A privação tolhe-nos o raciocínio e influencia o cérebro a ponto de este se desdobrar numa ginástica de relativização do valor das coisas. O caro torna-se barato; o muito nunca deixa de parecer pouco e qualquer gordura passa a fazer todo o sentido. Engavetamos o longo-prazo num canto da consciência e desprotegemos o discernimento, rapidamente anexado pelo instinto do imediato.
Com o estômago em suplício, um supermercado é como um Louvre para a nossa percepção sensorial. Então se chegarmos perto da hora do fecho, multiplique-se tudo por mil.
Ora, o FC Porto tem aqui um problema de barriga.
As últimas investidas da SAD ao mercado têm sido marcadas por decisões precipitadas, práticas contraditórias e aquisições questionáveis, distantes do modelo de negócio ganhador que projectou o FC Porto para o topo dos clubes que "compram bem, vendem melhor" na Europa do futebol.
A perda da exclusividade desse modelo era previsível. O sucesso sempre foi sinónimo de exemplo e seria impossível o clube manter um método transacional tão eficaz sem ser copiado.
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| Jesús Corona: o agitador azteca |
Nenhum grande dos campeonatos intermédios europeus se pode gabar de ter escapado a este assalto. E, paulatinamente, os fundos vão começando a bater à porta da nata fina do velho continente.
Que o paradigma do mercado mudou não é novidade. Novidade é a dimensão que a subordinação dos clubes a estas third parties tomou. Surpreendente e assustadora.
Hoje, já nem os próprios clubes fazem as suas listas de compras. Entrámos na era dos catálogos por imposição, que empobrecem os cofres e a independência dos emblemas. Uma gestão Laredoutiana que, temo, tenha chegado também ao FC Porto.
O plantel orientado por Julen Lopetegui expôs cedo as suas lacunas: a falta de um criador, de um patrão e de um agitador. Mais tarde, haveria de faltar também um elemento para suprir a saída de Alex Sandro.
Com excepção deste último, os restantes dossiers foram tratados de forma unidimensional: Lucas Lima foi o único 10 que o "FC Porto" procurou; Antonio Rudiger, o único central que o "FC Porto" admitia e Jesús Corona foi o tudo ou nada do "FC Porto" na recta final do defeso.
Três atletas sem universo alternativo e com um denominador comum: Doyen Sports Investment, o 'parceiro' habitual dos dragões nestes últimos anos.
Claro que este tipo de estratégia permite manter elevados índices de competitividade lá fora. Mas não é menos verdade que o planeamento do FC Porto, ano após ano, está a tornar-se perigosamente subvertido à agenda do fundo maltês. Haverá forma de equilibrar a balança?
É evidente que nesta relação FC Porto/Doyen as duas partes pretendam garantir o máximo de benefícios e isso só será possível se ambas remarem no mesmo sentido. O clube mantém um plantel de qualidade e com capacidade para discutir títulos; a Doyen retira dividendos da valorização dos seus ativos. Casos como o de Brahimi e Imbula, a título de exemplo, corroboram-no.
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| Danilo: 141 jogos pelo FC Porto |
A ideia de projecto tornou-se obsoleta. A falta de ciclos duradouros ou apostas de futuro, como foram as bem sucedidas contratações de Danilo e Alex Sandro, talvez as duas últimas duas bandeiras do tal modelo ganhador do clube, traduzem-se em momentos como o de ontem, onde o FC Porto se vê agrilhoado aos únicos alvos que o catálogo tem para oferecer, sendo forçado a arrastar os processos quase até ao fecho das persianas do mercado.
Uma situação anormal noutras alturas, mas sinal (inquietante) dos novos tempos.
Corona transborda de promessas, mas ainda não é uma certeza. E o preço pago pelo mexicano é um numero pesado e que deixará muita gente a salivar pelas contas do próximo exercício.
Sobretudo quando no plantel existia um jogador português com um potencial muito semelhante, que se tornou na mais recente vítima da espiral de empréstimos dos quais os jogadores do FC Porto raramente regressam.
Falo, claro, de Ricardo Pereira: defesa-direito na equipa A, extremo na equipa B e avançado na selecção. Uma cobaia que merecia ter sido muito mais do que isso.
Uma gestão mais inteligente dos próprios ativos também ajuda a reduzir o risco e a influência exercida por terceiros no planeamento do clube. E é um bom princípio para começar a aliviar este grilhão.
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Nota final: Não me esqueci de Miguel Layún. Recordo-me vagamente dele no último Mundial, naquele caos organizado que era o México de Miguel Herrera. Enquanto pessoa, do que tenho visto, demonstra uma selfawareness invulgar, uma maturidade assombrosa e mostra ser um exemplo de perseverança a vários níveis. Terá peso no balneário. Eis uma curta mas agradável história de superação. Recomendo:










