliseu da pisadela deliberada a Diogo Viana no Benfica x Belenenses, de 18 de agosto. No mesmo dia, o mesmo órgão considerou que Mabil "pisou o adversário com força excessiva" no Paços x Vitória SC, de 26 de agosto.

O processo de Mabil demorou apenas dois dias a ser apreciado. O de Eliseu levou dez. Mabil foi suspenso por dois jogos. Eliseu foi absolvido. As imagens que se seguem falam por si.

Eliseu x Belenenses

Mabil x Vitória SC

Nenhuma das resoluções surpreende, embora a lógica que alicerça ambas seja anedótica. Quer no caso Eliseu, quer no caso Mabil, a mesa presidida por José Manuel Meirim escuda-se no relatório dos árbitros para sustentar a decisão final. Mabil foi "apanhado" pelo fiscal de linha, por isso foi punido com base no que foi escrito pela equipa de arbitragem. Eliseu escapou impune porque nem o árbitro Rui Costa viu a agressão, nem o videoárbitro Vasco Santos achou que tivesse sido uma.

Vasco Santos, provavelmente o elemento com maior influência no desfecho deste processo, entendeu "não ter existido qualquer agressão ou prática de jogo violento por parte do jogador do Benfica naquela sua ação". Apesar de ter analisado as mesmas imagens que toda gente viu, onde nenhum ângulo mente, o elenco do CD concluiu que a demonstração marcial de Eliseu foi uma reação natural e inocente.

Com isto, o CD aproveita e mata dois coelhos de uma só vez. Cola o fundamento da decisão ao julgamento subvertido do VAR e refugia-se na sentença que menos ondas levanta contra o órgão: a favor do Benfica. Em suma, livra-se de responsabilidades na polémica e sem abespinhar o polvo. É o recurso a um truque sujo para lavar as mãos.

Ora, o Conselho de Disciplina está a enviar duas mensagens perigosas. Por um lado, deixa implícito que o VAR vai concentrar em si um poder de decisão desmesurado, em última análise maior do que o do juiz principal. Por outro, o CD está a dizer-nos que neste tipo de casos prevalece o parecer do videoárbitro, mesmo que a sua opinião seja contrária à de 99% da nação futebolística. Instituições responsáveis pelo bom funcionamento da prova incluídas.

Em condições normais, Vasco Santos seria convidado a abandonar a arbitragem depois deste episódio, onde só ele, Pedro Guerra e José Marinho não vêm maldade no movimento debulhador de Eliseu, que fez das pernas do jogador belenense um trampolim. Como não existimos num país normal, ratifica-se a decisão e assobia-se para o lado. Alguém, mais tarde, haverá de pagar a fatura.

Mas vamos mais longe. Ainda na terça-feira, o mesmo Conselho que decidiu avaliar a intenção em vez da intensidade no caso Eliseu optou por medir a intensidade em vez da intenção num lance de Derley (Aves) contra o Boavista.

Derley x Boavista

Deliberou o CD que Derley "pontapeou um adversário na cara com força excessiva" no Boavista x Aves. Mas olvidou o facto de, tal como no lance de Eliseu, ter sido uma disputa de bola, onde o jogador do Aves nem sequer se apercebeu a aproximação do guarda-redes adversário. No máximo, foi imprudente. Mas aceitemos a deliberação final do Conselho. Derley foi suspenso por dois jogos, tal como Mabil. Eliseu não. Notam a diferença?

A Liga NOS conta com um organismo regulador que, na mesma reunião, baralhou a própria conduta e utilizou dois pesos e duas medidas na análise a cada caso. Os princípios da racionalidade e da equidade na justiça desportiva já foram abandonados há muito, em prol de uma nova metodologia que obedece exclusivamente a uma cor. É nesta pocilga que boia o futebol português, onde só quem sabe chafurdar, ganha. E consta que há por aí um clube a reclamar a hegemonia.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A bonança imperfeita

Finito. O dia com os minutos mais contados do ano terminou, finalmente. A meia-noite de 31 de agosto, essa espécie reveillon futebolístico, não trouxe novidades de última hora ao FC Porto, o que era expectável. Por outro lado, também não houve raides por nenhuma pedra basilar da equipa. Um dado extremamente positivo, sobretudo no contexto actual.

