terça-feira, 25 de agosto de 2015

O café do sr. Alfredo

Todos os dias, desde que o despertador ou a minha fé inabalável no botão do snoozer não me traiam, tenho por hábito beber o primeiro café da manhã num tasco a duas curvas do edifício onde trabalho. Uma pequena petisqueira que, se alguma vez teve nome, o tempo usurpou-o impiedosamente.

Os locais simplificam. Chamam-no 'café do sr. Alfredo', naquele outro velho costume bem português de baralhar o nome da casa com o do respectivo patrão. O dono, o tal sr. Alfredo, é o típico autocrata taberneiro luso: calvo, bigodaça farfalhuda e aparada por um sapateiro, pança mais redonda do que a máquina de carambolas e pés literalmente bipolares. Mas o sr. Alfredo é também um one-man show do balcão: alia uma extrema capacidade de multitasking, onde assimila seis pedidos, tira duas bicas curtas e uma cheia, besunta meia torrada com manteiga e acomoda o tabuleiro dos salgados ao mesmo tempo, a uma forte aptidão para falar para dentro, somando-lhe uma velocidade vertiginosa no cálculo do troco, enquanto atira as moedas para dentro da registadora como se estivesse a jogar à petanca.

No fundo, o sr. Alfredo é um verdadeiro unicórnio da tuguice. E como qualquer unicórnio alfacinha, é do Benfica.

Convenhamos que o sr. Alfredo sabe que não partilho da sua afinidade pelo encarnado. Não é que alguma vez lho tenha dito no meio das mil conversas sobre a disciplina posicional do líbero das equipas de Helenio Herrera que nunca tivemos. Na verdade, nunca trocámos uma única palavra sobre futebol. Nada. Nesta relação estritamente comercial que se estende diariamente há quase dois anos, se alguma vez nos desviámos do códice cliente/vendedor foi para comentar a borrasca que vai na rua. Mas o sr. Alfredo conhece o meu portismo profundo porque a leitura rápida do jornal denuncia-me. Detenho-me sempre nas páginas da morada azul por muito mais tempo do que os demais fregueses. Home is where your heart is.

Por isso, criou-se inadvertidamente uma espécie de pacto de silêncio entre mim e o sr. Alfredo. O café não é mau, o pastel de nata ainda vem fumegante da panificadora, deixo lá o meu níquel todos os dias, nenhum de nós fala de bola e saímos os dois a ganhar com o delicado equilíbrio deste sistema.

A manhã desta segunda-feira que passou não foi diferente. Por volta das 6:10, lá estava eu a entrar no único café da zona disponível àquela hora desumana e ultra neoliberal para pegar ao emprego. Ainda em modo de piloto automático, dei os bons dias e pedi o costume. O sr. Alfredo devolveu cerca de 40% da saudação -- os restantes 60% ficam habitualmente presos no bigode -- e começou a preparar o repasto.

Como qualquer unicórnio que se preze, o sr. Alfredo tem sempre Abola à disposição dos clientes. Olhei para o lado e reparei no folhetim da Queimada dobradinho em cima da mesa. Mirada rápida, leve sorriso interior: A ÁGUIA ESTÁ CONFUSA, lê-se.

Abri o panfleto e todo ele era holocausto. As primeiras páginas esbanjadas em imagens concentradas de choradeira, angústia e revolta com uma equipa enfadonha, a arbitragem prosaica e a tentativa do Jiménez de se armar em Daniel-san no momento da verdade (pun intended).

Terminei o meu café, dobrei o jornal e devolvi-o ao descanso. Quando procurava moedas para liquidar a dívida, elevou-se-me um súbito assomo de estupidez e quase quebrei o embargo. Estive perto de dizer qualquer coisa como 'Então o Arouca é líder isolado, ham?, mas tive o bom senso de me impedir.

