quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Brahimi: Uma questão de fé

Desde que me lembro de existir, colecciono interesses que nunca pararam de crescer comigo.

Herdei a curiosidade natural do meu pai e cedo distingui no mundo uma miríade de coisas que me fascinam até hoje. O povo costuma chamar-lhe pancadas.

Para além da já aqui bem propalada paixão pelo futebol, sempre fui mais campo que praia, mais fotografia que vídeo, mais ciclismo que ténis, mais SUVs que crossovers, mais Kafka que Kundera, mais Censurados que Fonzie.

Porém, nunca nenhum destes ímanes pessoais me atraiu tanto como o singular mundo árabe. Em particular, aquela mancha do planisfério que chamamos de Médio Oriente e toda a efervescência que dele emana. Para mim, ateu que confessa já ter lido mais Corão do que Bíblia, é um dos puzzles geopolíticos mais intrigantes, complexos e absorventes do mundo contemporâneo.

Abramos o mapa. Apontemos àquele local onde a Eurásia parece segurar África por um braço. Quase como se estivéssemos a colocar o dedo numa ferida antiga: Gaza, o epicentro de um conflito muito mais vetusto do que os rockets do Hamas ou os massacres da Tzahal. E muito mais vasto do que o petróleo de Meged, as teses do Sionismo ou o revolucionarismo do Fatah.

O conflito Israelo-Palestiniano é uma guerra que trespassa décadas e fronteiras e que nasceu de uma mesma história contada de duas formas diferentes.

Seria redutor chamar-lhe apenas uma disputa por território sagrado. Trata-se de uma luta de génese, política e, sobretudo, fé, entre dois povos com identidades religiosas antagónicas -- judaísmo e islamismo. É talvez o maior exemplo vivo da verdadeira Guerra Santa. E nós, portistas, bem sabemos que não há espaço para duas crenças diferentes no mesmo coração.

Mas este texto não versa sobre conflitos alheios. Versa sobre os nossos. Os interiores. A jihad inócua que praticamos diariamente connosco próprios, às vezes sem nos darmos conta disso.

Precisamente o dilema que devassa Yacine Brahimi por estes dias.

O extremo argelino nunca escondeu o seu apoio à causa palestiniana. A Argélia, aliado histórico e uma espécie de meia-irmã magrebina da Palestina, não suporta nem possui relações diplomáticas com Israel. São Estados imiscíveis.

Do Magrebe, os conterrâneos pressionam Brahimi a passar “das palavras aos actos” e a boicotar a viagem a Tel-Aviv. O próprio jogador deve preferir quatro Ramadões de enfiada a ter de pisar solo israelita. Pelo que ainda sem se comprometer publicamente sobre o assunto, o argelino afirma que essa decisão diz respeito a ele próprio e ao clube que representa.

E diz bem. Muito bem até.

Sobretudo, porque essa decisão cabe mais a Brahimi do que ao FC Porto.

Brahimi: Um dos dois jogadores muçulmanos
do FC Porto. O outro é Aboubakar.
Importa esclarecer que não estamos a falar de birras ou cismas triviais, mas da força e relevância de um credo. O mesmo que levou Islam Slimani a praguejar forte e feio contra Adrien quando este o regou com meia garrafa de champanhe na Supertaça -- o islão abomina o álcool.

Sim, o FC Porto poderia fazer prevalecer os trâmites contratuais e pressionar Brahimi a jogar o jogo que o jogador não quer. Mas teria mais a perder fora do que dentro dos relvados. Estou certo de que o clube compreenderá isso.

Por isso, meu caro Yacine: subscrevo qualquer que seja a tua resolução moral. Reconheço-te pleno direito de te recusares a jogar contra o Maccabi em Israel e se a tua decisão for essa, apoio e nunca te censurarei por isso.

Não te censurarei mesmo que o FC Porto vá a Tel-Aviv sem ti e a precisar dos três pontos como de pão para a boca.

