quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Arte da guerra

Sun Tzu tinha arte nas palavras.

Dizia que o verdadeiro objectivo da guerra é a paz.

Percebia da coisa, o mítico general chinês, caso contrário não teria morrido cinquentão numa época em que a esperança média de vida devia rondar para aí os 30 anos.

Por cá, há quem julgue precisamente o contrário, isto é, cultive a paz como semente do conflito por considerar que só atropelando tudo e todos consegue reinar.

Benfica e Sporting tentaram ir por aí. Trocaram alianças à pressa, com o objectivo de afastar o FC Porto da esfera de influência do futebol nacional.

Mas Benfica e Sporting também sabiam que, deixando de haver um interesse comum, esse matrimónio combinado teria de romper. E que o divórcio não ia ser bonito.

No fundo, o pacto que os dois clubes de Lisboa promoveram há uns meses não foi mais do que o preâmbulo de uma colisão anunciada.

Seria o mesmo que tentar sentar Soares e Cavaco na mesma mesa, forçando uma diplomacia que não duraria até ao aperitivo.

Tanto que bastou um convívio na quinta de uma das comadres para as duas voltarem definitivamente as costas. A paz que era podre decompôs-se e seguiu-se o espectáculo público de que se sabe, com carradas de máquinas de roupa mais encardida que a ficha de jogo da última conquista europeia do Benfica.

Por estes dias, trocam-se tiros pela net. Homem a homem.

“Smithers, release the hounds!”
A frente de combate mais interessante continua a ser entre o Facebook de Bruno de Carvalho e o twitter de João Gabriel, ou Goebbels de Carnide, ou Mr. Burns, se preferirem.

O bicampeão Cosme Damião anda menos concorrido que o Museu do Azulejo. Descobriu-se um buraco maior do que uma trincheira prussiana no número de associados do clube e não há ninguém com coragem para atender chamadas de Munique.

Pior são as garantias bancárias, que estão como os próprios bancos, a esfumar-se. E dava muito jeito desencantar 7,5 milhões de euros sem fazer grande coisa, como aconteceu no FC Porto com Casemiro. É rezar e pode ser que Jesus ajude.

Do outro lado da barricada, nunca o actual treinador do Sporting viveu debaixo de tanto fogo. Sem a benção dos pasquins imperialistas, JJ passou a ser um Exterminador Placável, mais vulnerável dentro e fora de campo. Alguém acredita que foi a primeira vez que o "mestre da táctica" tentou desestabilizar adversários via SMS? A diferença é que agora não há cortinas de ferro.

"Não gostei. Vai sair comunicado."
Já Bruno de Carvalho está menos burro de caralho.
Quando não está a passear no Facebook ou a inebriar-se com as suas performances diárias na Sporting TV, vai lendo as últimas do FC Porto no Dragões Diário. Pelo menos, aprende alguma coisinha. Com os de sempre, claro.

Enquanto os rivais da Segunda Circular se vilipendiam, o FC Porto vai assistindo silenciosamente à novela no sofá.

Ainda bem.

Em nada teremos a ganhar em acicatar este incêndio. Regá-lo com gasolina só irá aumentar a probabilidade de nos queimarmos por tabela. Nem será necessário intervir num fogo que está acabará por se consumir a si próprio.

Por isso, a maior arma do FC Porto no meio de tudo isto é o silêncio. Só assim teremos oportunidade de recolher os despojos desta guerra aberta e de garantir que a cúpula central não volta a mirar o Dragão tão cedo.

Distantes, mas atentos. Foi com esta postura que rompemos poderes estabelecidos e nos fixámos no lugar mais alto do futebol português. É indispensável continuar a observar os desenvolvimentos desta quezília, mas não é menos importante prosseguir à margem da mesma.

Afinal, a arte suprema da guerra "é derrotar o inimigo sem lutar".

Sun Tzu era um homem inteligente.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O bispo deste xadrez

Antigamente, nos torneios de xadrez da escola em que me inscrevia como desculpa para não por os pés nas aulas, tinha o hábito de sacrificar os bispos logo nas primeiras jogadas.

Era recorrente enviar os pobres pontífices para o meio da salganhada de peças do adversário, como carne para canhão das minhas manobras tácticas, cujo papel central era atribuído à rainha, aos cavalos ou às torres.

Até os peões tinham mais voto na matéria do que o clero, na minha estratégia. 

Escusado será dizer que perdia sempre.

Naquela altura, faltava-me visão e inteligência para compreender a importância do bispo no tabuleiro. E esse desrespeito saia caro: fazia-me voltar mais cedo para as aulas.