Afinal, também não ganhámos. E, para mim, as derrotas e os empates têm o mesmo valor emocional. Ou seja, zero. Fui habituado a um FC Porto com cultura de vitória, com uma extraordinária sede de conquista tão bem descrita aqui, pelo que rapidamente esqueço que temos um ponto a mais do que o actual detentor do título, ou que o rival falhou uma oportunidade clamorosa para fugir ao pelotão.

Olho para o sr. Alfredo e vejo-o de volta dos rissóis de semblante carregado. Há uma tensão neutra no ar. Cheira a borras de café e a empate. A lição que esta segunda jornada nos deu foi de que ainda é muito cedo para todos. Mas quanto mais rápido o FC Porto recuperar essa sede, mais perto ficará de a saciar.

Agradeci, despedi-me e saí do café em silêncio. O sr. Alfredo voltou para o mundo dele e eu para o meu, a pensar como será o meu primeiro café da manhã na próxima segunda-feira.

Foto escolhida aleatoriamente de um tasco qualquer em nenhures.
Não é o café do sr. Alfredo. Mas podia ser.

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Notas soltas: Graças ao caro Miguel Lima, Tomo III, já simplifiquei a template para smartphones pelo que já podeis consultar o blog sem gastar o tráfego móvel todo num só post. Ao Miguel, autêntico padrinho do 'Do Calcanhar à Trivela', já nem há palavras para agradecer todo o incentivo e apoio que tem dado nesta jornada. Extraordinário.

Notas soltas II: Acabo de escrever este post e vejo o sorteio de árbitros para a próxima ronda. Ri-me.

domingo, 23 de agosto de 2015

CSM 1 x 1 FC Porto: A barreira dos Barreiros

É oficial. Precisamos de um exorcista ou de um Vasco da Gama qualquer para abater de vez este fantasma que aterroriza o FC Porto nos Barreiros e dobrar finalmente este cabrão deste Adamastor do Atlântico que nos rogaram desde que o Kléber veio para cá.

Mas não só.

Ir à Madeira é sempre um pincel do tamanho da Torre das Antas. Épocas houve em que traçava mais unhas no pre-match de um Marítimo x FC Porto do que nos 90 minutos de uma deslocação a Alvalade. Tendo em conta as intempéries que nos fustigaram na ilha na temporada passada, a que se somava o facto de não vencermos no reduto do Marítimo há mais de três anos, esta partida possuía um cariz reforçado. Era fundamental abortar o borrego e impedir que os Barreiros se transformassem na nova Reboleira do FC Porto, mas ainda mais essencial excomungar o cisma que se criou na equipa azul-e-branca de jogar neste estádio com a displicência de um cirurgião plástico que emborca quatro amarelinhas antes de ir operar uma penca.

Infelizmente, voltámos a repetir tudo. Não só ajudamos a parir o ovino como mantivemos uma letargia atípica num campeão. Falhámos [mais uma vez] um dos principais checkpoints deste campeonato, diria talvez o mais importante a seguir aos quatro clássicos. Pior do que isso: não consigo perceber se perdemos dois pontos ou ganhámos um. A única certeza que tenho é de que perpetuámos o monstro.



MAIS
Brahimi: No deserto de ideias ofensivas que é este FC Porto, o extremo argelino tem dias em que é uma banheira de gin com gelo até às bordas. É dos poucos jogadores da equipa que sabe sair com bola no pé e desequilibrar a defesa contrária em drible. Falta saber definir melhor o tempo de passe. Quando acertar essa agulha, será um top ten da Europa na sua posição. Hoje, foi um dos que tentou tirar a equipa no areal. E nunca se esquivou de fazer marcha-atrás. Imagem que fica na retina: um lance na primeira parte onde, logo após fazer uma falta no lado direito do ataque, corre desalmadamente para o flanco esquerdo para ajudar Cissokho na defesa.

Marcano: A lucidez e tranquilidade que Marcano tem mostrado no centro da defesa portista é assinalável. Marcar um armário como Marega não é propriamente fácil, mas o espanhol cumpriu bem esse papel, concedendo pouco espaço ao maliano e estando sempre disponível para dobrar os adiantamentos de Maicon ou as investidas de Cissokho no ataque. Esteve mais assertivo do que o colega do lado e mostrou que, até ver, é o único central do FC Porto com as garras cravadas no onze.