Não te censurarei mesmo que o FC Porto vá a Tel-Aviv sem ti e empate o jogo com uma exibição cinzenta.

Não te censurarei mesmo que o FC Porto vá a Tel-Aviv sem ti e perca a partida e as possibilidades de passar à fase seguinte porque faltou um rato atómico capaz de judiar toda a defesa contrária.

Nunca te censurarei pelas escolhas que faças em nome da tua família, religião, credo, raça ou ideário, se elas vierem, de facto, do âmago individual. Nem a ti nem a qualquer outro jogador do FC Porto.

Porque a fé será sempre uma questão delicada, que deve ser tratada à luz da magnitude que tem. 

E porque o futebol continua a ser apenas a coisa mais importante das coisas sem importância nenhuma.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O mercado da fome

Ir às compras com fome nunca foi uma boa estratégia.

A privação tolhe-nos o raciocínio e influencia o cérebro a ponto de este se desdobrar numa ginástica de relativização do valor das coisas. O caro torna-se barato; o muito nunca deixa de parecer pouco e qualquer gordura passa a fazer todo o sentido. Engavetamos o longo-prazo num canto da consciência e desprotegemos o discernimento, rapidamente anexado pelo instinto do imediato.

Com o estômago em suplício, um supermercado é como um Louvre para a nossa percepção sensorial. Então se chegarmos perto da hora do fecho, multiplique-se tudo por mil.

Ora, o FC Porto tem aqui um problema de barriga.

As últimas investidas da SAD ao mercado têm sido marcadas por decisões precipitadas, práticas contraditórias e aquisições questionáveis, distantes do modelo de negócio ganhador que projectou o FC Porto para o topo dos clubes que "compram bem, vendem melhor" na Europa do futebol.

A perda da exclusividade desse modelo era previsível. O sucesso sempre foi sinónimo de exemplo e seria impossível o clube manter um método transacional tão eficaz sem ser copiado.

Jesús Corona: o agitador azteca
Mas o aparecimento de novos players nesta máquina retirou força, peso e poder ao FC Porto na esfera negocial. Os fundos e outras plataformas de financiamento tornaram-se uma realidade incontornável e açambarcaram o domínio das operações do mercado de tal forma que até o patriarca do modelo ganhador sucumbiu à dependência de terceiros.

Nenhum grande dos campeonatos intermédios europeus se pode gabar de ter escapado a este assalto. E, paulatinamente, os fundos vão começando a bater à porta da nata fina do velho continente.

Que o paradigma do mercado mudou não é novidade. Novidade é a dimensão que a subordinação dos clubes a estas third parties tomou. Surpreendente e assustadora.

Hoje, já nem os próprios clubes fazem as suas listas de compras. Entrámos na era dos catálogos por imposição, que empobrecem os cofres e a independência dos emblemas. Uma gestão Laredoutiana que, temo, tenha chegado também ao FC Porto.

O plantel orientado por Julen Lopetegui expôs cedo as suas lacunas: a falta de um criador, de um patrão e de um agitador. Mais tarde, haveria de faltar também um elemento para suprir a saída de Alex Sandro.

Com excepção deste último, os restantes dossiers foram tratados de forma unidimensional: Lucas Lima foi o único 10 que o "FC Porto" procurou; Antonio Rudiger, o único central que o "FC Porto" admitia e Jesús Corona foi o tudo ou nada do "FC Porto" na recta final do defeso.

Três atletas sem universo alternativo e com um denominador comum: Doyen Sports Investment, o 'parceiro' habitual dos dragões nestes últimos anos.

Claro que este tipo de estratégia permite manter elevados índices de competitividade lá fora. Mas não é menos verdade que o planeamento do FC Porto, ano após ano, está a tornar-se perigosamente subvertido à agenda do fundo maltês. Haverá forma de equilibrar a balança?