No futebol contemporâneo, os laterais são uma espécie de bispos da equipa. Foram perdendo gradualmente a função de tampões defensivos para se tornarem na bengala dos extremos, adquirindo uma profundidade astronómica e assumindo um papel muito mais interventivo nos vários momentos do jogo.

Acabaram as equipas europeias de topo com sentinelas nos flancos. O lateral moderno passou definitivamente a fazer parte do desenho ofensivo e transformou-se num fundista com pulmão de nadador olímpico.

Cabrini. Velha escola.
Caiu a moda os Cabrinis, Vogts ou Paulos Ferreiras. Os treinadores parecem agora muito mais seduzidos por Marcelos, Albas e Alabas. Já não se procuram cães de guarda nos corredores, mas galgos de propensão atacante e, se possível, com golo.

A mudança de paradigma foi tão rápida e acentuada que fomos do 8 ao 80. Já há quem ataque melhor do que defenda na posição e mesmo assim mantenha cartel na nata fina do futebol europeu. É a era dos segundos extremos.

Isto a propósito de Alex Sandro e do seu peso no FC Porto.

O brasileiro é caso raro no futebol moderno. Esquerdino, porte físico e velocidade acima da média, técnica e tranquilidade impressionantes. Mas acima de tudo, defende e ataca bem.

Foi precisamente este equilíbrio que fez dele uma peça fundamental no FC Porto durante os quatros anos que jogou de dragão ao peito.

Não é, portanto, de estranhar o seu voo para outros patamares. Até porque Alex Sandro já estava pouco acorrentado ao clube. Comprometido e empenhado, sim, mas pouco interessado em prolongar o vínculo para lá deste ano.

Por isso, também não me surpreende este desfecho a 12 dias do fim da janela de transferências. Não tenho dúvidas de que Pinto da Costa terá tentado manter o atleta. Mas talvez tenha iniciado essa empreitada feito tarde de mais, para quem assinou um contrato de cinco anos, quando chegou.

Vai deixar saudades.
Desportivamente, a iminente saída de Alex Sandro é péssima para o FC Porto a curto prazo, precisamente porque não parece haver no plantel ninguém que reponha esse equilíbrio na dose que o FC Porto precisa.

Aly Cissokho teve seis meses deslumbrantes no FC Porto, mas nunca conseguiu dar continuidade a essa ascensão meteórica, seguindo-se uma série de trambolhões mais ou menos controlados até regressar à casa de partida. Goza de um balão de simpatia e carinho por parte dos adeptos por demonstrar sentir mais o FC Porto em meio ano de casa do que Alex Sandro em quatro. Mas o tribunal do Dragão não é conhecido pela sua tolerância e um erro crucial pode furar de imediato esse balão.

Além disso, terá pela frente o desafio de se reerguer da imagem de trapalhão que cultivou lá fora, o que pode ser um motivo de pressão acrescida. Vem mais maduro, mais experiente, mas também com outro grau de exigência que não a de um lateral de 300.000 euros comprado ao Vitória de Setúbal. 

Depois, há José Ángel. Há e não há. O espanhol que nunca passou de vulgar no FC Porto. Promessa não cumprida, Ángel sentenciou o seu espaço na equipa com aquela escorregadela na Alemanha. Mais por mais, nem encaixa no pendor ofensivo que Lopetegui pretenderá dos laterais, uma vez que não dinamiza o seu flanco, optando demasiadas vezes pelo passe para trás, nem é extraordinário a nível defensivo.

A equipa-base do FC Porto 2015/2016 foi montada a pensar em Alex Sandro e nas características que o brasileiro empresta à equipa. Seria um risco tentar disfarçar esta fenda com estuque.

Numa altura em que se fala do reforço de outras posições, com o centro da defesa ou a zona de criação, creio que se abre assim um novo dossier para a SAD resolver com a máxima urgência: a procura de um substituto para Alex Sandro.

Porque os bispos são os novos pesos pesados do futebol. As únicas peças do tabuleiro que podem fazer piscinas sem restrições, desequilibrar no ataque e equilibrar na defesa. E quando lhes é atribuída a devida importância, mais do que jogos, decidem campeonatos.

Alex Sandro era um bispo no xadrez portista. Dos bons.

Resta-nos encontrar o próximo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Estórias de embalar: O artista cego

Era uma vez um artista.

Um artista cego que ganhava a vida a ver o que os outros não viam.

O artista dizia ter um dom e o seu número era tão bom que deixava o povo de olhos em bico.

Um dia, o artista foi contratado por uma companhia de circo. “O olho que tudo vê”, assim se apresentava o espectáculo.