Aboubakar: Correu, baixou, tabelou, lutou, esperneou, iniciou a jogada do primeiro golo com um passe fantástico para Brahimi, ganhou um livre "daqueles", etc, etc. Jogou bem o rapaz. Sim, também arranquei cabelos naquele lance em que o camaronês tinha tudo para bater Salin e... acertou no Salin. Mas de qualquer modo, foi dos poucos elementos lúcidos desta equipa, tentando sempre marcar presença na área e sendo um ponto de referência no último terço. Voltou a fazer uma bela assistência que Varela desperdiçou. Não admira que tenha saído muito desgastado perto do final. Afinal, jogou novamente em mais do que uma posição...


MENOS
Herrera: Completamente fora do barco. O mexicano está com um rácio embaraçoso no capítulo do passe curto, não acertou um passe longo, teve uma daquelas receções à Fatih Sonkaya e ainda ofereceu um presente envenenado a Casillas. Tudo somado faz o golo que marcou parecer uma positiva a Educação Física numa pauta corrida a negas. Até compreendi a sua titularidade no dragão na jornada inaugural. Mas não percebo porque Lopetegui decide malhar em ferro frio, quando o que Herrera mais deve desejar neste momento é afastar-se da pressão esmagadora que está a evidenciar e ir passar uma temporada ao conforto do banco.

Lopetegui: Herrera no onze foi um tiro no pé. O técnico portista assumiu o risco e voltou a colocar o jogador que dá mais verticalidade ao jogo do FC Porto. No entanto, o problema dos dragões não é a falta de verticalidade. E a menos que Herrera jogue como Pogba nos treinos, a opção de insistir no mexicano havendo boas alternativas no banco começa a ser questionável. No capítulo colectivo, a segunda parte da equipa foi uma recordação dos piores momentos da temporada passada. Noutros tempos, "as outras equipas vão levar massacres que nem respiram". Agora, tenho de confessar uma certa apreensão com a falta de ímpeto de um grupo que pretende, supostamente, vencer todos os jogos. Mesmo ao intervalo, o FC Porto apresentava um total de meros 3 remates em 17 ataques, o que para uma equipa que se viu a perder desde o minuto 5' é sintomático. E quando Casillas é responsável por dois dos lançamentos de ruptura mais perigosos dos dragões... através de pontapés de baliza, também é sintómatico. Por último, o FC Porto continua sem virar resultados com Lopetegui, uma demonstração da incapacidade anímica da equipa em lidar com a adversidade. Trabalho de (e para) treinador rever.

Cissokho: Erro gritante no golo do Marítimo. Foi este tipo de displicência que lhe valeu uma dedicatória dos adeptos do Liverpool. Apesar da falha e de ter mostrado que ainda é, por vezes, um corpo estranho nesta equipa de Lopetegui, teve alguns momentos positivos, que intercalou com outras tantas falhas de concentração. Não foi por ele que deixámos dois pontos nos Barreiros, mas tivesse sido mais lesto naquele minuto fatídico e talvez a história da partida fosse outra. Edgar Costa deu-lhe trabalho. Demasiado até. Vai apanhar melhor e mais rápido na Liga. Não tenho dúvidas de que é três vezes superior a Ángel em todos os aspectos, mas continuo receoso de que seja inferior àquilo que o FC Porto exige.


Momento: Minuto 94'. Cabeçada de Maxi à trave e ao poste e sabe Deus mais o quê. Uma bola que o Diabo amorteceu em cima da linha e ofereceu vilmente ao adversário. Se não há intervenção sobrenatural nas deslocações do FC Porto à ilha, não sei como explicar certos fenómenos. Como o de Salin transcender-se quando vê azul à frente. Ou o de Edgar Costa ter os nervos do lábio localizados no antebraço.


