Se no ano passado este tasco ficou a ganhar pó, muito se deveu a Nuno Espírito Santo.
Nunca digeri bem o mandato de Nuno no FC Porto. Desde as rábulas que marcaram a sua passagem anedótica pelo clube até à fuga pela porta dos fundos, acompanhou-me sempre uma perturbadora sensação de estar a assistir a um duro desfalque ao portismo. Especialmente numa temporada onde o assalto do Estado Lampiânico ao futebol português se tornou indisfarçável.
Não foi a anarquia dos "últimos 60 metros" nem o crime de subaproveitamento de Óliver que mais me atormentaram em Nuno Espírito Santo. Foi a postura fora de campo. O discurso de pacote, sem sumo, mais vazio do que a credibilidade de Rui Pedro Braz. As inenarráveis flash interviews, com lugares-comuns reciclados até à exaustão. A subserviência ao tretacampeão. A tentativa permanente de parecer um gentleman num FC Porto que pedia um pugilista. A necessidade constante de querer ser diplomata num clube de revolucionários.
Sérgio Conceição é um revolucionário. Até ver, dos bons. Dos que não estraga o que está bem feito e se concentra no que é preciso melhorar. O pulso de ferro de Sérgio contrasta com o espírito manso de Nuno. O pragmatismo de um opõe-se ao surrealismo do outro.
A primeira conferência de imprensa de Sérgio Conceição, na antevisão da partida com o Estoril, é um regalo nesse capítulo. Desde logo, pela inteligência de Conceição em capitalizar sem exageros a ideia do "Mar Azul", que ele próprio cunhou. A fórmula não é inovadora, mas resulta porque é simples, orgânica e apela aos adeptos. E não parece saída de um livro do Mark Cuban sobre as 36 formas de salvar uma empresa. O próprio Conceição sabe que a "mensagem passou" e que a partir de agora alimenta-se sozinha.
Ao contrário do antecessor, o novo treinador portista tem consciência de que vai ter a maioria dos órgãos de comunicação social contra si. Vai enfrentar um ninho de víboras semana após semana, que lhe vão testar o temperamento volátil com as armadilhas do costume. Nuno nunca percebeu isso. E acabou ridicularizado.
A genuinidade de Sérgio é um ponto positivo, para já. Frontal, sem papas na língua e sem pedir licença. O FC Porto precisava do regresso dessa arrogância. Sérgio assume sem rodeios o que está mal e não se coíbe de mostrar a sua insatisfação com os erros próprios. Contudo, essa é uma estratégia com riscos e de equilíbrio delicado no que diz respeito à gestão do plantel. Resta aos adeptos confiar na capacidade de Conceição conseguir manter o espírito crítico sem se perder na crítica. Uma equipa unida não funciona sem uma boa táctica. Mas isso não significa que uma boa táctica seja independente de uma equipa unida.
Sérgio Conceição ainda está longe de ser um José Mourinho. Mas está incomensuravelmente mais perto de ser treinador de futebol do que Nuno Espírito Santo, que parece ser forte é nas cifras de Facebook.
Dentro de três horas, é com Sérgio Conceição ao leme que o FC Porto se volta a fazer ao mar em busca do único caminho que conhece, o das vitórias. Contra um Estoril que tem Praia no nome. E contra um kraken que só a linha dura portista pode abater.
Há uma certa poesia nisso que me agrada.
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
Universo paralelo
O Benfica vai exigir 50 milhões de euros ao FC Porto por fuga de informação do próprio clube. Mas a fuga vem de dentro. Talvez tenham interpretado mal o conceito de delação premiada.
O Benfica diz que Pedro Guerra nunca foi funcionário do clube. Mas vai despedi-lo.
O Benfica garante que o seu recinto nunca esteve interdito. Mas foi o primeiro da história dos três grandes a faltar à sua própria apresentação.
O Benfica diz que Eusébio é o seu maior símbolo e embaixador. Mas este ano esqueceu-se dele.
O Benfica é o clube que não vê nada de anormal no conteúdo dos emails. Mas exige que se apague tudo.
O Benfica quer a reabertura do processo Apito Dourado. Mas ainda não a pediu.
O Benfica ia avançar com um processo crime contra Pinto da Costa por causa das sms de Fernando Gomes. Mas ainda não avançou.