É evidente que nesta relação FC Porto/Doyen as duas partes pretendam garantir o máximo de benefícios e isso só será possível se ambas remarem no mesmo sentido. O clube mantém um plantel de qualidade e com capacidade para discutir títulos; a Doyen retira dividendos da valorização dos seus ativos. Casos como o de Brahimi e Imbula, a título de exemplo, corroboram-no.

Danilo: 141 jogos pelo FC Porto
Mas esta associação é igualmente a prova de que estamos cada vez mais condicionados a "comer" aquilo que a Doyen nos dá. Mais fast-food e menos hortaliça, o que torna as equipas do FC Porto cada vez menos formatadas para o longo prazo e obrigadas a profundas reestruturações anuais que em nada a aproximam de resultados desportivos em série.

A ideia de projecto tornou-se obsoleta. A falta de ciclos duradouros ou apostas de futuro, como foram as bem sucedidas contratações de Danilo e Alex Sandro, talvez as duas últimas duas bandeiras do tal modelo ganhador do clube, traduzem-se em momentos como o de ontem, onde o FC Porto se vê agrilhoado aos únicos alvos que o catálogo tem para oferecer, sendo forçado a arrastar os processos quase até ao fecho das persianas do mercado.

Uma situação anormal noutras alturas, mas sinal (inquietante) dos novos tempos.

Corona transborda de promessas, mas ainda não é uma certeza. E o preço pago pelo mexicano é um numero pesado e que deixará muita gente a salivar pelas contas do próximo exercício.

Sobretudo quando no plantel existia um jogador português com um potencial muito semelhante, que se tornou na mais recente vítima da espiral de empréstimos dos quais os jogadores do FC Porto raramente regressam.

Falo, claro, de Ricardo Pereira: defesa-direito na equipa A, extremo na equipa B e avançado na selecção. Uma cobaia que merecia ter sido muito mais do que isso.

Uma gestão mais inteligente dos próprios ativos também ajuda a reduzir o risco e a influência exercida por terceiros no planeamento do clube. E é um bom princípio para começar a aliviar este grilhão.

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Nota final: Não me esqueci de Miguel Layún. Recordo-me vagamente dele no último Mundial, naquele caos organizado que era o México de Miguel Herrera. Enquanto pessoa, do que tenho visto, demonstra uma selfawareness invulgar, uma maturidade assombrosa e mostra ser um exemplo de perseverança a vários níveis. Terá peso no balneário. Eis uma curta mas agradável história de superação. Recomendo:



domingo, 30 de agosto de 2015

FC Porto 2 x 0 EST: Bomba de fé contra julgamentos sumários

Julen Lopetegui afirmou na antevisão do jogo desta 3ª jornada que o Estoril tinha dominado os primeiros 75 minutos de jogo na Luz. Não sei se o intuito do técnico do FC Porto seria enfatizar a qualidade dos canarinhos ou mandar uma bicada ao Benfica. Ou ambos. A verdade é que Lopetegui podia ter-se socorrido do mesmo barómetro para avaliar a prestação da sua equipa, no Dragão, frente a este mesmo Estoril. E facilmente constataria que o adversário também mordeu os tornozelos ao Dragão durante mais tempo do que devia. Se utilizarmos a mesma bitola lopeteguiana que foi usada para o rival, talvez até 75 minutos. Só que em vez dos primeiros, os últimos da partida.

Isto porque o FC Porto perdeu-se no mapa pouco depois do primeiro golo. Não fosse o foguete de sinalização de Maicon e entrada de Herrera -- que ontem foi bússola -- o desnorte poderia ter saído caro. Para um corpo que acaba de sair de sete transplantes, é natural que necessite de tempo para absorver os novos orgãos. Julgo que ninguém poderia esperar uma recuperação rápida sem sobressaltos. Mas é importante que o treinador acelere a afinação de processos e invista sobretudo na articulação da máquina, porque o gongo da pré-época já soou há muito.