Pormenor: Um dos motivos pelos quais não me pronunciei sobre as bolas paradas na semana passada foi por considerar um só jogo demasiado prematuro para extrapolações sólidas. O encontro desta noite confirmou as minhas suspeitas. As set-pieces continuam a ser um problema... para nós. Dos 11 ou 12 cantos a nosso favor, cerca de 70% não passaram do primeiro poste, em centros que não subiram acima da cintura dos jogadores do Marítimo. A inépcia neste tipo de movimentos chega a ser hedionda e hoje rendeu mais uns quantos contra-ataques ao adversário. 

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Primeiro revés da época. Se não é mentira que o FC Porto está em reconstrução após uma razia completa ao onze base, não é menos verdade que o Marítimo iniciou este jogo com apenas cinco titulares da época passada. Ou seja, mais um do que o FC Porto. E o melhor jogador do Marítimo 2014/15 até jogou pelo FC Porto 2015/16. O que é válido para uns, vale também para outros. 

Começa a desenhar-se uma outra tendência desconfortante no FC Porto: solidarizar-se com os tropeções dos rivais. Foi assim o ano passado, começou a ser assim este ano. Dia feliz para a Vicra e para Cofina. Amanhã, vão bater-se recordes de vendas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Arte da guerra

Sun Tzu tinha arte nas palavras.

Dizia que o verdadeiro objectivo da guerra é a paz.

Percebia da coisa, o mítico general chinês, caso contrário não teria morrido cinquentão numa época em que a esperança média de vida devia rondar para aí os 30 anos.

Por cá, há quem julgue precisamente o contrário, isto é, cultive a paz como semente do conflito por considerar que só atropelando tudo e todos consegue reinar.

Benfica e Sporting tentaram ir por aí. Trocaram alianças à pressa, com o objectivo de afastar o FC Porto da esfera de influência do futebol nacional.

Mas Benfica e Sporting também sabiam que, deixando de haver um interesse comum, esse matrimónio combinado teria de romper. E que o divórcio não ia ser bonito.

No fundo, o pacto que os dois clubes de Lisboa promoveram há uns meses não foi mais do que o preâmbulo de uma colisão anunciada.

Seria o mesmo que tentar sentar Soares e Cavaco na mesma mesa, forçando uma diplomacia que não duraria até ao aperitivo.

Tanto que bastou um convívio na quinta de uma das comadres para as duas voltarem definitivamente as costas. A paz que era podre decompôs-se e seguiu-se o espectáculo público de que se sabe, com carradas de máquinas de roupa mais encardida que a ficha de jogo da última conquista europeia do Benfica.

Por estes dias, trocam-se tiros pela net. Homem a homem.

“Smithers, release the hounds!”
A frente de combate mais interessante continua a ser entre o Facebook de Bruno de Carvalho e o twitter de João Gabriel, ou Goebbels de Carnide, ou Mr. Burns, se preferirem.

O bicampeão Cosme Damião anda menos concorrido que o Museu do Azulejo. Descobriu-se um buraco maior do que uma trincheira prussiana no número de associados do clube e não há ninguém com coragem para atender chamadas de Munique.

Pior são as garantias bancárias, que estão como os próprios bancos, a esfumar-se. E dava muito jeito desencantar 7,5 milhões de euros sem fazer grande coisa, como aconteceu no FC Porto com Casemiro. É rezar e pode ser que Jesus ajude.

Do outro lado da barricada, nunca o actual treinador do Sporting viveu debaixo de tanto fogo. Sem a benção dos pasquins imperialistas, JJ passou a ser um Exterminador Placável, mais vulnerável dentro e fora de campo. Alguém acredita que foi a primeira vez que o "mestre da táctica" tentou desestabilizar adversários via SMS? A diferença é que agora não há cortinas de ferro.

