domingo, 30 de agosto de 2015

FC Porto 2 x 0 EST: Bomba de fé contra julgamentos sumários

Julen Lopetegui afirmou na antevisão do jogo desta 3ª jornada que o Estoril tinha dominado os primeiros 75 minutos de jogo na Luz. Não sei se o intuito do técnico do FC Porto seria enfatizar a qualidade dos canarinhos ou mandar uma bicada ao Benfica. Ou ambos. A verdade é que Lopetegui podia ter-se socorrido do mesmo barómetro para avaliar a prestação da sua equipa, no Dragão, frente a este mesmo Estoril. E facilmente constataria que o adversário também mordeu os tornozelos ao Dragão durante mais tempo do que devia. Se utilizarmos a mesma bitola lopeteguiana que foi usada para o rival, talvez até 75 minutos. Só que em vez dos primeiros, os últimos da partida.

Isto porque o FC Porto perdeu-se no mapa pouco depois do primeiro golo. Não fosse o foguete de sinalização de Maicon e entrada de Herrera -- que ontem foi bússola -- o desnorte poderia ter saído caro. Para um corpo que acaba de sair de sete transplantes, é natural que necessite de tempo para absorver os novos orgãos. Julgo que ninguém poderia esperar uma recuperação rápida sem sobressaltos. Mas é importante que o treinador acelere a afinação de processos e invista sobretudo na articulação da máquina, porque o gongo da pré-época já soou há muito.

Eis as notas:

MAIS
Maxi: O uruguaio conquista os adeptos a cada jogo que faz. Imprime a raça que trazia no catálogo e nem parece que andou oito anos a jogar num clube que tem no ódio ao norte e ao FC Porto o principal combustível. É lateral, médio-ala e extremo. Tudo no mesmo jogo. Há os que são e os que dizem que são. Maxi é claramente dos primeiros. O portista emocional que há em mim vomitou a sua vinda e ganhou três úlceras nervosas quando viu que ia herdar a mítica camisola dois. O portista racional que vive cá dentro dizia-me que era um golpe à Pinto da Costa. Grande contratação, jogador de raça e qualidade, com garantia de rendimento imediato e, ao mesmo tempo, um duro desfalque no rival. Até porque o futebol é um jogo de soma zero: para uns saírem a ganhar, outros têm necessariamente de ficar a perder. Ganhou a razão. Corrijo: Maxi conquistou-me a razão. O respeito e admiração também. O novo número dois do FC Porto tem sido o jogador mais regular deste início de época, com exibições sempre em alta rotação e uma entrega inatacável.

Marcano/Maicon: O primeiro porque é certinho como o destino. O segundo porque merece o destaque muito para além do golo que marcou. É que Maicon parece ter regressado este ano com outra precisão na chuteira. Se tivesse de apostar, diria que o brasileiro abdicou das férias em Cancún para tirar um curso intensivo de "Como Meter a Bola Onde Queres" com Rémi Gaillard. Ao cabo de três jogos a sério (+ uns quantos da pré-época), o empirismo já permite uma conclusão firme: Maicon melhorou -- e de que maneira -- o passe longo. As suas charutadas já não são um problema para o sector da restauração do Dolce Vita, mas -- finalmente -- para as defesas adversárias. Continuo a achar que usa e abusa deste recurso, mas pelo menos tem-no feito com qualidade, acertando muito mais do que falha. Depois, claro está: o golo. Mais que não seja, foi a injeção de calmantes de que a equipa precisava e ajudou o FC Porto a acertar o passo. Mais dessas, por favor.

Danilo: Sei que esta escolha não é consensual e talvez o jogo de ontem pedisse mais Rúben e menos Danilo. Mas para quem chegou este ano, com a pesada herança escrita por Casemiro e Fernando, Danilo tem mostrado uma consistência defensiva semelhante a uma tijela de Nestum com seis dias. É muito difícil fazer passar a bola por ele. Não tivesse sido tão prejudicado por um Imbula ainda em adaptação e pela liberdade total com que Brahimi assumiu a função de organizador, talvez tivesse sobressaído mais no encontro de ontem. Contudo, e para mim, Danilo é daqueles que brilha na sombra, sem fazer muito barulho. Precisa de melhorar a saída de bola, um capítulo que se ganhará com rotina, tempo e confiança.

