segunda-feira, 21 de setembro de 2015

FC Porto 1 x 0 SLB: Pai, posso fazer História também?

Meio comando, uma pilha, seis bocados de uma travessa de barro comprada numa feira medieval em Óbidos, quatro pedaços de vela, três quartos de uma antiga cristaleira que a avó da minha esposa lhe deu para o "enxoval". Foi isto que sobrou do pontapé que dei na mesinha que tenho na sala, pouco passava das 20:55, hora de Lisboa. Ou 86', à escala de um clássico. Lembro-me de olhar para aquele chiqueiro todo que parecia tirado de um episódio de Shameless e pensar: "Estou fodido!". Mas valeu a pena. Valeu pela alegria incomensurável que aquela conclusão sublime de André André na cara de Júlio César me deu. A mim, aos 50 mil de pé no Dragão e aos milhões espalhados por este Portugal dos pequeninos, que como eu, viraram um dia as costas ao rebanho e seguiram o seu próprio caminho. Já tinha saudades de festejar uma vitória assim.

Nem tudo foi brilhante. O FC Porto deixou alguns sinais positivos, outros preocupantes. Pela forma como regressou dos balneários após o intervalo, este esquadrão -- sobretudo o seu almirante, André André, -- mereceu inteiramente os três pontos de um clássico suado, quente, competitivo e resolvido pela raça dos seus protagonistas. A segunda parte teve muito mais azul do que vermelho, mas a primeira, reconheçamos, teve menos FC Porto do que seria desejável. O bloco central portista, que tem quatro homens-chave para três posições, voltou a mostrar uma coesão e presença magníficas, onde só fica a faltar aquela pitada de sal que um elemento com outra craveira artística daria ao colectivo. Um 10 faz falta, digam o que disserem. Mas não é menos verdade que este meio-campo, assim como é, será determinante pela sua característica metamórfica, que possibilita um Dragão com várias faces distintas.

Hoje escolhemos ser um Porto de raça e combate. Era a combinação certa para dar tripla. O segredo foi André André. Mas Imbula, sem deslumbrar, mostrou que os tratores também ajudam a rebocar. E Rúben jogou sem medo de ser aquilo que é: um predestinado.

Eis as notas do primeiro clássico da temporada:


MAIS
André André: Eu fico pasmado com a grandeza deste pequeno jogador. É verdade que a casta é boa e que quem sai aos seus não tem o hábito de degenerar, mas devo dizer que nunca vi, nas quase três decadas que tenho de vida, um jogador tão parecido ao seu progenitor em campo. No estilo, na raça e na interpretação do jogo. André André é o pai emulado em campo. Não vou discutir se era mais rápido ou menos duro que António André, porque o pai já só o vi em DVD. Contudo, esta sequela promete ser tão boa ou melhor do que a primeira, pela entrega que o jovem André demonstra em campo, quando carrega esta insígnia. Para já, logrou aquilo que o pai nunca conseguiu: marcar ao Benfica. Há quem jogue pelo FC Porto e quem jogue pelo Porto. André André é claramente o segundo. E se dúvidas restassem neste seu processo de afirmação de azul-e-branco, o clássico de hoje dilacerou-as. Sem ver as estatísticas, aposto um tomate em como foi o elemento portista que mais segundas bolas ganhou. Ele que mede 1,77 metros. Além disso, esteve sempre muito interventivo e revelou uma inteligência nata na forma como "interrompeu" o jogo nas saídas de bola do adversário. Depois, claro está, o golo. Uma jogada de fino recorte rematada por ele. André André está mais que pronto. Para o FC Porto e para a Selecção. Mais importante do que isso, André André está pronto para fazer História de dragão ao peito. Tal como o pai.

Aboubakar: O camaronês continua a barrar muita manteiga. Está a crescer tão depressa como um Labrador e mostra, a cada partida que soma, o material de que é feito. É muito mais do que um ponta-de-lança. Hoje foi novamente o quarto médio da equipa, prejudicando-se a si próprio quando a bola pingava na área e Aboubakar não estava lá. Precisa de alguém atrás que lhe dê a liberdade total para dar água pela barba aos centrais. Falhou um golo cantado, mas antes dele Jackson também o fazia e antes de Jackson, Falcao também o fazia. Quem não se lembra daquela bola à trave do colombiano no clássico do ano passado? Acontece e não retira qualquer brilho a mais um jogo de enorme capacidade de luta deste jogador. Com ele em campo, o FC Porto joga com doze. E como futebol não é só futebol, é um orgulho ver um gajo que após levar uma traulitada na área para penalty, não se resigna ao facilitismo da falta, levanta-se e ainda tenta o golo. E logo a seguir cumprimenta o moribundo GR adversário num gesto que congelou por segundos a rivalidade Norte/Sul. Aboubakar é digno deste emblema. Pela qualidade e pelo fair-play. Porque para o camaronês, o que interessa é jogar à bola, como naqueles tempos em que corria descalço nas ruas de Yaoundé, com o cheiro a terra quente de África. Futebolista de elite. Homem com H.