Não é notícia o facto de o clube estar a passar por uma certa asma financeira, que dificulta a gestão do plantel e embarga os planos para o ciclo desportivo a longo prazo. Por isso, e sem surpresas, o FC Porto fechou o defeso sem qualquer contratação anunciada - além de Vaná.

No capítulo das entradas, o FC Porto perdeu. Perdeu porque tinha de perder. É óbvio que o Dragão procurou boas oportunidades de negócio ou operações financeiras equilibradas para fortalecer a equipa, mas quem se encontra no trapézio, neste momento, é o FC Porto. E a flexibilidade não abunda.

A nau portista sobreviveu ao vendaval do mercado sem rombos no casco. No entanto, continua sem mecanismos de emergência, o que torna qualquer acidente de percurso difícil de reparar. O XI base do FC Porto dispõe de qualidade suficiente para se candidatar ao título nacional, mas o plantel não tem a profundidade necessária para percorrer uma época longa, desgastante, com várias frentes e contra vários adversários. Dentro e fora de campo.

No global, estamos mais fortes, mais mecanizados e mais bem orientados do que no ano passado. Mas temos menos fail-safes.

Definhando a coisa por setores:


Na baliza, sobrevive o síndrome Bolat, que é aquela estranha patologia do FC Porto de comprar um guarda-redes low profile por época para nada. Confesso, quando vi o anúncio da contratação do guarda-redes brasileiro Vaná fiquei ali algures entre o satisfeito e o apreensivo. Satisfeito porque, por um lado, parecia que o FC Porto estava a dar sinais de estar financeiramente vivo e pronto para atacar o mercado. Apreensivo porque esta prática da SAD do FC Porto de coleccionar jogadores da mesma posição, não sendo nova nem exclusiva do nosso clube, é um fetiche que nunca deu grandes frutos, quer do ponto de vista desportivo quer da perspetiva financeira. Não é incomum ver o FC Porto contratar guardiões sombra, alternativas competitivas mas discretas, competentes mas diplomáticas, que saibam aceitar que a condição de partida é o banco. Entendi a contratação de Vaná como o destrancar da porta a José Sá para que o português pudesse ganhar rodagem para o futuro. Mas José Sá não saiu. O que significa que Vaná, que custou €1 milhão, deverá passar os próximos tempos entre a bancada e o sofá. Sobretudo, porque Sá tem uma vantagem assinalável para a restrita lista de inscrições na Liga dos Campeões: é português. Em relação a Fabiano, cumpriu-se o cenário mais provável. A sua presença no plantel é meramente figurativa: quando recuperar da lesão, deverá sair na próxima janela.



O dragão dispõe de três bons centrais e uma dupla que não dá grandes abébias a quem se queira por em bicos de pés. Felipe e Marcano são os zeladores fixos. Reyes estará lá para qualquer eventualidade. E só o pior cenário pode atirar Jorge Fernandes para o lago dos tubarões. Se o FC Porto tinha de cortar por algum lado, este seria um deles. Nas faixas, a permanência de Layún resolve o problema nos dois flancos. Importa saber qual será a disponibilidade psicológica do jogador, que me parece cada vez mais descomprometido do clube. A pior notícia foi a opção de compra com que Rafa foi para Inglaterra. A melhor foi a gripe de Ricardo Pereira. Porque foi apenas isso: uma gripe.


