quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Um dia

Impostor.

Traste.

Gosma.

Rato.

Pirómano.

Bandalho.

Bárbaro.

Vice-traficante.

Energúmeno.

Imbecil.

Palonça.

Corja.

Javardo.

Eunuco.

Gomes da Silva.

Miserável.

Verme.

Sabujo.

Filho de puta.

...

Um dia, perco a cabeça e insulto-te.


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Abraço de pedra

Helton e Casillas: Abraço de pedra

Enquanto deambulava pelas imagens da festa de domingo, tropecei neste momento poderoso. Uma fotografia que me deixou ancorado durante largos minutos.

O quadro, captado por um dedo cirúrgico, não deixa espaço à dúvida: esta época, o FC Porto joga com dois guarda-redes.

Era praticamente impossível prever as consequências que a contratação de uma supernova do futebol mundial como Iker Casillas comportaria sobre um dos maiores pesos-pesados dos dragões nos últimos anos, Helton Arruda.

Perspectivava-se um choque de titãs. Temia-se o paradoxo da omnipotência. Que o telhado fosse curto para dois egos astronómicos. Que o mediatismo de Casillas sentasse o simbolismo de Helton no banco. Que, no meio de tudo isto, a métrica fundamental para a titularidade passasse a ser o decreto em vez da qualidade.

Nem era por má fé.

   
Helton. 321 jogos pelo FC Porto.
Recorde-se o Helton do final da época passada. Uma bomba-relógio em tic-tac acelerado. Um tipo visivelmente saturado, com futuro incerto no clube, armado com uma retórica suspeita contra uns e recados mal encriptados para outros. O guardião brasileiro foi o espelho das atribulações que marcaram a recta final da temporada transacta e nunca se escudou de responsabilizar -- directa ou indirectamente -- o treinador por isso.

Tanto que a sua renovação surpreendeu alguns quadrantes, que já esperavam que a rota de colisão iminente entre o jogador e Lopetegui cumprisse a trajectória. Mas a bomba não explodiu.

Depois, Casillas parecia querer fugir de Madrid como quem ansiava escapar da prisão. Da cidade, do país e do clube, onde já só mantinha uma aura ténue por força dos 25 anos de blanco. O guarda-redes fora finalmente vencido pela enorme pressão da imprensa espanhola, que não é mais do que uma alcateia de hienas sedentas pelo próximo erro de Iker. Os jornais nunca viveram das boas notícias.

Porém, a chegada de Casillas ao FC Porto não foi o gatilho do caos preconizado.

Em parte, porque Helton é enorme. Entre os postes e fora deles. O primeiro capitão estrangeiro da era Pinto da Costa não chegou à braçadeira por promoção automática. Fez por isso. Leva 321 jogos com esta camisola. O que dá qualquer coisa como 29.000 minutos, ou quase 500 horas, a guardar o templo. É muito, muito tempo. Teve os seus momentos negros, verdade. Contudo, também foi o farol deste emblema em incontáveis ocasiões.

Quando o internacional espanhol aterrou no Porto, Helton percebeu que lhe estava a ser endossada uma responsabilidade bem maior e mais exigente do que defender a baliza do FC Porto: defender o FC Porto. Proteger o grupo, o plantel, o balneário.

O brasileiro abraçou esse desafio. Entende-se melhor com o basco e consigo próprio. A pouco e pouco, torna-se no adjunto não-oficial de Lopetegui. O cordão umbilical entre o técnico e a equipa. Interventivo, inteligente, irrepreensível. O que envolve também transmitir confiança e afecto ao novo dono da baliza do FC Porto. Levantá-lo nos piores momentos. Erguê-lo nos melhores.

Iker. 725 jogos pelo Real Madrid.
Casillas também ajudou. De que maneira. O guardião mostrou que humildade e estrelato são duas palavras com o mesmo tamanho. Poderia ter feito como a maioria dos endeusados fazem sempre que descem do seu Olimpo para jogar noutras paragens. Aterrar em cima do piano, de estatuto na mão. Mas não. Olhem para a foto de domingo: é Casillas quem, no fundo, parece uma criança agarrada ao ídolo. Icónico.