Maxi: Maxi, a esta hora és provavelmente o maior porco javardo que alguma vez passou no futebol português. Há até quem te deseje uma lesão para a vida ou a morte por impalamento. E sabes porquê? Porque estás num país de almas tristes. Porque a nomenclatura varia consoante a lente. Porque raça em azul escreve-se javardice a vermelho. Porque dureza em azul lê-se maldade a encarnado. Tu até podes ser o mesmo Maxi de sempre. Impetuoso, raçudo, gattusico, rijo, às vezes exageradamente agressivo em prol das cores que defendes e, acima de tudo, um escudo humano do teu grupo. Mas só foste bom enquanto foste vermelho. Sob o manto sagrado protetor, todas os defeitos são virtudes. É dogmático. Agora que estás do outro lado, convido-te a contemplar a desonestidade que serviste durante oito anos. E já reparaste como estás a ser mais amarelado do que nunca? É fácil ser Benfica. É difícil ser Porto. Muito difícil, neste país de impostores. Mas nada temas; aqui serás abraçado como um filho. Tens alma, Maxi. O "dois" fica-te bem. Tão bem.

«Os jogadores do Benfica defendem a camisola deles e eu a minha»

Corona: Não é um + pela exibição, mas pela circunstância. Tendo em conta que jogou o primeiro clássico pelo FC Porto logo no segundo jogo a titular, com apenas três semanas de casa e, durante 25 minutos, fora da sua zona de conforto, devo dizer que não se inibiu como previa, perante a carga psicológica que a partida impunha. Na primeira parte, esteve melhor do que o colega da outra ala, mas terá sido o primeiro a ser sacrificado na segunda pelo facto de Brahimi estar mais identificado com os processos de circulação da equipa e porque Varela casa muito melhor com Maxi, na direita do ataque portista. Tem uma qualidade técnica magistral e quando pega na bola torna-se difícil de o parar. Foi absorvido pela dormência da equipa na primeira parte. No entanto, apresentou bons pormenores e na etapa complementar acompanhou o ímpeto do grupo no assalto ao palácio do Calígula, até ao momento da sua saída. Com este jogador, o FC Porto ganhou dois abre-latas de peso em cada ala. E quando ambos -- Brahimi e Corona -- carburarem a mil, as asas do FC Porto vão ganhar outro dinamismo.

Alterações: É provável que este ponto figure nas notas negativas da uma parte dos meus colegas da Bluegosfera. Especulo eu, dada a reação do estádio às substituições dos dragões. Contudo, Lopetegui foi inteligente nas duas primeiras mexidas. A última, mais controversa, talvez pudesse ter sido fortemente contestada se o FC Porto não vencesse. Vamos por partes. A entrada de Varela era expectável e necessária, não só pelo desgate a que os extremos estavam sujeitos, como pelo facto de o capariquense ser o jogador do plantel (a par de Maxi) com mais sangue circulado em clássicos. A título de curiosidade, era também o elemento do plantel com mais golos marcados ao Benfica. E, por norma, costuma ter bons desempenhos nos encontros contra o rival. Embora não tenha tido uma entrada auspiciosa, é da sua astúcia que nasce a vitória. Rúben por Danilo foi jogar areia na massa. Resultou, deu consistência e a equipa, que já não precisava de tanta circulação de bola mas de ganhar as sobras de um jogo cada vez mais directo, instalou-se em definitivo no meio campo adversário. Com Danilo em campo, o Benfica não voltou a rematar. Já a troca de Aboubakar por Osvaldo pode ser interpretada como pouco ambiciosa. No entanto, Lopetegui não estava com isso a querer jogar para o empate, mas a preservar a frescura no centro, evitando assim tocar no principal motor da avalanche portista da segunda parte: o meio-campo. Compreensível.