Herrera: Se nos primeiros dois jogos da temporada foi a face da desorientação, ontem foi a bússola que -- juntamente com André André -- deu alguma organização ao caos. Entrou sereno e emprestou o toque de equilíbrio por que a equipa tanto ansiava. Ainda está longe de ser aquele box-to-box pendular que procuramos, mas passou muito por ele a estabilidade da linha média. Ainda semi-marcou um golo após fora-de-jogo que só o fiscal-de-linha viu. Mas era expectável que Duarte & Companhia tentassem intrujar o FC Porto. Aqui, nada de novo.


MENOS
Lopetegui: Antes que me lapidem: o homem fez o que lhe competia em campo. Mexeu bem e os riscos que correu -- tirar Varela a cinco minutos do intervalo por exemplo -- compensaram. Até a escolha de Indi para titular na esquerda foi uma manobra inteligente. O problema está fora das quatro linhas. Estava por explicar se a ausência Cissokho era de ordem física ou técnica. Lope respondeu com um "nim". É certo que Cissokho está longe dos índices físicos desejados, até porque, desde fevereiro deste ano, só tem 180 minutos oficiais nas pernas. Mas, com certeza, não terá sido somente após o jogo com o Marítimo que o treinador descobriu isso. Se não servia para o banco no Dragão, também não servia para o relvado na Madeira. Cissokho errou na ilha. True that. Mas Herrera e Tello também têm errado. Precisamente porque, tal como o francês, também estão fora de forma. Não se pode ter dois pesos e duas medidas no balneário. E se Lopetegui insistir em fazer deste tipo de castigo-exemplo o seu modus operandi, não lhe sobrarão aliados no final do ano.

Varela/Tello: O portugês entrou mal, falhou praticamente todos os passes e pareceu sempre demasiado lento quer no raciocínio quer na execução. Jogou 39 minutos, não fez nada digno de registo e foi bem sacrificado. O espanhol prolonga a saga dos duelos perdidos e continua sem conseguir ganhar no 1x1 a um eucalipto. Dá ideia que só tem uma finta no cardápio técnico, assemelhando-se a uma locomotiva cega e desgovernada que espera pelo melhor quando encara uma parede de frente. Este dragão, sem Brahimi, não tem asas. A solução pode passar por Corona, mas convém recordar que o mexicano ainda é um protótipo de jogador. E de promessas está o futebol cheio.

Tribunal: Ter um público apelidado de "Tribunal" não pode ser apenas prosápia, tem de ser acima de tudo responsabilidade. Lamento mas assumo o que vou dizer a seguir: a maioria dos juízes deste tribunal parecem os mesmos dos sumaríssimos do Estado Novo. Se a equipa falha um passe, assobia-se; Se o Brahimi individualiza, assobia-se; se o Imbula perde a bola, assobia-se; se o Marcano veste o colete ao contrário, assobia-se; se o Indi dá um peido, assobia-se. Execrável. Como o Miguel Lima tão bem cunhou, esta "massa assobiativa" tem em resultados como o da Madeira aquilo que semeia. Curto exemplo: se o meu patrão me der uma reprimenda em privado, depois de um erro cometido no emprego, eu absorvo, aceito e tento melhorar. Se o meu patrão me partir a cabeça a cada cinco minutos por tudo e por nada, à frente dos colegas, a minha única vontade é de lhe enfiar um soco no meio dos cornos. Julguem-se a vocês próprios, juízes, e escolham em que pé querem estar.


Momento: Minuto 67'. Maicon diz qualquer coisa a Brahimi. Dá uns seis passos atrás e investe no bicho. Fica a ideia de que Kieszek podia ter feito melhor, mas a bola levava fogo e efeito. A bomba do brasileiro arrefeceu um Estoril atrevido, que criou muitas dores de cabeça ao FC Porto. Mais do que isso, Maicon já reclamava para si esta oportunidade. Tal como nos passes longos, há ali treino visível. No FC Porto, valoriza-se quem corre por fora.


Pormenor: Brahimi a 10 é refresco. Não há no plantel atual ninguém com a capacidade do argelino para desenhar perigo a partir do centro. Mas Brahimi ainda tem n aspectos tácticos por aprimorar na posição e vai precisar de muito tempo -- e jogos -- para se formatar. Isto se Lopetegui mantiver a aposta. Com tudo isto, levanta-se inevitavelmente uma questão. Onde cabe e para que serve Bueno?

