segunda-feira, 28 de setembro de 2015

1893

Mil oito noventa e três.

O timbre dos algarismos ecoa repetidamente na mente.

Carregam o poder de me despertar da letargia em que me encontro.

Faça chuva, vento ou uma improvável tempestade de areia à George Milller, sorrio.

Nada é eterno. Nem o meu FC Porto. Extinguir-se-á um dia, mesmo que resista até ao fim dos tempos, quando o sol desistir de pulsar.

Afugento estes demónios existenciais de pensar no futuro após o futuro. Foco-me no presente.

Recupero uma antologia antiga da prateleira. Assenta-lhe bem a poeira. Confere-lhe peso. Quase me sinto indigno de tirar aquela capa empedernida do repouso secular.

1893, lê-se.

O ano em que se "apurou um grupo rijo de jogadores para medir-se contra os clubmen de Lisboa".

Raça que se perpetuaria no tempo, afrontando a tão humana mortalidade.

Invade-me uma profusão de sentimentos. Ali entre o orgulho e a nostalgia. Recordo mil golos, vitórias para lá do que é possível contar.

Resgato fotogramas encravados na memória sideral. Onde nem licença tenho para entrar voluntariamente.

Deixo o subconsciente apoderar-se de mim e gozar aquele momento. Folheio páginas que sei de cor, que leio antes de os meus olhos abraçarem as palavras.

É um livro velho, comprado num alfarrabista septuagenário ou esquecido no meio de uma herança qualquer.

São as minhas Teses de Abril. A minha Bíblia. O meu Conto de Duas Cidades, a minha e a do meu coração.

Cravejado de defeitos e feitios difíceis. Estórias mal contadas, histórias bem adornadas. Sucessos, acima de tudo, sucessos. A quintessência do meu FC Porto desdobrada em signos, palavras e epígrafes que marcaram o seu passado.

Deixo-me envolver.

Rendo-me a um passado de honra e de luta que pagava para viver. Sinto o aroma do couro gasto que não existe. Na verdade, é mais uma armadilha do cérebro. Amante de uma cultura tão própria.

Nobre, diferente, invicta. Acima de tudo, nossa. Entrego-me ao sentimento de pertença e a tudo o que ele encerra.

Recordo o anteontem, o ontem e prenuncio o amanhã. Penso no quanto me alegras, irritas e no quanto anseio ver-te de novo. Uma e outra vez.

Podes fazer-me sofrer como nunca.

Mas eu vou estar cá sempre.

Parabéns.


7 comentários :

  1. Respostas
    1. Fui averiguar. Tem nome esta estranha patologia: discalculia. A dislexia dos números.

      Abraço, caro.

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  2. Há nacos que pedem um tinto de excepção. Como este da tua prosa. Parabéns.
    E nós também: Parabéns!

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    1. Venha daí essa reserva. Mas traz dois copos, que há um brinde por fazer.

      Forte abraço, Silva!

      Parabéns a todos nós.

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  3. fantástica prosa, 'drax'.
    que a exibição da nossa equipa do coração, hoje, seja tão sublime como as tuas palavras. seria a melhor forma de te parabenizarem por (mais) um texto soberbo. e de nos alegrarem a semana, também ;)

    abr@ço forte
    Miguel | Tomo III

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    1. As tuas palavras são sempre recebidas com a maior honra.

      São vocês, os poucos mas muito, muito bons, que me lêem, o combustível deste projecto.

      És enorme. Tu e todos vocês.

      Que o nosso dragão nos ofereça a prenda que todos desejamos esta noite. Nem peço uma vitória, mas uma exibição de intenso fogo azul, daquelas que deixa o adversário a rezar para não voltar a meter cá os pés tão cedo.

      Forte abraço, meu caro amigo.

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Comenta com respeito e juízo. Como se estivesses a falar com a tua avó na véspera de Natal.

Saudações Portistas.