MENOS
Primeira Parte: O FC Porto entrou demasiado apático no jogo e permitiu a supremacia ao adversário nos primeiros 20, 30 minutos de jogo. Essa passividade podia ter ficado cara, não fosse o talento de Casillas e a assertividade do quarteto defensivo do FC Porto. A equipa jogava perante o seu público, na máxima força, contra um rival ainda à procura da melhor forma, mas parece ter acusado as depesas do jogo com algum nervosismo. O mérito deve-se também à equipa do Benfica que conseguiu produzir futebol durante esse período, impedindo que o meio-campo portista tomasse conta do encontro. Com o tempo, veio igualmente o equilíbrio. E é claro que é sempre preferível terminar a começar por cima. Ainda assim, a falta de chama dos dragões na etapa inicial assustou.

Brahimi: Brahimi não fez um mau jogo por assim dizer, mas esteve demasiado previsível nas suas ações, só se conseguindo soltar a espaços, quando a equipa já estava instalada no reduto encarnado. Continua a individualizar em demasia, quando até tem em Layún um bom complemento atacante. O argelino ainda não responde com frequências às diagonais propostas pelo mexicano. Natural, por um lado, pela falta de rotinas com o companheiro, mas um processo a consolidar o mais cedo possível.

Bolas paradas: Continuam a ser uma nulidade. Existem evidências de jogadas de laboratório, como o lance em que Layún desmarca Brahimi, com um passe de rutura que deixou o argelino praticamente isolado. Porém, é nas bolas despejadas para a área que o FC Porto teima em não acertar o passo. Se, no ano passado, 50% do problema se devia aos frouxos cruzamentos de Quaresma na direita ou às charutadas de Tello na esquerda, este ano, os centros até têm sido bem executados pelos novos protagonistas mexicanos -- Layún e Corona. O problema é que a correspodência raramente encontra destinatário, como sucedeu hoje, e é pouco provável que um canto termine em remate à baliza adversária. O FC Porto tem jogadores altos. Check. O FC Porto tem músculo. Check. O FC Porto tem bons cabeceadores. Check. O que falha? Organização posicional ofensiva, eventualmente. Um aspecto que Lopetegui tem rapidamente de corrigir.


Momento: Intervalo. Não sei bem o que Lopetegui disse aos seus pupilos durante o descanso, mas ao contrário do que tem acontecido nos últimos jogos, o intervalo não provocou sonolência. Pelo contrário, foi o toque de despertar de que a equipa necesitava para contrariar este estranho Benfica de Rui Vitória. Foi o ponto de viragem no jogo e o mote para o domínio das operações na etapa complementar. Lopetegui não tem primado por discursos revigorantes, mas desta vez soube escolher as palavras certas durante a pausa. Isso ou prometeu aos jogadores que mudava de penteado se eles ganhassem o jogo.


Pormenor: Ao contrário do catedrático, ainda sou dos que acredita no fair-play. Como o passou-bem de Aboubakar a Júlio César, ou aquele segredo que só Luisão e o camaronês sabem porque motivou tanta gargalhada entre dois soldados de lados opostos. Ou até Gaitán a defender um isolado Maxi, que jogou contra tudo e contra todos. Sururus, há sempre. Nos clássicos, é condição sine qua non. Trata-se da resposta natural do nervo à competitividade. Mas é bonito constatar que, em certos momentos, a amizade ainda prevalece sobre tudo o resto. Inclusive sobre o futebol. Se não for nas bancadas, que seja assim nos relvados.



Ganhámos o clássico. 
É o que realmente importa.

Quatro pontos a mais do que o mais forte candidato ao título e um "quinto" com a vantagem à maior no confronto directo, até ver.

Entretanto, sabe Deus que justificação vou arranjar para dizer à maria que virei a mini-mesa da sala ao contrário com um chuto. Parafraseando um grande amigo meu, quanto mais velho estou, mais criança estou. Estou tão fodido. Mas tão contente.

4 comentários :

  1. Continuamos em agradável sintonia nas análises.

    Bebamos por isso ou pela doce vitória. Ou por ambas!

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    1. Quando for ao Dragão, temos de combinar uma tarde de petiscada e copofonia!

      Abraço!

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  2. Grande análise Drax.

    Grande abraço.

    Saudações Portistas.

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    1. Profundamente agradecido, caro Rui.

      Forte abraço.

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Comenta com respeito e juízo. Como se estivesses a falar com a tua avó na véspera de Natal.

Saudações Portistas.