"Não gostei. Vai sair comunicado."
Já Bruno de Carvalho está menos burro de caralho.
Quando não está a passear no Facebook ou a inebriar-se com as suas performances diárias na Sporting TV, vai lendo as últimas do FC Porto no Dragões Diário. Pelo menos, aprende alguma coisinha. Com os de sempre, claro.

Enquanto os rivais da Segunda Circular se vilipendiam, o FC Porto vai assistindo silenciosamente à novela no sofá.

Ainda bem.

Em nada teremos a ganhar em acicatar este incêndio. Regá-lo com gasolina só irá aumentar a probabilidade de nos queimarmos por tabela. Nem será necessário intervir num fogo que está acabará por se consumir a si próprio.

Por isso, a maior arma do FC Porto no meio de tudo isto é o silêncio. Só assim teremos oportunidade de recolher os despojos desta guerra aberta e de garantir que a cúpula central não volta a mirar o Dragão tão cedo.

Distantes, mas atentos. Foi com esta postura que rompemos poderes estabelecidos e nos fixámos no lugar mais alto do futebol português. É indispensável continuar a observar os desenvolvimentos desta quezília, mas não é menos importante prosseguir à margem da mesma.

Afinal, a arte suprema da guerra "é derrotar o inimigo sem lutar".

Sun Tzu era um homem inteligente.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O bispo deste xadrez

Antigamente, nos torneios de xadrez da escola em que me inscrevia como desculpa para não por os pés nas aulas, tinha o hábito de sacrificar os bispos logo nas primeiras jogadas.

Era recorrente enviar os pobres pontífices para o meio da salganhada de peças do adversário, como carne para canhão das minhas manobras tácticas, cujo papel central era atribuído à rainha, aos cavalos ou às torres.

Até os peões tinham mais voto na matéria do que o clero, na minha estratégia. 

Escusado será dizer que perdia sempre.

Naquela altura, faltava-me visão e inteligência para compreender a importância do bispo no tabuleiro. E esse desrespeito saia caro: fazia-me voltar mais cedo para as aulas.

No futebol contemporâneo, os laterais são uma espécie de bispos da equipa. Foram perdendo gradualmente a função de tampões defensivos para se tornarem na bengala dos extremos, adquirindo uma profundidade astronómica e assumindo um papel muito mais interventivo nos vários momentos do jogo.

Acabaram as equipas europeias de topo com sentinelas nos flancos. O lateral moderno passou definitivamente a fazer parte do desenho ofensivo e transformou-se num fundista com pulmão de nadador olímpico.

Cabrini. Velha escola.
Caiu a moda os Cabrinis, Vogts ou Paulos Ferreiras. Os treinadores parecem agora muito mais seduzidos por Marcelos, Albas e Alabas. Já não se procuram cães de guarda nos corredores, mas galgos de propensão atacante e, se possível, com golo.

A mudança de paradigma foi tão rápida e acentuada que fomos do 8 ao 80. Já há quem ataque melhor do que defenda na posição e mesmo assim mantenha cartel na nata fina do futebol europeu. É a era dos segundos extremos.

Isto a propósito de Alex Sandro e do seu peso no FC Porto.

O brasileiro é caso raro no futebol moderno. Esquerdino, porte físico e velocidade acima da média, técnica e tranquilidade impressionantes. Mas acima de tudo, defende e ataca bem.

Foi precisamente este equilíbrio que fez dele uma peça fundamental no FC Porto durante os quatros anos que jogou de dragão ao peito.

Não é, portanto, de estranhar o seu voo para outros patamares. Até porque Alex Sandro já estava pouco acorrentado ao clube. Comprometido e empenhado, sim, mas pouco interessado em prolongar o vínculo para lá deste ano.

Por isso, também não me surpreende este desfecho a 12 dias do fim da janela de transferências. Não tenho dúvidas de que Pinto da Costa terá tentado manter o atleta. Mas talvez tenha iniciado essa empreitada feito tarde de mais, para quem assinou um contrato de cinco anos, quando chegou.