Em Espanha, dizem-no frágil. Foda-se: é óbvio que é frágil. Espanha toldou-o assim. Tem uma câmara apontada a si durante 90 minutos de cada jogo. Tem um programa em horário nobre na televisão espanhola a registar cada arroto que dá. Tem colunas em revistas dedicadas a avaliar a sua performance a descascar camarão na marisqueira de Matosinhos. A comunicação social espanhola tem um sismógrafo a medir permanentemente a vida de Casillas. Diria até que possui os direitos de privacidade do jogador. Hediondo.

Se eu vivesse um autêntico Truman Show como este que Iker vive, acho que também questionaria a minha sanidade mental.

Podia ter havido resignação e amuo, em vez de respeito e admiração. Mas Helton e Casillas, dois monumentos vivos, comportaram-se como os ícones que efectivamente são. Monstros que conseguem coabitar no mesmo espaço.

O abraço entre ambos no final do clássico é sintomático. E mais um daqueles momentos em que o silêncio de uma fotografia nos diz tanto.

Um verdadeiro abraço de pedra.

Imortal.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A mística e o mítico

A próxima pergunta é para todos. Dos 8 aos 80. Quem é que nunca percorreu o corredor de sua casa imaginando que estava a jogar com a camisola do FC Porto em pleno jogo do título?

Quem nunca simulou um drible diabólico e imparável até chegar à porta do quarto, antes de rematar uma bola invisível a uma baliza inexistente, entrando noutra divisão da casa de punho cerrado no ar e a celebrar o golo que nunca aconteceu?

Aldrabões.

Até eu ainda faço isso.

Faz parte do imaginário do mais comum dos adeptos projetar-se no palco dos sonhos com a camisola do respectivo clube. Todos fantasiamos, pelo menos um dia das nossas vidas, em ter menos 10 cm de pança, um six-pack na barriga ao invés de no frigorífico, capacidade técnica suficiente para partir os rins ao Luisão e um estádio de pé a gritar o nosso nome.

Não o fazemos por egocentrismo, mas pelo desejo de ver essa imagem mental materializada na próxima partida do nosso clube, talvez com o nosso jogador preferido do plantel.

Ontem, André André cumpriu esse sonho. O do adepto que dá a vitória mais importante de época ao seu clube. E no sonho cumprido de André André, todos nós cumprimos um bocadinho do nosso. Eu corri como um insano pela casa, depois de ter assassinado a mesa da sala. Acredito que alguns de vocês, também . Mesmo os que tiveram o privilégio de gritar golo naquele majestoso covil do Dragão ter-se-ão lançado numa desenfreada corrida mental para abraçar o André júnior e partilhar com ele a explosão de alegria que nos ofereceu.

Magia não existe. No sentido lato, é outra figura do nosso imaginário. Mas se algum dia houve alguma coisa mais próxima de magia neste universo dominado pelas leis da física, essa coisa é a mística. A mística não se explica. É expontânea. Existe. Multiplica o querer e a vontade. Transforma gatos em leopardos. A mística é intangível, mas viva. Está lá. Esteve sempre lá. Naquele renovado balneário de campeões. Andava meio adormecida. O pontapé de André André despertou-a.

Porque havia, e contra mim falo, quem começasse a questionar a cultura portista de um balneário cada vez mais plural e menos português (até este ano). Uma dúvida legítima que levantou uma questão exasutivamente repetida: onde está o nosso ADN? Perguntámo-lo aos jogadores, aos treinadores e até à estrutura. André André deu-nos ontem a resposta.

Ganhar ao Benfica não é objetivo, é imperativo. Nem sempre vai acontecer e isso é perfeitamente normal. Mas igualmente imperativo é nunca desistir de o tentar. Nunca se resignar.