O Benfica desconhece que tem claques. Mas dá-lhes os parabéns.
O Benfica não conhece Luís Pina. Mas Luís Pina conhece Carlos Melo Alves.
O Benfica contabiliza a Taça Latina como um dos 81 títulos oficiais do clube. A Taça Latina foi uma competição de cariz amigável que funcionava por convite.
O Benfica afiança que com as receitas da BTV não precisa de vender jogadores. Esta época já vendeu a defesa toda.
O Benfica tem um Presidente que deve 600 milhões de euros ao Estado. Mas o Estado senta-se ao lado dele.
O Benfica diz ter rescindido com Mika em 2014. Mas autorizou a sua transferência para Inglaterra em 2016.
O Benfica rescindiu com Miguel Rosa e Deyverson em 2014. Mas os dois jogadores não puderam defrontrar o Benfica em 2015.
O Benfica também reclama 40 milhões de euros ao Sporting e 14 milhões a Jorge Jesus. Mas ainda não ganhou nenhum processo.
O Benfica congratulava-se de ter o plantel fechado em junho. Mas já comprou 21 jogadores e cedeu mais de 30.
O Benfica diz que este ano vale tudo para não ser penta. Mas nos anteriores tudo valeu para ser tetra.
O Benfica nega a cartilha. Mas a cartilha não nega o Benfica.
A realidade consegue por vezes superar a ficção. Mas só porque a ficção tem regras. E o mundo onde o Benfica vive, não.
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
O Natal de 1995
O Natal de 1995 foi o pior de sempre.
Ano atribulado esse. Nasce o meu irmão e a família muda de casa, após um despejo inesperado. Para um puto até então intolerante à partilha, como eu, viver em contenção foi uma experiência azeda.
Crises não matam os sonhos de uma criança de 8 anos, por isso, passei o último trimestre desse ano a salivar pela MegaDrive, que cobiçava desde que me lembro de existir. As idiossincrasias da pré-adolescência pediam-me para encerrar em definitivo o ciclo da Lego e começar a distribuir fruta em Streets of Rage.
Quando chegaram as últimas horas do 24 de dezembro, lá estava eu hipnotizado pelo maior embrulho da árvore, alheio aos alertas que o mundo exterior me dava, os olhares insípidos e os sorrisos amarelados de quem antecipa a desgraça. Não dei por nada até começar a rasgar aquele papel colorido, às zero em ponto, pronto a acolher ali uma potente injeção de endorfinas. Mas era uma garagem da Lego.
Imaginem o minuto 92, só que ao contrário. Com o Roderick a marcar na baliza de Helton. Multipliquem por mil. Foi assim que me senti. E voltei aos Legos.
Sérgio Conceição chega como treinador a um FC Porto muito diferente daquele que conheceu enquanto jogador. O clube perdeu poder no futebol, cedeu a hegemonia nacional, afastou-se do culto de vitória e viu o novo código financeiro da UEFA impor-lhe um quadro de restrições que nunca experienciou. Não está impedido de comprar, mas não conta com a ginástica de outros tempos. Logo, um pouco como eu e os Legos em 95, Conceição terá em 2017 a intrincada missão de conquistar o que pode com o que tem. Sem esperar grandes prendas de Pinto da Costa.
A opção Sérgio Conceição nunca foi consensual. Da mesma forma que eram poucos os portistas que o queriam em janeiro de 2016, quando esteve com pé e meio no clube, também não entusiasmou ninguém quando foi contratado ao Nantes, ano e meio depois, apesar da evolução saliente que mostrou em França. Contudo, Sérgio está a encarar o desafio com uma sobriedade inesperada, um discurso fresco e consciente e com a fome de vencer que sempre lhe conhecemos. Um trabalho silencioso, resguardado, tranquilo, que só veio à superfície nos seis jogos que equipa disputou à vista de todos, com resultados prometedores.
Sou pragmático, gosto de meter água naquela fervura que caracteriza habitualmente a pré-época. E fervura é até uma termo que assenta bem ao temperamento do novo treinador. Mas algo mudou no FC Porto, o que por si só é extremamente positivo. Ao contrário dos seus antecessores, não vejo Sérgio Conceição aborrecido por ter de brincar com os brinquedos que já tinha. Nem a fazer birras para lhe oferecerem o impossível. Antes, um treinador ciente de que o sucesso do seu trabalho passará muito por repensar um plantel que já existia.
Há muito por onde melhorar e o plantel não tem a profundidade necessária para atacar as exigências de uma época. Mas é o que temos para já. Sérgio Conceição terá de potenciar a velocidade de Hernâni, redescobrir João Carlos Teixeira, estabilizar o rendimento de Sérgio Oliveira ou encontrar a melhor forma de espremer Marega. Fazer diferente com as mesmas ferramentas.
Conceição é, por estes dias, um puto como eu era em 1995. Alienado no seu universo de Legos, satisfeito a criar novas histórias e novas formas de fazer história. Reinventar-me foi tão desafiante que esqueci rapidamente a MegaDrive.
O Natal de 1995 foi o melhor de sempre.
quinta-feira, 20 de julho de 2017
Hugo Gil e Mentira
O que mais me fascina na cultura do Estado Lampiânico é a forma como os seus partidários traçam toda a palha que lhes é dada sem questionar absolutamente nada. Gente obnóxia, sem olho clínico ou espírito crítico. Pensar dá trabalho e talvez seja desse torpor interior que nasce o orgulho de ser do clube das massas.
Parece que está no sangue de muitos deles debitar merda a torto e a direito sem fazer um esforço para, pelo menos, acertar no que estão a dizer.
Um dos exemplos deste distúrbio é o infame Hugo Gil e Benfica. A sua página de facebook tem mais de 265.000 seguidores -- muitos deles, estranhamente, adeptos de clubes rivais -- para os quais este cartilhado amador escreve regularmente.
Hugo Gil é um dos pilares da comunicação oficiosa da sua agremiação, aproveitando a sua dimensão virtual para criar soundbyte e lançar desinformação no espaço mediático.
É mais frequente vê-lo falar dos rivais do que do seu clube. É mais habitual vê-lo bolsar os dogmas do nacional-benfiquismo sob anonimato no Fórum TSF do que a escrever uma análise fértil sobre a sua equipa. É muito comum vê-lo pintar quadros alternativos nas redes sociais, onde cultiva mentiras avulsas para camuflar a podridão que grassa no seu emblema.
A mais recente pérola deste desconchavado surge a respeito de um comentário do director da Fundação Sporting sobre as boas práticas de César Boaventura, o director da GIC, e à proximidade do mesmo com o próprio Hugo Gil.
Não sei o que é pior. Se a surrealidade de associar uma mera disfagia humana à mentira deliberada, insinuando que quem gagueja mente, se a afirmação de que César Boaventura não faz parte da GIC, quando isso está em praticamente escarrapachado em todas as páginas da internet. Pelo próprio César.
O famoso homem dos maletines, podem recordar neste trabalho do Mister do Café, é o número 1 da GIC, como ele próprio não se cansa de mostrar publicamente.
É fácil entender que Hugo Gil anda aos papéis no mundo da bola. Está a jogar um jogo muito acima do seu campeonato. Não faz a mínima do que está a acontecer. Não sabe que o que está em causa é o conflito de interesses que envolve João Moura e a incompatibilidade que existe na sua nomeação para delegado da Liga numa altura em que trabalha indirectamente para um clube dessa mesma Liga.
Não dá para colocar Hugo Gil ao nível dos outros cartilhados. Acusar Hugo Gil de ser intelectualmente desonesto, por exemplo, é altamente injusto. Não se pode ser extremamente burro e intelectualmente desonesto ao mesmo tempo. A ignorância comporta uma certa condição de ingenuidade. E Hugo Gil é apenas isso. Um adepto ingénuo, fanático e subserviente que não sabe o que diz nem diz o que sabe.
![]() |
| Tom Parsons (Gregor Fisher) em Nineteen Eighty-Four de M. Radford |
Hugo Gil faz-me lembrar Tom Parsons, uma personagem irritante de 1984, a obra prima de Orwell que enfia a carapuça a inúmeros regimes totalitaristas como o Estalinismo, o Nazismo, o Estado Novo e o Lampiânico.
Parsons era um acéfalo que comia o que lhe davam e que repetia o que lhe diziam.