O sucesso do artista cego logo começou a crescer a olhos vistos. Apadrinhado pela real companhia, o artista foi brilhando nos pequenos palcos até chegar aos grandes anfiteatros do país.

Era um fenómeno, o artista cego. Por onde passava, as suas performances deixavam legiões de fãs perplexos.

Mas o artista cego também coleccionou cépticos. Gente que desacreditava os seus predicados e desconfiava da sua visão milagrosa, tomando o artista por fraude.

Para a trupe circense, os cépticos não eram mais que meros imbecis que invejavam a arte do artista. Por isso, a companhia decidiu montar um espectáculo de renome para provar a extraordinária capacidade do artista cego. E logo na abertura do grande evento, a companhia deu-lhe o palco principal.

O artista cego aceitou o desafio, encheu-se de brio e ofereceu um festival do outro mundo. Conta quem lá esteve que o artista deu uma demonstração quimérica e inigualável do seu enorme talento, levando todos na audiência ao gáudio.

Todos, excepto um.

Um turista, que, de visita àquelas paragens, parecia não estar a ver o mesmo que os outros. Tanto que no final da actuação, intrigado por ver tanto êxtase para um número tão pobre, o turista perguntou ao artista como é tinha tanto sucesso.

O artista cego sorriu. Pediu ao turista para olhar à sua volta e confessou:

O cego aqui não sou eu, amigo.

São eles.



domingo, 16 de agosto de 2015

FC Porto 3 x 0 VSC: O regresso da chama ao Dragão

Nota prévia: Não irei escrever crónicas dos nossos jogos ou tentar resumi-los, já existe quem o faça muitíssimo bem na bluegosfera. Daqui, esperem uma análise mais individualizada e centrada em pormenores e momentos que considerar relevante destacar nas partidas do FC Porto. De qualquer forma, estarei sempre aberto a sugestões e a rubrica sujeita a reformulações. Que é como quem diz, vamos pensando jogo a jogo.

Agora o que interessa: Bravo! Óptima estreia contra um combalido mas sempre complicado Vitória SC. Jogo de grande nível, sobretudo na primeira parte, com a equipa a mostrar a mesma capacidade de posse do ano passado mas num registo bem mais rápido e dinâmico, especialmente nos corredores. O meio-campo do FC Porto parece ter entrado na mesma máquina onde entrou o Capt. Steve Rogers e regressou esta temporada com mais 200 cavalos e um músculo impressionante. Perspectiva-se também alguns casamentos felizes nas alas, sobretudo entre Varela e Maxi. Posto isto, vamos a notas.


MAIS
Aboubakar: Sou suspeito, adoro este chavalo. Gosto de jogadores que assumam o protagonismo dentro do relvado e que saibam a importância de o dividir fora dele. Aboubakar, para lá do excelente jogador que é, tem demonstrado ser um profissional de topo e uma pessoa extremamente simples, que não consegue festejar um golo sem agradecer de imediato a quem lho ofereceu. Passou um ano na sombra de Jackson Martinez e nunca miou: pelo contrário, aproveitou para aprender com o colombiano e este ano foi à luta. O que vimos hoje bem podia ter sido uma noite do Cha Cha Cha: Apoio incansável à linha média, disfarçando-se de quarto médio quando a equipa precisava de construir; facilidade em jogar de costas para a baliza adversária e um sentido de pressão assinalável. Marcou dois golos e ainda ofereceu outros tantos. Luís Freitas Lobo teve sobre ele uma intervenção curiosa a meio da primeira parte: 'Longe da bola, perto do jogo'. Não podia estar mais de acordo.

Maxi Pereira: A exibição do uruguaio foi digna de um episódio de Mythbusters. Em primeiro lugar, Maxi desmistificou que veio para o FC Porto "gozar uma reforma dourada". O salário até pode ser principesco, mas o uruguaio mostrou que não veio passar férias e tem respondido com uma entrega e qualidade exibicional bastante agradáveis. Depois, Maxi Pereira provou que está longe de estar "velho". Aos 31 anos, mantém um pulmão invejável, com capacidade para fazer um sprint aos 88 minutos, tendo sido hoje o terceiro jogador do FC Porto com mais kms percorridos. Já no clube anterior Maxi era tal qual Vinho do Porto. Oh, the irony. Mas Maxi não é só um caçador de mitos. Com uma raça que contagia, duas assistências para golo e uma química com Varela que promete, o uruguaio vai confirmou o que já se suspeitava: é realmente um jogador à Porto.