André André mal conseguia falar na flash-interview. Pudera, uma grande fatia daquela alma ainda estava no campo, à procura do Samaris e a morder os tornozelos ao André Almeida, não fosse Artur Soares Dias ainda não ter acabado o jogo. André André fez um sprint de 25 metros aos 86', quando já tinha quase uma mini-maratona nas pernas, tendo ainda o discernimento de concluir com frieza aquela que era, provavelmente, a última oportunidade de golo do FC Porto naquele jogo.

Mística não é beijar o emblema. Longe disso. É sentir aquele brasão colado ao peito e colocar a vitória à frente da vida. É um sacrifício enorme, eu sei. Mas é precisamente por isso que nem todos a carregam. O filho do eterno António André explicou -- finalmente -- ao restante balneário o que é o FC Porto. André André. Eis a mística que faltava.


Umas milhas mais a sul, há uma nova atracção no freakshow do futebol televisivo português. Chama-se Augusto Inácio, diz-se que é o diplomata do Sporting, mas teve de arranjar um part-time na SIC Notícias, dada a falta de matéria de cariz internacional do seu clube.

O ex-pensador do futebol do Sporting, despromovido com a chegada do profeta à Mecca dos viscondes, viu-se forçado a procurar outras formas de agradar ao patrão, oferecendo-se para ir à televisão pregar a cartilha.

O que Inácio diz sobre a sua agremiação e os respectivos jogadores e dissidentes é com ele. Já toda a gente percebeu porque é que este lacaio de Bruno de Carvalho foi estrategicamente colocado onde foi.

O que é assombroso é o deslumbramento de Inácio, que leva o título de "responsável de assuntos externos" demasiado à letra. Externos do clube, Inácio, não externos ao clube. O FC Porto deve três meses de salário ao Rolando, guru? Leste isso no suplmento Vidas do Correio da Manhã? Ou terá sido na Antena 2 colombiana? Dois conselhos para ti, tradutor: começar a consultar com maior frequência o regulamento de transferências da FIFA antes de vomitar o que o teu presidente manda; ouvir a Antena 2 lusa, acredita que é bem melhor e mais plácida.

Não vale a pena insistires no deusismo. Volta para o escritório, vai a concentrações de Sportings de várias cidade do mundo, mas deixa de pressionar publicamente Carrillo a renovar. É feio. E, recuperando Rolando, nunca foi estratégia que resultasse. Nunca te julguei propriamente inteligente -- tens ar de lambe-botas de primeiro grau --, mas ver-te transformado em marioneta, a poluir ainda mais a já decrépita televisão portuguesa, é patético. Sobretudo quando nem sabes do que falas. Especialistas em verborreias existem aos montes. Tu arriscas-te a superar alguns deles. E olha que é difícil.

Deixa-te disso, mítico.

FC Porto 1 x 0 SLB: Pai, posso fazer História também?

Meio comando, uma pilha, seis bocados de uma travessa de barro comprada numa feira medieval em Óbidos, quatro pedaços de vela, três quartos de uma antiga cristaleira que a avó da minha esposa lhe deu para o "enxoval". Foi isto que sobrou do pontapé que dei na mesinha que tenho na sala, pouco passava das 20:55, hora de Lisboa. Ou 86', à escala de um clássico. Lembro-me de olhar para aquele chiqueiro todo que parecia tirado de um episódio de Shameless e pensar: "Estou fodido!". Mas valeu a pena. Valeu pela alegria incomensurável que aquela conclusão sublime de André André na cara de Júlio César me deu. A mim, aos 50 mil de pé no Dragão e aos milhões espalhados por este Portugal dos pequeninos, que como eu, viraram um dia as costas ao rebanho e seguiram o seu próprio caminho. Já tinha saudades de festejar uma vitória assim.