Eis as notas:

MAIS
Maxi: O uruguaio conquista os adeptos a cada jogo que faz. Imprime a raça que trazia no catálogo e nem parece que andou oito anos a jogar num clube que tem no ódio ao norte e ao FC Porto o principal combustível. É lateral, médio-ala e extremo. Tudo no mesmo jogo. Há os que são e os que dizem que são. Maxi é claramente dos primeiros. O portista emocional que há em mim vomitou a sua vinda e ganhou três úlceras nervosas quando viu que ia herdar a mítica camisola dois. O portista racional que vive cá dentro dizia-me que era um golpe à Pinto da Costa. Grande contratação, jogador de raça e qualidade, com garantia de rendimento imediato e, ao mesmo tempo, um duro desfalque no rival. Até porque o futebol é um jogo de soma zero: para uns saírem a ganhar, outros têm necessariamente de ficar a perder. Ganhou a razão. Corrijo: Maxi conquistou-me a razão. O respeito e admiração também. O novo número dois do FC Porto tem sido o jogador mais regular deste início de época, com exibições sempre em alta rotação e uma entrega inatacável.

Marcano/Maicon: O primeiro porque é certinho como o destino. O segundo porque merece o destaque muito para além do golo que marcou. É que Maicon parece ter regressado este ano com outra precisão na chuteira. Se tivesse de apostar, diria que o brasileiro abdicou das férias em Cancún para tirar um curso intensivo de "Como Meter a Bola Onde Queres" com Rémi Gaillard. Ao cabo de três jogos a sério (+ uns quantos da pré-época), o empirismo já permite uma conclusão firme: Maicon melhorou -- e de que maneira -- o passe longo. As suas charutadas já não são um problema para o sector da restauração do Dolce Vita, mas -- finalmente -- para as defesas adversárias. Continuo a achar que usa e abusa deste recurso, mas pelo menos tem-no feito com qualidade, acertando muito mais do que falha. Depois, claro está: o golo. Mais que não seja, foi a injeção de calmantes de que a equipa precisava e ajudou o FC Porto a acertar o passo. Mais dessas, por favor.

Danilo: Sei que esta escolha não é consensual e talvez o jogo de ontem pedisse mais Rúben e menos Danilo. Mas para quem chegou este ano, com a pesada herança escrita por Casemiro e Fernando, Danilo tem mostrado uma consistência defensiva semelhante a uma tijela de Nestum com seis dias. É muito difícil fazer passar a bola por ele. Não tivesse sido tão prejudicado por um Imbula ainda em adaptação e pela liberdade total com que Brahimi assumiu a função de organizador, talvez tivesse sobressaído mais no encontro de ontem. Contudo, e para mim, Danilo é daqueles que brilha na sombra, sem fazer muito barulho. Precisa de melhorar a saída de bola, um capítulo que se ganhará com rotina, tempo e confiança.

Herrera: Se nos primeiros dois jogos da temporada foi a face da desorientação, ontem foi a bússola que -- juntamente com André André -- deu alguma organização ao caos. Entrou sereno e emprestou o toque de equilíbrio por que a equipa tanto ansiava. Ainda está longe de ser aquele box-to-box pendular que procuramos, mas passou muito por ele a estabilidade da linha média. Ainda semi-marcou um golo após fora-de-jogo que só o fiscal-de-linha viu. Mas era expectável que Duarte & Companhia tentassem intrujar o FC Porto. Aqui, nada de novo.


