quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Pré-temporada: doença que é cura

Há uns anos, num daqueles dias de verão mais abafados do que o Tupperware do almoço do trabalho esquecido em cima da mesa da cozinha, um amigo perguntou-me o que estava a achar da pré-época do FC Porto.

A pergunta era uma provocação. Estávamos no arranque para a temporada 2008/09; até à data tínhamos vencido o Ribeirão, o Gütersloh e o PAOK, empatado com duas equipas alemãs de segunda linha e perdido com o Celtic; apenas três vitórias em seis jogos e não mais do que um golo marcado a cada uma das equipas de campeonatos principais.

Esse domingo solarengo era de petiscada, como sempre bem regada a sol, galhofa e muita cerveja -- e eu já carregava umas quantas médias no bucho. Convenhamos que, talvez por isso, no meio de um raciocínio bêbado, disparei um rifão inventado na hora, que começou a ganhar substância com o passar dos anos: a pré-época é como a gripe.

Os primeiros dias são uma valente merda. Tudo é horrível. Alguns jogadores regressam das férias mais inchados que as nossas amígdalas. Os antigos parecem voltar com a cabeça noutras paragens, os novos tardam a mostrar na TV o cardápio que prometem no youtube, a equipa surge desligada e corre menos do que um guarda escolar, o treinador parece não ter aprendido com os erros e até a SAD leva porrada porque parece ter pensado a preparação da pré-temporada com o mesmo cuidado de quem planeia o jantar depois de sair da praia ao final da tarde.

Batemos em tudo. Achamos que vai ser a pior época de sempre. Se os reforços são baratos é porque batem na sombra; se são caros, é porque estamos a caminho do abismo financeiro. E somos todos -- dependendo do grau da hipocondria de cada um -- mais ou menos consumidos pela irracionalidade emocional e pelo desejo de ver a equipa a trocar a bola como o Brasil de ‘82 no primeiro jogo oficial da época.

O quadro clínico costuma ser mais intenso nos primeiros jogos. Não sei qual das dores de cabeça é pior: se a do vírus da gripe, se aquelas que os primeiros disparates do ano do Maicon me dão.

Contudo, ao fim de umas quantas partidas a carraspana lá abranda e começamos a perceber que ainda não é este ano que vamos morrer. É patológico e a maior parte dos adeptos, mais ou cedo ou mais tarde, passa por isso.

Sim, a pré-temporada tem momentos verdadeiramente enfadonhos e cauterizantes. Mas nenhuma partida reflete a próxima. Isto é, todas elas são experiências independentes, triagens para tentar obter um produto final apurado. O único antibiótico que existe para a maleita que é ver a nossa equipa em testes de laboratório é a paciência.


Saudade.

Em 2015/16, o FC Porto já experimentou todos os resultados. Teve umas exibições mais agradáveis do que outras, constatou que havia -- e há -- imensa pedra para partir, mas acima de tudo conseguiu o mais importante: evoluiu.

Perdeu cinco (!) habituais titulares da época anterior e ganhou uma série de jogadores novos que permitem alargar o espectro tático à disposição de Julen Lopetegui.

Mais precisamente, o conjunto liderado pelo técnico basco ficou sem seis (!!) dos 14 jogadores mais utilizados em 2014/15 e viu um sétimo, Herrera, falhar quase toda a preparação devido aos compromissos da seleção -- e aos calendários absurdos da CONCACAF. Trata-se de metade da equipa-base. Não serão dez jogos de preparação a recuperar as dinâmicas que Fabiano, Danilo, Casemiro, Óliver, Quaresma e Jackson [+ Herrera] possuíam.

Por entre testes, alternativas e adaptações, perderam-se bolas, jogadas e, sobretudo, golos. Mas nunca se perdeu tempo.

Ganhou-se um sistema tático alternativo -- 4x2x3x1 --, que poderá ser útil para desmantelar autocarros na liga portuguesa, e reconstruiu-se rapidamente o setor que mais sofreu com o defeso, o meio-campo, onde já se nota uma dinâmica interessante com vários elencos diferentes.

A zona central ganhou qualidade no campo e no banco. Com Danilo, Imbula, André André e Sérgio Oliveira, há agora mais tração, pulmão, músculo e equilíbrio. Falta apenas o desequilíbrio, ou melhor, o tal 10 que injecte a dose de imprevisibilidade necessária numa equipa que ainda ataca com demasiada austeridade tática.

Para já, um dado adquirido: o FC Porto conta agora com várias peças de elevado quilate para fazer carburar o jogo, ao contrário do que aconteceu em épocas anteriores, quanto corria com motor Mercedes mas tinha peças sobressalentes da Lada.

O Colonia Cup foi sintomático dessa evolução e as duas exibições conseguidas no torneio alemão ajudaram a devolver alguma confiança aos adeptos. Mas foi o estágio nublado em Horst e os resultados amargos em Marienfeld que permitiram a Lope identificar a peça criativa que falta à equipa, a necessidade de um homem-golo que faça concorrência a Aboubakar, a obrigação de trabalhar as bolas paradas e a urgência de resolver algumas lacunas defensivas que os dragões herdaram do ano passado.

Ajudaram também a demonstrar que a pré-época é mesmo como uma febre. Às vezes, até é benéfico ter uma: o corpo fica mais bem preparado para o futuro.

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Saudações Portistas.