É talvez o que mais me preocupa. Desde logo, porque é o que está mais despido de alternativas directas aos titulares. Leia-se directas, não credíveis. Porque não se discute aqui a qualidade de André André, Herrera ou Sérgio Oliveira. A problemática prende-se com o facto de não existir homens que garantam a mesma estratégia de jogo que Óliver e Danilo fornecem à equipa. Com esta receita, o FC Porto joga de uma forma muito diferente de qualquer outro elenco. O meio-campo Danóli estará exposto a um desgaste absurdo ao longo da temporada, nomeadamente o espanhol, o alvo a abater, para quem uma visita ao estaleiro é mais certa do que Eliseu pisar alguém no próximo jogo. Por outro lado, esta é também uma oportunidade para quem cá ficou preso ao acaso. Moreto Cassamá ou Fede Varela estão à espreita.



Haveria coisa mais natural que integrar Alberto Bueno neste FC Porto? Um jogador cuja melhor fase da carreira foi precisamente num esquema de dois avançados? Se Sérgio Conceição conseguir, e Bueno quiser, o espanhol pode assentar que nem uma luva no plantel e ser mais do que uma mera ferramenta de recurso da equipa. Este ano, o segredo deste grupo passa - e muito - pelas segundas vidas de muitos jogadores proscritos. Reyes, Marega e Aboubakar são exemplos a seguir. Acima de tudo, porque o exemplo partiu deles próprios. Tem a palavra Alberto. Se Aboubakar, Soares, Marega e Bueno garantem profundidade ao centro, o mesmo não se pode dizer dos corredores. Brahimi e Corona são de outro campeonato. Otávio tem dias e Hernâni tem velocidade. E é só. O FC Porto não está apenas sem alternativas ao argelino e ao mexicano, também está dependente da forma - sempre volátil - de ambos.

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No que diz respeito a entradas, o FC Porto não tem grande história para contar. Do lado das saídas, o saldo é positivo. E não estou a falar apenas de números. O FC Porto encaixou cerca de EUR70 milhões com a venda de cinco jogadores, sendo que somente um deles era titular regular em 2016/17. A venda de Ruben Neves é a que menos anima, tanto emocional como desportivamente, porque o médio tinha no modelo actual as condições certas para evidenciar as suas qualidades. Era o jogador mais apto para render Óliver ou Danilo. Deixando a futurologia para Nhagas e Zandingas, tenho a convicção de que Rúben Neves seria o 12º jogador do FC Porto de Sérgio Conceição.

Luís Gonçalves fez um trabalho excecional no alívio da folha salarial. O FC Porto desligou-se em definitivo de Josué, Abdoulaye, Ángel, Tiago Rodrigues e Sami, colocou Zé Manel, Boly e até Adrián López e ainda embolsou €300 mil com o empréstimo de Mikel. Não me recordo, nos últimos anos, de uma dieta tão rigorosa e eficiente. Urgia limpar todo este colesterol e, em grande medida, isso foi conseguido.

Nota final para os empréstimos de João Carlos Teixeira e Rui Pedro. Nada contra, até porque compreendo a necessidade de dar quilómetros e maturidade aos dois. Só não concebo os destinos: Braga e Boavista, dois emblemas que têm sido o espelho do antiportismo na região norte nos últimos anos. Há alianças bem mais nocivas do que certos antagonismos.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Braga 0 x 1 FC Porto | Trivelas & Roscas


Há duas coisas que ninguém deve fazer a um domingo à noite. Jantar feijoada e ver o golo de Corona umas 67 vezes. O primeiro porque é pesado, dá azia e não só. O segundo porque obriga um gajo a ficar de pé até de madrugada, a apreciar cada detalhe da refinada arte do mexicano e a pensar na miríade de coisas que este pontapé pode valer no final da temporada. É que a vitória do FC Porto na Pedreira não vale apenas três pontos. Vale a dobragem de um dos cabos mais tormentosos para os dragões nas últimas temporadas e vale mais uma cauterização dos traumas da equipa, que parece cada vez mais reabilitada para jogar fora de portas sem ter ataques de pânico. A vitória foi curta, mas firme, fechando em beleza o primeiro ciclo da época, onde matámos dois borreguitos com ano e meio (Tondela e Braga) e trabalhámos o suficiente para merecer uma viagem sossegada nos dias de pausa que aí vêm.

