Todos os dias, desde que o despertador ou a minha fé inabalável no botão do snoozer não me traiam, tenho por hábito beber o primeiro café da manhã num tasco a duas curvas do edifício onde trabalho. Uma pequena petisqueira que, se alguma vez teve nome, o tempo usurpou-o impiedosamente.
Os locais simplificam. Chamam-no 'café do sr. Alfredo', naquele outro velho costume bem português de baralhar o nome da casa com o do respectivo patrão. O dono, o tal sr. Alfredo, é o típico autocrata taberneiro luso: calvo, bigodaça farfalhuda e aparada por um sapateiro, pança mais redonda do que a máquina de carambolas e pés literalmente bipolares. Mas o sr. Alfredo é também um one-man show do balcão: alia uma extrema capacidade de multitasking, onde assimila seis pedidos, tira duas bicas curtas e uma cheia, besunta meia torrada com manteiga e acomoda o tabuleiro dos salgados ao mesmo tempo, a uma forte aptidão para falar para dentro, somando-lhe uma velocidade vertiginosa no cálculo do troco, enquanto atira as moedas para dentro da registadora como se estivesse a jogar à petanca.
No fundo, o sr. Alfredo é um verdadeiro unicórnio da tuguice. E como qualquer unicórnio alfacinha, é do Benfica.
Convenhamos que o sr. Alfredo sabe que não partilho da sua afinidade pelo encarnado. Não é que alguma vez lho tenha dito no meio das mil conversas sobre a disciplina posicional do líbero das equipas de Helenio Herrera que nunca tivemos. Na verdade, nunca trocámos uma única palavra sobre futebol. Nada. Nesta relação estritamente comercial que se estende diariamente há quase dois anos, se alguma vez nos desviámos do códice cliente/vendedor foi para comentar a borrasca que vai na rua. Mas o sr. Alfredo conhece o meu portismo profundo porque a leitura rápida do jornal denuncia-me. Detenho-me sempre nas páginas da morada azul por muito mais tempo do que os demais fregueses. Home is where your heart is.
Por isso, criou-se inadvertidamente uma espécie de pacto de silêncio entre mim e o sr. Alfredo. O café não é mau, o pastel de nata ainda vem fumegante da panificadora, deixo lá o meu níquel todos os dias, nenhum de nós fala de bola e saímos os dois a ganhar com o delicado equilíbrio deste sistema.
A manhã desta segunda-feira que passou não foi diferente. Por volta das 6:10, lá estava eu a entrar no único café da zona disponível àquela hora desumana e ultra neoliberal para pegar ao emprego. Ainda em modo de piloto automático, dei os bons dias e pedi o costume. O sr. Alfredo devolveu cerca de 40% da saudação -- os restantes 60% ficam habitualmente presos no bigode -- e começou a preparar o repasto.
Como qualquer unicórnio que se preze, o sr. Alfredo tem sempre Abola à disposição dos clientes. Olhei para o lado e reparei no folhetim da Queimada dobradinho em cima da mesa. Mirada rápida, leve sorriso interior: A ÁGUIA ESTÁ CONFUSA, lê-se.
Abri o panfleto e todo ele era holocausto. As primeiras páginas esbanjadas em imagens concentradas de choradeira, angústia e revolta com uma equipa enfadonha, a arbitragem prosaica e a tentativa do Jiménez de se armar em Daniel-san no momento da verdade (pun intended).
Terminei o meu café, dobrei o jornal e devolvi-o ao descanso. Quando procurava moedas para liquidar a dívida, elevou-se-me um súbito assomo de estupidez e quase quebrei o embargo. Estive perto de dizer qualquer coisa como 'Então o Arouca é líder isolado, ham?, mas tive o bom senso de me impedir.
Afinal, também não ganhámos. E, para mim, as derrotas e os empates têm o mesmo valor emocional. Ou seja, zero. Fui habituado a um FC Porto com cultura de vitória, com uma extraordinária sede de conquista tão bem descrita aqui, pelo que rapidamente esqueço que temos um ponto a mais do que o actual detentor do título, ou que o rival falhou uma oportunidade clamorosa para fugir ao pelotão.
Olho para o sr. Alfredo e vejo-o de volta dos rissóis de semblante carregado. Há uma tensão neutra no ar. Cheira a borras de café e a empate. A lição que esta segunda jornada nos deu foi de que ainda é muito cedo para todos. Mas quanto mais rápido o FC Porto recuperar essa sede, mais perto ficará de a saciar.
Agradeci, despedi-me e saí do café em silêncio. O sr. Alfredo voltou para o mundo dele e eu para o meu, a pensar como será o meu primeiro café da manhã na próxima segunda-feira.
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| Foto escolhida aleatoriamente de um tasco qualquer em nenhures. Não é o café do sr. Alfredo. Mas podia ser. |
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Notas soltas: Graças ao caro Miguel Lima, Tomo III, já simplifiquei a template para smartphones pelo que já podeis consultar o blog sem gastar o tráfego móvel todo num só post. Ao Miguel, autêntico padrinho do 'Do Calcanhar à Trivela', já nem há palavras para agradecer todo o incentivo e apoio que tem dado nesta jornada. Extraordinário.
Notas soltas II: Acabo de escrever este post e vejo o sorteio de árbitros para a próxima ronda. Ri-me.