MENOS
Herrera: O mexicano tem um problema. Executa passes como eu escrevo no computador. Ou seja, da mesma forma que eu ainda sou daqueles que precisa de olhar para o teclado para escrever, Herrera também precisa de olhar para a bola -- quando devia olhar para o jogo -- para passar, o que faz com que, na maioria das vezes, no momento em que toca na bola para a endossar, já o seu destinatário está uns metros à frente da trajetória pensada pelo mexicano. A este lag no tempo de reação soma-se outro handicap: Herrera é daqueles jogadores que acumula psicologicamente os erros que comete. Parece que tem um Quetzalcóatl qualquer na consciência a gritar-lhe impropérios em loop assim que o mexicano faz o primeiro disparate do jogo. Está cansado e isso é evidente e André André, pelo que fez na segunda parte, mostrou ser uma opção mais viável nesta altura.

A falta de um 10: Pode parecer estranho tocar neste assunto num jogo em que a equipa até mostrou um desembaraço interessante no último terço. Mas isso também ajudou a perceber a falta que faz um jogador mais vocacionado para pisar terrenos mais próximos da linha avançada. Atualmente, há um conflito visível entre a mentalidade de jogo da equipa e a sua disposição táctica. Lopetegui pede extremos abertos, que funcionem como os melhores amigos da bandeirola de canto, mas o ponta-de-lança desta versão do FC Porto é frequentemente forçado a recuar para dar uma perninha na construção de ataques continuados. Este desposicionamento cria um desequilíbrio na área, onde várias vezes acaba por faltar o avançado para concluir aquilo que ele próprio iniciou. E isso é, essencialmente, o papel de um... 10.


Momento: Minuto 56'. Após canto para o Vitória, Cafú remata colocado, mas a bola bate nas pernas Alex Sandro. Através de uma das câmaras colocadas por detrás das redes de Casillas, é possível ver que a bola estava na trajetória da baliza, sendo improvável que o guarda-redes portista a pudesse travar. Seria o empate para os vimaranenses, que estavam por cima nessa altura, e podia ter complicado seriamente o jogo para o FC Porto.


Pormenor: Foda-se, a sério? Assobios ao intervalo? Depois uma primeira parte bem conseguida da equipa, frente a um adversário que se reforçou bem e nos roubou pontos a época passada, tudo o que uma -- felizmente -- minoria de adeptos tem para oferecer à equipa é um recital de silvos mais irritante do que um concerto do Toy com uma orquestra de vuvuzelas? A menos que o João Gabriel estivesse a passar por detrás do estádio naquela altura e eu não tenha visto, este escabeche é dispensável.

EDIT: Texto elaborado ontem. Já mais a frio, e depois de o nosso caro Miguel Lima do Tomo III me ter alertado para o facto de os assobios se destinarem, segundo OJOGO de hoje, ao árbitro da partida, Fábio Veríssimo, por ter terminado a primeira parte mais cedo, faço mea culpa do supracitado. A questão dos assobios é delicada para mim e nós sabemos que uma pequena facção do tribunal do Dragão às vezes é demasiado implacável para com a equipa. De qualquer forma, erro meu. Mil desculpas.

@


In a nutshell, abrir o campeonato com uma vitória é sempre positivo. Não garante nada, mas dá uma importante dose de confiança extra para a próxima jornada, onde temos um borrego para afogar antes que nasça.

O meu desejo daqui para a frente é que todas as flash interviews do FC Porto sejam em francês. Não vou perceber ponta, mas será bom sinal.

sábado, 15 de agosto de 2015

O primeiro dia do resto das nossas vidas

Quando eu era miúdo, não havia Porto em Lisboa.

Havia o porto, os morcões, os tripeiros e os andrades. Havia os sarrafeiros, os cão-peões e os cabrões. Havia pena e deboche, desprezo e desdém pelo Norte.

Ser de FC Porto, aqui, era inconcebível. Quase como ter uma trissomia futebolística, ser membro da carbonária ou ter um guilty pleasure.

Porque "a melhor coisa que há no Porto é a placa a dizer Lisboa". Perdi a conta às vezes que ouvi essa frase.

Morava nas traseiras da capital, num dos mil bairros da periferia, antros para onde a ditadura varria o entulho social que o pós-25 de Abril deixou a apodrecer lentamente.

Era um bairro com resquícios da austeridade de '83 e um leve perfume a miséria. Os prédios engalfinhavam-se em ruas apertadas como os dentes de uma criança a lutar por espaço nas gengivas. As casas, baixas, gordas e mal-feitas, como os homens que passavam tardes inteiras debaixo do toldo dos cafés a contemplar a infinitude da avenida; odor a tabaco ressequido de manhã, cheiro a gasóleo e fritos à noite.
Era assim.