MENOS
Lopetegui: Antes que me lapidem: o homem fez o que lhe competia em campo. Mexeu bem e os riscos que correu -- tirar Varela a cinco minutos do intervalo por exemplo -- compensaram. Até a escolha de Indi para titular na esquerda foi uma manobra inteligente. O problema está fora das quatro linhas. Estava por explicar se a ausência Cissokho era de ordem física ou técnica. Lope respondeu com um "nim". É certo que Cissokho está longe dos índices físicos desejados, até porque, desde fevereiro deste ano, só tem 180 minutos oficiais nas pernas. Mas, com certeza, não terá sido somente após o jogo com o Marítimo que o treinador descobriu isso. Se não servia para o banco no Dragão, também não servia para o relvado na Madeira. Cissokho errou na ilha. True that. Mas Herrera e Tello também têm errado. Precisamente porque, tal como o francês, também estão fora de forma. Não se pode ter dois pesos e duas medidas no balneário. E se Lopetegui insistir em fazer deste tipo de castigo-exemplo o seu modus operandi, não lhe sobrarão aliados no final do ano.

Varela/Tello: O portugês entrou mal, falhou praticamente todos os passes e pareceu sempre demasiado lento quer no raciocínio quer na execução. Jogou 39 minutos, não fez nada digno de registo e foi bem sacrificado. O espanhol prolonga a saga dos duelos perdidos e continua sem conseguir ganhar no 1x1 a um eucalipto. Dá ideia que só tem uma finta no cardápio técnico, assemelhando-se a uma locomotiva cega e desgovernada que espera pelo melhor quando encara uma parede de frente. Este dragão, sem Brahimi, não tem asas. A solução pode passar por Corona, mas convém recordar que o mexicano ainda é um protótipo de jogador. E de promessas está o futebol cheio.

Tribunal: Ter um público apelidado de "Tribunal" não pode ser apenas prosápia, tem de ser acima de tudo responsabilidade. Lamento mas assumo o que vou dizer a seguir: a maioria dos juízes deste tribunal parecem os mesmos dos sumaríssimos do Estado Novo. Se a equipa falha um passe, assobia-se; Se o Brahimi individualiza, assobia-se; se o Imbula perde a bola, assobia-se; se o Marcano veste o colete ao contrário, assobia-se; se o Indi dá um peido, assobia-se. Execrável. Como o Miguel Lima tão bem cunhou, esta "massa assobiativa" tem em resultados como o da Madeira aquilo que semeia. Curto exemplo: se o meu patrão me der uma reprimenda em privado, depois de um erro cometido no emprego, eu absorvo, aceito e tento melhorar. Se o meu patrão me partir a cabeça a cada cinco minutos por tudo e por nada, à frente dos colegas, a minha única vontade é de lhe enfiar um soco no meio dos cornos. Julguem-se a vocês próprios, juízes, e escolham em que pé querem estar.


Momento: Minuto 67'. Maicon diz qualquer coisa a Brahimi. Dá uns seis passos atrás e investe no bicho. Fica a ideia de que Kieszek podia ter feito melhor, mas a bola levava fogo e efeito. A bomba do brasileiro arrefeceu um Estoril atrevido, que criou muitas dores de cabeça ao FC Porto. Mais do que isso, Maicon já reclamava para si esta oportunidade. Tal como nos passes longos, há ali treino visível. No FC Porto, valoriza-se quem corre por fora.


Pormenor: Brahimi a 10 é refresco. Não há no plantel atual ninguém com a capacidade do argelino para desenhar perigo a partir do centro. Mas Brahimi ainda tem n aspectos tácticos por aprimorar na posição e vai precisar de muito tempo -- e jogos -- para se formatar. Isto se Lopetegui mantiver a aposta. Com tudo isto, levanta-se inevitavelmente uma questão. Onde cabe e para que serve Bueno?

Jogo sem sal, mas que vale pela vitória, pelos três pontos e pela chegada ao 1º lugar da Liga, a par de Arouca e talvez Sporting, antes da primeira paragem das competições para selecções a até ao fecho dos mercados europeus.

Aproveitar para reflectir.

A equipa e o tribunal.

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Nota final: Fiquei sem computador, daí o atraso na publicação dos últimos textos. Tentarei resolver a situação com a maior br€vidad€ possível.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A volta à Europa em 83 dias

Nem mel, nem fel.

O fado que nos cantou o sorteio da Champions não é a canção alegre, mas podia ter sido bem mais triste.