Jogo sem sal, mas que vale pela vitória, pelos três pontos e pela chegada ao 1º lugar da Liga, a par de Arouca e talvez Sporting, antes da primeira paragem das competições para selecções a até ao fecho dos mercados europeus.

Aproveitar para reflectir.

A equipa e o tribunal.

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Nota final: Fiquei sem computador, daí o atraso na publicação dos últimos textos. Tentarei resolver a situação com a maior br€vidad€ possível.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A volta à Europa em 83 dias

Nem mel, nem fel.

O fado que nos cantou o sorteio da Champions não é a canção alegre, mas podia ter sido bem mais triste.

Pesam mais as adversidades do que os adversários. Já lá vamos.

Chelsea, Dynamo Kyiv, Maccabi Tel-Aviv.

Será tempo de rever Mourinho, revisitar Kiev e dar um saltinho a Tel-Aviv, onde iremos jogar, mais coisa menos coisa, a 70 quilómetros de Gaza, caso seja preciso alguma inspiração para encarar cada jogo como uma batalha. (Shouldn’t have said that.)

Tendo em conta que estávamos confinados a receber Barcelona, Bayern, Chelsea ou Zenit, os ingleses estão longe de ter sido um péssimo desfecho. Entre defrontar os atuais campeões europeus, a Luftwaffe que nos bombardeou o ano passado, uma equipa que tem Hulk e outra que tem Mourinho, prefiro a última.

Em teoria, o Zenit seria a minha primeira escolha. Foi, até os bombos pararem. Mas ao saber que tínhamos quase um terço de planeta para percorrer entre Ucrânia e Israel, somar-lhe mais uma jornada aérea de mais 8.000 quilómetros não seria profícuo para a equipa e arriscaria consequências no campeonato.

Depois, sejamos francos. Na companhia de monstros como Barcelona e Bayern, o FC Porto estaria, muito provavelmente, condenado a uma luta a três pela única vaga disponível: o segundo lugar.

Já Ucrânia é um clássico. Nos últimos cinco anos anos, quatro viagens. Desta vez não vamos a Donetsk, mas Donetsk estará certamente connosco. (I really should be punished for this.)

Ir a Kiev já em Setembro seria fantástico, não tivéssemos um clássico com o Benfica quatro dias depois. Vamos evitar o rigoroso tempo do leste europeu. Mas teremos de ser igualmente rigorosos na gestão que faremos deste jogo.

Para completar o ramalhete, Tel-Aviv. Sobre o Maccabi, pouco sei. A não ser que Paulo Sousa andou por lá e que já venceram duas Ligas dos Campeões. Da Ásia.

É sempre conveniente apanhar o elo teoricamente mais fraco na cambalhota da fase de grupos -- garante dois jogos consecutivos com elevada probabilidade de vencer. A dúvida é saber se esta equipa será efectivamente o elo mais fraco deste grupo.

Somando tudo isto e parafraseando Lopetegui, será uma fase de grupos complicada. Não apenas pela qualidade dos emblemas, como pela quantidade de milhas que a equipa vai fazer e pelo calendário desfavorável e incompatível com alguns dos momentos chave da época.

Considere-se igualmente que o onze do FC Porto está em obras e ainda está longe dos acabamentos e antevêem-se seis encontros complexos pela frente. Difícil, será sempre. O que não diminui a responsabilidade de passar à fase seguinte. Pese embora esta panóplia de pormaiores que sopram contra corrente, o FC Porto possui para lá de argumentos para estar entre os 16 melhores da Europa.

A aventura começa já a 16 de Setembro e prossegue, pelo menos, até 9 de Dezembro. Serão 83 dias de jornada europeia distribuídas por cerca de 17.000 quilómetros em viagens e uma bagagem carregada de expectativas elevadas e confiança no apuramento para a próxima fase.

Têm a palavra Lope e a rapaziada.


Calendário europeu do FC Porto | 2015/2016 @ zerozero.pt

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

32 bolas e o diabo a quatro

Dia de sorteio da Champions é sempre equiparável a dia de jogo.

Segue-nos uma expectativa incontrolável de saber em que lago de tubarões vamos nadar esta época.