Nem tudo foi brilhante. O FC Porto deixou alguns sinais positivos, outros preocupantes. Pela forma como regressou dos balneários após o intervalo, este esquadrão -- sobretudo o seu almirante, André André, -- mereceu inteiramente os três pontos de um clássico suado, quente, competitivo e resolvido pela raça dos seus protagonistas. A segunda parte teve muito mais azul do que vermelho, mas a primeira, reconheçamos, teve menos FC Porto do que seria desejável. O bloco central portista, que tem quatro homens-chave para três posições, voltou a mostrar uma coesão e presença magníficas, onde só fica a faltar aquela pitada de sal que um elemento com outra craveira artística daria ao colectivo. Um 10 faz falta, digam o que disserem. Mas não é menos verdade que este meio-campo, assim como é, será determinante pela sua característica metamórfica, que possibilita um Dragão com várias faces distintas.

Hoje escolhemos ser um Porto de raça e combate. Era a combinação certa para dar tripla. O segredo foi André André. Mas Imbula, sem deslumbrar, mostrou que os tratores também ajudam a rebocar. E Rúben jogou sem medo de ser aquilo que é: um predestinado.

Eis as notas do primeiro clássico da temporada:


MAIS
André André: Eu fico pasmado com a grandeza deste pequeno jogador. É verdade que a casta é boa e que quem sai aos seus não tem o hábito de degenerar, mas devo dizer que nunca vi, nas quase três decadas que tenho de vida, um jogador tão parecido ao seu progenitor em campo. No estilo, na raça e na interpretação do jogo. André André é o pai emulado em campo. Não vou discutir se era mais rápido ou menos duro que António André, porque o pai já só o vi em DVD. Contudo, esta sequela promete ser tão boa ou melhor do que a primeira, pela entrega que o jovem André demonstra em campo, quando carrega esta insígnia. Para já, logrou aquilo que o pai nunca conseguiu: marcar ao Benfica. Há quem jogue pelo FC Porto e quem jogue pelo Porto. André André é claramente o segundo. E se dúvidas restassem neste seu processo de afirmação de azul-e-branco, o clássico de hoje dilacerou-as. Sem ver as estatísticas, aposto um tomate em como foi o elemento portista que mais segundas bolas ganhou. Ele que mede 1,77 metros. Além disso, esteve sempre muito interventivo e revelou uma inteligência nata na forma como "interrompeu" o jogo nas saídas de bola do adversário. Depois, claro está, o golo. Uma jogada de fino recorte rematada por ele. André André está mais que pronto. Para o FC Porto e para a Selecção. Mais importante do que isso, André André está pronto para fazer História de dragão ao peito. Tal como o pai.

Aboubakar: O camaronês continua a barrar muita manteiga. Está a crescer tão depressa como um Labrador e mostra, a cada partida que soma, o material de que é feito. É muito mais do que um ponta-de-lança. Hoje foi novamente o quarto médio da equipa, prejudicando-se a si próprio quando a bola pingava na área e Aboubakar não estava lá. Precisa de alguém atrás que lhe dê a liberdade total para dar água pela barba aos centrais. Falhou um golo cantado, mas antes dele Jackson também o fazia e antes de Jackson, Falcao também o fazia. Quem não se lembra daquela bola à trave do colombiano no clássico do ano passado? Acontece e não retira qualquer brilho a mais um jogo de enorme capacidade de luta deste jogador. Com ele em campo, o FC Porto joga com doze. E como futebol não é só futebol, é um orgulho ver um gajo que após levar uma traulitada na área para penalty, não se resigna ao facilitismo da falta, levanta-se e ainda tenta o golo. E logo a seguir cumprimenta o moribundo GR adversário num gesto que congelou por segundos a rivalidade Norte/Sul. Aboubakar é digno deste emblema. Pela qualidade e pelo fair-play. Porque para o camaronês, o que interessa é jogar à bola, como naqueles tempos em que corria descalço nas ruas de Yaoundé, com o cheiro a terra quente de África. Futebolista de elite. Homem com H.