Meio-campo orgânico: Braga era um teste de fogo ao miolo reinventado por Sérgio Conceição, onde Danilo assume mais protagonismo à frente e Óliver tem amplitude para iniciar a construção mais atrás. Quer isto dizer que, com o novo treinador, Óliver é menos 8 e Danilo é menos 6, sem deixarem necessariamente de desempenhar os seus papéis-base, sobretudo no momento defensivo. Era interessante testar esta nova dinâmica contra uma equipa mais rija no meio-campo e nada melhor do que a virilidade de Fransérgio e Vukcevic - e depois Danilo Silva - para medir a capacidade do novo motor do FC Porto. Danilo arrancou a sua melhor exibição esta temporada. Mostrou a espaços alguma dificuldade em suster o perímetro, devido à inferioridade numérica no centro do terreno, mas rapidamente acertava o passo, nunca dando muita rédea ao Braga para incomodar Casillas. Já Óliver sofreu o bullying habitual de quem sabe que é ali que mora o supercomputador da equipa. Manteve o bom nível, esgotou cedo.

Corona, o Mexican: Há uma tirada do filme Once Upon a Time in Mexico (Era Uma Vez No México em tuguês) de Robert Rodriguez, onde a personagem interpretada por Johnny Depp (Sheldon) pergunta a Danny Trejo (Cucuy) após um trabalho mal feito: "are you a mexican... or a mexican't?". A piadola assenta que nem uma luva ao nosso Tecatito, que ora é rei no relvado ora tem o rei na barriga. O golo de Corona é fantástico e nem vou cometer a heresia de reproduzi-lo em palavras, o vídeo está lá em baixo. A ação do extremo não se resume, porém, a esse lance. Corona deixou a inconsistência longe da Pedreira e esteve sempre muito activo no ataque e solidário a defender. Sobretudo, quando perdia a bola. A saída precoce do jogo deveu-se à permissividade de Xistra para com a pancada dos bracarenses. Mas nos 45' minutos que esteve em campo, Corona foi mexican.

Laterais: As faixas do FC Porto estão bem entregues. Tanto a defender como a atacar. Alex Telles parece mais apurado nos processos defensivos e Ricardo tem tudo para ser um dos principais municiadores do ataque a equipa - embora ainda tenha de corrigir certos aspectos do posicionamento defensivo. No global, foi mais uma vitória que passou - e muito - pelo trabalho de construção e desconstrução dos dois alas do FC Porto.

Marega: Podem dizer o que quiserem dele. Mas o atual Marega encarna aquilo que eu quero ver num jogador do FC Porto. Raça, resiliência e cara feia. Quem não tem pés, joga com sangue. O polvo precisa de inimigos. Este é um prémio cumulativo para o que Marega tem mostrado no arranque do campeonato, contra todas as expectativas. Não é que o maliano tenha feito um jogaço em Braga, mas tem sido mais útil do que empecilho. Isto para um tipo que chegou a ser debochado em tarjas. O monstro também precisa de amigos.


Meio-campo curto: É orgânico, mas é curto. E quem diz o meio-campo, diz outros sectores. Foco-me especificamente neste porque foi aqui que perdemos mais gás no domingo. André André e, sobretudo Herrera, estancaram o jogo mas não lhe acrescentaram valor. Embora cheguem para segurar uma partida, o português e o mexicano parecem-me insuficientes para constituírem uma alternativa eficaz aos titulares. A época é longa e cheia de incidências. Se o FC Porto perder a veia desbloqueadora de Óliver, não encontra igual no plantel. O mesmo serve para Danilo, da perspectiva defensiva. Curiosamente, o jogador que encaixaria melhor neste novo dinamismo do miolo portista era... Rúben Neves. Não é tão cerebral quanto Óliver nem um tampão como Danilo, mas julgo que seria o único com capacidade de elevar a qualidade de jogo da equipa in media res.