De há uns anos para cá, as disparidades dos potes têm vindo a diluir-se acentuadamente, tornando-os cada vez mais iguais. Claro, continuam a existir alguns mais iguais do que outros. No entanto, a tendência de homogeneização progressiva é evidente.

Olhando para a atual distribuição do certame, vemos um pote 1 que não chocaria se fosse 2, um pote 2 com tanto músculo como o primeiro, um pote 3 muito bem maquilhado de pote 2 e um pote 4 que deixou de ser o bidon dos brindes.

Ao contrário da propensão que se tem verificado nos principais campeonatos nacionais da Europa, onde os grandes logram cada vez mais (e melhores) condições para se tornarem maiores e o fosso para os clubes de linha média/baixa alarga gradualmente -- salvé o excecional modelo de repartição de direitos televisivos da Liga Inglesa --, é de notar que suceda precisamente o contrário na Liga dos Campeões [e em certa medida na Liga Europa].

Não quer isto dizer que estejamos a assistir a um equilíbrio da competição em si. Até porque o futebol são 11 contra 11 e no fim ganha quem a UEFA quer. Mas os colossais hiatos qualitativos entre as várias camadas do sorteio encurtaram e é provável que no futuro possamos ver um Liverpool (ou um Milan em menor probabilidade) regressar à liga milionária pela porta mais pequena. Como aconteceu com o Mónaco em 2014.

Precisamente porque o sistema de avaliação de pontos da UEFA, cujo ranking de coeficiente tem por base os resultados registados nas cinco presenças europeias anteriores mais 20% do coeficiente da respectiva federação referente a esse mesmo período, penaliza annus horribilis e inflaciona desempenhos acima das perspetivas.

Por outras palavras, mais vale ter um cadastro regular de cinco anos pautado por prestações ligeiramente acima da média com um ou outro leve deslize do que duas extraordinárias épocas europeias, intercaladas com três miseráveis.

Além disso, a UEFA reestruturou o regulamento este ano, tornando o primeiro pote acessível apenas ao detentor do troféu e aos campeões dos principais campeonatos nacionais da Europa: o que explica a presença de Zenit ou PSV nesse grupo.

E se quisermos somar mais ingredientes, refira-se o facto de alguns takeovers de equipas russas, francesas, inglesas, etc. terem dado retorno a nível internacional, o que baralhou ainda mais os coeficientes da UEFA.

Nem é preciso recuar muito no tempo para constatar a evolução desta tendência. Voltemos apenas cinco anos atrás. Observe-se os potes do sorteio de 2010/2011:



Nesse ano, o dragão afinava a garganta para incinerar a outra metade da Europa do futebol. Na Liga dos Campeões, assistia-se a uma das últimas distribuições relativamente proporcionais do sorteio. Exceptuando a presença do Real Madrid na segunda tômbola, o corpo estranho desta lista, todos os potes tinham graus de qualidade verdadeiramente distintos entre entre si.

O Tottenham fazia a sua estreia na Liga dos Campeões, o Lyon vivia ainda os benefícios das últimas boas prestações europeias do final da década passada e nenhuma equipa desse pote 4 chegou aos oitavos, sendo que apenas duas conseguiram apurar-se para a Liga Europa.

Regressemos ao presente:



O alinhamento do sorteio desta quinta-feira deixa-nos sem grandes vontades de fazer conjecturas. Arrisco dizer que não sei se não terá sido preferível ficarmos no pote 2 e evitarmos (maybe..) as malditas viagens a Inglaterra, mesmo correndo o risco de regressarmos ao Allianz Arena.

Por outro lado, não há nenhuma equipa no pote 3 que não seja capaz de nos dar sérias dores de cabeça em qualquer um dos jogos. E no pote 4 existe uma que até sabe o que é vencer o FC Porto este ano.

Bottom line is: não há sorteios perfeitos. E os bons estão a acabar. Daí, a quantidade crescente de grupos da morte e o declínio de jackpots.

Podia dizer-vos que adorava ir à Holanda ou que preferia não ter de fazer 14.000 quilómetros para ir e vir do Cazaquistão, mas estaria a mentir: não tenho qualquer preferência. Desejo somente uma combinação favorável que nos permita alimentar o sonho (e os cofres).