Maxi: Maxi, a esta hora és provavelmente o maior porco javardo que alguma vez passou no futebol português. Há até quem te deseje uma lesão para a vida ou a morte por impalamento. E sabes porquê? Porque estás num país de almas tristes. Porque a nomenclatura varia consoante a lente. Porque raça em azul escreve-se javardice a vermelho. Porque dureza em azul lê-se maldade a encarnado. Tu até podes ser o mesmo Maxi de sempre. Impetuoso, raçudo, gattusico, rijo, às vezes exageradamente agressivo em prol das cores que defendes e, acima de tudo, um escudo humano do teu grupo. Mas só foste bom enquanto foste vermelho. Sob o manto sagrado protetor, todas os defeitos são virtudes. É dogmático. Agora que estás do outro lado, convido-te a contemplar a desonestidade que serviste durante oito anos. E já reparaste como estás a ser mais amarelado do que nunca? É fácil ser Benfica. É difícil ser Porto. Muito difícil, neste país de impostores. Mas nada temas; aqui serás abraçado como um filho. Tens alma, Maxi. O "dois" fica-te bem. Tão bem.

«Os jogadores do Benfica defendem a camisola deles e eu a minha»

Corona: Não é um + pela exibição, mas pela circunstância. Tendo em conta que jogou o primeiro clássico pelo FC Porto logo no segundo jogo a titular, com apenas três semanas de casa e, durante 25 minutos, fora da sua zona de conforto, devo dizer que não se inibiu como previa, perante a carga psicológica que a partida impunha. Na primeira parte, esteve melhor do que o colega da outra ala, mas terá sido o primeiro a ser sacrificado na segunda pelo facto de Brahimi estar mais identificado com os processos de circulação da equipa e porque Varela casa muito melhor com Maxi, na direita do ataque portista. Tem uma qualidade técnica magistral e quando pega na bola torna-se difícil de o parar. Foi absorvido pela dormência da equipa na primeira parte. No entanto, apresentou bons pormenores e na etapa complementar acompanhou o ímpeto do grupo no assalto ao palácio do Calígula, até ao momento da sua saída. Com este jogador, o FC Porto ganhou dois abre-latas de peso em cada ala. E quando ambos -- Brahimi e Corona -- carburarem a mil, as asas do FC Porto vão ganhar outro dinamismo.

Alterações: É provável que este ponto figure nas notas negativas da uma parte dos meus colegas da Bluegosfera. Especulo eu, dada a reação do estádio às substituições dos dragões. Contudo, Lopetegui foi inteligente nas duas primeiras mexidas. A última, mais controversa, talvez pudesse ter sido fortemente contestada se o FC Porto não vencesse. Vamos por partes. A entrada de Varela era expectável e necessária, não só pelo desgate a que os extremos estavam sujeitos, como pelo facto de o capariquense ser o jogador do plantel (a par de Maxi) com mais sangue circulado em clássicos. A título de curiosidade, era também o elemento do plantel com mais golos marcados ao Benfica. E, por norma, costuma ter bons desempenhos nos encontros contra o rival. Embora não tenha tido uma entrada auspiciosa, é da sua astúcia que nasce a vitória. Rúben por Danilo foi jogar areia na massa. Resultou, deu consistência e a equipa, que já não precisava de tanta circulação de bola mas de ganhar as sobras de um jogo cada vez mais directo, instalou-se em definitivo no meio campo adversário. Com Danilo em campo, o Benfica não voltou a rematar. Já a troca de Aboubakar por Osvaldo pode ser interpretada como pouco ambiciosa. No entanto, Lopetegui não estava com isso a querer jogar para o empate, mas a preservar a frescura no centro, evitando assim tocar no principal motor da avalanche portista da segunda parte: o meio-campo. Compreensível.


MENOS
Primeira Parte: O FC Porto entrou demasiado apático no jogo e permitiu a supremacia ao adversário nos primeiros 20, 30 minutos de jogo. Essa passividade podia ter ficado cara, não fosse o talento de Casillas e a assertividade do quarteto defensivo do FC Porto. A equipa jogava perante o seu público, na máxima força, contra um rival ainda à procura da melhor forma, mas parece ter acusado as depesas do jogo com algum nervosismo. O mérito deve-se também à equipa do Benfica que conseguiu produzir futebol durante esse período, impedindo que o meio-campo portista tomasse conta do encontro. Com o tempo, veio igualmente o equilíbrio. E é claro que é sempre preferível terminar a começar por cima. Ainda assim, a falta de chama dos dragões na etapa inicial assustou.

Brahimi: Brahimi não fez um mau jogo por assim dizer, mas esteve demasiado previsível nas suas ações, só se conseguindo soltar a espaços, quando a equipa já estava instalada no reduto encarnado. Continua a individualizar em demasia, quando até tem em Layún um bom complemento atacante. O argelino ainda não responde com frequências às diagonais propostas pelo mexicano. Natural, por um lado, pela falta de rotinas com o companheiro, mas um processo a consolidar o mais cedo possível.

Bolas paradas: Continuam a ser uma nulidade. Existem evidências de jogadas de laboratório, como o lance em que Layún desmarca Brahimi, com um passe de rutura que deixou o argelino praticamente isolado. Porém, é nas bolas despejadas para a área que o FC Porto teima em não acertar o passo. Se, no ano passado, 50% do problema se devia aos frouxos cruzamentos de Quaresma na direita ou às charutadas de Tello na esquerda, este ano, os centros até têm sido bem executados pelos novos protagonistas mexicanos -- Layún e Corona. O problema é que a correspodência raramente encontra destinatário, como sucedeu hoje, e é pouco provável que um canto termine em remate à baliza adversária. O FC Porto tem jogadores altos. Check. O FC Porto tem músculo. Check. O FC Porto tem bons cabeceadores. Check. O que falha? Organização posicional ofensiva, eventualmente. Um aspecto que Lopetegui tem rapidamente de corrigir.


Momento: Intervalo. Não sei bem o que Lopetegui disse aos seus pupilos durante o descanso, mas ao contrário do que tem acontecido nos últimos jogos, o intervalo não provocou sonolência. Pelo contrário, foi o toque de despertar de que a equipa necesitava para contrariar este estranho Benfica de Rui Vitória. Foi o ponto de viragem no jogo e o mote para o domínio das operações na etapa complementar. Lopetegui não tem primado por discursos revigorantes, mas desta vez soube escolher as palavras certas durante a pausa. Isso ou prometeu aos jogadores que mudava de penteado se eles ganhassem o jogo.


Pormenor: Ao contrário do catedrático, ainda sou dos que acredita no fair-play. Como o passou-bem de Aboubakar a Júlio César, ou aquele segredo que só Luisão e o camaronês sabem porque motivou tanta gargalhada entre dois soldados de lados opostos. Ou até Gaitán a defender um isolado Maxi, que jogou contra tudo e contra todos. Sururus, há sempre. Nos clássicos, é condição sine qua non. Trata-se da resposta natural do nervo à competitividade. Mas é bonito constatar que, em certos momentos, a amizade ainda prevalece sobre tudo o resto. Inclusive sobre o futebol. Se não for nas bancadas, que seja assim nos relvados.



Ganhámos o clássico. 
É o que realmente importa.

Quatro pontos a mais do que o mais forte candidato ao título e um "quinto" com a vantagem à maior no confronto directo, até ver.