Pesam mais as adversidades do que os adversários. Já lá vamos.

Chelsea, Dynamo Kyiv, Maccabi Tel-Aviv.

Será tempo de rever Mourinho, revisitar Kiev e dar um saltinho a Tel-Aviv, onde iremos jogar, mais coisa menos coisa, a 70 quilómetros de Gaza, caso seja preciso alguma inspiração para encarar cada jogo como uma batalha. (Shouldn’t have said that.)

Tendo em conta que estávamos confinados a receber Barcelona, Bayern, Chelsea ou Zenit, os ingleses estão longe de ter sido um péssimo desfecho. Entre defrontar os atuais campeões europeus, a Luftwaffe que nos bombardeou o ano passado, uma equipa que tem Hulk e outra que tem Mourinho, prefiro a última.

Em teoria, o Zenit seria a minha primeira escolha. Foi, até os bombos pararem. Mas ao saber que tínhamos quase um terço de planeta para percorrer entre Ucrânia e Israel, somar-lhe mais uma jornada aérea de mais 8.000 quilómetros não seria profícuo para a equipa e arriscaria consequências no campeonato.

Depois, sejamos francos. Na companhia de monstros como Barcelona e Bayern, o FC Porto estaria, muito provavelmente, condenado a uma luta a três pela única vaga disponível: o segundo lugar.

Já Ucrânia é um clássico. Nos últimos cinco anos anos, quatro viagens. Desta vez não vamos a Donetsk, mas Donetsk estará certamente connosco. (I really should be punished for this.)

Ir a Kiev já em Setembro seria fantástico, não tivéssemos um clássico com o Benfica quatro dias depois. Vamos evitar o rigoroso tempo do leste europeu. Mas teremos de ser igualmente rigorosos na gestão que faremos deste jogo.

Para completar o ramalhete, Tel-Aviv. Sobre o Maccabi, pouco sei. A não ser que Paulo Sousa andou por lá e que já venceram duas Ligas dos Campeões. Da Ásia.

É sempre conveniente apanhar o elo teoricamente mais fraco na cambalhota da fase de grupos -- garante dois jogos consecutivos com elevada probabilidade de vencer. A dúvida é saber se esta equipa será efectivamente o elo mais fraco deste grupo.

Somando tudo isto e parafraseando Lopetegui, será uma fase de grupos complicada. Não apenas pela qualidade dos emblemas, como pela quantidade de milhas que a equipa vai fazer e pelo calendário desfavorável e incompatível com alguns dos momentos chave da época.

Considere-se igualmente que o onze do FC Porto está em obras e ainda está longe dos acabamentos e antevêem-se seis encontros complexos pela frente. Difícil, será sempre. O que não diminui a responsabilidade de passar à fase seguinte. Pese embora esta panóplia de pormaiores que sopram contra corrente, o FC Porto possui para lá de argumentos para estar entre os 16 melhores da Europa.

A aventura começa já a 16 de Setembro e prossegue, pelo menos, até 9 de Dezembro. Serão 83 dias de jornada europeia distribuídas por cerca de 17.000 quilómetros em viagens e uma bagagem carregada de expectativas elevadas e confiança no apuramento para a próxima fase.

Têm a palavra Lope e a rapaziada.


Calendário europeu do FC Porto | 2015/2016 @ zerozero.pt

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

32 bolas e o diabo a quatro

Dia de sorteio da Champions é sempre equiparável a dia de jogo.

Segue-nos uma expectativa incontrolável de saber em que lago de tubarões vamos nadar esta época.

De há uns anos para cá, as disparidades dos potes têm vindo a diluir-se acentuadamente, tornando-os cada vez mais iguais. Claro, continuam a existir alguns mais iguais do que outros. No entanto, a tendência de homogeneização progressiva é evidente.