Venha o diabo e escolha.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O café do sr. Alfredo

Todos os dias, desde que o despertador ou a minha fé inabalável no botão do snoozer não me traiam, tenho por hábito beber o primeiro café da manhã num tasco a duas curvas do edifício onde trabalho. Uma pequena petisqueira que, se alguma vez teve nome, o tempo usurpou-o impiedosamente.

Os locais simplificam. Chamam-no 'café do sr. Alfredo', naquele outro velho costume bem português de baralhar o nome da casa com o do respectivo patrão. O dono, o tal sr. Alfredo, é o típico autocrata taberneiro luso: calvo, bigodaça farfalhuda e aparada por um sapateiro, pança mais redonda do que a máquina de carambolas e pés literalmente bipolares. Mas o sr. Alfredo é também um one-man show do balcão: alia uma extrema capacidade de multitasking, onde assimila seis pedidos, tira duas bicas curtas e uma cheia, besunta meia torrada com manteiga e acomoda o tabuleiro dos salgados ao mesmo tempo, a uma forte aptidão para falar para dentro, somando-lhe uma velocidade vertiginosa no cálculo do troco, enquanto atira as moedas para dentro da registadora como se estivesse a jogar à petanca.

No fundo, o sr. Alfredo é um verdadeiro unicórnio da tuguice. E como qualquer unicórnio alfacinha, é do Benfica.

Convenhamos que o sr. Alfredo sabe que não partilho da sua afinidade pelo encarnado. Não é que alguma vez lho tenha dito no meio das mil conversas sobre a disciplina posicional do líbero das equipas de Helenio Herrera que nunca tivemos. Na verdade, nunca trocámos uma única palavra sobre futebol. Nada. Nesta relação estritamente comercial que se estende diariamente há quase dois anos, se alguma vez nos desviámos do códice cliente/vendedor foi para comentar a borrasca que vai na rua. Mas o sr. Alfredo conhece o meu portismo profundo porque a leitura rápida do jornal denuncia-me. Detenho-me sempre nas páginas da morada azul por muito mais tempo do que os demais fregueses. Home is where your heart is.

Por isso, criou-se inadvertidamente uma espécie de pacto de silêncio entre mim e o sr. Alfredo. O café não é mau, o pastel de nata ainda vem fumegante da panificadora, deixo lá o meu níquel todos os dias, nenhum de nós fala de bola e saímos os dois a ganhar com o delicado equilíbrio deste sistema.

A manhã desta segunda-feira que passou não foi diferente. Por volta das 6:10, lá estava eu a entrar no único café da zona disponível àquela hora desumana e ultra neoliberal para pegar ao emprego. Ainda em modo de piloto automático, dei os bons dias e pedi o costume. O sr. Alfredo devolveu cerca de 40% da saudação -- os restantes 60% ficam habitualmente presos no bigode -- e começou a preparar o repasto.

Como qualquer unicórnio que se preze, o sr. Alfredo tem sempre Abola à disposição dos clientes. Olhei para o lado e reparei no folhetim da Queimada dobradinho em cima da mesa. Mirada rápida, leve sorriso interior: A ÁGUIA ESTÁ CONFUSA, lê-se.

Abri o panfleto e todo ele era holocausto. As primeiras páginas esbanjadas em imagens concentradas de choradeira, angústia e revolta com uma equipa enfadonha, a arbitragem prosaica e a tentativa do Jiménez de se armar em Daniel-san no momento da verdade (pun intended).

Terminei o meu café, dobrei o jornal e devolvi-o ao descanso. Quando procurava moedas para liquidar a dívida, elevou-se-me um súbito assomo de estupidez e quase quebrei o embargo. Estive perto de dizer qualquer coisa como 'Então o Arouca é líder isolado, ham?, mas tive o bom senso de me impedir.

Afinal, também não ganhámos. E, para mim, as derrotas e os empates têm o mesmo valor emocional. Ou seja, zero. Fui habituado a um FC Porto com cultura de vitória, com uma extraordinária sede de conquista tão bem descrita aqui, pelo que rapidamente esqueço que temos um ponto a mais do que o actual detentor do título, ou que o rival falhou uma oportunidade clamorosa para fugir ao pelotão.

Olho para o sr. Alfredo e vejo-o de volta dos rissóis de semblante carregado. Há uma tensão neutra no ar. Cheira a borras de café e a empate. A lição que esta segunda jornada nos deu foi de que ainda é muito cedo para todos. Mas quanto mais rápido o FC Porto recuperar essa sede, mais perto ficará de a saciar.

Agradeci, despedi-me e saí do café em silêncio. O sr. Alfredo voltou para o mundo dele e eu para o meu, a pensar como será o meu primeiro café da manhã na próxima segunda-feira.

Foto escolhida aleatoriamente de um tasco qualquer em nenhures.
Não é o café do sr. Alfredo. Mas podia ser.

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Notas soltas: Graças ao caro Miguel Lima, Tomo III, já simplifiquei a template para smartphones pelo que já podeis consultar o blog sem gastar o tráfego móvel todo num só post. Ao Miguel, autêntico padrinho do 'Do Calcanhar à Trivela', já nem há palavras para agradecer todo o incentivo e apoio que tem dado nesta jornada. Extraordinário.

Notas soltas II: Acabo de escrever este post e vejo o sorteio de árbitros para a próxima ronda. Ri-me.

domingo, 23 de agosto de 2015

CSM 1 x 1 FC Porto: A barreira dos Barreiros

É oficial. Precisamos de um exorcista ou de um Vasco da Gama qualquer para abater de vez este fantasma que aterroriza o FC Porto nos Barreiros e dobrar finalmente este cabrão deste Adamastor do Atlântico que nos rogaram desde que o Kléber veio para cá.

Mas não só.

Ir à Madeira é sempre um pincel do tamanho da Torre das Antas. Épocas houve em que traçava mais unhas no pre-match de um Marítimo x FC Porto do que nos 90 minutos de uma deslocação a Alvalade. Tendo em conta as intempéries que nos fustigaram na ilha na temporada passada, a que se somava o facto de não vencermos no reduto do Marítimo há mais de três anos, esta partida possuía um cariz reforçado. Era fundamental abortar o borrego e impedir que os Barreiros se transformassem na nova Reboleira do FC Porto, mas ainda mais essencial excomungar o cisma que se criou na equipa azul-e-branca de jogar neste estádio com a displicência de um cirurgião plástico que emborca quatro amarelinhas antes de ir operar uma penca.

Infelizmente, voltámos a repetir tudo. Não só ajudamos a parir o ovino como mantivemos uma letargia atípica num campeão. Falhámos [mais uma vez] um dos principais checkpoints deste campeonato, diria talvez o mais importante a seguir aos quatro clássicos. Pior do que isso: não consigo perceber se perdemos dois pontos ou ganhámos um. A única certeza que tenho é de que perpetuámos o monstro.



MAIS
Brahimi: No deserto de ideias ofensivas que é este FC Porto, o extremo argelino tem dias em que é uma banheira de gin com gelo até às bordas. É dos poucos jogadores da equipa que sabe sair com bola no pé e desequilibrar a defesa contrária em drible. Falta saber definir melhor o tempo de passe. Quando acertar essa agulha, será um top ten da Europa na sua posição. Hoje, foi um dos que tentou tirar a equipa no areal. E nunca se esquivou de fazer marcha-atrás. Imagem que fica na retina: um lance na primeira parte onde, logo após fazer uma falta no lado direito do ataque, corre desalmadamente para o flanco esquerdo para ajudar Cissokho na defesa.

Marcano: A lucidez e tranquilidade que Marcano tem mostrado no centro da defesa portista é assinalável. Marcar um armário como Marega não é propriamente fácil, mas o espanhol cumpriu bem esse papel, concedendo pouco espaço ao maliano e estando sempre disponível para dobrar os adiantamentos de Maicon ou as investidas de Cissokho no ataque. Esteve mais assertivo do que o colega do lado e mostrou que, até ver, é o único central do FC Porto com as garras cravadas no onze.

Aboubakar: Correu, baixou, tabelou, lutou, esperneou, iniciou a jogada do primeiro golo com um passe fantástico para Brahimi, ganhou um livre "daqueles", etc, etc. Jogou bem o rapaz. Sim, também arranquei cabelos naquele lance em que o camaronês tinha tudo para bater Salin e... acertou no Salin. Mas de qualquer modo, foi dos poucos elementos lúcidos desta equipa, tentando sempre marcar presença na área e sendo um ponto de referência no último terço. Voltou a fazer uma bela assistência que Varela desperdiçou. Não admira que tenha saído muito desgastado perto do final. Afinal, jogou novamente em mais do que uma posição...