Ali não havia ringues; jogávamos à bola na estrada, com uma Mitre comprada no Ibérico e calhaus a denunciar as balizas, que tinham de ser desfeitas de cada vez que passava um carro.

Esse futebol de rua só tinha duas cores: vermelho e verde. Ou eras do Benfica ou do Sporting, mesmo que não fosses de nenhum. Às vezes, era esse o critério para fazer as equipas.

Alguns ostentavam as camisolas dos respectivos clubes, réplicas marteladas, adquiridas pelos pais na Feira da Ladra por um preço mais curto.

Lembro-me daquele dia, algures em 1994. Tinha sete anos, idade para fazer merda e, por isso, passava metade do tempo de castigo. E castigo para mim traduzia-se em não poder sair de casa. O meu brinquedo favorito em miúdo foi sempre a liberdade.

Como não podia ir dar uns toques, fiquei na sala a enfadar-me em frente a uma televisão sem comando e ainda senhora da sua programação. Estavam a passar resumos dos jogos de uma nova e inovadora Liga dos Campeões. Só que eu era um bocadinho "osvaldo" e não ligava a futebol. Pelo menos, não ao factor clubístico em si. Nessa altura, nem sequer tinha clube. Gostava de jogar, não de ver.

Quando as palas do Weserstadion surgiram no ecrã da Telefunken castanha do meu pai não liguei muito. Mais um resumo. O campeão da Alemanha contra o campeão português. Werder Bremen x FC PortoMeh.



Fiquei hipnotizado. Confesso que foi a primeira vez que me arrepiei com o futebol.

O pontapé de Rui Filipe agarrou-me: que bilhete! Ele que viria a deixar tantas saudades nesse mesmo ano. Foram precisas uma década e o advento da internet para perceber que aquele pontapé fortuito tinha sido desviado. Shame on me. But still, what a strike!

Couto, que patrão. Sob aquele cerco verde lima após o nosso primeiro golo, mostrou uma frieza assinalável. Dei por mim a desejar que cortasse mais uma bola, sempre que ela pingava na área. E ele cortava.

Segunda parte, golo de Secretário. A classe com que meteu o lateral alemão no bolso fez-me pensar que um dia gostava de vir a ter aqueles pezinhos. Mais tarde, arrependi-me. Mas ainda hoje considero que foi dos laterais mais sólidos e consistentes a vestir a nossa camisola.

Querer querer, queria ser como Domingos. Entrou para dourar ainda mais aquele capítulo e deixar o campeão da Alemanha de palmas coladas no rosto.

E Kostadinov, Drulovic, Baía e todos os outros. Magníficos!

Não quero enganar ninguém. Não foi nessa tarde que passei a ser o portista mais ferrenho do mundo ou coisa que o valha. Mas a química foi irreversível. Como aquela mulher com quem trocaste um dia o olhar mais intenso da tua vida e, quando deste por ti, estavas no altar à sua espera. Assinei a minha entrega naquele momento.

Ser portista em Lisboa nunca foi fácil. Qualquer dragão lisboeta da minha geração saberá certamente o que quero dizer. Desde '94 cresci a defender este brasão com todas as minhas forças em território adversário. Fui até onde consegui. Nunca tive qualquer receio ou reticência em afirmar o meu portismo, mesmo sabendo que isso tinha inevitavelmente consequências. Reagi sempre. Até já levei na tromba por isso.

Sim, eu sei. Sou um bocado doente por este clube. Racional, mas louco. É quase paradoxal.

É por isso que a cada nova época que se inicia sinto-me criança outra vez.

Como se fosse portista pela primeira vez, como se esta ligação renovasse contrato, com a mesma emoção de sempre, por mais uma época, ainda que saiba que o contrato é vitalício e que estou vinculado a esta paixão, por vontade própria, até à morte.

Hoje, já não tenho sete anos. Cresci, estou diferente. Lisboa também.

O FC Porto deixou de provocar indiferença, passou a marcar a diferença. O FC Porto já não é tabu, mas assunto central. Há respeito, há admiração, há raiva. Há camisolas azuis-e-brancas nos ringues, nas praias, nas ruas, nas escolas. Há mais azul na capital. Há FC Porto em Lisboa.

Caro Lope, dentro de poucas horas (re)começa a saga de sucesso que o FC Porto tem escrito nas últimas décadas. Peço-te: não belisques o que exigiu tanto sacrifício a erguer por parte daqueles que, como eu, sofrem com este amor à distância.

Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Uma vez mais.