Entretanto, sabe Deus que justificação vou arranjar para dizer à maria que virei a mini-mesa da sala ao contrário com um chuto. Parafraseando um grande amigo meu, quanto mais velho estou, mais criança estou. Estou tão fodido. Mas tão contente.

domingo, 13 de setembro de 2015

FCA 1 x 3 FC Porto: É duas Coronas e um pires de camarão-tigre, ó sôr André

Sejamos honestos. Não há maior hipocrisia no léxico do futebol português do que aquele clássico chavão do: "só pensamos em nós próprios". É uma expressão falaciosa, perigosa até. Primeiro, porque o futebol não é conjunto de ilhas isoladas, mas um sistema encadeado de partidas, eventos e factores que não são independentes e exercem influência entre si. Segundo, porque quem acredita realmente nessa filosofia arrisca-se a ter tanto sucesso na carreira como Luís Campos. Por isso, era fundamental dar uma resposta contundente à goleada do Benfica na véspera, que não só galvanizou o rival na antecâmara de um clássico, como deixou o FC Porto em sentido e obrigado a dar troco no campo anímico. O futebol é um jogo de parada e resposta que vai muito além do relvado, do banco ou da bancada. É preciso ser mais forte a todos os níveis. E seria escusado dispararem aquele outro velho prolóquio do futebolês de que para o adversário "foram só três pontos". Não vale a pena. Todos sabemos que isso não é bem assim. E de lugares-comuns, está o futebol cheio.


Mais, era preciso resistir à pressão avassaladora do Sistema, que ontem voltou a largar-nos um tronco no caminho. João Capela tinha a missão clara de complicar o jogo e descomplicar o campeonato. Cedo mostrou o motivo pelo qual foi eleito para um dos encontros mais delicados da época para o FC Porto: a sua relação com a cartolina. Quase aposto que a cadeira favorita deste rapaz na preparatória era Educação Visual tal é o prazer com que exibe os rectangulozinhos do castigo. Foi cuspir amarelos como se não houvesse amanhã e sempre para o mesmo lado. Até a Cofina manifestou um certo espanto com mais uma capelada com elevada nota artística. 

Respondemos a tudo. E bem. A máquina mostra-se cada vez mais oleada e ontem, num terreno difícil e onde muitos irão certamente cair, a equipa ofereceu alguns lampejos do bom futebol à Porto, com movimentações ofensivas interessantes e várias vezes em alta rotação. Em campos como o de Arouca, não se pede ópera, mas uma sinfonia que funcione. Aconteceu. Algo que só nos pode deixar confiantes para o que vem aí. 

Notas, notas:

MAIS
André André: Ou deverei dizer André André André André? Como vi a partida num casamento, e sob os efeitos naturais de quem está num local com bar aberto, pensei que já estava tão bêbado que via Andrés a triplicar. Mas não, é apenas um que vale por muitos. Primeiro pela polivalência que empresta ao colectivo, sendo aquele gajo que mete logo a mão no ar quando é preciso sacrifício e trabalho forçado. Foi o pêndulo que conectou a tracção de Imbula com a suavidade e elegância de Ruben Neves. Mesmo na esquerda, após a saída do francês, não desapareceu do jogo e ajudou a dar corpo ao miolo, numa altura em que Lopetegui pretendia sobrepovoar o meio-campo para conter o avanço dos homens de Lito. Há muito que o André filho reclamava a titularidade. Quando foi contratado ao Guimarães, depois de tantos vai-não-vai, festejei de punho cerrado no ar. A SAD do FC Porto marcou um golo de belo efeito com o resgate deste pequeno grande jogador.

Corona: Se foi para isso que vieste... então ainda bem. Primeiro jogo, primeira amostra daquilo que podemos esperar deste jovem mexicano com nome de cerveja com tchiripiti. Exibição feliz, na estreia na Liga Portuguesa, a mostrar uma velocidade sensacional e uma inteligência de movimentos admirável para um miúdo de meros 22 anos. Para quem chegou há tão pouco tempo, confesso-me surpreendido com a forma como se deu bem com as manobras atacantes de equipa, parecendo até que tinha feito a pré-época com o restante grupo. Corona tem traço de artista, ao qual lhe junta um poder de fogo invulgar para um extremo e que será certamente a salvação em noite de desinspiração de Aboubakar ou Osvaldo. Além disso, mostra aquilo que Tello ou Varela por vezes parecem não ter: confiança em si próprios.