Um dia, porém, acabou traído pelo Partido que tanto admirava.
segunda-feira, 17 de julho de 2017
Afonso de Melo, o cartilhado do i/Sol
Afonso de Melo é um jornalista e escritor vulgar português, que conta com uma longa carreira ao serviço do vieirismo e do nacional-benfiquismo. Mais do primeiro do que do segundo, curiosamente.
Melo acumula duas funções interessantes: além de colunista no jornal "O Benfica" e ocasional comentador da BTV, é o atual editor do desporto dos jornais i e Sol.
Ou seja, é Melo quem decide o que é investigado, dissecado, escrutinado e publicado na secção Desporto dos referidos jornais.
Não surpreende por isso o silêncio profundo de ambas as publicações em relação ao escândalo de corrupção desportiva que despiu o Benfica. O jornal i, por exemplo, sempre muito ávido a investigar as vicissitudes dos poderes nacionais, tem passado ao lado BenficaGate e dos emails como se o assunto não existisse. Conhecido pela capacidade de conceber capas de encher a retina, o jornal tem feito juz à fama e encoberto o assunto como ninguém.
Apesar de pisar os mesmos corredores da elite encarnada, Melo é um dos cartilhados a quem o seu próprio clube dá pouca importância. Possivelmente, face à falta de expressão que os jornais onde trabalha têm na esfera pública.
Contudo, não deixa de ser um autodidata, aproveitando a posição privilegiada para dar o seu contributo no branqueamento dos crimes do Benfica.
O seu mais recente artigo de opinião, publicado hoje, recupera o episódio mais mediáticos do Apito Dourado: o encontro entre Pinto da Costa e o árbitro Augusto Duarte, o juiz do Beira-Mar x FC Porto, da 31ª Jornada, disputado em Aveiro a 18 de abril de 2004.
Um jogo que, recorde-se, acabou empatado a zero, tendo tido igualmente zero influência no desfecho do campeonato nacional nesse ano. Porém, esse pormaior não foi mencionado no artigo.
Dois dias depois da absolvição de Pinto da Costa e do FC Porto do processo Apito Final, Afonso de Melo decidiu sair de debaixo da pedra e transcrever autos do acórdão sob a forma de crónica de opinião.
Não deixa de ser curioso que tenha sido o mesmo Afonso de Melo que, a 15 de junho de 2016, na BTV, disse não ver "nada de errado" nos emails.
Já todos sabemos como acabou o processo Apito Dourado. O que falta saber (e faltou escrever por Afonso de Melo) é como o mesmo começou e porque parou em Leiria.
Outro dos hobbies favoritos de Afonso de Melo é promover-se como justiceiro de bolso. Viajemos um pouco atrás no tempo. A 7 de junho de 2013, o aguedense de 53 anos escreveu isto:
Dir-se-ia que Melo terá esquecido muita coisa. De que a agremiação que representa é responsável pelos únicos dois homicídios relacionados com futebol em Portugal. Dos "seus" Hugo Inácio e Lué. De Rui Mendes e de Marco Ficini. Da emboscada à equipa de hóquei no Estádio da Luz que deixou Filipe Santos em coma, do autocarro de adeptos do FC Porto incendiado em Lisboa e dos adeptos do FC Porto apedrejados no Jamor na Final da Taça.
Dir-se-ia que foi tudo esquecimento. Mas, na verdade, não foi. Apenas desonestidade, indecência e prostituição intelectual. Atributos em que, aí sim, Afonso de Melo é realmente musculado.
Vejamos novo acto de contorcionismo. Em outubro de 2016, a secção gerida por Melo apressou-se a ilibar o Benfica de qualquer comportamente incorrecto no caso dos vouchers:
Interessante. Em apenas três anos, a opinião de Melo sobre a oferta de refeições a árbitros mudou radicalmente:
Afonso de Melo tem tido dias complicados. Desde o final do ano passado que tem perdido a voz para muitas matérias. Hoje, teve um espasmo, um assomo de justiceirismo neo-encarnado, próprio de quem quer a rua limpa mas não olha para o lixo que tem em casa.
Pode ser que alguém repare nele. Para quem já nasceu cego e invertebrado, estar mais do que morto deve ser uma condição difícil de aceitar.
Subscrever:
Mensagens
(
Atom
)





