quinta-feira, 27 de agosto de 2015

32 bolas e o diabo a quatro

Dia de sorteio da Champions é sempre equiparável a dia de jogo.

Segue-nos uma expectativa incontrolável de saber em que lago de tubarões vamos nadar esta época.

De há uns anos para cá, as disparidades dos potes têm vindo a diluir-se acentuadamente, tornando-os cada vez mais iguais. Claro, continuam a existir alguns mais iguais do que outros. No entanto, a tendência de homogeneização progressiva é evidente.

Olhando para a atual distribuição do certame, vemos um pote 1 que não chocaria se fosse 2, um pote 2 com tanto músculo como o primeiro, um pote 3 muito bem maquilhado de pote 2 e um pote 4 que deixou de ser o bidon dos brindes.

Ao contrário da propensão que se tem verificado nos principais campeonatos nacionais da Europa, onde os grandes logram cada vez mais (e melhores) condições para se tornarem maiores e o fosso para os clubes de linha média/baixa alarga gradualmente -- salvé o excecional modelo de repartição de direitos televisivos da Liga Inglesa --, é de notar que suceda precisamente o contrário na Liga dos Campeões [e em certa medida na Liga Europa].

Não quer isto dizer que estejamos a assistir a um equilíbrio da competição em si. Até porque o futebol são 11 contra 11 e no fim ganha quem a UEFA quer. Mas os colossais hiatos qualitativos entre as várias camadas do sorteio encurtaram e é provável que no futuro possamos ver um Liverpool (ou um Milan em menor probabilidade) regressar à liga milionária pela porta mais pequena. Como aconteceu com o Mónaco em 2014.

Precisamente porque o sistema de avaliação de pontos da UEFA, cujo ranking de coeficiente tem por base os resultados registados nas cinco presenças europeias anteriores mais 20% do coeficiente da respectiva federação referente a esse mesmo período, penaliza annus horribilis e inflaciona desempenhos acima das perspetivas.

Por outras palavras, mais vale ter um cadastro regular de cinco anos pautado por prestações ligeiramente acima da média com um ou outro leve deslize do que duas extraordinárias épocas europeias, intercaladas com três miseráveis.

Além disso, a UEFA reestruturou o regulamento este ano, tornando o primeiro pote acessível apenas ao detentor do troféu e aos campeões dos principais campeonatos nacionais da Europa: o que explica a presença de Zenit ou PSV nesse grupo.

E se quisermos somar mais ingredientes, refira-se o facto de alguns takeovers de equipas russas, francesas, inglesas, etc. terem dado retorno a nível internacional, o que baralhou ainda mais os coeficientes da UEFA.

Nem é preciso recuar muito no tempo para constatar a evolução desta tendência. Voltemos apenas cinco anos atrás. Observe-se os potes do sorteio de 2010/2011:



Nesse ano, o dragão afinava a garganta para incinerar a outra metade da Europa do futebol. Na Liga dos Campeões, assistia-se a uma das últimas distribuições relativamente proporcionais do sorteio. Exceptuando a presença do Real Madrid na segunda tômbola, o corpo estranho desta lista, todos os potes tinham graus de qualidade verdadeiramente distintos entre entre si.

O Tottenham fazia a sua estreia na Liga dos Campeões, o Lyon vivia ainda os benefícios das últimas boas prestações europeias do final da década passada e nenhuma equipa desse pote 4 chegou aos oitavos, sendo que apenas duas conseguiram apurar-se para a Liga Europa.

Regressemos ao presente:



O alinhamento do sorteio desta quinta-feira deixa-nos sem grandes vontades de fazer conjecturas. Arrisco dizer que não sei se não terá sido preferível ficarmos no pote 2 e evitarmos (maybe..) as malditas viagens a Inglaterra, mesmo correndo o risco de regressarmos ao Allianz Arena.

Por outro lado, não há nenhuma equipa no pote 3 que não seja capaz de nos dar sérias dores de cabeça em qualquer um dos jogos. E no pote 4 existe uma que até sabe o que é vencer o FC Porto este ano.

Bottom line is: não há sorteios perfeitos. E os bons estão a acabar. Daí, a quantidade crescente de grupos da morte e o declínio de jackpots.

Podia dizer-vos que adorava ir à Holanda ou que preferia não ter de fazer 14.000 quilómetros para ir e vir do Cazaquistão, mas estaria a mentir: não tenho qualquer preferência. Desejo somente uma combinação favorável que nos permita alimentar o sonho (e os cofres).

Venha o diabo e escolha.

4 comentários :



  1. @ drax

    o diabo apareceu por Nion e fez das dele.
    sendo assim, a pergunta impõe-se: o que achaste do sorteio, mormente do grupo em que calhou o nosso FC Porto? temos hipóteses ou temos hipóteses? ;)

    abr@ço
    Miguel | Tomo III

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    1. Miguel,

      o Belzebu é tramado!

      sobre o sorteio do nosso FC Porto:
      Podia ter tido uma geografia mais simpática. Podia ter sido bem pior no pote 1.

      Isto porque, confinados à possibilidade de apanhar Barça, Bayern, Chelsea ou Zenith, os ingleses situam-se ali entre o ‘meh’ e o ‘mal menor’. Claramente a minha segunda escolha, a seguir ao Zenith. Com B&B, tínhamos uma forte probabilidade de lutar “quase somente” pela segunda vaga no grupo, o que já não seria um bom princípio.

      Outro aspeto que me preocupava, além do sorteio em si, era o calendário. Uma nuance cada vez mais preponderante, sobretudo se a relacionarmos com as restantes competições. Algumas das piores expectativas, confirmaram-se. Ir a Kiev a quatro dias de receber o Benfica era dispensável. E também não me agrada jogar em Londres a última jornada. Ponto positivo: não ter dois jogos seguidos fora de casa.

      Temos hipóteses, claro que sim. Nem pensaria o contrário mesmo que nos tivesse calhado Barcelona, Roma e ‘Gladbach. Mas não será fácil. Temos obrigação de o passar? Julgo que sim. Contudo, convém estar preparado para Kiev e Tel-Aviv, duas deslocações que podem resultar em surpresas.

      no geral:
      Deixou de haver sorteios bons. Cada vez me convenço mais disso, aproveitando o que foi escrito neste post. Recordo o ano passado, onde o Chelsea até teve alguma sorte com o fado cantado -- mas foi caso isolado. Esta temporada não existe um único grupo onde o favorito tenha a sensação de passeio pela frente. Há algum tempo que isso não se verificava. Podíamos apontar ao B e dizer que foi um sorteio simpático para o United, mas tendo em conta o momento atual do Manchester, a qualidade do Wolfsburgo e as Hayabusas do CSKA, não faria all-in no apuramento dos red devils. Quanto ao tradicional grupo da morte, claramente o D, reservando algumas pipocas para ver o desfecho do grupo H.

      Se tiver tempo, ainda hoje cozinho qualquer coisa sobre isto.

      Forte abraço, Miguel!

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  2. Drax,

    At gostei do sorteio... E a coisa que mais agradou, tal como disses-te, foi que noutro grupo, estaríamos só a pensar no segundo lugar....

    Neste, para mim está tudo em aberto...
    Temos ainda mais alguns factores a favor... Vamos a Kiyev logo no início... E isso apesar de ser na semana do 5lb, no iremos ter o problema grave do frio.... E temos uma jornada dupla com o Macabi que, pode selar a nossa passagem.....

    Como j todos percebemos os sorteios fáceis acabaram... Mas parece-me que ao foi assim tão mau... ;-)

    Não falo muito mais por falta de conhecimento do Dínamo e do Macabi... O Chelsea... É sempre uma equipa Mourinho...

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    1. Duas jornadas em casa nas primeiras três também é um indicador positivo.

      Ir a Kiev antes do Benfica é que foi galo. Não me agrada mesmo nada.

      Maior abraço, Xebeu!

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Comenta com respeito e juízo. Como se estivesses a falar com a tua avó na véspera de Natal.

Saudações Portistas.