Olhando para a atual distribuição do certame, vemos um pote 1 que não chocaria se fosse 2, um pote 2 com tanto músculo como o primeiro, um pote 3 muito bem maquilhado de pote 2 e um pote 4 que deixou de ser o bidon dos brindes.

Ao contrário da propensão que se tem verificado nos principais campeonatos nacionais da Europa, onde os grandes logram cada vez mais (e melhores) condições para se tornarem maiores e o fosso para os clubes de linha média/baixa alarga gradualmente -- salvé o excecional modelo de repartição de direitos televisivos da Liga Inglesa --, é de notar que suceda precisamente o contrário na Liga dos Campeões [e em certa medida na Liga Europa].

Não quer isto dizer que estejamos a assistir a um equilíbrio da competição em si. Até porque o futebol são 11 contra 11 e no fim ganha quem a UEFA quer. Mas os colossais hiatos qualitativos entre as várias camadas do sorteio encurtaram e é provável que no futuro possamos ver um Liverpool (ou um Milan em menor probabilidade) regressar à liga milionária pela porta mais pequena. Como aconteceu com o Mónaco em 2014.

Precisamente porque o sistema de avaliação de pontos da UEFA, cujo ranking de coeficiente tem por base os resultados registados nas cinco presenças europeias anteriores mais 20% do coeficiente da respectiva federação referente a esse mesmo período, penaliza annus horribilis e inflaciona desempenhos acima das perspetivas.

Por outras palavras, mais vale ter um cadastro regular de cinco anos pautado por prestações ligeiramente acima da média com um ou outro leve deslize do que duas extraordinárias épocas europeias, intercaladas com três miseráveis.

Além disso, a UEFA reestruturou o regulamento este ano, tornando o primeiro pote acessível apenas ao detentor do troféu e aos campeões dos principais campeonatos nacionais da Europa: o que explica a presença de Zenit ou PSV nesse grupo.

E se quisermos somar mais ingredientes, refira-se o facto de alguns takeovers de equipas russas, francesas, inglesas, etc. terem dado retorno a nível internacional, o que baralhou ainda mais os coeficientes da UEFA.

Nem é preciso recuar muito no tempo para constatar a evolução desta tendência. Voltemos apenas cinco anos atrás. Observe-se os potes do sorteio de 2010/2011:



Nesse ano, o dragão afinava a garganta para incinerar a outra metade da Europa do futebol. Na Liga dos Campeões, assistia-se a uma das últimas distribuições relativamente proporcionais do sorteio. Exceptuando a presença do Real Madrid na segunda tômbola, o corpo estranho desta lista, todos os potes tinham graus de qualidade verdadeiramente distintos entre entre si.

O Tottenham fazia a sua estreia na Liga dos Campeões, o Lyon vivia ainda os benefícios das últimas boas prestações europeias do final da década passada e nenhuma equipa desse pote 4 chegou aos oitavos, sendo que apenas duas conseguiram apurar-se para a Liga Europa.

Regressemos ao presente:



O alinhamento do sorteio desta quinta-feira deixa-nos sem grandes vontades de fazer conjecturas. Arrisco dizer que não sei se não terá sido preferível ficarmos no pote 2 e evitarmos (maybe..) as malditas viagens a Inglaterra, mesmo correndo o risco de regressarmos ao Allianz Arena.

Por outro lado, não há nenhuma equipa no pote 3 que não seja capaz de nos dar sérias dores de cabeça em qualquer um dos jogos. E no pote 4 existe uma que até sabe o que é vencer o FC Porto este ano.

Bottom line is: não há sorteios perfeitos. E os bons estão a acabar. Daí, a quantidade crescente de grupos da morte e o declínio de jackpots.

Podia dizer-vos que adorava ir à Holanda ou que preferia não ter de fazer 14.000 quilómetros para ir e vir do Cazaquistão, mas estaria a mentir: não tenho qualquer preferência. Desejo somente uma combinação favorável que nos permita alimentar o sonho (e os cofres).

Venha o diabo e escolha.