MENOS
Herrera: Completamente fora do barco. O mexicano está com um rácio embaraçoso no capítulo do passe curto, não acertou um passe longo, teve uma daquelas receções à Fatih Sonkaya e ainda ofereceu um presente envenenado a Casillas. Tudo somado faz o golo que marcou parecer uma positiva a Educação Física numa pauta corrida a negas. Até compreendi a sua titularidade no dragão na jornada inaugural. Mas não percebo porque Lopetegui decide malhar em ferro frio, quando o que Herrera mais deve desejar neste momento é afastar-se da pressão esmagadora que está a evidenciar e ir passar uma temporada ao conforto do banco.

Lopetegui: Herrera no onze foi um tiro no pé. O técnico portista assumiu o risco e voltou a colocar o jogador que dá mais verticalidade ao jogo do FC Porto. No entanto, o problema dos dragões não é a falta de verticalidade. E a menos que Herrera jogue como Pogba nos treinos, a opção de insistir no mexicano havendo boas alternativas no banco começa a ser questionável. No capítulo colectivo, a segunda parte da equipa foi uma recordação dos piores momentos da temporada passada. Noutros tempos, "as outras equipas vão levar massacres que nem respiram". Agora, tenho de confessar uma certa apreensão com a falta de ímpeto de um grupo que pretende, supostamente, vencer todos os jogos. Mesmo ao intervalo, o FC Porto apresentava um total de meros 3 remates em 17 ataques, o que para uma equipa que se viu a perder desde o minuto 5' é sintomático. E quando Casillas é responsável por dois dos lançamentos de ruptura mais perigosos dos dragões... através de pontapés de baliza, também é sintómatico. Por último, o FC Porto continua sem virar resultados com Lopetegui, uma demonstração da incapacidade anímica da equipa em lidar com a adversidade. Trabalho de (e para) treinador rever.

Cissokho: Erro gritante no golo do Marítimo. Foi este tipo de displicência que lhe valeu uma dedicatória dos adeptos do Liverpool. Apesar da falha e de ter mostrado que ainda é, por vezes, um corpo estranho nesta equipa de Lopetegui, teve alguns momentos positivos, que intercalou com outras tantas falhas de concentração. Não foi por ele que deixámos dois pontos nos Barreiros, mas tivesse sido mais lesto naquele minuto fatídico e talvez a história da partida fosse outra. Edgar Costa deu-lhe trabalho. Demasiado até. Vai apanhar melhor e mais rápido na Liga. Não tenho dúvidas de que é três vezes superior a Ángel em todos os aspectos, mas continuo receoso de que seja inferior àquilo que o FC Porto exige.


Momento: Minuto 94'. Cabeçada de Maxi à trave e ao poste e sabe Deus mais o quê. Uma bola que o Diabo amorteceu em cima da linha e ofereceu vilmente ao adversário. Se não há intervenção sobrenatural nas deslocações do FC Porto à ilha, não sei como explicar certos fenómenos. Como o de Salin transcender-se quando vê azul à frente. Ou o de Edgar Costa ter os nervos do lábio localizados no antebraço.


Pormenor: Um dos motivos pelos quais não me pronunciei sobre as bolas paradas na semana passada foi por considerar um só jogo demasiado prematuro para extrapolações sólidas. O encontro desta noite confirmou as minhas suspeitas. As set-pieces continuam a ser um problema... para nós. Dos 11 ou 12 cantos a nosso favor, cerca de 70% não passaram do primeiro poste, em centros que não subiram acima da cintura dos jogadores do Marítimo. A inépcia neste tipo de movimentos chega a ser hedionda e hoje rendeu mais uns quantos contra-ataques ao adversário. 

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Primeiro revés da época. Se não é mentira que o FC Porto está em reconstrução após uma razia completa ao onze base, não é menos verdade que o Marítimo iniciou este jogo com apenas cinco titulares da época passada. Ou seja, mais um do que o FC Porto. E o melhor jogador do Marítimo 2014/15 até jogou pelo FC Porto 2015/16. O que é válido para uns, vale também para outros. 

Começa a desenhar-se uma outra tendência desconfortante no FC Porto: solidarizar-se com os tropeções dos rivais. Foi assim o ano passado, começou a ser assim este ano. Dia feliz para a Vicra e para Cofina. Amanhã, vão bater-se recordes de vendas.