Xistrema: Mais uma voltinha, mais um penalty sonegado ao FC Porto. Mas não é por aí. Esta foi também mais um partida onde tudo foi permitido aos de vermelho, que parece ser o filtro predilecto do futebol português. O Braga tinha uma estratégia de intimidação bem montada, de dar porrada até ao osso, que só seria possível com a cumplicidade de Carlos Xistra. E foi. Mas não é por aí. Irritou-me sobretudo o amarelo mostrado a Ricardo Pereira. Fosse igual o critério usado para ambos os lados, o Braga tinha terminado o jogo com mais amarelos do que táxis em Nova Iorque. Há uma espécie de overcompensation dos árbitros esta época, que parecem fazer de propósito para travar o clube que denunciou a podridão da classe apitadora em Portugal. O polvo está vivo. Mas o FC Porto também. Não será por aí.

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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Grupo G: Eyes on the prize


Equilíbrio. É a conclusão lógica e imediata de um primeiro exame ao grupo do FC Porto na Liga dos Campeões.

No grupo G, o FC Porto terá a companhia de Mónaco, Besiktas e do estreante Leipzig, um alinhamento que não é carne nem é peixe para os dragões. À semelhança do que tem acontecido nos últimos anos, o FC Porto vê-se metido numa contenda equilibrada e imprevisível, onde nenhum adversário é impossível mas também não é propriamente acessível.

O tempo da pêra-doce, de resto, vai ficando cada vez mais para trás na eurobola moderna. Vivemos numa era em que o pote 2 é quase tão intimidante quanto o primeiro, o pote 3 soma 21 títulos internacionais e há um campeão europeu no quarto.

A frio, não creio que se possa falar em obrigações para o FC Porto. Sobretudo, dadas as circunstâncias actuais que o envolvem. Por força das regras do fair play financeiro da UEFA, o clube está financeiramente constrangido e limitado a inscrever apenas 22 jogadores na lista A das provas europeias, em vez dos habituais 25 previstos nos regulamentos. O que significa que pode estar uma cefaleia dolorosa no horizonte de Sérgio Conceição.

Além da escolha apertada, o FC Porto terá de lidar com o fantasma de ver os prémios parcialmente congelados, caso não consiga cumprir as medidas operacionais e financeiras acordadas com a UEFA. O que significa que pode estar uma enxaqueca poderosa no horizonte da SAD.

Contudo, há mínimos olímpicos, mesmo para este FC Porto. Em particular, o princípio intrínseco de jogar para ganhar em todos os jogos, um registo que, embora complicado, é perfeitamente possível. Na Liga dos Campeões, o FC Porto não pode pedir muito a si próprio, desportivamente. Mas deve ter os olhos postos nos oitavos e respectivos 6 milhões de euros que vale a passagem à fase seguinte. Além dos 1,5 milhões de euros que encaixa com cada vitória. Se correr dentro do expectável e vencermos, pelo menos, todos os jogos em casa, a coisa pode render perto de 11 milhões. Ou seja, um Adrián López.



AS Monaco: Semi-finalista da edição anterior da Champions, é naturalmente o adversário mais forte do grupo. O maior atestado de competência que se pode carimbar a esta equipa é o título de campeão francês, surpreendentemente resgatado ao PSG, um clube pornograficamente opulento e estadista, que faz a fortuna dos monegascos parecer uma conta-poupança. Muito do mérito do Mónaco deve-se a Leonardo Jardim, um técnico inteligente e doutrinado, que soube acondicionar jogadores de gama média numa equipa topo de gama. Jardim também é conhecido por extrair o melhor dos jovens talentos. Foi assim com Martial, é assim com Mbappé. Felizmente, o mais-que-provável Golden Boy 2016/17 deve sair esta temporada, pelo que a defesa do FC Porto não terá de enfrentar este Barry Allen dos gramados. Desengane-se, porém, quem antecipa um Mónaco fraco. Ainda há o cerebral Moutinho, o renascido Falcao, o atómico Guido Carrillo, os talentosos Rony Lopes e Tielemans e mais setenta gajos franco-africanos com nome acabado em 'é' que podem muito bem vir a ser a nova obra-prima de Jardim. Ah, e um principado sedento de vingar a final de 2004. Serão dois jogos duríssimos, tanto cá como lá. Sobretudo, porque a deslocação ao Louis II, programada para 26 de setembro, antecede a visita do FC Porto a Alvalade para o campeonato, e a receção -- que pode ser decisiva para as contas do grupo -- dá-se depois do FC Porto x Benfica.


Besiktas: Em 2013, o Bleach Report fez uma lista dos estádios mais ruidosos do planeta. O Ataturk Olympic Stadium, a morada do Besiktas, era o segundo. Atrás do Galatasaray e à frente do Fenerbahçe. Acho que isto diz bem da experiência avassaladora -- e inesquecível -- que é jogar na Turquia. O FC Porto até nem se tem dado mal com turcos. E vale dizer que, fora de casa, as equipas turcas costumam autovulgalizar-se, numa espécie de homesickness futebolística que as impede de obter melhores resultados europeus. Esta época, a equipa de Ricardo Quaresma acrescentou qualidade defensiva, com a aquisição dos calejados Gary Medel e Pepe. Sacaram Jeremain Lens ao Sunderland e contrataram Álvaro Negredo para suprir a saída de Aboubakar. Além de Quaresma, Ozyakup e Talisca continuam a ser os principais criadores de jogo do campeão turco, que ainda não encontrou a melhor forma esta época. O Besiktas é a equipa com a qual o FC Porto tem maior hipótese de resgatar pontos perdidos com os outros dois adversários. E temos em Aboubakar um espião de luxo, apesar de o camaronês falhar a partida em casa por castigo. O jogo no Dragão tem uma outra nuance, esta mais feliz: o regresso do Mustang ao seu palco de sempre.



Leipzig: A prova viva de que a Red Bull "dá-te asas". A equipa controlada pela multinacional austríaca é o protótipo do clube-empresa. Arrancou como um projeto financiado e potenciado pela marca de bebidas em 2008, que levou o clube a galgar divisões a eito na Alemanha até chegar ao circuito principal. Em oito anos, o Leipzig passou do escalão amador mais baixo à Bundesliga, onde, na época de estreia, logrou um alucinante segundo lugar. Por muito antiética e neoliberal que seja esta parceria austro-germânica, que não é muito diferente dos takeovers milionários que se tornaram norma no futebol este século, ela foi bem planeada e está bem estruturada. Os responsáveis do clube apostaram numa prospeção altamente eficiente, comandada por Ralf Rangnick, que lhes permitiu contratar bem e barato, com os resultados que se conhecem. O Leipzig descobriu talentos como Emil Forsberg, o número 10 sueco que joga e faz jogar a equipa, ou Diego Demme, uma espécie de Busquets alemão por quem o Leipzig pagou 750 mil euros. Mesmo nos investimentos mais avultados que fez, o clube soube comprar com precisão cirúrgica: Timo Werner, o goleador da equipa, e Naby Keita, o carregador, custaram milhões mas mostram rendimento de milhões. A filosofia Football Manager do Leipzig contrasta com a experiência europeia inexistente. Serão dois confrontos imprevisíveis, até porque a maioria destes rapazes nunca "saiu" da Alemanha. É a maior incógnita do grupo. Mas factos são factos: na liga alemã, só o Bayern fez melhor.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

FC Porto 3 x 0 Moreirense | Trivelas & Roscas


Correr debaixo de um calor abrasador não é para meninos. Ser treinado por Sérgio Conceição também não. Nem o ar quente que ontem secou os pulmões do Dragão desviou a equipa da identidade que tem relevado desde o início da época. A de um FC Porto que procura resolver a questão antes de ela se tornar um berbicacho. O FC Porto arrancou desperto, com ordem para empurrar a defesa do Moreirense contra o topo sul e vencê-la pelo cansaço. Soube fazê-lo, ainda na primeira meia hora, enquanto o motor não sobreaqueceu. Depois, trocou a vertigem pela lucidez, porque é importante ter vontade de marcar muito, mas crucial é ter pernas para marcar sempre.