Rúben Neves: Mais classe do que isto só Michael Caine em Dirty Rotten Scoundrels.
Rúben tem, aos 18 anos, potencial para ser o jogador mais parecido com Paulo Sousa que alguma vez o futebol português teve. Trata a bola com uma sensibilidade impressionante e às vezes dá a impressão que joga de comando de Playstation, tal é a maneira como vê desmarcações que nem num LED de 52 polegadas um tipo descortina e ainda pica o esférico com uma precisão militar assombrosa, que me faz duvidar se aquilo foi chuteira ou L1 + Δ. Falta-lhe poder de choque, verdade. Mas eu com a idade dele nem a luta contra dias de vendaval vencia. Vai a tempo, bem a tempo, de ser um dos melhores da nova geração que alguma vez pass(e)ará nos relvados lusos. Um regalo para gerir com pinças.


MENOS
Brahimi: Um pouco menos intenso do que em jogos anteriores, acabou bem substituído. Tentou muita coisa, mas muita coisa saiu mal, em dia-não para o argelino. Talvez esteja a acusar algum cansaço de ter sido o principal transportador de jogo nas partidas anteriores.

Entrada de Bueno: Fazer entrar um jogador para lhe dar minutos a escassos 180 segundos do fim é o mesmo que dar festas ao porco antes de o matar. Este tipo de prática, que nem beneficia o jogador nem a equipa, só faz sentido quando é necessário somar um "terceiro" central à área ou meter mais avançados para o chuveirinho final. Para dar rodagem, nunca. Esta estratégia fonsequiana não só pressionou ainda mais o jogador como era escusada: o FC Porto já vencia por 0-3 ao 71'. E não foi certamente para estancar defensivamente a equipa que Alberto Bueno pisou o relvado. Uma pequena mancha no registo de Lopetegui, que até teve uma noite de boas decisões e grande leitura táctica do jogo. Quanto ao avançado espanhol, fez tudo impecavelmente bem nos três lances que disputou no curto tempo de exposição que teve para brilhar.


Momento: Minuto 15'. Imbula, André André, Rúben, Corona, Aboubakar, Corona outra vez, golo. Foi provavelmente a jogada colectiva mais bem desenhada do FC Porto esta temporada. Processos simples, passes rápidos e seguros, progressão em bloco, um toque magistral de Aboubakar e a tal inteligência na movimentação de Corona. Belo tento do FC Porto, que acima de tudo, aliviou a equipa e desbastou o trilho para a vitória.


Pormenor: Jesús Corona bisou na estreia pelo FC Porto, igualando um feito com quinze anos. Em 2000/2001, "Pena", também ele outra contratação de última hora do defeso azul-e-branco, precisou apenas de meia-hora para bisar no primeiro jogo com a camisola portista. Pena era um tipo curioso. Embora trapalhão nato, tinha rasgos à Ronaldo, o fenómeno, com a mesma frequência com que passa o cometa Halley. Essa época foi, aliás, um marco de fenómenos. Pena marcou cerca de 30% dos golos (21) que marcou em toda a carreira profissional (65) e o Boavista foi campeão. Outro fun fact: Pena era a alcunha que escondia o mesmo nome que ontem fez história: Renivaldo Pereira de Jesus. No FC Porto, Jesus é um nome abençoado, portanto. Como dizia o outro: 'Tá Engrassade.

A paragem para os jogos das seleções foi menos nefasta do que costumava ser nos últimos anos. A equipa ressurgiu fisicamente mais forte e superou um teste psicológico exigente. A rotatividade resultou e o FC Porto parte para a Ucrânia com a casa limpa.


Antes de receber o Benfica, vamos a Kiev e é nessa partida que os atletas terão de se focar primeiro. Um bom resultado contra os ucranianos será crucial para manter o percurso ascendente da forma.


Porque futebol é sequência e consequência, quer queiramos quer não.