Vai deixar saudades.
Desportivamente, a iminente saída de Alex Sandro é péssima para o FC Porto a curto prazo, precisamente porque não parece haver no plantel ninguém que reponha esse equilíbrio na dose que o FC Porto precisa.

Aly Cissokho teve seis meses deslumbrantes no FC Porto, mas nunca conseguiu dar continuidade a essa ascensão meteórica, seguindo-se uma série de trambolhões mais ou menos controlados até regressar à casa de partida. Goza de um balão de simpatia e carinho por parte dos adeptos por demonstrar sentir mais o FC Porto em meio ano de casa do que Alex Sandro em quatro. Mas o tribunal do Dragão não é conhecido pela sua tolerância e um erro crucial pode furar de imediato esse balão.

Além disso, terá pela frente o desafio de se reerguer da imagem de trapalhão que cultivou lá fora, o que pode ser um motivo de pressão acrescida. Vem mais maduro, mais experiente, mas também com outro grau de exigência que não a de um lateral de 300.000 euros comprado ao Vitória de Setúbal. 

Depois, há José Ángel. Há e não há. O espanhol que nunca passou de vulgar no FC Porto. Promessa não cumprida, Ángel sentenciou o seu espaço na equipa com aquela escorregadela na Alemanha. Mais por mais, nem encaixa no pendor ofensivo que Lopetegui pretenderá dos laterais, uma vez que não dinamiza o seu flanco, optando demasiadas vezes pelo passe para trás, nem é extraordinário a nível defensivo.

A equipa-base do FC Porto 2015/2016 foi montada a pensar em Alex Sandro e nas características que o brasileiro empresta à equipa. Seria um risco tentar disfarçar esta fenda com estuque.

Numa altura em que se fala do reforço de outras posições, com o centro da defesa ou a zona de criação, creio que se abre assim um novo dossier para a SAD resolver com a máxima urgência: a procura de um substituto para Alex Sandro.

Porque os bispos são os novos pesos pesados do futebol. As únicas peças do tabuleiro que podem fazer piscinas sem restrições, desequilibrar no ataque e equilibrar na defesa. E quando lhes é atribuída a devida importância, mais do que jogos, decidem campeonatos.

Alex Sandro era um bispo no xadrez portista. Dos bons.

Resta-nos encontrar o próximo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Estórias de embalar: O artista cego

Era uma vez um artista.

Um artista cego que ganhava a vida a ver o que os outros não viam.

O artista dizia ter um dom e o seu número era tão bom que deixava o povo de olhos em bico.

Um dia, o artista foi contratado por uma companhia de circo. “O olho que tudo vê”, assim se apresentava o espectáculo.

O sucesso do artista cego logo começou a crescer a olhos vistos. Apadrinhado pela real companhia, o artista foi brilhando nos pequenos palcos até chegar aos grandes anfiteatros do país.

Era um fenómeno, o artista cego. Por onde passava, as suas performances deixavam legiões de fãs perplexos.

Mas o artista cego também coleccionou cépticos. Gente que desacreditava os seus predicados e desconfiava da sua visão milagrosa, tomando o artista por fraude.

Para a trupe circense, os cépticos não eram mais que meros imbecis que invejavam a arte do artista. Por isso, a companhia decidiu montar um espectáculo de renome para provar a extraordinária capacidade do artista cego. E logo na abertura do grande evento, a companhia deu-lhe o palco principal.

O artista cego aceitou o desafio, encheu-se de brio e ofereceu um festival do outro mundo. Conta quem lá esteve que o artista deu uma demonstração quimérica e inigualável do seu enorme talento, levando todos na audiência ao gáudio.

Todos, excepto um.

Um turista, que, de visita àquelas paragens, parecia não estar a ver o mesmo que os outros. Tanto que no final da actuação, intrigado por ver tanto êxtase para um número tão pobre, o turista perguntou ao artista como é tinha tanto sucesso.

O artista cego sorriu. Pediu ao turista para olhar à sua volta e confessou:

O cego aqui não sou eu, amigo.

São eles.