quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O bispo deste xadrez

Antigamente, nos torneios de xadrez da escola em que me inscrevia como desculpa para não por os pés nas aulas, tinha o hábito de sacrificar os bispos logo nas primeiras jogadas.

Era recorrente enviar os pobres pontífices para o meio da salganhada de peças do adversário, como carne para canhão das minhas manobras tácticas, cujo papel central era atribuído à rainha, aos cavalos ou às torres.

Até os peões tinham mais voto na matéria do que o clero, na minha estratégia. 

Escusado será dizer que perdia sempre.

Naquela altura, faltava-me visão e inteligência para compreender a importância do bispo no tabuleiro. E esse desrespeito saia caro: fazia-me voltar mais cedo para as aulas.

No futebol contemporâneo, os laterais são uma espécie de bispos da equipa. Foram perdendo gradualmente a função de tampões defensivos para se tornarem na bengala dos extremos, adquirindo uma profundidade astronómica e assumindo um papel muito mais interventivo nos vários momentos do jogo.

Acabaram as equipas europeias de topo com sentinelas nos flancos. O lateral moderno passou definitivamente a fazer parte do desenho ofensivo e transformou-se num fundista com pulmão de nadador olímpico.

Cabrini. Velha escola.
Caiu a moda os Cabrinis, Vogts ou Paulos Ferreiras. Os treinadores parecem agora muito mais seduzidos por Marcelos, Albas e Alabas. Já não se procuram cães de guarda nos corredores, mas galgos de propensão atacante e, se possível, com golo.

A mudança de paradigma foi tão rápida e acentuada que fomos do 8 ao 80. Já há quem ataque melhor do que defenda na posição e mesmo assim mantenha cartel na nata fina do futebol europeu. É a era dos segundos extremos.

Isto a propósito de Alex Sandro e do seu peso no FC Porto.

O brasileiro é caso raro no futebol moderno. Esquerdino, porte físico e velocidade acima da média, técnica e tranquilidade impressionantes. Mas acima de tudo, defende e ataca bem.

Foi precisamente este equilíbrio que fez dele uma peça fundamental no FC Porto durante os quatros anos que jogou de dragão ao peito.

Não é, portanto, de estranhar o seu voo para outros patamares. Até porque Alex Sandro já estava pouco acorrentado ao clube. Comprometido e empenhado, sim, mas pouco interessado em prolongar o vínculo para lá deste ano.

Por isso, também não me surpreende este desfecho a 12 dias do fim da janela de transferências. Não tenho dúvidas de que Pinto da Costa terá tentado manter o atleta. Mas talvez tenha iniciado essa empreitada feito tarde de mais, para quem assinou um contrato de cinco anos, quando chegou.

Vai deixar saudades.
Desportivamente, a iminente saída de Alex Sandro é péssima para o FC Porto a curto prazo, precisamente porque não parece haver no plantel ninguém que reponha esse equilíbrio na dose que o FC Porto precisa.

Aly Cissokho teve seis meses deslumbrantes no FC Porto, mas nunca conseguiu dar continuidade a essa ascensão meteórica, seguindo-se uma série de trambolhões mais ou menos controlados até regressar à casa de partida. Goza de um balão de simpatia e carinho por parte dos adeptos por demonstrar sentir mais o FC Porto em meio ano de casa do que Alex Sandro em quatro. Mas o tribunal do Dragão não é conhecido pela sua tolerância e um erro crucial pode furar de imediato esse balão.

Além disso, terá pela frente o desafio de se reerguer da imagem de trapalhão que cultivou lá fora, o que pode ser um motivo de pressão acrescida. Vem mais maduro, mais experiente, mas também com outro grau de exigência que não a de um lateral de 300.000 euros comprado ao Vitória de Setúbal. 

Depois, há José Ángel. Há e não há. O espanhol que nunca passou de vulgar no FC Porto. Promessa não cumprida, Ángel sentenciou o seu espaço na equipa com aquela escorregadela na Alemanha. Mais por mais, nem encaixa no pendor ofensivo que Lopetegui pretenderá dos laterais, uma vez que não dinamiza o seu flanco, optando demasiadas vezes pelo passe para trás, nem é extraordinário a nível defensivo.

A equipa-base do FC Porto 2015/2016 foi montada a pensar em Alex Sandro e nas características que o brasileiro empresta à equipa. Seria um risco tentar disfarçar esta fenda com estuque.

Numa altura em que se fala do reforço de outras posições, com o centro da defesa ou a zona de criação, creio que se abre assim um novo dossier para a SAD resolver com a máxima urgência: a procura de um substituto para Alex Sandro.

Porque os bispos são os novos pesos pesados do futebol. As únicas peças do tabuleiro que podem fazer piscinas sem restrições, desequilibrar no ataque e equilibrar na defesa. E quando lhes é atribuída a devida importância, mais do que jogos, decidem campeonatos.

Alex Sandro era um bispo no xadrez portista. Dos bons.

Resta-nos encontrar o próximo.

3 comentários :

  1. Chapéu...

    Concordo sem reservas, excepto na tirada do Sissoko.. Creio que face as sua características/limitações no nosso Porto conseguirá facilmente esconder e corrigir os pecados a defender... E na minha opinião é bem ais vertical que o AS a atacar.... E muito do sucesso da equipa este ano, é seguramente o ataque pelas alas, defesas e ou extremos... Daí no estar tão preocupado como alguns com a vinda do 10.....

    Pode é ser curto, pois o Angel sinceramente, num infortúnio, por tudo em cheque.... A ver vamos.....

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    1. Tudo dependerá da resposta de Cissokho ao jogo de posse de Lopetegui e da própria equipa ao jogo do Cissokho.

      O facto de haver Varela tranquiliza-me um pouco, pois é o melhor amigo de qualquer lateral.

      Tenho mais reservas numa ala com Cissokho e Brahimi/Tello, porque mesmo a nível interno, estamos sempre expostos nos corredores, precisamente devido à verticalidade dos nossos laterais.

      Também é importante ter paciência com Cissokho. Não é o mesmo jogador que saiu, nem este é o mesmo futebol que ele conheceu quando foi embora.

      Quanto a Ángel, fico com a ideia que já nem o treinador confia nele. E quando assim é, mais vale procurar uma solução para o rapaz.

      Abraço, Xebeu.

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  2. Deixa saudade o soneca. Mais, só gostei do palito, enchia-me as medidas.

    LAeB
    http://doportocomamor.blogspot.pt

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Comenta com respeito e juízo. Como se estivesses a falar com a tua avó na véspera de Natal.

Saudações Portistas.