Aboubakar: Este jovem faz lembrar aquele outro camaronês que cá tivemos há dois anos, que também arrancou a todo o gás e marcou 4 golos nas primeiras três jornadas. Um avançado jeitoso, com algum faro de golo mas um pouco atabalhoado, que acabaria por perder fulgor ao longo da temporada. Foi recambiado na época seguinte porque o treinador quis um armário belga para decorar o balneário. Curiosamente, ambos se chamam Aboubakar. Mas este Aboubakar é um jogador diferente. Amadurecido, mais evoluído tacticamente, e uma noção de posicionamento mais apurada (mais letal dentro da área). Resta saber se este ano supera definitivamente o seu maior fantasma: as crises de confiança que o banalizaram em 2015/2016.

Marcano: Confesso que a minha reserva em relação ao central espanhol era perceber até que ponto a subida de forma do ano passado era estrutural e não conjuntural. Começo a acreditar que é a primeira. O espanhol é cada vez mais um esteio da defesa portista e a sua tranquilidade é contagiante. Se Marcano está melhor porque tem Filipe ao lado, não é menos verdade que Filipe beneficia imenso de ter Marcano por perto. Dá-me gosto ver o progresso que registou desde que chegou. Passou de "central de recurso que toda a gente espera que nunca precise de jogar" para capitão do FC Porto. Bravo, Iván.

Brahimi: Foi, é, continuará a ser o elemento mais agitador do FC Porto. Pensa sempre o jogo de uma forma diferente dos outros, embora nem sempre melhor. Mas ninguém trata a bola como Brahimi no plantel FC Porto, que quando não tem arrufos com a vida, consegue fazer meio estádio parar de tirar selfies e olhar com atenção para o que está a acontecer no relvado. Há dias em que é mais difícil prever o que vai sair dos pés do argelino do que vai sair do bigode rebuscado de Manuel Machado. E nesses dias, o FC Porto torna-se muito mais complicado de travar. Alimentou o caudal ofensivo enquanto pode, mas está sob uma espécie de plano de proteção anti-fadiga e saiu quando o jogo já não pedia artistas, mas curadores.

Sérgio Conceição: Voltou a fazer uma gestão inteligente, tal como já tinha feito contra o Tondela, embora esta opinião possa não parecer consensual. Sérgio está a levar os seus jogadores à exaustão nos Olival (o plantel teve apenas três folgas em mês e meio) e tem sido mais delicado nos jogos. É sempre um risco abdicar da imprevisibilidade de Brahimi ao intervalo ou da criatividade de Óliver aos 60' (como aconteceu em Tondela), mas se a aposta for ganha, o FC Porto sai a ganhar no longo prazo.

Otávio: Ainda não encontrou a sua praia neste FC Porto de Sérgio Conceição, apesar de ter sido com o treinador conimbricense que o brasileiro mais evoluiu em Portugal. Sobretudo, na atitude. Pareceu amarrado à disposição táctica da equipa, sem saber muito bem por onde andar e o que fazer quando entrou. Sérgio pode fazer dele um jogador de topo, mas Otávio terá de se saber integrar no novo futebol da equipa. O que ainda não aconteceu.

Falta de profundidade: O grande senão do FC Porto 2017/2018. O plantel é curto para uma época tão longa e competitiva. E se isso ainda não se fez sentir é porque Marega tem cumprido, Danilo e Ricardo Pereira ainda cá estão e Aboubakar tem estado de pontaria afinada. Mas lá mais para a frente haverá castigos, lesões, baixas de forma e um modelo de jogo que vai pedir mais rotatividade do que o anterior. Sérgio tem sido mestre na reabilitação, mas é pouco provável que isso seja suficiente. O FC Porto ainda está exposto às agruras de um mercado onde é mais presa do que predador, mas não pode pensar apenas em sobreviver. Terá de se precaver.

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